sábado, 4 de Fevereiro de 2012

Um filme encantador

Preâmbulo: "O Artista" é um filme encantador. É essa a palavra que melhor o define: encantador. Ninguém que goste, verdadeiramente de cinema, poderá afirmar que este filme é desinteressante ou falhado. Um filme que condensa toneladas do melhor imaginário que a história da Sétima Arte nos deu - e nunca tantos clichés souberam tão bem e fizeram tanto sentido. Uma ode à magia do cinema e à sua riquíssima herança artística.
O realizador Michel Hazanavicius soube pegar num ponto fulcral da história do cinema, a passagem do período mudo para o sonoro, de forma a criar uma história que homenageia os grandes pares românticos do cinema numa época em que o cinema era amado pelo povo e entendido como arte e como puro entretenimento.
"O Artista" prova que uma certa ideia de reinvenção do cinema está, como se prova, na reciclagem de referências históricas para as transformar num objecto estético novo (à custa das tecnologias digitais, não se pense que filme foi rodado com a mesma técnica rudimentar dos anos 20). E foi isso que o cineasta francês fez, com grande entusiasmo cinéfilo e devoção pela magia do cinema mudo: fez um consistente filme (quase todo todo) mudo, com personagens (mesmo os figurantes!) que parecem, mesmo, ter vivido em 1927, e reconstruiu todo um imaginário cinematográfico com múltiplas ramificações.
A própria realização tem referências a técnicas de filmagem do mudo, o actor principal (magnífico Jean Dujardin) parece um sósia do galã Douglas Fairbanks, a actriz Bérénice Bejo que faz de Peppy Miller encarna uma convincente diva em ascenção, e a música de Ludovic Bource é espantosa na forma como recupera a tradição musical dos filmes mudos com um toque de inevitável modernidade.
E para que se perceba a maravilhosa capacidade de evocação dos clássicos imortais de Hollywood, nada como ver estes magníficos dois minutos finais com a dança de sapateado dos dois protagonistas. É como se Gene Kelly (e repare-se como Jean Dujardin é parecido com ele!)e Ginger Rogers tivessem voltado a brilhar no grande ecrã.
Em suma, "O Artista" é uma obra de pura celebração do cinema "dentro do cinema", capaz de recuperar a genuína nostalgia sentimental do cinema mudo, resgatando-o para uma era moderna. Para além disso, tem outro grande trunfo: a capacidade para motivar as novas gerações a descobrir o verdadeiro cinema mudo!

2 comentários:

Siga a cena disse...

Aproveitando a deixa, gostaria de indicar um filme daqui do Brasil, um curta-metragem, feito em 1996 pelo cineasta José Araripe Jr. chamado "Mr. Abrakadabra!". Trata-se de um filme feito com a estética do cinema mudo,onde o realizador fez questão de filmar sua película do modo como ela era gravada, em 16 quadros por segundo. Para quem se interessar, o link é:
http://www.portacurtas.com.br/Filme.asp?Cod=842

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Obrigado pela sugestão, irei ver com toda a atenção.