quarta-feira, 12 de maio de 2010

Headphones all the time anytime


Há uns dias entrei num elevador com um jovem que ouvia música com auscultadores (leitor de mp3). Usava uns auscultadores do tipo iPod, brancos e pequenos, ainda que agora esteja na moda os headphones grandes e vistosos (como na imagem).
Pelo silêncio proporcionado pelo isolamento acústico do elevador, eu próprio conseguia ouvir o que o jovem ouvia. Qualquer coisa de música rock. Fosse o que fosse, apercebi-me que o volume de som estava altíssimo. Decibéis a mais, portanto. O dito jovem não conseguiria ouvir um trovão a dois metros, dado o volume exagerado. Estudos científicos recorrentes comprovam a relação entre a perda de audição progressiva (até 70%) com a utilização desproporcionada de volumes de som nos auscultadores. Os jovens (e menos jovens) só se apercebem desta perda de audição tarde demais...
Perdas de audição à parte, este é um sintoma de que cada vez mais os jovens ouvem música em todas as circunstâncias e mais alguma e a qualquer hora: na rua, a andar de bicicleta, nos consultórios médicos, nas salas de aula, na igreja, em espectáculos de música, em qualquer lugar e a qualquer momento.
Os tempos mudaram drasticamente. Já não existem grupos de jovens que se juntam no isolamento de um quarto para, em conjunto, ouvirem um disco, desfrutando do momento colectivo da descoberta musical. Muito menos existe o culto da iconografia relacionada com o formato CD ou vinil (capas, contracapas, conteúdo informativo, imagens...).
O que existe agora é o consumo musical cada vez mais individualista e imediatista, ao ponto de vários jovens poderem estar na mesma sala a ouvir músicas diferentes, sem comunicação. É mais democrático e acessível, é mais fashion e mais de acordo com as regras da cultura pop, mas neste fenómeno de fruição perdem-se vivências e perde-se o prazer da partilha em comum. Para cada nova geração, novas fórmulas de fruição musical. Até ao dia em que essas gerações só conheçam o mundo virtual onde a desmaterialização da música impera. Para o bem e para o mal.

10 comentários:

Gonçalo Trindade disse...

tenho pena de não ter vivido isso, de facto : /. hoje em dia não há essa partilha.

jp, le miserable disse...

faltam movimentos... o único estilo de música que ainda conserva um pouco isso na sua essência é o hip hop, dado ser dos mais recentes, pelo menos em portugal...

já o Dylan diz que ouvir constantemente música é perder a identidade... também acho que sim... se não tivermos tempo para pensarmos, como seremos nós... e mais, como desfrutaremos nova música? se estamos sempre a devorar...

Ricardo Martins disse...

Uma coisa que me tem incomodado mais do que música em altos berros, é a necessidade de se preencher o silêncio com alguma coisa, ou música ambiente, ou falar para encher chouriços.

Infelizmente, o silêncio é um bem precioso a que pouca gente dá valor.

Ricardo Martins disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Anónimo disse...

eu cá ainda sou do tempo das tardes com a malta a ouvir os discos dos tios e tias, pink floyd, bob dylan, beatles, joy division..

ainda sou do tempo em que o pessoal rodava as estações da rádio até encontrar uma música de jeito e depois era o extâse. num registo mais individualista, lembro-me de apontar nomes de músicas e bandas nas agendas do montepio... a tsf há uns anos passava música bem fixe às tantas da noite, chavela, jay jay, tindersticks.. encontrei-os lá . sou do tempo em que ainda existiam lojas de música na cidade, do tempo em que se juntavam todos os trocos para comprar k7´s, mais tarde cd´s. actualmente, compro muito menos, mas os que compro são os da e para a vida. actualmente, também não resisto ao meu ingo em certa situações... enfim.


e pois, estou mesmo a ver a velha história do "ah, as pessoas só se interessam por bens materiais" a mudar de figura.. fogo, as pessoas hoje já não querem saber de coisas materiais só querem saber de coisas imateriais :)


m.ª

Miguel disse...

tinha mesmo, nao podia sequer passar ao lado desta.. chamarei de cronica mas sabendo que é capaz de nao ser o termo adequado.
de qualquer maneira, é só mesmo para desejar os parabens pelas palavras.
infelizmente nao sou nenhum 'homem' saudoso desses tempos em volta do gira-discos, sou antes um rapaz cujo mp3 quase que vira melhor amigo, e que viver sem phones é viver com tortura 24 horas por dia! (digo isto com um certo hiberbolismo como é obvio ahah)

de qualquer maneira acho que ainda há 'esperança' e que ainda há ocasioes, de certa forma parecidas, que se pareçam com essas descritas no teu, mais uma vez maravilhoso, texto. foco entre elas os concertos e festas, mas como é obvio, não é quase nada comparado com essas vivências.. se bem que pessoalmente, acho que até é um conceito a ser pensado. visto que estes rrevivalismos de tempos mais 'retro' ou simplesmente nao modernos estão para ficar! :)

Anónimo disse...

Quando me ponho a pensar nos séculos passados em que só se ouvia a música que o próprio fazia ou então em festivais, tão pouco posso deixar de anotar que a criação da rádio e dos registos magnéticos (e outros) também acabou por nos isolar comparativamente a esse passado, tal como hoje se isolam os jovens.
Acho que pior já não pode ficar, a não ser que venha aí uma sociedade que nos ponha TODOS a ouvir a mesma canção, como vai sucedendo com as rádios comerciais e o tele-lixo.
De qualquer modo, é um assunto extremamente importante mas que como a educação pouco preocupa quem deveria preocupar.

Numa de Letra disse...

Concordo com este artigo. Infelizmente vivemos numa sociedade que converge para o individualismo (o que mais me choca é o egoísmo).

Tenho saudades da época do vinculo.

Por falar em música, convido a conhecer o tema que contém 39 músicas:

http://numadeletra.com/8302.html

Abraço

Numa de Letra disse...

Concordo com este artigo. Infelizmente vivemos numa sociedade que converge para o individualismo (o que mais me choca é o egoísmo).

Tenho saudades da época do vinculo.

Por falar em música, convido a conhecer o tema que contém 39 músicas:

http://numadeletra.com/8302.html

Abraço

Numa de disse...

Do VINYL e não vínculo, peço desculpa!!!