sexta-feira, 13 de abril de 2012

O estado da Cultura

Em Espanha grassa a polémica sobre o estado da cultura. Tem havido, como em Portugal, enormes cortes orçamentais que condicionam a dinâmica cultural do país e os artistas sentem-se discriminados e esquecidos pelo Estado e até pelo seu próprio povo. Parece que em Espanha há uma espécie de "curto-circuito entre os criadores e o público", ao ponto do respeitável jornal El Mundo ter publicado ontem uma reportagem com o sugestivo título "Espanha Contra a Cultura?".
A reportagem alega que existe um divórcio entre a sociedade espanhola e os criadores, e que determinados sectores culturais vivem num "paradigma antiquado e encerrados na sua torre de marfim" - como o cinema. O escritor Félix de Azúa vai mais longe e refere mesmo que "Espanha é o país mais bárbaro, selvagem e inculto da Europa, no qual não existe sensibilidade pela cultura". Ainda assim, o escritor ressalva que há uma minoria extraordinariamente interessada e generosa que abraça as manifestações culturais com grande paixão.
Ao menos em Espanha existe debate, discussão, polémica sobre o estado da cultura capaz de agitar consciências e responsabilidades. Em Portugal, apesar das grandes dificuldades existentes no sector e da total falta de sensibilidade do Governo e até de (certa) sociedade, reina a passividade e o conformismo de ideias e opiniões.
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Link da reportagem.

6 comentários:

joao amorim disse...

é curioso que apesar da falta de subsidios no cinema, o cinema português está a viver um momento muito interessante. por vezes as dificuldades fomentam a criatividade, obrigam os criadores a um processo criativo mais rebuscado.

Roberto disse...

Infelizmente, a passividade e o conformismo reinam em muitos outros domínios, além da cultura. Somos um povo apático e resignado, interminavelemente à espera que um D. Sebastião qualquer nos venha salvar... Mas estou consigo nesta luta (talvez em vão, mas determinada) que ponha as pessoas a discutir, a debater, a pensar e a agir.

Virginia Woolf disse...

Pois, Vitor, mas o problema é que também em Portugal muita gente distancia cultura de política. A cultura ainda permanece num espaço neutral, portanto desde artistas, a músicas, passando por jornalistas que se manifestem e protestem pela cultura é raro. É preferível ficar numa posição confortável e politicamente correcta. Há imensos grupos pela Europa que fazem acções de protesto artísticas, happenings que provocam o público a nível político, levam as pessoas a questionarem-se. A arte é das melhores ferramentas que existem como gatilho de reflexão. Em Portugal não existe só medo disso, mas indiferença. É na galeria que se expõe e é no palco que se toca ou canta, ou é no jornal que se escreve... vivemos dentro destes conceitos. Nos últimos tempos têm-se criado plataformas para defesa da educação, saúde, etc... não percebo porque não existe uma mais forte para as artes e culturas que desenvolvam acções directas.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Virginia Wolf (belo nickname): concordo inteiramente (e obrigado pelo contributo).

Rato disse...

Gostei muito de ver, a propósito, uma entrevista recente com a escritora Lídia Jorge, em que, para além de outras críticas, ela equiparava a governação actual do País a uma governação de "horóscopo". Muito bem visto!

O Rato Cinéfilo

PortoMaravilha disse...

Olá,

A cultura não se pode distanciar da política, o que não quer dizer que deva estar ao serviço duma causa política específica.

"La Quinzaine Littéraire",cujo criador Maurice Nadeau acaba de fazer 100 anos, apresenta no seu último nº um excelente estudo sobre V. Woolf e aconselha a leitura de Lídia Jorge.

Concidências :-) ?

Nuno