segunda-feira, 4 de abril de 2011

Diamanda Galás: A Diva Negra ao vivo


Nascida em San Diego, sob o sol escaldante da Califórnia, descendente de pais gregos ortodoxos, Diamanda Galás revelou-se, nos últimos 25 anos, a porta-voz de uma mensagem apocalíptica sobre as múltiplas e negras facetas da existência humana. Ex-estudante de Bioquímica, pianista de eleição com experiência clássica e de jazz, fluente em várias línguas, detentora de uma visão universalista da história e da cultura, imbuída da poesia maldita de Baudelaire, Marquês de Sade, Artaud, Rimbaud e Edgar Allan Poe, fascinada pelo lado espectral da vida humana e recorrendo a textos bíblicos e de outras culturas não ocidentais, Diamanda Galás percorreu nos seus discos um caminho tortuoso de purificação espiritual, de penitência árdua e sem concessões, rumo à catarse suprema.

Foi apelidada de herege, bruxa e diva, ao sabor das sensibilidades, mas uma coisa é certa: ninguém sai incólume e indiferente após uma experiência com a música de Diamanda Galás. Mais admirada na Europa do que nos EUA, a cantora foi galardoada, em Itália, (2008) com o prestigiado Prémio “Demetrio Stratos” pela sua trajectória internacional. Num mundo conspurcado pelo Mal, cujas manifestações se revelam através da violência ou Sida (viu um irmão morrer com esta doença), da morte, do sofrimento ou de genocídios, Diamanda Galás representa uma tentativa de cura libertadora. Uma cura que expurga esses males, uma cura que se materializa numa das vozes mais feéricas e ameaçadoras que alguma vez se ouviu no panorama da música contemporânea.

Numa espécie de reencarnação negra da cantora lírica Maria Callas, num misto de diva vampírica e de profetiza pessimista, Galás faz uso da sua incrível extensão vocal (quatro oitavas – pode cantar como Soprano ou Baixo) para, simultaneamente, propalar os pecados do homem e denunciar o dogmatismo religioso (a insidiosa moral cristã). Uma voz negra e profundamente expiatória perante a condição do ser humano (ela própria assevera: “Faço música para os que sofrem profundamente e têm consciência disso”).

No entanto, Galás também canta canções de amor… no seu estilo único de interpretação. Galás é insubmissa, controversa, radical, experimentalista, audaz, como ficou demonstrado em álbuns demenciais como “Litanies Of Satan” (1982), “Divine Punishment” (1986), “You Musty Be Certain of the Devil” (1988) ou “Plague Mass” (1991).


Bastariam estes três tremendos testamentos sonoros para perpetuar o nome de Galás nos anais da história da música, fruto da sua voz visceral capaz de exorcizar demónios e da sua criatividade pianística que está tão à vontade nos blues clássicos como nos devaneios musicais mais libertinos (ninguém diria que Galás tem como heróis musicais Edith Piaf, Ray Charles ou John Coltrane).

Não foi por acaso que o realizador Francis Ford Coppola a convidou para criar os gritos vampíricos do seu filme “Dracula” (1992) ou Oliver Stone para o filme “Natural Born Killers”(1994). Após o seu último registo ao vivo, “Malediction And Prayer”, datado de 1998, Diamanda Galás lançou edições sucessivas: “La Serpenta Canta”, editado no final de 2003, e “Defixiones: Will And Testament, Orders From The Dead”, lançado em Janeiro de 2004, ambos discos duplos, a solo e ao vivo.

“La Serpenta Canta” é um registo gravado ao vivo em Adelaide, Austrália, em 2001; trata-se, muito prosaicamente, de um recital de canções em que Diamanda Galás interpreta, acompanhada apenas pelo piano, standards de canções blues e soul de autores populares como Hank Williams, Ornette Coleman, Screamin’ Jay Hawkins ou The Supremes. Neste disco, Galás consegue a proeza de reinventar o espírito soul-jazz de temas clássicos como “My World Is Empty Without You”, “I Put a Spell On You” ou “Baby’s Insane”.

A cantora, respeitando as formas musicais dos originais, reorganiza-as harmonicamente, dando-lhes uma outra frescura tímbrica e, em suma, outra realidade sonora. Da mesma forma que o disco “Plague Mass” versava sobre as vítimas da Sida, uma parte da obra da cantora evoca o genocídio arménio e grego perpetrado pelo exército turco entre 1914 e 1923. Ou seja, novamente a veiculação de uma mensagem política incontestavelmente forte. Diamanda Galás socorre-se de poemas e textos históricos arménios, gregos, espanhóis e hebraicos sobre o tema, colocando o dedo na ferida aberta que constituem, ainda hoje, estas atrocidades cometidas há um século atrás.

Pelo meio da sua carreira Galás teve tempo de encetar uma notável experiência no rock mais convencional, com John Paul Jones, baixista dos Led Zeppelin, no álbum "This Sporting Life" de 1994. 2008 viria ao mundo "Gulity Guilty Guilty", um disco registado ao vivo com alguns momentos musicais de intensidade emocional arrebatadora.

A intolerância, a xenofobia e os direitos das mulheres oprimidas têm servido de inspiração para a música de Galás. A voz única e poderosa de Diamanda Galás chegerá bem alto no dia 9 de Julho à Guarda.

A cantora apresenta no Teatro Municipal da Guarda o espectáculo “The Refugee”, um conjunto de temas inspirados na canção, "O Prosfigas", que versa sobre a fatalidade dos exilados de Smyrna, durante o genocídio turco do povo grego em 1922.

Do programa constam ainda reinterpretações de canções do egípcio Mohamed Abdel Wahab, dos gregos Dionysis Savvapoulos e Lefteris Papadopoulos, da arménia Mara Yekmalian, dos espanhóis Camarón de la Isla e Pastora Pavón, ou do belga Jacques Brel.



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Artigo publico no boletim BIS (TMG), Abril 2011

3 comentários:

Nelson Magina Pereira disse...

Excelente artigo. Sou um admirador do trabalho de Galás. Plague Mass é qualquer coisa para além deste mundo. Acrescento ainda mais uma colaboração de Galás, desta feita com Recoil no disco Liquid, também este assombroso.

Cumprimentos.

gaspar disse...

Gostaria de ir, mas não posso, estou a trabalhar... :( Mas queria aqui deixar os meus parabéns pela vossa excelente agenda (que recebemos ontem, e o jornal também), e desejar-te um excelente concerto (concerto do Kubik, não da Diamanda... :)), e com público merecedor... :)


P.S.: o disco dela com o John Paul Jones, dos Led Zep, This Sporting Life, é também muito interessante...

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Obrigado Gaspar!

E sim, o disco "This Sporting Life" é muito bom (tenho-o em vinil).

Abraço.