segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Excluídos da sociedade: a visão de Buñuel

Com a crise, aumenta o número de pobres em Portugal e no mundo. As televisões nacionais deram conta, hoje, que existem cada vez mais sem-abrigos nas grandes cidades resultantes da crise económica.
No mundo, há 900 milhões de pobres que vivem com privações inimagináveis todos os dias. E sempre que se fala em pobreza, em desigualdades e injustiças sociais e em excluídos da sociedade, lembro-me das inerentes formas de representação no cinema, cujo principal retratista terá sido Luís Buñuel.

"Viridiana" (1961)
O realizador espanhol explica na sua autobiografia ("O Meu Último Suspiro") que em vez de sentir comiseração e pena pelos indigentes e excluídos da sociedade (como é o sentimento geral de qualquer cidadão), Buñuel manifestava profundo sentimento de respeito e de dignidade para com os mais necessitados. Em muitos dos seus filmes vemos personagens que eram autênticos marginais sociais, pedintes, vagabundos, meliantes, cegos (muitos cegos). Em contrapartida, Buñuel apontava o dedo crítico à classe burguesa e ao clero, que eram consideradas as mais degradantes e iníquas da sociedade. Há, especialmente, dois filmes centrais nos quais os pobres e marginais são elementos fundamentais no cinema buñueliano: o documentário “Las Hurdes, Tierra Sin Pan” (1933), que Buñuel realizou logo a seguir aos escandalosos e surrealistas “Un Chien Andalou” (1928) e “L’Age D’Or” (1930).
"Los Olvidados" (1950)
As Hurdes situam-se numa região montanhosa e inóspita na fronteira de Espanha com Portugal, uma região de tal forma atrasada no tempo que os habitantes ainda viviam de modo quase medieval. Pela forma poética e até surrealista como Buñuel retratou este povo esquecido, o filme “Las Hurdes, Tierra Sin Pan” foi proibido durante décadas, porque segundo as autoridades, denegria a imagem de Espanha.
Mais tarde, no México, Luís Buñuel realizou o filme “Los Olvidados” (1950), verdadeira obra-prima do cinema mundial. Neste filme, Buñuel contratou jovens indigentes e delinquentes dos subúrbios da cidade do México, fazendo uma verdadeira análise social de uma franja da sociedade altamente carenciada em todos os aspectos. Um olhar amoral sobre o fenómeno transversal e complexo da exclusão social.
Um outro filme que explora a dimensão humana dos mendigos e vagabundos do mundo: “Viridiana” (vencedor da Palma de Ouro em Cannes 1961), espantoso drama no qual estes excluídos da sociedade desempenham um papel predominante numa espécie de análise seca e fria da natureza humana, com a religião como centro de todas as divagações morais. É neste filme de Buñuel que surge a célebre e polémica representação da última ceia de Cristo com os pobres à mesa que era “propriedade” da alta burguesia.

"Las Hurdes" (1933)
O olhar cirúrgico e crítico de Buñuel sobre a sociedade em que vivia faz falta aos governantes de hoje. Por isso o cinema deste cineasta espanhol foi sempre tão incómodo para as autoridades, pelo seu carácter social altamente denunciador, pela sua visão libertária do mundo, pela sua crítica face às desigualdades sociais e aos valores pasteurizados da burguesia e das suas frivolidades.
E Buñuel não abordava apenas a pobreza material como matéria de análise; criticava também a pobreza de espírito das instituições e da classe dominante.
Por isso penso frequentemente: perante esta crise económica e social que proporciona todo o tipo de "novos" excluídos e pobres, muitas vezes associada a diversas formas de delinquência e violência, que filme faria hoje Luís Buñuel sobre esta sociedade?

3 comentários:

Rui Gonçalves disse...

"Los Olvidados" e "Viridiana" são, de facto, espantosos. "Las Hurdes", infelizmente, nunca vi.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Então vê aqui, Rui - http://www.dailymotion.com/video/xuzpg_bunuel-las-hurdes_creation

;)

Cheguei a ver Las Hurdes no Museu Reina Sofia em Madrid.

pedro polonio disse...
Este comentário foi removido pelo autor.