domingo, 5 de julho de 2009

Os filmes e os velhos

Gosto de filmes sobre velhos. É uma forma simplista de o dizer, mas é assim mesmo: filmes sobre velhos, ou sobre a velhice. E não encaro o termo “velho” com conotações pejorativas. Pelo contrário. É o tempo da maturidade, da sabedora e da experiência. Um tempo de reflexão serena sobre o tempo vivido e sobre o sentido da vida. É preciso que um realizador tenha muita sensibilidade artística para não lidar com a velhice de forma sentimentalista ou condescendente, como se se tratasse de uma telenovela mexicana. É preciso ter visão, sentido estético, mentalidade aberta.
Assim de repente, lembro-me de uma obra-prima do Neo-Realismo italiano: “Umberto D.” (1952) de Vittorio de Sica: a comovente vida de um pobre pensionista, solitário e desesperado, cuja relação com o seu fiel cão o salva de um fim trágico. Ou o memorável “Morangos Silvestres” (1957) de Ingmar Bergman, essa esplendorosa meditação sobre o fim da vida de um professor universitário. Ou a relação de amizade entre o motorista Morgan Freeman e a velha aristocrata Jessica Tandy em "Driving Miss Daisy" (1989). Recordo-me também do último e terno filme do mestre Kurosawa, "Rapsódia em Agosto" (1991), no qual uma idosa sobrevivente de Nagasaki se confronta com a custódia dos seus quatro netos e a relação com um inesperado sobrinho americano.
Também de Bergman, o crepuscular “Saraband” (2003), a sua última obra em forma de testamento sobre as inquietações afectivas e emocionais de um idoso em final de vida.
Nos últimos anos, há dois ou três títulos muito interessantes cujos personagens principais são pessoas idosas, reformados que ainda mantêm sonhos e esperanças: “As Confissões de Schmidt” (2002) de Alexander Payne, com um extraordinário Jack Nicholson, que antevê um novo futuro após a morte súbita da mulher; e “Vénus” (2006) de Roger Michell, com um não menos extraordinário e veterano Peter O’Toole (na imagem). Goste-se ou não do filme, "The Curious Case of Benjamim Button" (2008) é uma reflexão sobre os vários estados etários da vida humana, com especial ênfase na velhice.
E que dizer do grande filme sobre uma avó e sua relação com o neto soldado, em “Alexandra” (2007) de Sokurov?
É caso para dizer: o cinema também é para velhos.

2 comentários:

Ricardo disse...

e não se esqueça do Away from her, filme de uma sensibilidade maior no que respeita à decadência (mais do que tudo emocional) na velhice derivada do Parkinson.

Hugo disse...

Ótima postagem.

Cada um destes filmes mostra uma situação diferente da velhice.

Temos "Benjamim Button" que é um filme sobre o ciclo da vida, "As Confissões de Schmidt" é uma história dolorosa sobre tempo perdido e "Conduzindo Miss Daisy" sobre a amizade na terceira idade.

Abraço