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sábado, 13 de setembro de 2014

Música que se desintegra

Ainda a propósito do 11 de Setembro - este vídeo deve ser dos mais simples e belos momentos de homenagem aos mortos da tragédia: o compositor americano William Basinski filmou num único plano fixo, a partir do terraço do seu apartamento de Brooklyn, a enorme coluna de fumo proveniente dos destroços da torres gémeas. E filmou esta cena rigorosamente até o fumo ser obscurecido pelo anoitecer desse primeiro dia de horror.

Para musicar esta sequência filmada, Basinski utilizou as suas peças "Desintegration Loops" (são quatro peças), nas quais parece ouvir-se uma espécie de orquestra onírica e lânguida a desintegrar-se suavemente em câmara lenta. É uma banda sonora perfeita para o processo lento do fumo e do escurecimento do dia, como que servindo de elegia lírica e imortal à tragédia que assolou a América.
 

quarta-feira, 23 de julho de 2014

Rock para o Verão

Um quarteto de Brooklyn com visual de jovens surfistas da Califórnia fazem um rock de guitarras a meio termo entre os The Feelies de boa memória e uns Velvet Underground mais regrados. São os Parquet Courts e esta música serve para acompanhar as tardes de sol e calor deste verão. 
 Enjoy. 

sábado, 25 de janeiro de 2014

Improvisação que corre bem

Todos sabemos que no acto de representar dos actores pode haver lugar à improvisação (quando os realizadores permitem) que, por vezes corre bem, outras corre mal. Mas quando as situações - sobretudo os diálogos - resultam bem, acabam por ficar na montagem final. Mais: às vezes até ficam para a história como momentos icónicos e de culto de determinado filme.
Por exemplo: é do conhecimento geral que a frase "You Talkin' to Me?" no clássico "Taxi Driver" de Scorsese foi totalmente improvisada no momento por Robert De Niro.
Ora, eis aqui mais 9 situações memoráveis de filmes cujas improvisações dos respectivos actores acabaram por enriquecer o filme.

quinta-feira, 10 de outubro de 2013

Wim Wenders fotógrafo

Para quem não sabe, Wim Wenders é, para além de um excelente cineasta, um fotógrafo de notável talento. Wenders dedica-se à fotografia há muitos anos, como uma espécie de actividade complementar ao "olho do realizador".
Gosta de fotografar a realidade tal como ela se apresenta aos seus olhos, sem retoques ou truques de Photoshop. O realizador refere, até, que é um "fotógrafo da velha escola", não só pela lado estético, como também pela utilização de máquinas fotográficas manuais clássicas.
Vem isto a propósito de uma exposição em Espanha de fotografias de Wim Wenders que revela o seu olhar sobre acontecimentos trágicos como o 11 de Setembro ou o desastre nuclear de Fukushima.
Mais informação no jornal espanhol El Mundo.

quarta-feira, 11 de setembro de 2013

11 de Setembro: 12 anos


Passam hoje 12 anos dos ataques do 11 de Setembro e o cinema ainda não produziu assim tantos filmes quanto isso sobre este trágico acontecimento. Mas talvez não seja de admirar: doze anos ainda é um tempo relativamente curto para o devido amadurecimento emocional, um sarar das feridas e para um distanciamento mais objectivo dos factos (não esqueçamos que os grandes filmes sobre a guerra do Vietname só surgiram depois de mais de dez anos sobre o fim do conflito).
Sem contar com os documentários televisivos e de canais temáticos (foram muitos, com o controverso "Loose Change" à cabeça) os filmes que considero mais interessantes feitos sobre os ataques ao World Trade Cebter e ao Pentágono (e todo o seu contexto social e emocional posterior) foram os seguintes - por ordem de preferência pessoal:

1 - "Voo 93" (2006) - Paul Greengrass
2 - "11/09/01 - 11 Perspectivas" (2002) - Vários realizadores
3 - "Fahrenheit 9/11" (2004) - Michael Moore
4 - "A Última Noite" (2002) - Spike Lee
5 - "World Trade Center" (2006) - Oliver Stone
6 - "9/11: The Falling Man" (2006) - Henry Singer
7 - "A Caminho de Guantánamo" (2006) - Michael Winterbottom

terça-feira, 23 de julho de 2013

Fnac: promoção imbatível

A cadeia de lojas Fnac é frequentemente criticada por promover uma política de preços elevada. Pois bem, para contrariar esta opinião e para comemorar os seus 15 anos de vida em Portugal, a Fnac resolveu dinamizar uma promoção imbatível (exclusiva no site) ao nível dos mais variados produtos: livros, DVD, tecnologia, CDs e instrumentos musicais. Há produtos que começam nos 5€ e que chegam aos 80% de desconto.
Só para dar alguns exemplos: que tal comprar a caixa de filmes de Max Ophuls ou de Douglas Sirk por apenas 15.90€ (quando o preço original é de 40€)? Ou os clássicos da literatura contemporânea como Philip Roth, John Updike, Roberto Bolaño ou Martin Amis por apenas 8€ ou 9€? E há muito mais... Não se atrase porque esta promoção só decorre até esta quarta-feira e pesquise pelos seus produtos culturais favoritos aqui.

domingo, 11 de setembro de 2011

"The Falling Man"


Das milhares de imagens que o ataque ao WTC revelou ao mundo, há uma que nunca esquecerei e que se tornou uma espécie de símbolo desse dia - fez manchete em muitos jornais nos dias seguintes aos atentados (não sem polémica à mistura): a fotografia, tirada pelo fotojornalista Tom Junod, de um homem em queda livre da Torre Norte do World Trade Center.
Naquele fatídico dia 11/9, cerca de 200 pessoas lançaram-se (ou caíram) para o vazio da morte, desesperadas perante o terrível sufoco do fumo e do fogo. As autoridades que prestavam auxílio (antes do desabamento das torres), disseram mais tarde que o som dos corpos a cair nos passeios era aterrador. Nada nem ninguém podia ajudar a avalanche de corpos em queda livre.

O fotógrafo captou estas imagens de um corpo que aparenta serenidade e determinação, em perfeita simetria com as linhas do edifício. Parece um corpo decidido a projectar-se para o vazio, controlando a sua trajectória no ar, quase como um falcão a atacar uma presa em terra. Mas não. O homem caía totalmente fora de controlo, desamparado, a uma velocidade estonteante. No segundo a seguir, o seu corpo rodopiou, o vento arrancou-lhe a camisa e, provavelmente, terá morrido de choque ainda antes de chegar ao solo.

Com o objectivo de identificar o homem desta fotografia icónica, para atribuir alguma heroicidade ao seu acto desesperado, para descobrir porque é que a imagem foi banida nalguns jornais e revistas de todo o mundo, o realizador Henry Singer investigou e fez um documentário intitulado "9/11 - The Falling Man" (2006). O documentário nunca envereda por um sensacionalismo fácil, é sereno, respeituoso e objectivo na sua pesquisa. "The Falling Man" é um homem, um corpo, mas é também o símbolo de toda uma nação alvejada por uma torrente de violência que mudaria o mundo.

O documentário está disponível para visualização aqui.


Nota: "O Homem em Queda" é também o título de um livro do escritor norte-americano Don DeLillo, mas que, segundo o próprio, nada tem a ver com este homem que caiu da torre.

sábado, 11 de setembro de 2010

11 de Setembro: "O Homem em Queda"


Passam 9 anos depois dos ataques do 11 de Setembro em Nova Iorque.
Das milhares de imagens que esta tragédia revelou ao mundo, há uma que nunca esqueci e que se tornou uma espécie de símbolo desse dia - fez manchete em muitos jornais nos dias seguintes aos atentados: a fotografia, tirada pelo fotojornalista Tom Junod, de um homem em queda livre da Torre Norte do World Trade Center. Naquele fatídico dia 11/9, cerca de 200 pessoas se lançaram (ou caíram) para o mortal vazio, desesperadas perante o sufoco do fumo e do fogo.
As autoridades que prestavam auxílio (antes do desabamento das torres), disseram mais tarde que o som dos corpos a cair nos passeios era aterrador. Nada nem ninguém podia ajudar a avalanche de corpos em queda livre.
O fotógrafo captou estas imagens de um corpo que aparenta serenidade e determinação, em perfeita simetria com as linhas do edifício. Parece um corpo decidido a projectar-se para o vazio, controlando a sua trajectória no ar, quase como um falcão a atacar uma presa em terra. Mas não. O homem caía totalmente fora de controlo, desamparado, a uma velocidade estonteante. No segundo a seguir, o seu corpo rodopiou, o vento arrancou-lhe a camisa e, provavelmente, terá morrido de choque ainda antes de chegar ao solo.
Nunca se determinou, a 100%, a identidade deste homem.
Com o objectivo de identificar o homem desta fotografia icónica, para atribuir alguma heroicidade ao seu acto desesperado, para descobrir porque é que a imagem foi banida nalguns jornais e revistas de todo o mundo, o realizador Henry Singer investigou e fez um documentário intitulado "9/11 - The Falling Man" (2006).
O documentário nunca envereda por um sensacionalismo fácil, é sereno, respeituoso e objectivo na sua pesquisa. "The Falling Man" é um homem, um corpo, mas é também o símbolo de toda uma nação alvejada por uma torrente de violência que mudaria o mundo.
O documentário está disponível para visualização aqui.


Nota: "O Homem em Queda" é também o título de um livro do escritor norte-americano Don DeLillo, mas que, segundo o próprio, nada tem a ver com este homem que caiu da torre.

quinta-feira, 11 de setembro de 2008

11 de Setembro - onde está a verdade?


Passam hoje 7 anos dos fatídicos acontecimentos do 11 de Setembro. 7 anos que mudaram a nossa percepção do mundo. O acontecimento mais marcante deste início de século e de milénio. Nestes 7 anos escreveram-se centenas de livros sobre os atentados, dezenas de documentários, milhões de páginas na internet, com informação a rodos sobre os mais diversos pontos de vista acerca do acontecimento que derrubou a suposta segurança inviolável dos EUA. Ou será que não? Políticas de esquerda e de direita à parte, a verdade é que, para o cidadão comum, subsistem muitas pontas de solta por esclarecer. A versão oficial ("The 9/11 Commission Report") continua a não saber - ou não querer - responder e explicar dezenas (centenas) de questões fundamentais e de contradições sobre os acontecimentos do 11 de Setembro. No seio da própria América, crescem, de ano para ano, movimentos e associações de cidadãos anónimos (bem como de personalidades influentes na sociedade americana - de cientistas a escritores) inconformados com as lacunas de informação que não explicam tudo e que levantam fortes suspeitas de encobrimento de factos. É o caso do The 9/11 Truth Movement, uma organização séria e compenetrada que pretende investigar as raízes do 11 de Setembro e que defende a responsabilidade do Governo americano nos atentados - "inside job".

O sítio http://patriotsquestion911.com/, por exemplo, informa que 140 oficiais superiores das forças armadas, responsáveis de serviços de inteligência e polícias dos EUA põem em causa a versão oficial, assim como 530 engenheiros e arquitectos, 120 pilotos e profissionais da aviação, 300 professores, 210 sobreviventes e familiares das vítimas do 11/Set e 160 artistas e profissionais dos meios de comunicação. Só a título de exemplo, pilotos civis e militares, com larga experiência de voo, consideram que é impossível que os alegados terroristas, manifestamente amadores, tenham conseguido efectuar manobras de extrema complexidade e precisão de cariz militar num avião como um Boeing.


Dylan Avery é um jovem realizador que começou a reunir indícios que apontavam para a possibilidade de os ataques de 11 de Setembro de 2001 poderem não ter sido orquestrados por Bin Laden ou membros da Al Qaeda, mas pelo governo norte-americano ou por altas instituições militares. Esta perspectiva é uma perspectiva verdadeiramente apocalíptica, aterrorizante e, para aqueles que acreditam numa tal democracia, devastadora. Dylan Avery reuniu a informação para colocar em causa a versão oficial dos acontecimentos e lançou o filme na Internet - "Loose Change", considerado o primeiro "blockbuster" produzido especificamente para a rede digital. Na altura, este documentário causou um eco mediático sem precedentes, já que foi visto por milhões de pessoas e comentado por outros tantos. Muitos sugeriram que "Loose Change" não passava de um infindável chorrilho de suposições sem provas. Mas a questão aparenta ser bem mais complexa. Não se trata apenas de devaneios fantasistas oriundas de obscuras teses da conspiração. Algumas das questões levantadas pelo documentário, mais tarde exploradas por outros documentários e analistas, são verdadeiros barris de pólvora que carecem, ainda hoje, de explicação plausível - impacto do avião no Pentágono, razões da derrocada das torres gémeas e da torre 7 do WTC, a não actuação da força aérea militar para impedir os ataques aéreos, as contradições das agências de informação informação dos atentados, a queda ou abate do avião que caiu na Pensilvânia, o som de explosões sucessivas segundos antes da derrocada das torres, entre dezenas de outros assuntos pertinentes.
Dylan Avery levanta fortes dúvidas e coloca em causa, do princípio ao fim, a versão oficial dos acontecimentos. O documentário "Loose Change" vai já na sua terceira e definitiva versão ("Final Cut"). Em cada nova versão, Avery acrescenta novos dados e estuda- novas linhas de investigação. Especulação? Charlatanice? Devaneios? Factos infundados? A política dita séria e institucional também goza destas características. Dylan Avery pode ser um louco fantasista sem remissão, mas quem sabe se um dia a história não lhe dará (parcial ou totalmente) razão pelos argumentos que apresenta. E mesmo que não o documentário não prima por grande rigor factual, "Loose Change" tem pelo menos o mérito de estimular o debate de ideias à volta de um tema sobre o qual, digo eu, dificilmente se saberá algum dia a verdade toda.
Para ver "Loose Change - Second Edition" com legendas em português abrir o link.
PS -
Apesar da série de documentários "Loose Change" ser a mais conhecida e comentada, nos últimos anos têm surgido outros inúmeros documentários que apontam explicações alternativas face à versão oficial do 11 de Setembro.

sexta-feira, 5 de setembro de 2008

Zizek: um novo olhar sobre o cinema


É o filósofo do momento. O filósofo que não se resigna apenas a ser filósofo, uma vez que se tornou quase numa espécie de figura académica da cultura pop contemporânea. Por onde passa a dar conferências - desde universidades conceituadas de todo o mundo a espaços culturais alternativos - como a portuguesa Fábrica de Braço de Prata (onde esteve em Julho último), deixa um rasto de inteligência, cultura e humor (há vídeos no YouTube que comprovam o seu sentido de humor "nonsense"). Extravasa, com a mais desconcertante facilidade intelectual, as fronteiras rígidas dos objectos de estudo convencionais da filosofia, e acrescenta ao seu método de análise temas como psicanálise, cinema experimental, música pop, sexo, literatura, linguística, sociologia, teoria da cultura de massas, cibernética, entre outros.
O esloveno Slavoj Zizek representa esta figura cultural pluridisciplinar, observando a realidade social, política e cultural sob os mais diversos ângulos possíveis, como se fosse o rosto crítico da globalização neo-liberal. Conheci o autor quando editou em Portugal o livro "Bem-Vindo ao Deserto do Real" (Relógio D'Água, 2006). Uma obra em que, partindo do filme "Matrix" e de toda a sua ideologia da "falsa realidade", propunha uma análise crítica das complexidades do mundo actual, sobretudo a partir dos desafios políticos impostos com o 11 de Setembro e suas consequências. A sua escrita, apesar das múltiplas referências à cultura popular, nem sempre é de fácil inteligibilidade, dado que o seu pensamento se desdobra em conceitos filosóficos, psicanalíticos, sociológicos e culturais. No entanto, da explanação das suas ideias saltam sempre motivos fortes de reflexão para o leitor, seja em que terreno temático for. A argúcia como interliga conceitos tão dispersos e os liga de forma coerente, revela um pensador que tem consciência clara que escreve/fala tanto para o público erudito/iniciado, como para o público leigo/popular (à falta de melhor classificação...).
O seu último livro, recentemente editado pela editora Orfeu Negro, "Lacrimae Rerum", é um conjunto de quatro ensaios sobre a semiótica do cinema, particularmente, de quatro realizadores: Kieslowski, Hitchcock, Lynch e Tarkovski. Sendo que três dos meus cineastas preferidos são os três últimos referenciados, não poderia deixar de me aventurar na leitura do livro. O ensaio que achei mais interessante foi o que Zizek escreveu sobre o universo de David Lynch, talvez porque o seu cinema estabeleça uma ponte, mais ou menos óbvia e directa, com a psicanálise. Sobre o cineasta russo Tarkovski, Zizek aprofunda as raízes e motivações de ordem política e cultural da Rússia do realizador de "Stalker" para caracterizar a essência de um autor metafísico e complexo. Sobre os ensaios de Hitchcock e Kieslowski, ainda só li passagens inconclusivas.
Seja como for, o livro "Lacrimae Rerum", com os seus ensaios focados na estética e na semiótica das imagens, levanta novas perspectivas críticas em relação ao cinema, ao seu poder de intervenção no real e ao simbolismo filosófico que representa na cultura contemporânea. Uma leitura surpreendente, desafiadora e exigente.

domingo, 9 de março de 2008

Nas malhas da unanimidade


A actriz francesa Marion Cotillard (na imagem), que ganhou o Óscar de Melhor Actriz pela sua magnífica interpretação no filme "La Vie en Rose", está a ser alvo de pressão da comunicação social derivado de declarações suas (proferidas há mais de um ano) sobre os acontecimentos do 11 de Setembro. Cotillard terá referido que não acredita na versão oficial dos acontecimentos, assumindo simpatia pelas teorias da conspiração. Como cidadã, tem toda a legitimidade para opinar o que quiser, como artista, essas mesmas opiniões podem provocar reacções imprevisíveis. Há muitas personalidades ilustres de âmbito mundial (escritores, filósofos, pensadores, cientistas) que duvidam da versão oficial da queda das torres gémeas do World Trade Center e que nutrem, de forma frontal ou subliminar, a defesa das teorias da conspiração. O que acontece é que essas figuras mundiais acabam por ser alvo de profunda polémica e de ataques cínicos por parte dos defensores dos acontecimentos oficiais do 11 de Setembro. Como se não vivêssemos num mundo pluralista, democrático e aberto à livre expressão (ah pois, não vivemos mesmo). Como as declarações de Marion Cotillard foram há um ano, espero agora que não venha a público negar as declarações anteriormente proferidas e que tenha a coragem de manter a sua opinião (e que o Óscar não a faça mudar de ponto de vista pelo facto de se ter tornado uma figura pública mundial).
Este caso faz-me lembrar um outro semelhante ocorrido há cerca de um ano: o cantor Brian Ferry disse numa entrevista que admirava a estética Nazi: os uniformes da Gestapo, as coreografias das manifestações, a simbologia e iconografia, etc. Teve o cuidado de afirmar que esse fascínio era inversamente proporcional à respectiva ideologia (que odiava). Mas nem este argumento foi suficiente para que não fosse objecto de crítica feroz, de todas as proveniências, pelas declarações efectuadas. Resultado: Ferry acabou por pedir desculpas públicas por ter dito o que disse, provavelmente porque achou que tal acto lhe poderia salvar a carreira artística. Vivemos num mundo hipócrita e sem definições morais. As opiniões minoritárias que ousam enfrentar o pretensa unanimidade de pensamento, acabam por ser trucidadas. A liberdade de expressão é uma garantia da civilização Ocidental. Mas essa é uma premissa na qual acredito cada vez menos.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

O espírito do tempo

Zeitgeist.
O conceito filosófico que os escritores românticos alemães (e sobretudo Hegel) tomavam como premissa revolucionária de um tempo, como uma idiossincrasia geracional, acaba por ser, em 2007, o título de um filme (documentário) de baixo orçamento sobre... a América. É um documentário feroz, denunciador, quase catártico nalguns aspectos. As alegadas estruturas morais e de valores sobre os quais os EUA se reclamam como pioneiros e defensores - patriotismo, religião, economia, família, política - são cilindrados em "Zeitgeist". Pela forma como o filme está concebido e realizado, pelo modo como denuncia uma sociedade que se julga impoluta nos seus dogmas mas que é um antro de hipocrisia e corrupção, este filme faz lembrar o controverso "Loose Change 911", documentário partidário das teorias da conspiração acerca dos atentados do 11 de Setembro de 2001.
Haverá, porventura, uma pitada de demagogia e de excesso (a que nem o Michael Moore se esquiva), mas vale pela forma como dinamita uma série de questões e força o espectador a ter uma posição altamente crítica face ao mundo que o rodeia. Como seria de esperar, os puritanos norte-americanos, defensores da moral cristã conservadora, vieram a terreiro deununciar a falsidade das mensagens do filme. É sinal que o objectivo do documentário foi conseguido: abalar as consciências adormecidas. Neste link - Zeitgeist - pode-se ver o filme integral, e ainda por cima com opção de legendas em português. É o que se chama de verdadeiro serviço público.

domingo, 9 de dezembro de 2007

Stockhausen: o aventureiro morreu


Não há muito a dizer no momento da morte de um dos maiores génios musicais da segunda metade do século XX: Karlheinz Stockhausen. Incompreendido por muitos, admirado por outros, o músico alemão teve um percurso artístico que marcou profundamente a história da música dos últimos 50 anos. Se há algum músico a quem se possa apelidar de vanguardista (a par de Ligeti, Boulez, Xenakis, Cage, Nono), é a Stockhausen. Foi uma figura ímpar na experimentação estética, sobretudo no âmbito da música electrónica e electro-acústica. Hipocritamente, metade da comunicação social mundial denegriu a imagem do compositor quando este, a propósito do ataque terrorista do 11 de Setembro, afirmou que "aquele momento foi a manifestação de uma autêntica obra-prima" (cito de memória).
Stockhausen era o verdadeiro explorador sonoro, contra tudo e contra todos (os "herodes da música nascente", asseverava). No fundo, tudo se resume a isto que o compositor de "Licht" dizia: "I'm an adventurer. I like invention, I like discovery."

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

Insectos invasores

"Bug", do realizador William Friedkin, passou ao lado de muita gente quando estreou em Portugal, em Julho deste ano (o Verão não é altura propícia para se dar atenção a este tipo de filmes). Do mesmo realizador do essencial thriller dos anos 70 "Os Incorruptíveis Contra a Droga" (1971) e um dos mais assustadores filmes de terror de sempre, "O Exorcista" (1973), "Bug" é um filme-catarse dos traumas reminiscentes do pós-11 de Setembro. Numa contenção rara de recursos - um cenário de hotel decrépito, 4 personagens - o argumento é baseado numa peça de teatro de sucesso. Paranóia, viagem aos abismos dos fantasmas interiores, metáfora política em jeito de pesadelo kafkiano num filme portentoso capaz de por em causa toda a ideia de segurança social e política contemporânea.

sábado, 24 de novembro de 2007

Glenn Branca - ruído branco


É um dos músicos mais respeitados dos últimos 30 anos. Figura ímpar da cena musical nova-iorquina de vanguarda, Glenn Branca cilindrou a linguagem rock convencional com as suas sinfonias de guitarras noise nos anos 70, tendo influenciado nomes como Sonic Youth. Entrevista ao músico, directamente de Nova Iorque.

A sua relação com a música começou na segunda metade dos anos 70, com a explosão do movimento No Wave em Nova Iorque e com músicos como Lydia Lunch, Arto Lindsay, Teenage Jesus and the Jerks e Suicide. Olhando para o passado, considera que esse foi um momento importante para a sua evolução musical?
Sim, foi uma surpresa para mim todo esse movimento. Eu vim para Nova Iorque nos anos 70 para fazer teatro e fazia muita música para teatro, mas não tinha perspectivas de fazer carreira como músico. Todavia, sempre quis formar uma banda rock desde que aprendi a tocar guitarra, com os meus 15 anos. Quando cheguei a Nova Iorque estava o movimento punk no auge e foi algo muito excitante para mim. Entretanto, conheci um músico no teatro que também tinha desejo de formar uma banda rock e demos início a uma banda. Foi um processo muito rápido: formámos a banda em poucas semanas, arranjámos concertos e audiência num ápice. Ambos tínhamos interesse em todo o tipo de música experimental, fosse na forma de jazz, de rock ou de música clássica contemporânea.

Na verdade, a sua música nunca se cingiu apenas ao rock. Costuma dizer que o jazz ou compositores contemporâneos minimalistas como La Monte Young ou Philip Glass, foram importantes para si. Como lida com estas referências tão díspares?
Bom, para mim isso nunca constituiu problema. Eu estudei música e nunca senti qualquer estranheza em gostar de diferentes referências musicais. Podia ouvir num minuto os Beatles e os Kings e, no minuto a seguir, Mahler e Penderecki, e depois, Miles Davis ou Brian Eno. Nunca me importei com essas diferenças convencionais entre géneros musicais, o que importava mesmo eram as ideias, a criatividade dos músicos e as experiências estéticas que retirava de cada artista, de cada disco.

Fale um pouco sobre o seu método de composição. Por exemplo, como é que faz para juntar o minimalismo e a “teoria da afinação” de La Monte Young com a energia do rock de guitarras?
Humm... É uma boa pergunta! Eu sempre gostei de música rock intensa e enérgica, e o tipo de compositores contemporâneos que ouvia era gente como Ligeti e Stockhausen. Eram estes os compositores que eu achava serem aqueles que faziam música mais intensa. Fazia sentido eu gostar de música intensa e brutal e deixar-me influenciar por esses compositores que eu gostava de ouvir em casa com o volume bem alto. O tipo de teatro que fazia também comungava dessa intensidade, desse espírito de confrontação estética.

Gosta da palavra experimental para classificar a sua música?
Sim, essa é a palavra que sempre gostei e que sempre usei para caracterizar o meu trabalho desde os anos 70. O movimento No Wave foi um movimento que eu considero ter sido experimental, ainda que mais tarde tenha sido chamado de Art-Rock, uma designação que eu julgo ser terrível e desajustada, até porque era confundida com o rock progressivo inglês que na altura estava também a ter muita aceitação.

Dissonância, consonância e caos são também três conceitos que lhe dizem muito respeito nas suas criações. É um trabalho difícil conjugar estes três tipos de abordagem ao som?
Esse tem sido o grande desafio e a parte interessante da minha actividade musical. Quando me apercebi que podia misturar esses conceitos – algo que eu procurava concretizar de forma consciente e deliberada – conclui que o resultado podia ser muito estimulante e criativo. É um trabalho que compositores clássicos já tentaram fazer há muito tempo, como Mahler, ainda que a dissonância explorada por este compositor não fosse muito proeminente, comparando com a minha abordagem que é bem mais extrema.

Ao longo da sua carreira editou diversas sinfonias pelas quais é mais conhecido. A sua intenção ao usar o termo “sinfonia” vai no sentido de dar outro significado à palavra e de se afastar, deliberadamente, da conotação rock?
Não, eu escrevi sinfonias simplesmente porque queria escrever sinfonias, e foi o que fiz. Não tive qualquer outra intenção, como se depreende das suas palavras.

Contudo, as suas obras foram já interpretadas por sinfonias clássicas como a The London Sinfonietta. Como lida com esta confrontação entre a música dita convencional e os conceitos avantgarde?
Isso nunca foi um problema para mim. Os chamados músicos convencionais estão, na verdade, muito familiarizados com técnicas avantgarde. Aquilo que faço é muito menos avantgarde do que Xenakis, John Cage ou Morton Feldman. Essa transição e conexão entre esses dois universos foi sempre, para mim, natural.

A sua música influenciou muitas bandas importantes do rock dos anos 80, como Sonic Youth ou My Bloody Valentine. Disse numa entrevista recente que já não ouve música rock. Significa que o panorama rock actual já não é suficientemente excitante para si?
Detesto dizer que é verdade. Por vezes ouço uma ou outra banda de que gosto, mas na generalidade não me interessam muita essas bandas que fazem parte de movimentos de moda, acho-as extremamente aborrecidas. Por isso prefiro ouvir coisas como Sonic Youth ou Swans.

Continua a viver e a trabalhar em Nova Iorque. Mesmo depois do 11 de Setembro, esta cidade continua a exercer grande influência e inspiração em si no que diz respeito à parte criativa?
Bom, eu não costumo ser influenciado por acontecimentos. É um erro pensar que a minha música é inspirada pela cidade e seus diversos acontecimentos. A música tem mais a ver com ela própria, não precisa de mais referências para se justificar. A música que escrevo deriva de um processo muito técnico e laborioso, e não tem tanto a ver com conceitos como o mal, a destruição ou o caos. A música que faço tem mais relação com noções de intensidade, consciência e exploração de novas ideias.

Sabia que o seu apelido em português significa “branco”? Por causa disso, um amigo meu costumava chamá-lo de “Glenn White-Noise”, num trocadilho entre o seu nome Branca e um certo noise que pratica.
(risos) Ah! Gosto dessa descrição! Branca é um apelido italiano, e já sabia que significava branco (white), mas esse trocadilho é realmente divertido e, mais importante, apropriado.

Entrevista conduzida por Victor Afonso para a revista Mondo Bizarre.