domingo, 1 de novembro de 2009

Perguntas indiscretas - 9

Porque é que alguns jornalistas redigem textos críticos sobre literatura (ou música, ou artes plásticas, ou cinema) de forma tão intrincada, tão hermética, tão rebuscada, tão excessivamente teórica?
O crítico literário António Guerreiro, escreveu no Actual (Expresso), uma crítica ao livro “O Caminho dos Pisões” (Assírio & Alvim) do escritor M.S. Lourenço.
Pela leitura global do artigo percebe-se que António Guerreiro gostou muito do livro, mas para explicar a literatura de M.S. Lourenço escreve nos seguintes moldes: "Em traços muito genéricos eu diria que há na sua literatura três tropismos fundamentais: uma relação com a modernidade em que a mediação de uma estética simbolista e decadentista são presenças irrecusáveis; uma experiência de aniquilação do Eu ou de despersonalização através da criação de máscaras; um esteticismo que nunca é vazio, é antes uma espécie de orfismo; uma inscrição trágica, mas de um trágico moderno que reside inteiramente na sua interiorização e acaba por ser uma forma negativa do heroísmo. Nesta literatura cabe ainda um alto teor de especulação teorética que oferece um material poeticamente metamorfoseado pela invenção de uma forma e de uma língua (simultaneamente grafemática e sonora)."
Por causa deste tipo de artigos não me espantei de ler hoje o Miguel Esteves Cardoso, no Público, dizendo que ninguém lê os críticos nos jornais (referindo-se mais especificamente aos críticos de cinema, mas vai dar ao mesmo...).

7 comentários:

João disse...

já dei por mim a pensar nisso, mas não é só nos críticos, mesmo em certos artigos de jornais. Na minha opinião a mensagem pode ser transmitida sem grandes artificios lingisticos. Se não, quem vai ler aquilo? às vezes esquecem-se que estão a escrever para toda a gente...
mas pronto, há sempre um grupo restrito que pode não perceber nem um pouco do que lá está, mas há-de sempre achar muito bom, apenas porque fica bem.

cão sem raiva disse...

É verdade. Muitos críticos parece que se pôem na pele de cientistas malucos e toca a dissecar os trabalhos dos outros com palavreado de laboratório. Ninguém percebe nada, nem os próprios autores.

Anónimo disse...

O que o António Guerreiro diz é bem simples (é um homem de ideias simples), e o relambório só pode parecer rebuscado a pessoas que nunca tiveram contacto com os fastidiosos volumes dos críticos de língua alemã que o Tóni tanto gosta.

FQ disse...

Quando leio textos como esse dá-me vontade de rir e chorar ao mesmo tempo.

Rolando Almeida disse...

Olá Victor,
Isso é terrorismo verbal, nada mais. Publiquei há dias um texto sobre snobismo e filosofia, que podes ler em:

http://criticanarede.com/html/snobismo.html

Mas se te interessa o tema, há um texto fabuloso do Orwell que aborda essa questão da linguagem e poder:

http://criticanarede.com/html/linguagempolitica.html

É preciso desmascarar estas farsas.
Espero que sugestões sejam úteis
Abraço

Victor Afonso disse...

Rolando: o teu contributo é sempre importante. Já li o teu texto e está magnífico. Concordo em absoluto. Vou ler o do Orwell.
Obrigado.

No vazio da onda disse...

Para além de algumas honrosas excepções, não anda muito longe da verdade.