terça-feira, 28 de julho de 2009

A estranheza de não gostar de música


Que eu me lembre, nunca conheci ninguém que dissesse, sem pestanejar, que não gosta de música. Julgava que todas as pessoas gostavam de ouvir música, independetemente da cultura musical ou do gosto estético em particular. Sejam as pessoas mais simples e analfabetas, sejam os académicos mais eruditos e intelectuais, de todas as idades e profissões, de todas as culturas e sociedades, a música é considerada a arte mais universal e acessível. Por isso o meu espanto ao ler no jornal Expresso que o ilustre artista João Cutileiro (na imagem) não gosta de música. Ponto.
Na secção de questionários a figuras públicas "A Arte da Fuga" do semanário é perguntado ao escultor: "Qual a banda sonora dos seus dias?", ao que Cutileiro respondeu: "O silêncio. Não gosto de música, Nunca gostei, desde criança. Mas não sei porquê."
Esta resposta - um tanto ou quanto vaga e evasiva - levou-me a reflectir sobre os motivos que levam alguém, apesar da sua formação cultural e artística, a não gostar de música. Reflecti, mas não cheguei a conclusão nenhuma...

18 comentários:

Francisco Maia disse...

Talvez uma razão biológica? Estou agora a ler o livro de Oliver Sacks (Musicofilia) sobre o assunto e devo dizer que casos peculiares destes, são em maior número do que possamos imaginar.

Para mim também é um pouco inconcebível não se gostar de música

Rolando Almeida disse...

Nunca pensei muito sobre o assunto, mas será assim tão estranho não gostar de música? Podemos ir por partes: se for na pintura será que admitimos mais facilmente alguém dizer que não gosta de pintura? E quanto à leitura? Empiricamente sei que as pessoas que dizem não gostar de ler nunca tiveram a experiência de ler um livro do princípio ao fim. O que me ocorre de modo mais intuitivo é que a relação do ser humano com a música tem muitas feições e de alguns pontos de vista parece ser pacífica a ideia de alguém não gostar de música, ainda que ocasionalmente a ouça. Repara, um exemplo que ainda não pensei bem se funciona: de algum modo eu não gosto de ler e acho a leitura um desprazer. A minha miopia deve-se em grande parte à leitura. Acho ler cansativo. Costumo dizer que leio para satisfazer algumas necessidades, mas não propriamente pelo prazer que me proporciona. Ou seja, será que gosto de ler? se eu pudesse assimilar o conhecimento sem ter de passar horas a ler, será que não o faria? Acho que a afirmação do Cutileiro pode não ser assim tão vaga se formos pensando em mundos possíveis. E parece-me, não tenho a certeza, que existe um mundo onde é possível não se gostar de música. Que dizes? Mas lançaste bem a discussão. Nunca me tinha ocorrido tal coisa. Ah, e que tal pensar nos tempos em que a maioria da população não tinha acesso à música. Será que podemos dizer que essa gente gostava de música? Pelo menos se calhar dizemo-lo num sentido diferente daquele que empregamos hoje em dia.

Francisco Maia disse...

Rolando Almeida, acho que é diferente. Pintura, assim como escultura e afiliados, não são artes temporais. Não entretêm. Eu percebo não se gostar de ler porque exige tempo e (um mínimo) esforço. De pintura e escultura porque requer interpretação e pensamento activo.

Mas música é só deixar ir. É algo simultâneo a outras acções e muito primário: apela às emoções e não ao raciocínio (num primeiro espectro). Se é fundamental? Não, também acho que não. Não é um imperativo biológico, assim como nenhuma arte o é, mas, se o homem primitivo a inventou instintivamente, gosto de acreditar que tem funções para além das que a raça humana já identificou.

F disse...

Quem disse que a pintura e a escultura não entretêm?
E a contemplação? Para que serve contemplar, senão para aguçar os sentidos, a alma e o pensamento?

Todas as formas de expressão são enriquecedoras. completam o nosso ser, a nossa passagem pelo mundo, pela vida.
Tristes daqueles que não podem, não sabem ou não querem incluí-las na sua existência.
(atenção: não pretendo ofender ninguém. É apenas uma força de expressão)

Victor Afonso disse...

Quando referi que a música é a arte mais universal e acessível é para levar à letra. Durante séculos a música era um exclusivo das classes abastadas - até Mozart, Strauss ou Beethoven compunham apenas para as cortes da realeza europeia. A chamada plebe não tinha acesso à grande arte musical. Hoje tudo é diferente. Qualquer pessoa, por mais isolada que viva ou que tenha menos preparação cultural, pode ter acesso à música e desfrutá-la com maior ou menor prazer, sem grande investimento intelectual - como na leitura. Pergunte-se a um jovem qualquer se gosta de música e arrisco uma probabilidade de 99% dizerem que sim. Podem gostar de Tony Carreira, de Madonna ou de Tom Waits; podem ouvir chill out para descontrair ou new age para estudar; podem ouvir punk hardcore para fazer mosh ou fado numa taberna do Bairro Alto. Para esta discussão não interessa o gosto musical. Interessa saber como é possível hoje, a um jovem imbuído numa cultura audiovisual tão forte, não gostar de música. O Cutileiro é de outra geração, formado por outras referências artísticas, daí talvez a sua tendência para não gostar de música. Já não arriscaria o que o Francisco avançou: questões neurobiológicas. Li o livro do Oliver Sacks e não me lembro de alguma referência a pessoas que não gostam de música e quais as possíveis causas. O que o escritor e neurocientista aborda é outra coisa: pessoas que gostam de música mas que nunca tocaram nenhum instrumento e, de repente, por qualquer mecanismo neurológico súbito, passam a tocar espontaneamente piano.

João Lisboa disse...

"A chamada plebe não tinha acesso à grande arte musical"

Mas nunca deixou de fazer música por causa disso.

Quanto ao Cuteileiro... err... poderá dar-se o caso de ser surdo?

João Lisboa disse...

... e eu sou disléxico: Cutileiro.

F disse...

surdo, não será, mas insensível a essa forma de expressão...
Ou surdo, no sentido de não educado para.

Raquel Roque disse...

Apesar de ser estranho alguém não gostar de música, penso que é uma atitude legítima como outra qualquer. Ele prefere o silêncio e pronto.

Francisco Maia disse...

Afonso - Quando me referi ao livro, não pormenorizei. O livro fala de Nikonov que tinha um profundo medo de música graças aos ataques de epilepsia que esta lhe causava. Claro que no caso de Cutileiro, não estaria a falar de nada tão agressivo mas de uma razão neurologica ou até mesmo trauma inconsciente que o leve a tal desgosto. Uma coisa eu defendo: música é inata ao ser humano.

F - Escultura e pintura não são formas de entretenimento generalizadas, obvio. A própria palavra explica: entreter é "fazer passar o tempo" e as artes mais plásticas apenas o fazem a quem percebe o suficiente para lhes estar sensibilizado. A música é muito mais universal como o Afonso disse.

Ramon disse...

Interessante discussão. Já pensei nisso várias vezes pois já me deparei com uma resposta semelhante. Foi um tio meu, provavelmente da idade do Cutileiro, que me disse algo muito próximo do referido por J.C. A minha resposta foi um sorriso, seguido de uma cara mais séria ao perceber que a resposta (prefiro o silência) tinha sido honesta.

Ramon disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Toni disse...

Contemporaneamente, a música vem assumindo o papel de mero produto de mercado. Em detrimento a seu papel original de ser uma forma de expressão do ser humano, esta agora, é algo desenvolvido em grupos compreendendo não aquilo que se sente mas aquilo que se estima que as pessoas queiram ouvir. É claro que existem exceções mas para mim são raras. O melhor exemplo disso é a discussão sobre os Downloads gratuitos de músicas. Ainda que seja um direito a remuneração por um trabalho, essa remuneração passou a ser um objetivo, esse objetivo é divergente do objetivo de arte, que é a comunicação, a transmissão de uma mensagem. Se a música realmente estivesse sendo tratada como arte seria estimulada a distribuição online, que acima de tudo a divulga. Quanto à remuneração acredito que o montante pago em shows é justo e adequadamente suficiente para remunerar o artista. Se realmente for produzida uma obra de arte ela atraíra pessoas.
Outro ponto interessante, é a alienação, indivíduos se identificam tanto com um determinado gênero de músicas que esquecem seus propósitos e passam a ter aversão a outros gêneros, muitas vezes que transmitam até mensagens iguais.
Por essas e por outras me encaixo nesse grupo daqueles que não curtem música.

Kywn Lori disse...

Não me faz confusão nenhuma que existam pessoas que não gostam de música. Pela minha parte, até gostava de conhecer algumas.

As pessoas atribuem uma enorme importância à música. Ouvir determinado estilo dá-lhes um sentido de pertença. É quase como se fizessem parte dos artistas que contribuem para esse estilo. O que me preocupa é que há pessoas que pesam que o tipo de música que a pessoa ouve define a personalidade da pessoa. A minha experiência pessoal levou-me a constatar que isso não acontece.

Anónimo disse...

Também não gosto de música, e não vejo nenhuma estranheza nisto, nem necessidade de justificativa especial. Música é uma arte, assim como cinema, teatro, pintura e escrita. Não gostar de ouvir música é tão normal quanto não gostar de assistir filmes e teatros, apreciar pinturas ou ler romances.

Laura Marques disse...

Entendam que alguns não gostam de música aqui:http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/noticia/2014/03/gente-que-nao-gosta-de-bmusicab.html

Laura Marques disse...

Entendam que alguns não gostam de música aqui:http://epoca.globo.com/colunas-e-blogs/cristiane-segatto/noticia/2014/03/gente-que-nao-gosta-de-bmusicab.html

Anónimo disse...

Eu também não gosto de música. Hoje consigo afirmar, quando era adolescente e jovem, jamais pensaria em admitir isso, mas tinha consciência de que sempre me sentia uma estranha em ambientes com música e em rodas de conversa sobre música, ou algum cantor, ou alguma banda. Hoje consigo assumir. Não tenho som no carro e isso causa uma estranheza às revendas, aos amigos e aos ladrões. Por outro lado, assim como o Cutileiro, adoro o silêncio, mas também aprecio demais um canto de pássaro. Aliás, vocês ouvem os pássaros? Certa vez li que Nietzche também não gostava de música. Uma Universidade de Barcelona fez um estudo sobre o fato de haver pessoas que não gostam de música, mas ainda não o li detalhadamente. É assim, é algo mais que não gostar, parece que há pessoas para quem a música não faz sentido. Ponto!