quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Perspectivas sobre o ferro de engomar


"Cadeau" de Man Ray é uma das obras mais emblemáticas do dadaísmo. Este ferro de engomar com pregos, um "ready made" na linha dos trabalhos de Marcel Duchamp, desafia a lógica racionalista da utilização de objectos do quotidiano. Isto é, o artista usa um objecto do dia-a-dia e recontextualiza-o esteticamente.
Vem isto a propósito de uma curiosa passagem do livro "A Volta ao Dia em 80 Mundos", de Júlio Cortázar. Conta o escritor argentino que, numa exposição em Genebra na qual se expunha esta obra de Man Ray, duas mulheres conversavam sobre a estranha obra de arte:

- No fundo não é assim tão diferente do meu ferro de engomar.
- Como assim?
- Sim, com este picas-te e com o meu queimas-te.
______________
Moral: o pragmatismo pode ser um bom critério de avaliação artística.

5 comentários:

PortoMaravilha disse...

Um blog que cita M Duchamp e Cortazar só pode se um excelente blog.

Todavia, posso me enganar, mas para mim M. Duchamp não é Dadaista. Antes surrealista.

Bom... Talvez bate papo pra outro espaço... ?

Nuno

Flávio Gonçalves disse...

Duchamp é dadaísta, sim.

(já agora, o livro é bom?)

Abraço

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Sim, Duchamp é dadaísta e o livro é bom (só agora comecei a ler).

analima disse...

Os critérios de avaliação artística são, de facto, múltiplos. E este será um deles. A história é deliciosa. Sendo eu fã de Julio Cortázar (o livro está comprado mas a leitura ainda não foi iniciada) gostei muito de ler este post.

PortoMaravilha disse...

Efectivamente, é difícil classificar Duchamp já que ele atravessou o dadaísmo, o cubismo e o surrealismo.

Posso me enganar ( e não quero estar a deturpar o pensamento de Duchamp ) mas , houve, quanto a mim, uma aproximação importante entre Duchamp e André Breton , aquando a organização da exposição internacional em 1938.

Paralelamente, no "Almanach Surréaliste du demi siecle -1950" , (ed La Nef ) Duchamp aparece como um autor não forçosamente surrealista , mas ganho às ideias surrealistas.

Postei hoje no cosmeticas ( não é meu hábito fazer publicidade ) um dos aspectos da arte Bororo (Mato Grosso ). Não deixa de ser questionante que os surrealistas que tanto mergulharam, por assim escrever, na arte sul Americana tenham esquecido um pouco o Brasil.

Nuno