terça-feira, 16 de junho de 2009

Do CCB, gosto da vista, da Gulbenkian, o jardim

Retirei de propósito a letra do refrão da canção mais conhecida dos Deolinda, "Fon Fon Fon", porque o que me parece mais interessante são as três quadras que fazem parte da canção e se seguem: repletas de ironia, humor e sagacidade (diria mais: reflectem uma visão da música e da cultura muito característica de certas pessoas):

Os meus pais já me disseram:
Ó Filha, não sejas louca!
Que as Variações de Goldberg
p'lo Glenn Gould é que são boas!

Mas a música erudita não faz grande
efeito em mim: do CCB, gosto da vista;
da Gulbenkian, o jardim.
Gozam as minhas amigas
com o meu gosto musical
que a cena é “electroacústica"
e a moda a “experimental”...

E nem me falem do rock,
dos samplers e discotecas,
não entendo o hip-hop,
e o que é top é uma seca!

Quem quiser ouvir a música.

5 comentários:

Rita disse...

Na muge!! ;) Estes Deolinda são de facto excepcionais... ainda não comprei o CD mas tenciono fazê-lo muito em breve!

A&A disse...

Não percebo a razão deste post, num blog com a inteligência como motivo, nem o deslumbre de muita gente com estes tipos. São das coisas mais reaccionárias, pobres e parolinhas de que há memória na música recentemente feita em Portugal. Como dizia o Pedro Mexia, numa das suas crónicas, é difícil perceber aqueles tipos que até têm educação e fazem gala em dizer que não gostam de ler livros. Uma ideologia de "o que é popular é que é bom" tem levado a fenómenos de legitimação de coisas que pasmam. E pensar que há vinte anos o que era estimulante eram coisas como Pop Dell Art, Mão Morta, Mler If Dada ou Três Tristes Tigres. Felzimente, há quem reme no sentido contrário.De qualquer forma, parabéns pelo blog.

Victor Afonso disse...

É sempre perigoso fazer juízos de valor antecipados. Eu nunca referi no meu post que os Deolinda são a coisa musical mais estimulante da actualidade. Apenas referi que acho interessante a letra desta canção, que denota reaccionarismo, como é óbvio, mas que é absolutamente intencional e assumido. A letra tem muito de irónico que se aplica a mentalidades muito esteretipadas - e os Deolinda têm na mira essas mentalidades. Os músicos são tipos cultos e com formação musical sólida e que sabem o que estão a fazer; não são grunhos que saíram das tascas dos bairros populares de Lisboa e fazem umas musiquetas para a populaça. O que fazem é recuperar esse imaginário popular da tradição bairrista (estética e musicalmente) de forma original, goste-se ou não, com uma roupagem mais contemporânea (com um pé na linguagem pop e outro na tradição do fado "castiço"). Não são nenhuma referência incontornável (pelo menos por agora), mas são bem melhores e mais interessantes do que muita da produção musical portuguesa da actualidade.
Quanto às bandas referidas que há 20 anos eram o farol da música mais estimulante - Mão Morta, Mler Ife Dada, Pop Dell'arte, etc - concordo absolutamente. Aliás, conheço de trás para a frente a obra destes artistas (acompanhei-a desde os primórdios) e até trabalhei directamente com alguns deles. Mas acho completamente despropositado querer comparar um objecto como os Deolinda com os Mão Morta ou Pop Dell'Arte. São abordagens e conceitos totalmente distintos.
Quanto ao elogio sobre o meu blogue, obrigado.

A&A disse...

Victor, longe de mim fazer juízos antecipados em relação a um fenómeno que está nas bocas do "mundo luso" vai para mais de um ano. Convirá que dificilmente se poderá classificar esse agrupamento como o segredo mais bem guardado cá do sítio. A minha apreciação baseia-se no facto de, volta e meia, tropeçar numa dessa canções ligeiras saídas do tal disco. Agradeço a tentativa que faz de me explicar o fuso estético dos rapazes (e rapariga), mas, na minha opinião, se há coisa da qual eles padecem é de a sua música ser caricaturalmente explícita. Parece-me demasiado óbvia nas suas intenções de "reler" a tradição de forma irónica. O que, naturalmente, não tem piada nenhuma. No fundo, eles dizem-nos na sua retórica fácil que bom, bom, é ser assim um português suave. Tudo muito mão na anca, a sublinhar o que se supõe ser a portugalidade como apreendida pelos pais nos bancos da escola primária. Há, incomparavelmente, muito mais ironia - para já não falar em sofisticação musical - no JP Simões ou nos Gaiteiros de Lisboa. Ou, pasme-se, mesmo no Rui Reininho.E, já agora, concordará comigo, é algo atabafante que uma parte substancial da música popular feita por cá seja obstinadamente nacionalista. Sem aspas. Já tivemos os Heróis do Mar, que foram um marco de inteligente interpretação dessa coisa de ser português ligeiro.Mas não precisamos de ser tão centrados em nós mesmos. Fazia sentido durante o Romantismo, não em 2009. Por fim, o Victor, que é músico, de certo concordará que o panorama Jazz nacional é bem interessante. Saudações musicais.

Victor Afonso disse...

Percebo o que quer dizer. Claro que os Gaiteiros de Lisboa ou o JP Simões - ou A Naifa - são projectos construidos numa maior solidez estética cimentada numa reinterpretação da tradição musical portuguesa.

E claro que o panorama do jazz nacional está a passar - desde há uns anos a esta parte - por um bom período criativo. Só que não tem o mediatismo dos Deolinda...