segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A História contada por Oliver Stone


Segundo o jornal i, o realizador Oliver Stone continua a desbravar caminhos políticos inauditos. Depois de ter feito documentários sobre Fidel Castro e Hugo Chávez (absolvendo-os politicamente), depois de ter procurado conspirações internas na morte de John Fitzgerald Kennedy, de ter criticado duramente George W. Bush, de ter criado um presidente Nixon amorfo, Oliver Stone investiga agora as raízes mais obscuras da história norte-americana com uma mini-série de dez horas intitulada - "The Secret History of America".
O título deste trabalho é, já por si, todo um programa de intenções. Nele, o realizador de "Platoon" quer mostrar como corporações americanas ajudaram financeiramente o partido nazi alemão. Parece-me bem denunciar certos fenómenos históricos que se encontram ainda algo encobertos pela poeira dos tempos. O que já me parece abusivo e deturpador da verdade histórica é a tentativa, já revelada nas próprias palavras de Stone, em branquear a figura política, militar e histórica de Adolfo Hitler: "O líder nazi Adolf Hitler foi um bode expiatório fácil ao longo da história. Não podemos julgar as pessoas apenas como 'más' ou 'boas'. Hitler é o produto de uma série de acções. É uma relação de causa e efeito."

Sobre Estaline, o cineasta diz que nada tem a ver com Hitler: "Não quero pintá-lo como um herói, mas tento fazer-lhe uma representação mais factual. Lutou contra a máquina alemã mais do que qualquer pessoa." Eu acho estas declarações absolutamente infelizes, demagógicas e manipuladoras, e farão as delícias dos movimentos fascistas e neo-nazis. Depreende-se das palavras de Stone que devemos desculpar Estaline porque foi um bravo combatente de Hitler (sobretudo na decisiva batalha de Estalinegrado). E o reinado de terror que durou 30 anos às mãos deste maníaco assassino em massa, responsável pela aniquilação de mais de 25 milhões dos seus próprios concidadãos inocentes, encerrando 18 milhões nos infames campos de trabalhos forçados (Gulags)? E quererá Oliver Stone fazer-nos crer que Hitler não passou de um "produto de uma série de acções", sem responsabilidades na consumação dos maiores acontecimentos trágicos de toda a História da Humanidade (2ª Guerra Mundial, Holocausto, campos de extermínio)?
Repugna-me pensar que, em pleno Século XXI, após o crescimento dos movimentos pró-criacionistas norte-americanos que negam a Teoria da Evolução darwiniana e seguem literalmente as profecias bíblicas, se difunda à custa da nova mini-série de Oliver Stone, a ideia que Hitler, afinal, é apenas um triste e irresponsável "bode expiatório fácil ao longo da história".

18 comentários:

Flávio Gonçalves disse...

Não só a ti te repugna. Acho chocante como, nos dias de hoje, são tecidos comentários desses.

LN disse...

Não percebi nada deste post e muito menos «decifrar» qual é a tua posição. Parece-me que há mais demagogia nela do que as afirmações do Stone, que são verdadeiras e únicas - um líder é a pessoa mais unânime do Universo. E sim, o Hitler é só um produto cultural da sociedade que o Homem «criou», com Deuses e estados de espírito. É muito normal... até um infante produto iluminista, próprio de um tempo revolucionário, se o colocar-mos ao lado do obscurantismo medieval.

soso disse...

Certo, e mais importante o Stalin foi aliado do Hitler. Alguem que avise o Oliver.

http://commons.wikimedia.org/wiki/File:MolotovRibbentropStalin.jpg

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

LN: por acaso acho que o conteúdo do meu post está muito claro.

Agora pergunto eu: em que aspecto ou ponto é que eu manifestei demagogia? Por criticar alguém - que por acaso é realizador de cinema mundialmente famoso - que pretende branquear uma figura monstruosa como a do Hitler, no contexto dos horrores da 2ª Guerra Mundial? Sou demagogo por achar vilipendiosas as afirmações de Stone? Por achar que é um ultraje, face à verdade histórica, resumir a complexa figura do Führer a um "banal bode expiatório", um mero joguete nas mãos de outras forças político-militares, fruto de determinadas circunstâncias episódicas?

Nas palavras do realizador ressoam ecos de uma desresponsabilização ético-moral e de uma vacuidade política própria do período nacional-socialista.

É claro que Hitler foi o resultado de um conjunto de factores históricos, sociais, políticos e culturais muito próprios, que condicionaram a sua ascenção ao poder. Mas daí até insinuar que as maiores atrocidades da 2ª Guerra não se deveram à acção directa dos carniceiros Hilter e Estaline, vai um grande passo (para o abismo da falsidade histórica).

Luís disse...

Epá ninguém tá a negar a maldade dos dois, seja do Hitler ou do Estaline. É muito fácil (demais, até) dizer que Hitler e Estaline foram assassinos em massa, e na verdade foram-no. Mas esta coisa de vitimização, de colagem das duas figuras a um pólo de maldade humana inigualável, de tal forma que possa servir para memória futura, só contribui para diabolizar duas pessoas que, na sua essência, foram também seres humanos, com a variante de terem usado toda (ou parte) das suas enormes capacidades de liderança para o mal.

E depois esquecem-se de que eles estavam rodeados de gente igual ou pior do que eles. Já se esqueceram que o período entre-guerras foi um período de proteccionismo económico e de fanatismo? É claro que um ou outro povo iria dar para o nacionalismo extremista, e na Alemanha estavam as condições criadas na perfeição. Hitler limitou-se a aproveitar a ascensão e depois há o que se conhece.

A sério, já chega de vitimização e de "ah, este gajo tá a negar que Hitler foi terrível". Já toda a gente sabe que o foi. Mas também já passaram quase 70 anos. Get over it!

Hoje em dia chora-se por tão pouco e durante tanto tempo. Olhem para o passado e verão coisas piores. Usar Hitler e Estaline como dois assassinos como o Mundo nunca viu é negar certos acontecimentos da História civilizacional, desde a Inquisição Católica, passando pela aniquilação dos povos Maia e Azteca, e acabando nos genocídios continuados e silenciosos em África (Ruanda, ex-Zaire, etc..) e pelo "extermínio" dos nativo-americanos (desses pouco se fala, deve ser a propaganda hollywoodesca a falar mais alto). Olhem para a quantidade de desalojados das alterações climáticas, para os refugiados políticos e para os milhões a morrer de fome e digam-me se isso é ou não produto de causas artificiais...

Depois admiram-se que exista a chamada "Godwin Law". Demonizam de tal forma o Hitler, como se ele tivesse sido o pior homem à face da Terra, e depois ele é usado para comparações disparatadas sempre que uma discussão chega à parvoíce. Como esta deverá chegar, daqui a pouco.


E agora, se me permitem, deixo uma última nota de "rest in peace" ao Eric Rohmer, que bem merece.

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Não acredito que a discussão chegue à parvoíce porque tenho em alta consideração os leitores deste blogue.

Conheço bem os factos históricos que citas, ou não fosse eu um ávido leitor de livros e biografias sobre os fenómenos e personalidades históricas mais controversas de sempre. Aliás, ando a ler há um mês o livro "101 Monstros", que retrata na perfeição os líderes políticos e as páginas históricas mais negras da história da humanidade. Por isso não preciso de lições de história.

http://www.wook.pt/ficha/101-monstros/a/id/2918900

Uma coisa não concordo: diminuir a importância da figura de Hitler só porque "já passaram 70 anos". E depois? Devemos esquecer o nazismo por causa da passagem do tempo ou não deverá ser exactamente ao contrário?

Rui Herbon disse...

"Hitler é o produto de uma série de acções. É uma relação de causa e efeito."
Isto é inquestionável. E Hitler não era senão o expoente de uma ideologia, que até foi sustentada por importantes filósofos e artistas. O que Stone parece esquecer (pelo menos é a ideia que fica) é o efeito reverso ao que ele propõe: ele reduz da generalização ao particular; poderá haver quem extrapole do particular para o geral. Nesse sentido, qualquer branqueamento do ser humano Hitler poderá resultar no branqueamento do personagem Hitler e, evidentemente, e o que é pior, no da sua ideologia.
Por exemplo, o filme "A queda" deu a imagem humana do personagem, entendemos as suas circustâncias e a forma como estava preso à inevitabilidade que criou, mas de modo algum se pretendeu branquear a loucura da sua clique, os crimes cometidos. Espermos que Stone vá pelo mesmo caminho.

Preguiça disse...

concordo plenamente com o autor e não compreendo como alguém pode questionar a sensatez deste post.

em relação à figura de estaline recomendo a leitura de http://www.wook.pt/ficha/koba-the-dread/a/id/118730/filter/

Anónimo disse...

O oliver stone deve ter acabado de ler o guerra e paz há pouco tempo.. :)

spencer

Cristiano Contreiras disse...

Volta pra criatividade do cinema, Oliver!

LN disse...

Victor: Eu não disse que a tua opinião foi necessariamente demagógica... disse «parece-me» que há (porque há, de facto) um senso demagógico, naquela linha de repúdio total ao bélico e radical.

"O líder nazi Adolf Hitler foi um bode expiatório fácil ao longo da história. Não podemos julgar as pessoas apenas como 'más' ou 'boas'. Hitler é o produto de uma série de acções. É uma relação de causa e efeito."

Não vejo nenhum tipo de branqueamento, infelicidade ou demagogia neste comentário. Antes, é válido, coerente, aberto. O que é bom, o que é mau? Depende do contexto histórico. O Hitler na Europa colonial, em Roma ou no império Mongol não seria tão «demon driver»? As pessoas esquecem-se de que um homem sozinho não é/faz nada - é um louco, que quando muito edita uns livros... O Hitler foi só mais um, que teve uma máquina política e militar a apoiá-lo. Se não era ele, seria outro. A guerra é tão necessária ao espírito e Natureza humana como são os tremores e explosões do planeta sem consciência. Evidente também é que o mais famoso bad boy nazi é um alvo fácil, muito fácil, visto como o «grande merdas», ainda para mais quando a «maldade», esse conceito que o cristianismo repúdia, nunca cessará - acho, por exemplo, uma figura como Josef Fritzl estupidamente mais berrante do que Hitler. Hoje são aviões em torres, um tom quase pacífico, amanhã alguém vai acordar um monstro maior do que o Mr. 88. Não te preocupes. Ou talvez sim...

Anónimo disse...

Querer negar a responsabilidade de um líder político, e um dos ditadores mais poderosos do século XX é escamotear a chacina de 30 milhões de pessoas.Não há tempo que cure.

Manuela

Anónimo disse...

Tanta soberba pseudo - intelectual que por aqui abunda... que sabem vcs sobre os factos da II guerra Mundial??? tanta ignorância é atroz!!! que coisas absurdas e antagónicas se sucedem por aqui ...enfim grandes desabamentos da imaginação.

Anónimo disse...

Plenamente de acordo com o comentário do último anónimo.
Há pessoas que não sabem o que dizem e pior de tudo é que afirmam as suas ideias como verdades absolutas. Chegam a ser ridículos os comentários que fazem!!!
Fiquem sossegados e não escrevam disparates!!!

P.S. Não me refiro ao autor do blogue, que está mais do que certo... CERTISSIMO.

PortoMaravilha disse...

Existe uma vontade política, quer de tentar banalizar Hitler quer de tentar confundir genocídio com massacre.

Lembremos que Hitler foi um teórico. Conseguirá nos anos 30 que a tradução Francesa fosse retirada do mercado Francês ( onde só permanecerá pouco tempo ) com o intuito de não alertar o inimigo ( ler Mein Kamof: l'histoire d'un livre" Antoine Vitkine, Flammarion 2009 ).

O Holocausto marca uma viragem na história da humanidade. Pela primeira vez , a destruição total de seres humanos é pensada e elaborada conscientemente.

Mas algo que muitos esquecem : Pela primeira vez o corpo humano é utilizado como matéria prima em grande escala industrial. Conheci quem viu tapetezinhos, abats jours, pentes etc... feitos a partir do corpo humano.

Confundir Holocausto, genocidio com massacre é não permitir uma conceptualização da história, quanto a mim.

Os Espanhois não praticaram genocidio sobre os índios por exemplo. O objectivo não era a exterminação em si das populações , mas a vontade de conquistar terras, o ouro, etc. Não havia qualquer programação.

O Holocausto é / foi uma viragem perigosa na história da raça Humana.

Haveria mais que acrescentar. Tentei ser breve.

Nuno

Anónimo disse...

Sim, Nuno. O que muitos fizeram nos últimos séculos não foi tão mau porque, afinal de contas, o objectivo não era matar as pessoas (e a "espécie") mas apenas roubá-las, violá-las e torturá-las. Só no fim é que vinha o assassinato. Mas, claro: como o objectivo não era acabar com a espécie, não eram tão maus...

Eu acho piada quando acusam as pessoas de querer banalizar Hitler quando essas mesmas pessoas passam atestados de estupidez e incompetência aos líderes em cenários idênticos no passado. As pessoas têm uma ideia errada da Idade Média e da Idade Moderna. Têm a ideia de que o Homem só ficou racional a partir da Revolução Francesa. Assim, subitamente.

Ou seja, tudo o que foi para trás foi feito com outro intuito que não a eliminação de espécies. Talvez o preconceito. Sim, foi com a Razão veio a Estupidez, o Racismo e a Eugenia. É bonito acreditar nisto, sem dúvida.

Já que acham que o "tempo nunca cura", talvez devam rever alguns acontecimentos passados no Mundo, sob pena de esquecimento. Não precisam de recuar muito. Comecem no Império Romano e vão daí para a frente.


Olhem, o Hitler foi escolhido como o "Man of the Year 1938" pela Revista Time. Isto já foi numa altura em que a perseguição judia e as chacinas já existiam. Foi o presente dos americanos por ele andar a lutar contra os "maus" dos comunistas. Agora já acham que ele foi péssimo. Deve ter sido "A Lista de Schindler", aquela reportagem mascarada de filme cujo objectivo é deixar uma lágrima no canto do olho. Não é difícil, basta meter música de piano, diabolizar alguém e uma cena final num cemitério com imensa gente a chorar. E voilá: a propaganda judia ganha mais um Oscar.

Luis Baptista disse...

Bem Hitler, foi ele, Estaline tbem, com um pequeno pormenor, matou mais, existem regimes ,caso da Sérvia que vamos ter um dia na UE, que mataram até dizer chega e agora são uns santos, penso que o mundo é hipocrisia e Hitler e Estaline já lá vão e resumindo é não tem sentido em 2010 as perseguições a pessoas de 80 e 90 anos , feitas por criminosos iguais, caso de Israel, quem os condena pelos milhares de mortos, penso assim que a história terá que situar-se no contexto lato da palavra e quando a Stone, já se passou h`algum tempo. Acho que se puna é hoje em dia os assassínios que por aí andam impunes e deixemos de mexer em passados, só outro ponto de vista, os franquista que mataram milhares de milhares, alguem os persegue, hoja em dia...

PortoMaravilha disse...

@ Anónimo

Bela retórica que peca por ter esquecido o essencial do que escrevi :

O Nazismo utilizou e conceptualizou , pela primeira vez na história da Humanidade, o corpo Humano como matéria prima em escala industrial , para a fabricação de objectos diários.

Fico-me por aqui !

Nuno