domingo, 14 de março de 2010

"Shutter Island": a vertigem da loucura


Já não era sem tempo: finalmente vi "Shutter Island" (numa sessão de fim de tarde com apenas mais 6 espectadores na sala). Neste blogue já tinha sido comentado e discutido, com opiniões muito distintas, neste post.
E o que dizer deste thriller disfarçado de policial de Martin Scorsese? Que nos mergulha numa insana viagem aos mistérios da mente humana? Que é um estudo fascinante sobre a loucura e a paranóia? Que todo filme é um tratado de cinefilia? Que mostra, mais uma vez, porque é que DiCaprio é um dos grandes actores da sua geração? Sim, pode-se dizer isto e muito mais.
Posso dizer, também, que o filme é um portentoso exercício formal e estético, com nenhum plano a mais nem a menos, e uma montagem de excelência (mais uma vez, pela mão da montadora Thelma Schoonmaker).
Posso acrescentar que só pode gostar desta obra quem gosta do legado do film noir dos anos 40, do terror psicológico de Hitchcock, da loucura do manicómio de "Shock Corridor" de Sam Fuller, ou dos abismos da sinistra mente de Dr. Mabuse de Fritz Lang. Scorsese prova que se encontra no apogeu da aplicação dos seus conhecimentos enciclopédicos na arte de filmar, com uma visão artística cirúrgica que poucos cineastas possuem.

"Shutter Island", sem ser genial, é pura adrenalina cinematográfica, puro deleite para os sentidos. Sim, porque a forma com a música é utilizada - à semelhança de "The Shining" de Kubrick - amplifica toda a intensidade emocional da história. Sim, porque a brilhante fotografia adensa o clima de claustrofobia labiríntica, com as tonalidades escuras da prisão-manicómio a sobreporem-se na mente do espectador. A história é superiormente conduzida por Scorsese (o argumento é um quebra-cabeças fascinante que deixa colado à cadeira o espectador), com um crescendo de intensidade e loucura e uma inigualável qualidade na direcção de actores. Ben Kingsley, Mark Ruffalo, Max von Sydow e Leonardo DiCaprio, compõem um elenco interpretativo único.
DiCaprio é fulgurante na forma como encarna um personagem atormentado pelo seu passado e mergulhado numa crescente espiral de medo, angústia e alucinação. É mesmo, quanto a mim, a sua melhor intepretação de toda a carreira. Houve quem afirmasse que os flahsbacks eram cansativos e redundantes. Achei precisamente o contrário. São até dos momentos mais bem filmados do realizador - veja-se a sequência do fuzilamento em Dachau - e necessários para perceber toda a teia dramática que o enredo invoca.
Brilhante, portanto.

11 comentários:

Anónimo disse...

Boas
Costumo ler o blog todos os dias(porque é bom e peculiar), porém esta é a primeira vez que comento.
Quanto ao filme, já discuti o filme imensas vezes, pff diga-me o que acha? dá para concluir alguma coisa no final?
Uns(quase todos) dizem que ele é louco e deixam-se levar pelo que é mais perceptível de acreditar.
A meu ver os seus(do DiCaprio) primeiros objectivos eram os verdadeiros e quando ele vai enfrentar o "boss" e contam-lhe a putativa verdade é pq já estava alucinado e já "jogavam" com ele pelas coisas que ele tomou à priori, coisas essas que a (não me recordo do nome da mulher q estava na gruta lol) o alertou para não tomar (comer/beber/fumar etc etc). E é pela incerteza que o filme se torna autêntico e esplêndido..

p.s:.Já vi o filme há quase 1 mês não me leve a mal se baralhei alguma coisa.

Vasco, abraço

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Pois, o final do filme presta-se a várias interpretações. Visto que a segunda parte da história recorre a twists constantes em que a realidade e a alucinação se confundem, torna-se difícil apontar um final devidamente esclarecedor. No entanto, sem querer causar spoliers para quem ainda não viu o filme, eu julgo que o final é uma mistura do resultado de insanidade de DiCaprio com manipulação da direcção da prisão-manicómio.

Ao contrário de pessoas que preferem o comodismo de um final de filme objectivo e claro, eu gosto de finais abertos à imaginação do espectador.

Manuela Coelho disse...

Estou mortinha por ver o filme;)

Nekas disse...

Eu penso que o descreves da forma necessária, um retrato noir do anos 40 com de tudo um pouco...
Um filme muito bem filmado e muito bem interpretado com uma história muito bem escrita e com espantosos twists!

E achei os flashbacks espectaculares até porque a sua montagem em relação à cor perante o hospital psiquiátrico foi espantoso!

Abraço
Cinema as my World

PortoMaravilha disse...

Olha aqui vão as entradas do box office em França ( vo e vf misturados ) de 24 / 2 a 2 / 3 :

Shutter Island : 1 073 540 entradas

La Princesse et la Grenouille : 393 011

Le Mac : 372 585

Avatar : 327 524

Valentins's day : 292 453

Oceans : 249 354

Sherlock Homes : 242 919

De notar a contínua presença de Oceans. E o aparecimento progressivo de "Le Mac "

Avatar continua . Se não é ainda um mito já é mitologia.

Victor, leste o livro antes de ver o filme ?

Eu não li o livro nem ainda vi o filme ( tenciono vê-lo ).

Em contrapartida, penso que o filme não tem assim tanta aceitação porque é extracto duma obra ainda recente ( Shutter Island ganhou o prémio das leitoras da revista "Elle" em 2004 )

Existe sempre essa problemática da adaptação dum texto ou duma Bd ao ecrã. Esta trava muito. Conheço muita gente , até aqui em casa , que me disseram : Li o livro não vou. Algo que foi um pouco diferente com o Senhor dos Aneis. Entretanto, tempo tinha passado entre duas gerações.

Também estou curioso quanto à adaptação de Tintin ao cinema ( já escrevi no cosmeticas sobre o assunto ).

Eu irei ver o filme .

Mas não deixa de ser curioso esta atitude ( quem tem razão ou não, não sei ) : Um livro é um livro , uma Bd é uma Bd , um filme é um filme ?

Nuno

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

Nuno: de certeza que esses dados estão correctos? 300 mil espectadores apenas para o Avatar, e mais de um milhão para o Shutter?! Se é verdade, é um bom indicador.

PortoMaravilha disse...

Victor : São dados respeitantes à semana de 24 de fevereiro a 2 de Março . A fonte é "Télé magazine, p. 25 ( de 20 a 28 de Março , nº 2837 )

Lembra que houve semanas em que o "Avatar " ultrapassou alegremente 3 milhões de entradas.

Mas concordo contigo é um bom indicador , para " Shutter Island ".

Nuno

F disse...

O Shutter Island fez-me muito lembrar o Malpertuis:
http://www.youtube.com/watch?v=TwOtUe8TBTM

O Homem Que Sabia Demasiado disse...

F: aí está um filme que nunca vi: "Malpertuis". Vou ver se trato de o arranjar.

Anónimo disse...

Uma curiosidade. Se ele (diCaprio) era paciente na clínica e já la estava a algum tempo, porque chegou ele de barco?

Anónimo disse...

Isso não nos diz nada...apenas pode ter sido uma encenação para ele acreditar em tudo...

Eu continuo a achar q ele estava lucido quando encenou que estava louco.

Acho que ele encenou que estava louco porque seria preferivel morrer do que sujeitar-se a uma vida la como louco