quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

O sangue em Tarantino


Quentin Tarantino, ainda a gozar das boas críticas ao seu recente "Inglourious Basterds", disse em Londres (na Academia de Cinema e Televisão), que a violência é o elemento mais atractivo do cinema. "A violência é genial, vês um filme porque há violência e esta afecta o público de forma tremenda", referiu o cineasta. Para que um filme seja impactante, Tarantino defende que se deve mostrar muito sangue no grande ecrã porque "quando alguém recebe um tiro no estômago, deve sangrar como um porco e isso é o que quero ver, não uma pequena e insignificante mancha vermelha no meio da barriga", defendeu.
Nada que já não se soubesse das intenções do cinema de Tarantino. O seu gosto pela violência explícita, fortemente influenciado pelo cinema violento de Sam Peckinpah, cedo se revelou no filme de culto "Cães Danados" (1992), com Mr. Orange (Tim Roth na imagem) a esvair-se em sangue durante tormentosos minutos. No entanto, apesar das palavras de Tarantino não soarem a novidade, encaro-as como algo redutoras e até simplistas do seu cinema. Os filmes de Tarantino são muito mais do que mera apologia da violência gráfica, até porque não concordo que a violência seja a coisa mais atractiva no cinema, como refere o realizador de "Kill Bill". Felizmente que continua a a haver muito e bom cinema sem que haja recurso a violência - pelo menos violência visual.
Basta lembrar o cinema do recém desaparecido Eric Rohmer, autor de um cinema altamente depurado, narrativo até à medula, com recurso à palavra e ao mais puro do realismo. E, sem quaisquer resquícios de violência ou de sangue, não é por isso que o seu legado cinematográfico deixa de ser rico e grandioso.

7 comentários:

cão sem raiva disse...

100% de acordo.
Até porque os Grandes filmes nada têm de minimamente violentos.
Tarantino está a ser ele próprio, puxando a brasa à sua sardinha... Muita gente gosta. Por mim, dispenso.

rui resende disse...

pois, há várias coisas. A primeira é que embora apreciando algumas coisas que o Tarantino faz bem, e fiquei bem impressionado com o inglorious basterds, não é ele que muda a minha vida e os meus sonhos, como fazem outros. No entanto, para quem o encarar como um artista real e profundo, e há muitas pessoas que o fazem, eu só acho que não poucas vezes (senão a maioria) os artistas são as piores pessoas para avaliarem o seu próprio trabalho. Quem ler essas afirmações do tarantino sem ter nunca visto um filme dele vai pensar que o tipo realiza Rambos.

A outra coisa é que as palavras chaves do discurso devem ser "explícito" e "gráfico", não "violento". Tenho muito respeito pela palavra violento para achar que um filme como inglorious basterd ou o reservoir dogs são violentos. Violento é a Laranja Mecânica, o Padrinho, ou o Yojimbo. Esses é que nos acertam bem no meio do estômago quando assistimos a eles. Esses é que nos deixam de rastos, esses é que são violentos. o Hitler com 1000 tiros em cima, é um grafismo.

Maléfico Patético disse...

O titulo do post e a foto fez-me lembrar disto :

"During filming, a paramedic was kept on the set to make sure that Mr. Orange's (Tim Roth) amount of blood loss was kept consistent and realistic to that of a real gunshot victim."

tirado do imdb.

analima disse...

Comparar Tarantino com Eric Rohmer não é fácil mas gostei que o tivesse feito. Também prefiro o segundo mas, visualmente, os filmes de Tarantino são muito “ricos”. Claro que há filmes muito violentos que não incluem qualquer vestígio de sangue. Mas felizmente não sofro, como um amigo meu, de “hemofobia cinematográfica”.

João Lisboa disse...

""During filming, a paramedic was kept on the set to make sure that Mr. Orange's (Tim Roth) amount of blood loss was kept consistent and realistic to that of a real gunshot victim."

Vinha aqui dizer isto mesmo... :)

para, a "explícito" e "gráfico", acrescentar "maniacamente realista".

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Na verdade, desconhecia essa vertente maníaca do Tarantino.

Rui Herbon disse...

Um dos filmes mais violentos que vi foi o Funny Games, do Haneke (primeira versão; não vi a outra), onde se prova que a sugestão da violência pode ser mais eficaz que a violência explícita.