segunda-feira, 11 de abril de 2011

Lumet e "12 Homens em Fúria"


Lembro-me de ter visto este filme há muitos anos na televisão espanhola. Ficou-me na memória para sempre. Anos mais tarde revi-o e cheguei à conclusão que se trata, simplesmente, de uma notável obra-prima da história do cinema (não é por acaso que ocupa o 9º lugar do top 250 dos melhores filmes do Imdb). Um filme singularíssimo, de uma contenção narrativa minimalista mas extremamente intensa, com uma progressão dramática incessante e uma mise-en-scène única.

Trata-se de "12 Angry Men" ("12 Homens em Fúria", 1957) o filme de estreia do realizador agora falecido Sidney Lumet (cujo último filme foi o brilhante "Antes que o Diabo Saiba que Morreste").

Pode um filme que dura duas horas ser empolgante quando se passa, integralmente (ou quase) numa única sala de um tribunal? Pode. Pode um filme ter diálogos sobre a natureza humana, o conceito de justiça, a procura da verdade, a ideia de negociação, a luta de classes, quando 12 jurados estão reunidos para discutir uma sentença? Pode. Pode um filme como este entusiasmar o espectador num ambiente (físico e emocional) totalmente claustrofóbico e de tensão permanente? Pode. Pode isto e muito mais, porque o realizador Sidney Lumet soube construir um drama construído com base numa realização inteligente (a experiência acumulada na televisão contou muito), uma fotografia arrepiante (da responsabilidade de Boris Kaufman, irmão de Dziga Vertov) com um argumento cujos diálogos deviam ser estudados em escolas e, sobretudo, com actores absolutamente irrepreensíveis. Diria mais: actores que já não existem nos tempos que correm: Henry Fonda, Martin Balsam, Jack Warden, E.G. Marshall e o magnético Lee. J. Cobb (na imagem em baixo).


Actores que passaram todos pela época de ouro do cinema clássico de Hollywood, com uma sólida formação que vinha do Actor's Studio e do teatro. Só actores extraordinários conseguiriam levar a bom porto um filme tão exigente como este. E, afinal, de que trata "12 Angry Men"? Nisto: 12 homens, com personalidades e formações díspares, cujos nomes não conhecemos, fazem parte de um jurado que se reúne numa sala do tribunal para decidir qual o veredicto a aplicar a um jovem que é acusado de ter assassinado o pai. A pena para o réu é a pena de morte. No início da reunião, 11 jurados estão convencidos da culpabilidade do réu. Apenas um, o jurado nº8 - interpretado por um enorme Henry Fonda - levanta dúvidas sobre a culpa do jovem. Dado que não há unanimidade entre os jurados e todos têm opinião diversa sobre os acontecimentos do crime, vão ocorrer conflitos nas negociações e lutas verbais acérrimas, para encontrar a verdade. Aos poucos, os jurados vão mudando de posição e o ambiente torna-se incrivelmente tenso e emotivo. A cada nova votação para alcançar um veredicto, a emoção cresce até ao desenlace final dramático...

No fim do filme, nunca saberemos se o jovem era realmente culpado ou não, mas o que este filme, brilhantemente filmado e adaptado por Sidney Lumet, vem trazer à baila é a fragilidade e o poder da justiça, a possibilidade de juízos morais dúbios, o preconceito como entrave à verdade (tal como diz um dos jurados: "Os preconceitos ocultam sempre a objectividade da verdade").


A sala onde os jurados discutiam, "em fúria", o veredicto final - qual ringue de combate - era, igualmente, um microcosmos da sociedade americana da época (mas facilmente transponível para a contemporaneidade), com homens com idades diversas e diferentes visões do mundo, de condições sociais e culturais muito distintas, que se servem daqueles momentos para exercer um poder que o Estado lhes concedeu.

"12 Angry Men" é um filme único na história do cinema, talvez o melhor dentro do género de "tribunal", um marco na carreira do realizador e dos actores (dos 12 que interpretam os jurados, só um - Jack Klugman - está ainda vivo). O grande actor que foi Henry Fonda, disse que "12 Angry Men" era o filme pelo qual gostaria de ser lembrado. O filme foi adaptado para televisão pelo cineasta William Friedkin, em 1997, mas não conheço nem me interessa conhecer. Depois de ver o filme original, não vale a pena ver mais nada.

Nota: este filme não existe em edição DVD nacional. Quem o quiser filme, com excelente qualidade de imagem e com legendas em português, pode descarregá-lo aqui.

Nota 2: E mais uma curiosidade deliciosa: neste site é feita uma análise ao argumento do filme e à descrição minuciosa da personalidade de cada jurado.

12 comentários:

Francisco Maia disse...

É o meu filme preferido =)
Excelente post, fez justiça a este bastião do cinema

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

É o meu Lumet preferido e um dos 10 preferidos de sempre.

Álvaro Martins disse...

O Mikhalkov fez um remake do filme em 2007, mas fica a anos-luz deste. Também é o meu Lumet preferido, mas tenho um carinho especial pelo Dog Day Afternoon porque foi o primeiro dele que vi.

Duarte Alves disse...

É um dos melhores filmes de sempre sem dúvida alguma. Excelente argumento, de uma grande dedicação, e uma mordaz crítica ao homem.


http://www.comfortamblynumb.blogspot.com/

Jorge disse...

Também é o melhor filme de Lumet que vi, genial, genial!

Este é o meu primeiro comentário por aqui, sendo que já acompanho o blogue à alguns meses - tenho-te a dizer que gosto imenso das rubricas, dos artigos, da escrita, da fluidez e da espontaneidade...tenho aprendido muito com este blogue. Por isso continua, cá estarei :)

abraço

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Obrigado Jorge.

Comenta mais vezes ;)

Sabrina disse...

Olá! Acabo de achar seu blog numa pesquisa para a faculdade e gostaria de dizer 2 coisinhas: a versão de 1997 do filme realmente não vale a pena ser visto, já que são os mesmos diálogos e movimentos de câmera que o original. Mas quanto ao DVD, ele é vendido no Brasil em qualquer loja de DVD's e o nome aqui é "12 homens e uma sentença".

Não sei se o shipping vale a pena para Portugal, mas se alguém achar que vale a pena ou tiver algum leitor do Brasil lendo este comentário, já fica a dica:
http://www.americanas.com.br/produto/233719/dvd-12-homens-e-uma-sentenca

Parabéns pelo blog!

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Sabrina: obrigado pela informação.
O título "12 Homens e Uma Sentença" parece-me mais acertado do que o título português.

Volte sempre.

Rafael Fernandes disse...

Há muito que vejo esse filme em listas e listas. Mas nunca calhou. Gostei muito do último filme de Lumet, acho que vai ser desta que vou ver o 12 Angry Men :)

Bri disse...

Comprei há pouco tempo o filme na fnac. Os apreciadores do Lumet podem juntar mais este à sua colecção. ;)
http://www.fnac.pt/Doze-Homens-em-Furia-75-Fox-Henry-Fonda-sem-especificar/a298762?PID=7&Mn=-1&Mu=-13&Ra=-3&To=0&Nu=1&Fr=0

disse...

Olá Victor,

Alinho a minha opinião pela tua acerca do "12 angry men". As interpretações são de facto magistrais e é um exemplo notável de como fazer bom cinema.

E no entanto, apesar de poder ser considerado o melhor Lumet, não é esse o filme que eu mais gosto dele.

Acontece-me diversas vezes gostar mais de uma obra considerada de 2ªlinha de um autor, seja música, cinema, literatura, etc...

O meu filme favorito é exactamente um Lumet de 2ª linha: "Running on empty" (1988).
Desde que o vi há muito que me enfeitiçou. Talvez pela simplicidade do argumento, pela banda sonora, ou por um River Phoenix a prometer altos vôos (e a voar infelizmente tão cedo)...

A 7ª arte (como a vida) não precisa de ser avassaladora e intensa para ser bela...

Abraço

Nuno disse...

Boas. Não querendo ser repetitivo, mas como o(a) Bri já referiu, este filme tem edição nacional. Também o comprei na FNAC. É sem dúvida um filme brilhante e, talvez por isso, depois do ter visto ainda não consegui que ele voltasse para casa pois tem rodado de amigo em amigo.
Parabéns pelo blogue. 5 estrelas.