terça-feira, 15 de março de 2011

Às vezes penso o mesmo


"Hoje em dia, quando vou ao cinema, estou sempre a prestar atenção a tantas coisas, ao marido que fala com a Mulher umas filas mais à frente, a alguém que acaba as pipocas e atira o balde para o corredor. Estou atento à montagem, aos maus diálogos e aos maus actores; às vezes, vejo uma cena com muitos figurantes e dou por mim a pensar: serão actores de verdade, estarão a gostar de ser figurantes ou tristes por não estar na ribalta?
Por exemplo, aparece uma rapariga no centro de comunicações no início de '007 - Agente Secreto'. Tem uma ou duas falas, mas nunca mais volta a a aparecer no ecrã. Pergunto-me o que terá acontecido a todas aquelas pessoas que aparecem nas cenas de multidões, nas cenas de festas: o que é que acabaram por fazer na vida? Terão desistido de representar e escolhido outra profissão qualquer?
Todas estas coisas perturbam a maneira como vejo um filme; antigamente, podiam disparar uma pistola ao meu lado que não me teriam desconcentrado das imagens que se desenrolavam no ecrã à minha frente. Por isso revejo filmes antigos - não apenas para os ver novamente, mas também na esperança de voltar a sentir o mesmo que da primeira vez."
David Gilmour, no livro "O Clube do Cinema" (Pergaminho, 2011)