terça-feira, 22 de dezembro de 2009

Para que serve um crítico de cinema?


Não há volta a dar: a crítica raramente está de acordo com a opinião do público em geral. Refiro-me, sobretudo, à crítica de cinema. Na generalidade dos casos, quando o crítico de cinema elogia um filme e lhe atribui 4 ou 5 estrelas, o público não adere; quando um filme é sucesso de bilheteira (ou seja, que cheira a "mainstream" enlatado), mesmo que seja assinado por um realizador minimamente credenciado, o filme é destroçado com uma estrela ou, dependendo do ânimo do crítico nesse dia, com uma redonda bola preta. O crítico de cinema escreve que o filme de um obscuro realizador de Taiwan ou do Irão é uma obra-prima, e o resultado não se exprime na bilheteira.
Por outro lado, um filme de acção com actores conhecidos, por mais textos destrutivos que os críticos possam escrever, nunca impedirá que seja um sucesso. Então, para que serve a crítica de cinema se não influencia, aparentemente, nenhum cinéfilo na hora de optar por qual filme ver? Por vezes serve (como uma vez um amigo do meio me confessou) para que os críticos escrevam "uns para e contra os outros", fomentando guerrilhas intelectuais despropositadas e em circuito fechado. A crítica serve para davaneios e exercícios altamente retóricos e teóricos (onde cabe toda a semiologia da arte e a linguagem da escola dos "Cahiers du Cinéma") de teor totalmente egocêntrico e pedante. Serve também para dizer ao povo: "atenção, eu sou o crítico de cinema, eu é que sei avaliar e analisar um filme, vocês são meros receptores passivos sem direito a opinião contraditória". A sério que às vezes é o que parece. A crítica de cinema na imprensa escrita portuguesa, ao contrário da crítica musical, mais aberta e menos preconceituosa, revela ainda o estigma da intelectualização do exercício crítico que foi herdado da crítica francesa mais erudita.
O crítico de cinema português, salvo raras excepções, é um petulante e distante observador do fenómeno artístico. Não imiscui o seu gosto cinéfilo elitista com o gosto da maioria da população. Escarnece (quase) tudo o que provém dessa terra do mal chamada Hollywood e enaltece, de forma orgástica, a última obra-prima do realizador vietnamita Tran Anh Hung ou do tailandês Apichatpong Weerasethakal. O crítico de cinema adora destroçar o que é do gosto minimamente popular, que tenha algum sucesso comercial, que venha dos EUA. Por seu lado, adora incensar as cinematografias mais exóticas e desconhecidas, precisamente para mostrar ao mundo a sua inesgotável sapiência e erudição. São poucos os críticos que têm discernimento (ou que querem ter) para fazer a "ponte" entre as duas posições radicalizadas.
Vem isto a propósito da recepção crítica ao filme "Avatar" de James Cameron. O jornal Público, à excepção de Jorge Mourinha, que sabe cultivar uma visão equilibrada dos objectos estéticos, atribuiu 3 estrelas ao filme. No entanto, a restante classe de críticos varre o filme com uma estrela, desprestigiando um dos fenómenos cinematográficos mais importantes do ano (no mínimo). É que o crítico militante tem de estar sempre do outro lado da barricada. Por seu turno, Luís Miguel Oliveira, um crítico do mesmo jornal, deita abaixo o filme de Cameron e desvaloriza a utilização do 3D como instrumento capaz de valorização estética. É neste tipo de textos que se comprova o nível de preconceitos críticos de certos jornalistas. Além do mais, parece que se quer evangelizar o público com questões conceptuais, recursos linguísticos rebuscados e revelações de episódios da história do cinema.
É sobranceria intelectual a mais. E basta ler alguns comentários online ao referido texto de Luís Miguel Oliveira para perceber que há pessoas - meros espectadores ou cinéfilos, do lado de cá - que sabem tanto ou mais de cinema (e têm mais abertura cultural) quanto o crítico no alto do seu pedestal. Essa é que é essa.

18 comentários:

::Andre:: disse...

Tu serias um bom crítico de cinema, acho que sabes isso. Mas a nossa empatia por x ou y vai depender, mesmo que inconscientemente, do nosso ponto de vista. Se não tivesses achado piada ao filme ou ao Cameron provavelmente concordarias com o Luís e não abririas este tópico. Não estou a dizer que o filme é mau ou bom, ainda não o vi, nem as críticas que mencionas. Mas o ideal é não levarmos os críticos muito a sério.

Offtopic: uma ou duas livrarias madrilenas que tenham site?

Renato Martins disse...

Quando 2001 saiu a critica arrasou-o e o publico adoro-o, hoje acontece ao contrario. Hitchcock achava que os criticos tinham algum poder e por isso nao fez premiere para o Psico, os criticos ficaram fulos!
É verdade que muitos titulos arrebatam os criticos, mas so com o tempo.
No geral nao concordo com o que é dito no post, sou da opiniao que as pessoas nao sabem de facto apreciar cinema. Concordo sim, e ai critico os criticos, o facto de nao terem muita autonomia e acabam por copiarem os seus congeneres estrangeiros, nao tem muita autonomia.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Andre: por acaso eu também ainda não vi o filme do Cameron, logo até estou mais à vontade por ter dito o que disse. Livraria madrilena - pesquisa no google por Ocho y Medio (especialista em cinema). Outras não sei...

Renato: os filmes sobrevivem à crítica e esse exemplo do Kubrick é perfeito. Em todas as épocas históricas houve filmes bem recebidos pela crítica e que foram "flops" comerciais (o inverso também). E filmes que só muitos anos mais tarde se deu o devido reconhecimento crítico - como foi o caso do "Blade Runner" entre muitos outros exemplos.

Claro que há muita gente que não sabe apreciar cinema. Mas é para essa gente que os críticos escrevem ou para os iniciados? Acho que a resposta é óbvia...

MrCosmos disse...

Uhmm!

Os críticos são a classe politica do cinema. Será?
Interessa pouco a "vox populi" , o que conta é a sua visão mais estratégica, elitista, ou o que se queira.

Sou videógrafo de profissão, aquele que faz de tudo um pouco no ofício das lentes/captação, e cortes/custuras de montagem/edição.

Defendo que a melhor avaliação de uma estória na tela,e no meu caso, de muito menor escala que as proporcionadas pelas telas de cinema (pudera...), deve ser tirada pelas reacções espontâneas, de preferência ao vivo, de quem assiste. Desperceber isto é desperceber a essência do sucesso. E os críticos de cinema, regra geral, despercebem isto...

Ricardo Martins disse...

Duvido que vás fazer muitos amigos no meio dos críticos de cinema, mas adoro o teu texto, é extremamente oportuno.

Existem poucos críticos de cinema a sério em Portugal. Talvez o João Lopes seja dos poucos que têm um pensamento cinéfilo coerente.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Sim, se há um, e só um crítico (sobretudo depois da morte de João Bénard da Costa) que corporiza o conceito de "crítico de cinema a sério" - até pela longevidade, coerência e experiência - esse crítico é João Lopes.

Coldsector disse...

O João Lopes também deitou a baixo o Avatar, pondo mesmo em causa se "aquilo" é Cinema.

Sinceramente não compreendo essa onda negativa de criticas ao filme, julgo que as pessoas esperaram demasiado do filme, mais do que uma revolução 3D e tecnológica parece-me a mim que esperavam uma verdadeira obra de cinema de autor. Todos começam por pegar com a narrativa do filme, mas a meu ver, quando se vai ver um blockbuster, seja do Cameron ou de outro realizador não se está de maneira alguma a espera de uma maravilha narrativa, já ouvi comparações incríveis (ou inacreditáveis) como comparar o Avatar com filmes do Antonioni ou Tarkovsky, na minha opinião é ridículo estar a fazer esse género de comparações, julgo que temos de comparar o comparável.

Quanto aos críticos portugueses concordo contigo Victor, principalmente com os do público, que por vezes parece que não viram o mesmo filme que eu vi. Regularmente compro várias revistas de cinema espanholas (Fotogramas e Cahiers Du Cinema) e nota-se uma diferença incrível entre as criticas, julgo que os críticos do Público são demasiado elitistas, deveriam ser na minha opinião um pouco mais imparciais, deixando de lado um pouco os seus gostos pessoais.

João disse...

Se bem que muitas vezes queira acreditar que algumas críticas (seja no público ou no expresso) reflictam a opinião dos seus autores, há alturas em que não consigo. É verdade que há muitos interesses envolvidos, guerras internas entre críticos e externas, também. Mas há excepções, claro. O João Lopes é uma delas.

Mas se é verdade que há críticos muito pretensiosos com a sua erudição (ou falsa erudição), também é verdade que há o oposto: público pretensioso com a sua ignorância.

O João Lopes diz mal do avatar mas sustenta a sua opinião de uma maneira exemplar: falou do cinemascope e do primeiro filme no formato (que hoje em dia não lembra a ninguém), dizendo que não foi o filme que ficou para a história mas sim o formato e as suas grandes utilizações (lembro-me do "east of eden" e do "some came running", por exemplo).

Para terminar, acho que para analisar um filme é sempre, ou quase sempre, preciso fazer comparações. O "Avatar" não pode ser visto como um fenómeno isolado de tudo, mas antes como fio de uma rede em constante crescimento chamada Cinema... e há fios mais resistentes que outros.

rui resende disse...

também ainda n vi o avatar. e não me considero de igual forma um crítico de cinema, embora escreva regularmente sobre filmes. o que eu faço é descrever o que faz o filme para mim. Se funcionou, porque funcionou, se não funcionou porque não funcionou. Muitas vezes (todas?) coloco apenas uma perspectiva absolutamente fraccionada que naquele momento me interessa (por exemplo, apreciei um filme obscuro chamado Uncovered porque trabalha bem a arquitectura do Gaudi, que a mim me interessa, embora o filme em si seja ordinário).

Por isso, em relação à questão de para Quem (ou quê) escrevem os críticos, eu (se fosse crítico) diria simplesmente que escrevo para mim, ou se calhar escrevo de mim. e mais defendo que escrever para outros é mentir. Não procuro num crítico um tipo que sintetize o que o "grande público" pensa sobre um filme, nem um que menospreze esse público. Quero um crítico que escreva o que realmente pensou sobre um filme. o mesmo se passa na forma como os criadores produzem. quem faz um filme deve fazê-lo porque tem algo a dizer... depois há quem seja interessante ou genial, ou aborrecido... mas procurar hermetizar as obras, ou pelo contrário abri-las totalmente ao máximo de pessoas são atitudes totalmente opostas e como tal, semelhantes.

Dito isto, devo dizer que para além do João Lopes, não leio críticos portugueses com regularidade. Há demasiado marcada uma dialéctica comercial-desconhecido, bom-mau, muito telenovelesca (como aliás o J.Lopes não se cansa de reafirmar) que a mim me afasta... e as questões pessoais que os críticos trazem para o conteúdo dos seus textos é simplesmente medíocre.

Ricardo disse...

Vi o Avatar na ante-estreia, gostei, mas não é coisa que se chame prima (nem sobrinha de ninguém), é um filme cheio de vulgaridade, pejado de cliché e má escrita, algumas personagens são do mais rasca papelão, mas convenhamos, é um filme que não chumba em todos os campos, tem uma história verdadeiramente clássica (grande homenagem à idade de ouro ou ao romance de aventuras do início do século), por outro lado tem a inteligência de tratar o CGI, não como pilar fundamental na sua construção narrativa, mas sim como auxiliar puramente técnico (não vive à base de explosões como Transformers)melhor que isso, tem a coragem de usar as potencialidades técnicas em seu proveito (da mesma forma que Toy Story aproveitava o facto de a animação por computador não estar nos seus dias de glória, e por isso contava uma história sobre bonecos quadrados e triangulares, Cameron percebeu que só conseguia fazer coisas que parecessem jogos de vídeo, então criou um universo em que as coisas têm mesmo aspecto de jogos de vídeo).
Agora convenhamos, um filme não se pode valer apenas pela suas qualidades técnicas, daí que o 3D seja de facto uma artimanha inteligente da indústria de recuperar público, mas não deve ser tomado como garantia de qualidade, por outro lado, considerar que a crítica é o antónimo do público e que se um diz sim ou outro diz não, é limitar a questão: todos temos direito a opinião, uns são publicados na imprensa (outros, como nós não o são), provavelmente têm mais conhecimentos que a maioria dos que os lêem, mas, são na mesma pessoas, com as suas singularidades, e que tal como qualquer outro têm espírito 'crítico' único e cabecinha para pensar. É também natural que uma pessoa que tenha um lugar nos media apoie filmes com menos divulgação (de que adianta falar do avatar no jornal se todos já sabemos o que é), por exemplo, qual foi o último filme de Elia Sulieman?, ou quem viu o Andando? grande parte das pessoas que circundam os caminhos da Internet falando de cinema, despreza os filmes que mais precisam de divulgação, falando apenas daqueles que todos já sabemos. Felizmente há uma crítica, que vai aos festivais, e nos informa, das obras que já sabemos nunca virem a estrear em sala, felizmente, que existe crítica, que sem nunca querer evangelizar os leitores numa via de pensamento, fomenta o conhecimento, e o desejo por saber mais sobre cinema, felizmente, que temos filmes com 5 estrelas numa página e uma bola preta na outra, se todos achássemos o mesmo, para que valeria abrir o jornal e ler o que fosse?
De nada serve tornar a crítica em bode expiatório nem em divindade (como acabei por fazer por motivos retóricos), serve sim, ir ao cinema, e não ao Torrent, ver filmes (já agora nacionais) e gostar (e de vez em quando não gostar, que também é preciso).

Renato Martins disse...

Voto tambem em Joao Lopes, não o considero importador de ideias la de fora, sabe fundamentar o que diz. É um critico a serio de facto. Pelo que sei o Avatar começou a ser bem recebido pela critica lá fora, o Joao Lopes foi o primeiro que ouvi falar mal...

Nuno Gonçalves disse...

Concordo absolutamente contigo. O Avatar, que apesar das suas perceptiveis imperfeições é de facto um marco inegável, é apenas um exemplo. Muito se abomina a crítica americana por ser demasiado demagoga mas o pedantismo da portuguesa é simplesmente intragável e ultrajante. Não existe um único crítico de cinema neste país a escrever para uma grande publicação que não tenha uma 'agenda' pessoal de auto-indulgência intelectualóide. É engraçado que nem o Cahiers é, hoje em dia, tão fechado em convenções. Se não se dá uma revolução na crítica de cinema portuguesa ela irá acabar por morrer. É que já não anda muito longe.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Nuno: é mesmo isso.

Daniel Curval disse...

Victor, não concordo nada com o que dizes neste post.
A crítica não tem como função única a de levar pessoas a ir ao cinema. E cinéfilos que se prezam não necessitam da crítica para ver filmes deve ser só um auxiliar, um complemento de reflexão. A função de um crítico seja de cinema, música ou literatura é ser sério e rigoroso na análise que faz ao filme, ao disco ou ao livro.
Se a crítica tem como objectivo único vender o produto em análise não é crítica mas publicidade encapotada. Coisa que acontece muito nos media nacionais e internacionais. Em todas as áreas existem críticos mais herméticos, exigentes e se calhar mais difíceis de aceder e existem outros mais acessíveis de leitura mais superficial, em ambos os casos podem ser pedantes e egocêntricos (palavras tuas) mas será sempre preferível ler os primeiros ainda que elitistas. (isto das elites é tema para outra discussão).
A linguagem de uma revista como os "cahiers du cinéma" já não é o que era pois perdeu todo o espírito de reflexão que tornou a célebre, hélas. A cinefilia não é ver filmes como quem come chocolates, sem conhecimento da história, da linguagem e da estética do cinema não há cinefilia. E muitos dos que agora se dizem cinéfilos não passam de coleccionadores de filmes descarregados da net em péssimas condições e visionados nas piores situações. Fétiches coleccionáveis, tal como os gadegts e actions figures, isto não é cinefilia é comércio, entretenimento. O cinema é outra coisa, é um mistério tal como diz e bem Godard, uma paixão que um crítico conhecedor deverá ser capaz de a transmitir a todos os que amam o cinema. Tal como o fez o grande e apaixonado João Bernard da Costa, e muito bem fazem o João Lopes e o Luís Miguel Oliveira este último muito atentamente percebeu o quanto é genial um filme como Inglourious Basterds de Tarantino, filme para filhos do cinema (cinefils) e por isso mal recebido pelas massas populares e atacou o Avatar, aliás tal como o João Lopes.
Há muito mais cinema em "Ordet" de Carl Th. Dreyer (ver a sequência final) do que em filmes em 3D e outras técnicas de encher o olho. Nenhuma arte se faz assente na técnica é preciso ter algo para dizer, uma ideia, um conceito, uma linguagem nova. Se não perturba, se não provoca reflexão é só divertimento para iludir o tédio contemporâneo. E cinema não é certamente.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Daniel: obrigado pelo teu contributo, que enriquece sempre o debate (pena que não intervenhas mais vezes).

Em relação ao que escreves, o curioso é que eu comungo, em grande medida, das tuas palavras no que se refere à ideia de cinefilia. Claro que um crítico de cinema não tem como principal objectivo "vender" um filme e levar pessoas ao cinema. Talvez tenha sido pouco claro no meu post em relação a este aspecto. Claro que tem de ter um cunho de reflexão, de conceptualziação sobre o objecto que analisa. Se te deres ao trabalho de averiguar, já por várias vezes falei do crítico Luís Miguel Oliveira e até o fiz elogiando os seus texto. Só que nem sempre temos de concordar com o crítico e por isso existem blogues e outros espaços para explanar essa mesma discordância. É que eu achei muito mais pertinente a argumentação justificativa do João Lopes pelo facto de não ter gostado e "Avatar" do que a do LMO (daí também o não ter trazido o nome de JL no meu post).

Continuo na minha tese de que falta à crítica a capacidade de se libertar de preconceitos em relação ao cinema americano. Claro que Tarantino gera muito mais consensos porque é um "autor" que absorveu toda essa cinefilia de que falas. Também gostei muito de "Inglorious Basterds", mas não apenas porque era um filme pejado de referências para os "filhos do cinema". Mas será que todos os filmes pejados de referências cinéfias, cpazes de fazer a súmula de estéticas e tendências, são necesariamente bons filmes? E o inverso? Será que um realizador não pode ter um pé no cinema mainstream e fazer uma obra-prima de um filme de acção puro e duro? "Exterminador Implacável 2" ou "Heat - Cidade Sob Pressão" não são obras-primas dentro do género? Ou são apenas e meramente divertimento inconsequente porque não se inscrevem numa tipologia estética enquadrada com a dos autores mais exigentes? Não serão objectos fílmicos que tenham uma linguagem cinematográfica passível de ser artística, não defenderão uma posição estética própria? Como sabes eu acho que o maior realizador do mundo em actividade é o Béla Tarr, gosto muito de cinema de autor, experimental, etc. Mas também gosto muito de Clint Eastwood, de Pedro Almodôvar, de Woody Allen, de Ridley Scott (nem todo os filmes, é certo), realizadores que trabalham no sistema da indústria de Hollywood. Porque é que é mais cinema Tarr do que Eastwood? Porque é que é mais cinema Dreyer do que Spielberg? É incompatível gostar de um e outra realizador, de uma e outra experiência (ainda que radicalmente diferentes, é certo)?

O último filme de Tarantino tinha a tal ideia, o tal conceito por detrás. Mas para mim até é algo inconfortável estar a falar do "Avatar" porque ainda nem sequer o vi. Porventura, depois de o ver, talvez chegue à mesma conclusão que o LMO. Por isso as minhas convicções são algo dúbias neste momento. Mas mais até do que o filme do Tarantino, o meu filme do ano é o "Anti-Cristo" de LArs Von Trier que, apesar de também ser altamente cinéfilo na sua abordagem (Tarkovsky related), suscita a reflexão e perturba, incomoda, e lança um novo olhar dramatúrgico sobre o tema que aborda.

Mas este é um tema da dialéctica entre a estética e a técnica, o comercial e o artístico levava-nos longe...

Abraço

Ritinha disse...

De cinema e crítica não percebo nada. Ainda assim considero-me intelectualmente capaz de ver que Avatar é um filme da categoria Sábado à tarde. E o 3D não o salva da vulgaridade que de facto constitui.

Quanto aos críticos, nada contra eles. Sempre apreciei as opiniões de quem sabe muito mais do que eu sobre o objecto em análise.

Daniel Curval disse...

Victor,
gostaria de ter mais tempo para contribuir nas boa discussões do teu blog, mas nem sempre posso. Eu sei que basicamente estamos de acordo sobre o que é o cinema e qual deve ser o papel da crítica. Só que não acho que exista assim um tão grande menosprezo sobre o cinema de hollywood, ainda que algum dele o mereça inteiramente, mas dos EUA sempre veio do melhor cinema e lembro que foi a geração da nouvelle vague formada nos cahiers du cinema, e com o forte apoio de André Bazin quem primeiro na Europa começou a valorizar o cinema Norte-Americano de Ford, Hawks, Fuller, Hitchcock, a série B, o Film noir, etc. São célebres os textos de Truffaut na revista Amarela. O próprio LMO sempre que o reconhece não se cansa de enaltecer o bom cinema de hollywood como o fez em relação ao fabuloso "Two Lovers" de James Gray, ao "Gran Torino" do clássico Eastwood e sobre o último de Tarantino.
Ainda, sobre o "Sacanas sem Lei" o filme não é genial pela extrema cinefilia que sustenta, isso são apenas estímulos apaixonados que os cinéfilos reconhecem, o valor do filme está na proposta dicotómica que coloca: o cinema como salvação ou destruição do mundo, como entidade que altera a História. O cinema usado para oprimir, como arma de propaganda, de guerra é o mesmo que provoca a derrota. Todo o filme é como uma obra literária em que a palavra é que é o motor principal, a sequência da Taverna é um ponto altíssimo na carreira de Tarantino, onde ele apresenta completamente laminada toda a sua argúcia nos diálogos e na relação que estabelece com os planos do filme.
Sobre o "Avatar" também não posso dizer nada, ainda não vi, mas estou curioso por experimentar os óculos :) Li o texto de LMO e percebe-o muito bem, assim como tenho lido os posts de JL e acho que o complementa. Para concluir, a técnica não faz um filme, seja ela qual for. Abraço.

Harry_Madox disse...

Porque é que é "um dos fenómenos cinematográficos mais importantes do ano"?