quarta-feira, 3 de novembro de 2010

A televisão que temos


Houve um tempo no qual os programadores de televisão tinham critério na programação de cinema no pequeno ecrã. Houve um tempo em que se viam westerns clássicos ao sábado à tarde e filmes de culto em horário nobre nos dias de semana. Houve um tempo em que o noticiário era rigoroso, formal, objectivo e de duração certa. Agora pode demorar duas horas com notícias fúteis e acessórias (às vezes com "não-notícias"). Houve um tempo no qual até os programas de entretenimento tinham dignidade e entretiam sem envergonhar ninguém.
Isso foi num tempo em que a ditadura das audiências e a feroz política comercial dos canais privados não representavam obsessões quase paranóicas. Desde há muitos anos a esta parte, o serviço público de televisão é um conceito inexistente (que me perdoe Paquete de Oliveira), um mito que já não tem justificação no paradigma audiovisual moderno.
O jornalista Ignacio Ramonet tem razão quando reflecte, num dos seus livros - que são de estudo obrigatório para estudantes de comunicação social - que a televisão se rege unicamente por critérios sensacionalistas, superficiais e vocacionados para o espectáculo efémero. Os programas de entretenimento são fátuos e de qualidade zero (no mínimo duvidosa), a informação é ditada pelo lado trágico da vida, pelo lado sensacionalista e mediático, como se vivêssemos num enorme programa perverso de “reality show”.
Por outro lado, a televisão pública tende a ser constantemente manipulada pelo poder político. Cultura, ciência, educação, debate de ideias são conteúdos que assustam os responsáveis pela programação televisiva. À parte um ou outro programa da RTP2 com conteúdos educativos ou culturais (para fazer de conta que calam os críticos), o resto do panorama televisivo é de uma confrangedora boçalidade.
Já os Disposable Heroes of Hiphoprisy cantavam: "Television, the drug of the Nation, breeding ignorance and feeding radiation".
Quem demasiada televisão (sobretudo os quatro canais abertos), acaba por se submeter a um lento e subtil entorpecimento mental. Daí que defenda sempre a velha máxima de Groucho Marx: "A televisão é muito educativa: sempre que alguém a liga, vou a correr tirar um livro da prateleira para ler".

6 comentários:

My One Thousand Movies disse...

Grande verdade.
No tempo que só tinhamos dois canais, eu lembro-me de ouvir que tinhamos uma das melhores televisões da Europa.
Não acreditei, mas depois quando chegou a concorrência das privadas acabei por dar razão a esta máxima, e percebi o que era má televisão...

Ricardo Martins disse...

Man, concordo plenamente com o que escreveste.

João L. disse...

Perfeito. É exactamente isso.

|Fly| disse...

Aqui no Brasil também estamos de mal a pior. Pelo menos temos um canal excelente, chamado TV Cultura, aberto, mas que ninguém assiste. Parece que os Big Brother's e os programas de (péssimo) humor dominam no gosto popular, bem como os apresentadores bizarros (no mau sentido). Triste, porém verdadeiro.

DiogoF. disse...

Texto fabuloso. Grande verdade, infelizmente.

PortoMaravilha disse...

Olá !

O melhor é mesmo não ver televisão. Será ? Vivemos bem melhor sem a estranha lucarna. Não deixa de ser curioso, segundo os últimos dados que li, que a rádio é o média preferido dos Franceses.

No que diz respeito a Ignácio Ramonet não o aprecio muito. Na altura teve um editorial completamente delirante no "Le Monde Diplomatique". Aquando o assassinato dum vareador no país Vasco, já lá vão alguns anos, a Espanha conheceu a sua maior manifestação de sempre na sua história. Intão, sim intão, não é que o homem nos explica que se os Vascos se mobilizaram em massa é porque o vareador assassinado se chamava Jesus Maria.

Estava completamente fora do assunto !

Nunca mais assinei o dito jornal. E não fui o único.

Nuno