sábado, 20 de junho de 2009

Medo da música?


Estava a folhear a revista The Wire quando reparei no destaque dado a um livro com o sugestivo título "Fear of Music: Why People Get Rothko But Don’t Get Stockhausen", lançado há pouco tempo no mercado britânico. O autor é David Stubbs, jornalista especializado em música de cariz mais experimental e vanguardista com larga experiência na crítica musical em jornais/revistas como NME, Guardian, The Wire, Uncut, entre outras. O ponto de partida deste livro é muito, mas mesmo muito interessante: a arte moderna é um fenómeno de massas, sendo que as obras de artistas vanguardistas e experimentais como Mark Rothko, Francis Bacon ou Damien Hirst são bem acolhidas pelo público (como atestam as grandes afluências aos museus de arte contemporânea ou a atenção da comunicação social), enquanto que a música com raízes históricas e estéticas semelhantes, não recebe o mesmo tratamento.
Dito de outra forma, apesar da vanguarda estética ligada às artes plásticas e à música ter surgido, grosso modo, num mesmo contexto histórico e num percurso evolutivo paralelo, a música de cariz experimental (com o paradigma centrado no compositor alemão Stockhausen e no americano John Cage) nunca foi tão bem aceite como as artes plásticas experimentais. Porque é que as pessoas têm "medo da música" mais vanguardista e não têm preconceitos em aceitar as obras abstractas de um Rothko? Será porque as pessoas "compreendem" melhor a linguagem plástica do que a musical/sonora? Têm naturalmente menos predisposição intelectual e curiosidade artística para a música experimental? É uma linguagem mais hermética, cerebral, enquanto que as artes plásticas, por serem visuais, se tornam mais acessíveis? Há uma valorização cultural distinta entre a criação musical e a plástica?
Eu ainda não li o livro, mas talvez David Stubbs contribua para esclarecer o assunto.
O livro pode ser folheado aqui.

4 comentários:

LN disse...

Interessante. A música experimental não é tão popular como as plásticas avant-garde porque, exactamente, é uma expressão artítsica que convive de forma muito mais abrasiva no dia-a-dia da generalidade. E depois há a aliança das instituições culturais com a arte transgressiva, subversiva. O escândalo hoje vende. Nos séculos da Era Moderna, vendiam os académicos ao representar o mundo, Deus e família. De uma forma sintética, porque existem dezenas de factores e problemáticas do ponto de vista do utilizador e rementente, mais vastas.

(alguém que se lembre de editar em PT sff)

Victor Afonso disse...

É isso.

Esperar que alguma editora portuguesa arrisque editar em pt é o que iremos ver. Há tantos livros que não chegam cá...

Beep Beep disse...

Vai para a lista de compras, PT ou não. Concordo com o que dizes sobre a parte visual.

F disse...

Mais uma vez obrigada pela informação. Neste momento encontro-me a ler Musicofilia, do qual tomei conhecimento aqui.
Este, Fear of Music, também me parece interessante.
Com toda a minha ignorância arriscar-me-ia a aventurar a hipótese de que, se calhar, a música é mais invasiva do que a imagem. A música estimula de forma mais "física" o nosso cérebro.
Depois, tudo vem da educação (no sentido de aprendizagem) do hábito de ouvir, de nos sabermos situar no contexto sonoro para nos sabermos / podermos sintonizar.
Daniel Tamnet, afirma que quantas mais línguas soubermos, mais fácil se torna aprendermos outras línguas novas. Julgo que com a música acontecerá o mesmo (... e pensando bem, provavelmente será assim com tudo... será uma função da cultura: tornar o espírito mais elástico).