sexta-feira, 7 de janeiro de 2011

Ver um filme... sem ver

A revista Sábado desta semana publica uma curiosa reportagem sobre a experiência de uma jornalista que viu um filme no cinema com... os olhos vendados. Ou seja, só percepcionou o filme apenas através do som. O filme em causa foi "O Americano", segunda obra sofrível do realizador de "Control", Anton Corbijn.
A jornalista que se sujeitou a esta experiência, Andreia Costa, relata as sensações vividas. Refere que o facto de não ter tido contacto visual com as imagens e ser estimulada, apenas, pelos sons, a levou a exercitar o seu imaginário. Isto é, face a determinado som, a jornalista imaginava a acção, só que confundiu inúmeras situações: o som de um berbequim pareceu-lhe tratar-se de um homem a fazer a barba, e imaginou situações e detalhes que, na verdade, nunca aconteceram no filme. Ainda assim, assegura que "percebeu" 80% da história (desconfio desta percentagem...).
Andreia Costa diz também que sentiu algum desconforto por ter estar o tempo todo do filme com os olhos tapados. No dia seguinte, a jornalista voltou à sala de cinema para ver normalmente o filme de forma a comparar as versões.
Esta experiência é interessante, até pelo simples facto de que a visão é o sentido mais utilizado pelo homem para entender o mundo que o rodeia. Privados deste poderoso sentido, perdemos referências fundamentais à nossa volta. E a verdade é que a experiência de ver um filme apenas com o som provoca no espectador novos estímulos cerebrais e incrementa a sua capacidade de imaginação (como aconteceu com o filme "Branca de Neve" de João César Monteiro).
Esta experiência leva-me a pensar noutra vertente muito importante da questão: como é que os cegos percepcionam um filme ou uma série de televisão? Perante a ausência de imagens, os cegos podem compreender a essência de um filme só com os estímulos sonoros? (acho que o neurologista Oliver Sacks seria capaz de dar uma resposta conclusiva).
E mais: quem de nós seria capaz de aceitar este desafio de ver um filme de olhos vendados? Dependeria do tipo de filme a ver (imaginem um filme de terror)? Da predisposição psicológica ou emocional? Do gosto pela experiência?...

5 comentários:

Nuno disse...

Rever sem som? Sem problemas. Ver sem som? Duvido que eu conseguisse... Um de terror nunca. O som sem imagem pode ser bem mais assustador.

Sempre temos o "Shirin" onde se vê apenas a reacção do público ao filme.

Guakjas disse...

Ainda não tive o prazer (ou não) de ver o "Branca de Neve" mas gostava muito...
Eu era capaz de ver um filme de olhos vendados...Talvez dessa forma eu conseguisse estar ainda mais atento e ainda mais ligado à história e "sentir" as emoções das personagens...
Era um bom desafio para mim :)

Abraços Victor :)

Anónimo disse...

Também tenho as minhas dúvidas quanto ao entendimento de 80% do filme!!!
80% é normalmente a contribuição do sistema visual para o processo de aprendizagem.

Cumps,

ITA

João Lisboa disse...

1) Quando vi "O Americano", uma das coisas que me chamou a atenção - se calhar, por quase deformação profissional - foi o extraordinário detalhe e o poder de sinalização/antecipação da narrativa que, a partir do momento em que começamos a interiorizar o "código, a banda sonora tem.

2) Um amigo meu cego (na verdade, o José Manuel David, dos Gaiteiros) ADORA ir ao cinema. É verdade que domina bem o inglês e a maioria dos filmes é falada em inglês mas não é só por causa disso: quando o sentido da visão falha, a capacidade de recompor o sentido através do som - no fundo, aquilo que um cego faz todos os dias - é obrigada a compensar essa ausência.

Já agora, ele (David) também gostava muito de ir ao castelo de S. Jorge "ver Lisboa".

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Excelente e esclarecedor comentário, João Lisboa.