quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

O melhor filme de animação do ano


Quando vi "Coraline" pensei que dificilmente haveria, em 2009, um filme de animação tão bom. Depois vi "Up" e pensei exactamente o mesmo. Era o melhor filme de animação deste ano. Mas enganei-me, porque entretanto vi "Mary and Max" e fiquei surpreendido. Um amigo deu-me um DVD com o filme original (sem legendas) há um mês e disse-me apenas: "Vê isto. Vais gostar". Só agora, em férias, tive tempo de o ver. E em boa hora o fiz. "Mary and Max" não é uma produção dos gigantes Pixar ou Dreamworks (é australiana), não tem o orçamento milionário de "Up" ou "Coraline", mas tem criatividade suficiente para destronar esses dois filmes. Sem rodeios.
Não terá sido por acaso que esta pérola da animação, realizada por Adam Elliot (que ganhou um Óscar com uma curta-metragem de animação em 2004), abriu o festival de cinema de Sundance deste ano (à semelhança do que "Up" fez em Cannes). É que "Mary and Max" (durou 5 anos a ser feito) é o primeiro filme de animação que vejo que narra uma história claramente para adultos, apesar de ser feito com uma técnica de animação de volumes habitual nos filmes infantis (como "Wallace e Gromit"). Apesar de ter muitos apontamentos divertidos e de humor (negro), o tom sombrio, sério e dramático encobre todo o ambiente do filme (até à emocionante última cena).

Quando foi a última vez que alguém viu um filme de animação, feito em plasticina, cujos temas centrais são a morte (e logo três mortes!), suicídio, solidão, ansiedade, perturbações mentais (síndrome de Asperger), depressão, alucinação, obesidade mórbida, instabilidade emocional, agorafobia, alcoolismo, timidez social, família disfuncional, violência infantil, tabagismo (até um peixe fuma!), cleptomania, comportamentos obsessivos, trabalho precário, sem-abrigo, desvios sexuais, etc? Pois "Mary and Max" aborda, com frontalidade e grande destreza, estes e outros temas de "adultos". Mas há outro tema que atravessa todo o filme e que se revela a trave-mestra da narrativa: a amizade. "Mary and Max" é um grande filme e não apenas por estes motivos. Está muito bem conseguido em termos visuais e estéticos, o encadeamento (e montagem) dos pequenos episódios é exemplar, as vozes dos personagens idem (Philip Seymour Hoffman, Eric Bana, Toni Collette...) e a excelente música (sobretudo dos Penguin Cafe Orchestra) contribuem para a excelência do filme.
A história é baseada em factos reais: em meados dos anos 70, uma criança de 8 anos, Mary, vive na Austrália (sempre em tons castanhos) e corresponde-se com um homem de meia idade chamado Max, um depressivo e obeso ateu de origem judaica. Max vive sozinho no seu austero apartamento de Nova Iorque (sempre em tons cinzentos), não tem amigos, é viciado em chocolate e tem fobia de mulheres. Ao longo dos anos, a troca de cartas entre Max e Mary assume diversas peripécias e episódios, consolidando uma relação de amizade a longa distância. Até que um dia, quando Mary tem 26 anos e Max 62, ambos se encontram pela primeira vez em Nova Iorque...
"Mary and Max" é um filme de animação, sim, mas prova ter mais consistência e profundidade dramática do que muitos filmes de acção real, revelando-se um filme maduro sobre as relações humanas, a necessidade de amor e o desnorte existencial de uma sociedade egocêntrica. Um pérola cinematográfica sobre o sentido da vida.
Apesar de ter recebido vários prémios, "Mary and Max" não foi nomeado aos Globos de Ouro, nem será aos Óscares, porque as grandes produções "Up" e "Coraline" cilindram qualquer possibilidade de competição por parte de outras obras de menor dimensão (comercial, não artística). Mas não é por isso que este filme deixa de ser um marco notável na história do cinema de animação... de sempre.
Ah, e o filme!

10 comentários:

Álvaro Martins disse...

Tenho de ver isto.

LN disse...

Ah, entao? Este é o meu filme do ano desde que o vi, em Outubro.

Não é só o filme do ano: é uma GRANDE, GRANDE OBRA-PRIMA. Pecas por acabar por falar mais do lado técnico do que toda a vida metafórica dele, ao nível das grandes obras literárias mundiais. É tão grande que no fim quase chorei, não pelas cenas em si (não sou para isso), mas por não ver um filme tão bom há anos... é que não dá hipótese nenhuma à concorrência, e então no género nem se fala... a produção avant-garde de leste é outra casta (que também aprecio muito.)

Excelente escolha e ainda bem que vejo mais pessoas a chegar ao Mary and Max. É uma pena que não chegue a muitos mais, para ver o que é cinema.

Maldonado disse...

Feliz Natal para ti e para os teus.
E já agora, cuidado com o castrol... ;)

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

LN - é isso mesmo: uma obra-prima rara. Pena que pouca gente conheça o filme.

Maldonado: Feliz Natal para ti também!

::Andre:: disse...

A tua preocupação do último parágrafo não devia ter importância. Quem são os Globos de Ouro ou os Oscares quando comparados connosco? Nada, entendes? Porque achas que vimos a este e outros blogs? Para termos surpresas destas, para aprendermos, para partilharmos.
Sem querer desvalorizar os belíssimos Up e Coraline, esses prémios vivem em torno de lobbies e pouco me dizem. Ia mais depressa ao cinema ver uma sugestão dada por ti ou de alguém cujo blog acompanho do que o Oscar para melhor filme do ano...
Vou procurar este filme, parece-me ser ideal para esta época onde todos se esquecem o verdadeiro sentido das coisas.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

André: obrigado pelas tuas palavras.

Acho que não deves ter reparado, mas não tens de procurar o filme. Se vires com atenção, a seguir ao link do trailer eu indiquei o link para fazer o download do filme! Tão simples como isto. ;)

Spark disse...

Ainda n vi esta animação, mas espero em breve o fazer. :)

Um grande abraço e um passa um Natal Porreiro. ;)

Ângela disse...

Vi o filme há poucos dias. Gostei imenso. Grande filme, sim.
I'm confuzzled :)
Feliz Natal*

Silly Little Wabbit disse...

Bom ano, e obrigado pela excelente sugestão. Ter-me-ia passado ao lado se não visitasse o blog.

cenas underground disse...

Já vi. Muito bom. Só o descobri porque sou viciado em listas de "Tops". Se tivesse que adivinhar, diria que googlei "Top Animation Movies" do ano em que saíu.