terça-feira, 27 de julho de 2010

Béla Tarr - um realizador único


Se me perguntarem qual o melhor realizador vivo em actividade, muito provavelmente responderia: Béla Tarr. No panorama do cinema de autor contemporâneo, Béla Tarr é o realizador mais talentoso e original. Mais do que Sokurov, do que Kaurismaki, do que Nuri Ceylan, o cineasta húngaro é o esteta por excelência, o visionário que desenvolveu uma linguagem visual própria (só filma a preto e branco), que abordou a deriva existencial do homem moderno em filmes fascinantes. Os seus filmes são como poemas visuais em permanente estado de graça. Personagens cruas e paisagens desoladoras, histórias minimalistas e místicas (na senda da inevitável referência Tarkovski), fotografia absorvente e intrigante. Depuração plástica a toda a prova. Tarr é um estilista da imagem que joga com a luz e as trevas. E trabalha os movimentos de câmara com uma perícia e minúcia como mais ninguém faz hoje.
Béla Tarr filma como se não existisse câmara, como se o olhar do espectador fosse a própria câmara. A forma como compõe a extraordinária "mise-en-scène" dos seus filmes e o modo como opera os longos movimentos de câmara (tem planos-sequência de 10 minutos) são estímulos para os sentidos. Gus Van Sant é um admirador do cineasta realizou o magnífico filme "Gerry" a pensar em Béla Tarr (não só este filme, como também "Elephant"). Conheci o seu trabalho com uma edição em DVD de dois dos seus mais célebres filmes: "Damnation" (1988) e "Werckmeister Harmonies" (2000), à venda na Amazon.com.
Béla Tarr é um dos realizadores mais radicais na opção pelo recurso do plano-sequência. Impressiona pela maneira como os seus filmes progridem como se se tratasse de um transe colectivo, que contamina os actores, a encenação e, por consequência, o espectador, desde que este se deixe envolver pelas histórias que se transformam em adágios visuais a preto e branco.
A obra de Tarr mais ambiciosa, bela, negra e épica é o filme "Sátántangó" ("Satan's Tango"), com sete horas de duração. Um espantoso fresco moderno sobre a vida conturbada de uma família rural húngara. Não é um cinema fácil e de aceitação imediata, sobretudo para os espectadores habituados à linguagem "videoclip" do cinema de Hollywood (ou de grande parte do cinema de Hollywood). O cinema de Béla Tarr é um cinema de estilo e austero, de muitas subtilezas visuais, de um ritmo pausado e de grande exigência formal, que solicita do espectador uma atenção e assimilação especiais.
O seu último filme, estreado no festival de Cannes 2008, baseado num conto do escritor policial George Simenon, é o magnífico "The Man From London" (é o único filme em DVD de Tarr à venda em Portugal) sobe o qual escrevi neste post.
Béla Tarr é um assumido "outsider", não tem site oficial, recusa entrevistas de jornalistas, não faz campanhas de promoção dos seus filmes. É um genial artista solitário e misantropo, como tantas das suas personagens dos seus filmes. Dedica-se de corpo e alma à sua arte.
De seguida, uma sequência do filme "The Man From London", das poucas sequências disponíveis no YouTube deste filme. É um único plano-sequência de 2'30''. Repare-se na mestria como a câmara se move e filma os personagens. Quem mais filma desta maneira em todo o mundo? Mais: em comparação do que escrevi a propósito da música no filme "Inception", constate-se a forma como a música é empregue nesta sequência: brilhantismo e total originalidade.

11 comentários:

Álvaro Martins disse...

Completamente de acordo.

Carlos Natálio disse...

Os minutos iniciais de Sátántangó fazem qualquer pessoa esquecer que o filme que estão agora a começar a ver tem aquela duracção. Ou melhor, uma pessoa pensa: "Sete horas e meia? Ainda bem!".

Parabéns pelo blog.
Abraço

::Andre:: disse...

Conheci o Tarr por tua causa. Vi o Homem e fiquei sem palavras, nao acreditei que era um filme tao recente.

Rui Gonçalves disse...

Um cineasta admirável, sem dúvida...

Flávio Gonçalves disse...

Tu e o Álvaro foram os grandes impulsionadores para descobrir Tarr, sem dúvida. Falarei do Satantango em breve no meu blog :)

Neuroticon disse...

Tarr é brilhante!

Tenho de ver o Homem ainda, quanto ao resto, arte intemporal.

Flávio Gonçalves disse...

Só para (voltar a) dizer que Tarr é um génio. Vi o Werckmeister harmóniák e estou estupefacto.

Só uma anotação: Tarr filma só a preto e branco sim mas já notaste os últimos 3 segundos do filme acima referido? Surge um foco de luz, colorido como um arco-íris, sobre a baleia intensamente iluminada.

Belo, subtil, único, genial.

Flávio Gonçalves disse...

Estive afinal a rever o final em várias cenas no youtube e é em preto e branco. mas é realmente muito estranho.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Flávio: nunca reparei nesse pormenor que falas. Tenho que tirar isso a limpo se bem que tenho quase a certeza que Tarr só filma mesmo a preto e branco.

DanteDaVinci disse...

Parabéns por ter captado a perfeição, sensibilidade e contenção de Tarr. tenho só de dizer que ele já filmou em cores: Almanaque de Outono http://cineumpordia.blogspot.com/2011 /08/almanaque-de-outono.html
Abraços

Anónimo disse...

http://cineclubefdup.blogspot.pt/2012/04/5-feira-12-abr-damnation-bela-tarr.html