domingo, 25 de julho de 2010

Ainda a propósito dos filmes de Woody Allen

Quem faz filmes a um ritmo de um por ano como Woody Allen, acaba, tendencialmente, por comprometer a qualidade e a regularidade criativas. Para mim, o último grande filme de Allen da última década é, sem dúvida, o espantoso “Match Point”, um retrato negríssimo da alma humana, da casualidade da vida, da imprevisibilidade do amor e dos efeitos hediondos da ambição revestida de obsessão.
Quase, quase ao mesmo nível de “Match Point” está o filme “O Sonho de Cassandra” (2007), outro fresco brutal sobre as paixões humanas extremas que levam à morte, à destruição das relações, ao desabar do sonho de dar sentido à existência (“Scoop”, de 2006 é já uma comédia mediana com parcos rasgos de criatividade assinaláveis).
Os dilemas morais e existenciais, as angústias e medos interiores que perpassam por estes dois filmes da carreira de Woody Allen tomam proporções emocionais insuportáveis. Para os personagens e para os espectadores. São duas obras de um pessimismo pragmático (longe das coordenadas do humor “nonsense” a que nos habituou Allen) que olham a condição humana com uma frieza perturbante e cínica, pejada de pecados infames, sem apaziguamentos de qualquer ordem moral, sem esperança nem redenção.
Woody Allen já tinha mostrado ao mundo um filme que espelhava esta visão desesperada da moral ambígua, quando realizou o sublime filme “Crimes e Escapadelas” (1989), com um Martin Landau estarrecedor. É como se autores pessimistas como Schopenhauer, Emile Cioran e Thomas Bernard contaminassem o espírito de Woody Allen - tirando os momentos em que faz comédias mais "light" como os seus recentes filmes.
“Match Point” e “O Sonho de Cassandra” podem ser considerados um díptico e, se juntarmos o referido “Crimes e Escapadelas”, teremos a configuração de um portentoso tríptico. É a veia mais lúgubre e arrasadora de Woody Allen, que destila crimes sem sentido, mortes por “obrigação moral”, ódios mundanos e metafísicos, desnorte existencial e pitadas de um subtil humor negro. São obras que ficarão para a história do cinema como referências absolutas de um cinema de autor extremamente pessoal, que desenvolveu uma abordagem temática própria. Uma temática com preocupações filosóficas e morais que belisca (se é que não queima) o conceito que temos de natureza humana, de esperança na vida, no mundo e no homem. É o Woody Allen mais exitencialista que se possa imaginar, sem esperança de redenção nem fé no que quer que seja, com um olhar clínico sobre o desejo, a morte, o medo, a consciência, o pecado, o perdão.
Era este Woody Allen que gostaria de ver mais vezes.

4 comentários:

Flávio Gonçalves disse...

Entendo, entendo-te perfeitamente.

"Match Point" é também um dos meus filmes preferidos do realizador e nutro por ele um carinho muito especial (acredite-se ou não foi o primeiro que vi dele).

É claro um constante questionamento sobre a moral e a própria sociedade, que mostra, a meu ver, como o realizador se debate sobre si mesmo sobre elas em confusão. Aproximamos a este Woody-social, visto no "Match", a um Dostoievski (e a premissa do filme não se poderia assemelhar mais a Crime e Castigo).

E temos, depois, um Woody-existencialista, que quase se funde com o primeiro, bem evidenciado em muitos dos seus melhores filmes. Recordo a comédia Nem Guerra Nem Paz, dele, que homenageia, quase que o parodiando, o filme do seu mestre Ingmar Bergman: "O Sétimo Selo". É sem dúvida claro a sua preocupação com a morte, com o destino do ser humano, e a sua visão, particular e, como disseste, "pessoal" e íntima que vemos no seu cinema, sim, sem dúvida que nos mudou.

Mas é isto que Woody nos deixou, mesmo fazendo alguns maus filmes, como os mais recentes.

DiogoF. disse...

Woody ´´e um dos meus realizadores e, tenho de dizer, fil´´osofos favoritos. ´´E tamb´´em um argumentista fant´´astico.

N~~ao consigo deixar de considerar Annie Hall o meu favorito, quem sabe, seguindo o que diz o Fl´´avio, por ter sido o primeiro que vi dele.

Wellvis disse...

ok, tem muitos filmes que não foram citados. Mas tem toda razão, deveria ter pelo menos, 30 clássicos :P

abraços.

ps. fiquei um tempão sem vir aqui (nao consigo subscrever teu blogue pelo Google Reader, não faço a mais palida idéia porque)mas sempre que venho, fico horas a ler os arquivos tudo o que postas. Que é sempre tudo muito interessante.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Obrigado Wellvis. Aparece sempre que quiseres. ;)