terça-feira, 9 de novembro de 2010

Haneke, Haendel e Zorn


"Funny Games" (1997) de Michael Haneke é um filme controverso e violento, uma espécie de súmula de "Laranja Mecânica" (Kubrick) e "Cães de Palha" (Peckinpah) com um toque de "voyeurismo" do espectador. Haneke força o espectador a uma reflexão incómoda sobre o papel da violência na sociedade moderna, numa simples história que se conta numa frase: dois psicopatas invadem a casa de uma família em férias, sequestrando-os e forçando-os a participar em sádicos jogos de tortura (física e psicológica) e de morte.
Mas a leitura desta história vai mais para além do óbvio. Haneke construiu um perturbante estudo psicológico sobre a violência mediatizada (os assassinos usam o vídeo para gravar os actos, a televisão está em alto volume numa cena de violência) e a agressividade extrema sem aparente justificação ou motivação.
"Brincadeiras Perigosas" continua a ser, por isso, um dos mais perturbantes ensaios sobre a violência das imagens do cinema moderno, uma reflexão sobre a banalidade da sua "aceitação". E repare-se como em pouco mais de 1 minuto, o trailer do filme condensa todo o espírito paradoxal do filme: não só pela montagem meticulosa, mas também pela espantosa e inteligente utilização da música, com a agressividade da música dos Naked City (John Zorn) a sobrepor-se à doçura erudita da música de Haendel que a família ouve no carro (mas que não se vê neste trailer).
Impressionante.

6 comentários:

Alexander Sweden disse...

O filme é de 2007.

João Lameira disse...

O remake é de 2007. O original é de 97. Como são os dois do Haneke, percebe-se a confusão.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

É isso João. O original é que interessa e não o remake.

NanBanJin disse...

Ná, ná, ná!
O remake de 2007 é (aparentemente) uma cópia frame-a-frame do original "made in Austria", mas tem, em meu modesto entender, um (se não mais) elemento(s) particular(es) que o torna(m) ainda mais sinistro e perturbante que a primeira versão...

É tornar a ver o 'remake' e depois vale a pena tornar a discutir aquilo que agora me vai em mente...

Deixo uma dica a aguçar-vos a curiosidade:
aquilo que eu tenho neste momento em mente, tem que ver com certos detalhes na escolha e caracterização dos dois actores que interpretam o par de facínoras...

Ora toca a pegar-lhe e a metê-lo uma vez mais no leitor-vídeo, se fizerem favor.
(Ver com atenção e reflectir — é que é mesmo um 'remake' particularmente 'especial, esse do "Funny Games [in America]"...)

Um Abraço,

Luís F. Afonso, NBJ, Japão

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Luís: eu não posso comentar o remake do Funny Games porque nem sequer o vi...

NanBanJin disse...

Então vê!

Mas vê mesmo.
Garanto-te que vale a pena e é tal e qual aquilo que eu digo aí acima: uma aparente cópia frame-a-frame do original de '97, mas... com uma mão cheia de subtis detalhes que, a meu ver, fazem toda a diferença e 'melhoram', por assim dizer, a versão original e inclusive trazem para o filme uma temática adicional e ainda mais 'maquiavélica' (à falta de um termo melhor) que não parece estar presente no original.

De resto creio que a chance, lá está, de 'aperfeiçoar' o 1º filme, como quem faz umas obras em casa, terá sido aquilo que, em última instância, terá motivado Haneke para fazer esta 2ªa versão tal qual ela surge como uma aparente cópia sem quaisquer diferenças face ao original (inclusive podes verificar essa coincidência "(quase-)absoluta" de identidades dos dois filmes aqui:
http://www.youtube.com/watch?v=cJQZrZHgDkU

Podeis sempre dizer, ah não, e tal, o odor do dinheiro é que lhe subiu às narinas, versão para americanos, etc... Ora vê o filme... vê e vê com muita atenção...

Já agora e se me permites que me alongue só mais um pouco deixa-me só que conte aqui, em traços largos, a minha experiência com o este filme.
Quando o original estreou, há muitos anos, nas salas portuguesas, e por força de umas quantas circunstâncias da altura, não logrei ver o filme nas salas e deixei-o passar, para meu grande aborrecimento que queria mesmo ver esse filme.
Sucede que vários amigos meus se tinham mostrado muito impressionado com o dito "FG" e volta e meia falavam e falavam e falavam do assunto, e discorriam sobre a "obra alucinante" que era o "FG", etc.
Ora passaram dez anos, e entretanto o assunto caiu no limbo de um certo esquecimento. E foi preciso eu vir para este país que hoje me acolhe, há um par de anos, para, certo serão, em casa, ligar o televisor e apanhar a tal 2ª versão do FG (coisa que na altura desconhecia de todo que existisse!) mesmo, mesmo a começar, e logo identificar o filme de que se tratava precisamente pela "coincidência" meticulosa da cena inicial da família no carro, que me tinha sido tantas vezes descrita por amigos e conhecidos...

Vi pois a 2ª versão antes da 1ª, e talvez por isso me tenha sido mais fácil identificar claramente as diferenças que um olhar mais atento sobre ambas, permite descortinar...

Por isso, uma vez mais te desafio: Vê! Vê mesmo a 2ª versão. E, depois, e se tiveres paciência, torna a ver a primeira e creio que irás logo perceber a tal diferença de substância a que eu me refiro...

E uns tempos depois e se te aprouver traz este tema de novo ao blogue, que eu acredito ter 'pano para mangas' para um debate deveras interessante...

Um Grande Abraço,
do Japão,

Luís Afonso, NBJ