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segunda-feira, 3 de novembro de 2014

A mensagem de "Eles Vivem"


No filme de culto de John Carpenter "Eles Vivem" (1988), um homem chamado John Nada encontra na rua uns óculos de sol aparentemente comuns. Porém, quando os coloca, para seu espanto, passa a ver o exterior de uma forma completamente diferente: o mundo está a preto e branco, pessoas aparentemente normais são, na verdade, criaturas alienígenas disfarçadas de seres humanos, e mensagens/ordens subliminares que elas transmitem são espalhadas através da comunicação social e na cidade. O planeta Terra fora dominado por forças alienígenas e o cidadão comum nada suspeitava - a não ser que usasse os óculos especiais.
Ora, o tema deste filme de Carpenter mais não é do que uma metáfora social e política sobre o funcionamento das sociedades modernas que, na capa das democracias, revelam tiques de totalitarismo sobre os seus cidadãos. 

Enquanto que na Coreia do Norte essa sociedade opressiva e obediente à força é assumida pelo poder dominante, nas sociedades ocidentais esses mecanismos de domínio são encobertos, indirectos e subliminares. Quanto menos contestação aos ideais impostos pelas autoridades, melhor. Quanto menos pensamento independente face aos valores instituídos, melhor. Quanto mais as pessoas se distraírem na sociedade de consumo, melhor.

John Carpenter teve esse discernimento em 1988 para perceber o estado a que tinha chegado a sociedade moderna. Hoje, em 2014, no domínio absoluto da sociedade tecnológica e digital, esse discernimento é ainda mais premente.








segunda-feira, 10 de março de 2014

O leão na praça da revolta

Há dias houve uma grande manifestação de polícias à frente da Assembleia da República, em Lisboa. Mesmo em frente à escadaria, existem duas grandes estátuas de dois leões. Esta situação fez-me lembrar o o filme "O Couraçado Potemkine" (1925) de Sergei Eisenstein: neste clássico do cinema mudo, ocorre a célebre sequência do massacre da escadaria de Odessa, na qual há elementos em comum com a cena da manifestação em Lisboa. 
Desde logo, a manifestação de massas; depois, a escadaria; e por fim, as estátuas dos leões. A única coisa que não é igual relativamente ao filme (e ainda bem), é que em Lisboa não houve massacre nem violência. E também os leões não se "levantaram indignados" como no filme de Eisenstein.
O realizador russo, exímio esteta da montagem, criou a ilusão do movimento das estátuas dos leões através de uma rápida montagem sequencial: primeiro o leão deitado, depois o leão a acordar, e por fim o leão já erguido - como que a insurgir-se contra a violência que observava.

Eis os três planos sequenciais do filme de Eisenstein:

segunda-feira, 6 de maio de 2013

Não pensar, não existir, só assistir




Hoje fui surpreendido por um graffiti numa parede da minha cidade. É um graffiti tão simples mas inteligente e que transmite uma imensa verdade: hoje a televisão é sobretudo um veículo comunicacional que potencia o embrutecimento da população (já o referi várias vezes neste blogue, aliás). À frente do televisor o indivíduo deixa de ter "existência" própria e age consoante a ditadura da informação e do entretenimento que são veiculados pela "caixa mágica". Isto é, através de uma lavagem cerebral mais ou menos oculta, deixa de "pensar" e assume um papel totalmente submisso e passivo ("só assisto"). E quando falo em pensar, falo em pensar de forma crítica e racional. 
A televisão é um instrumento que estupidifica, que se submete ao controlo dos grandes grupos económicos e se rege unicamente pela ditadura das audiências, produzindo cada vez mais lixo, cada vez mais conteúdos fúteis e supérfluos. Ver televisão é cada vez mais uma actividade boçal e de total perda de tempo. 
Isto leva-me a pensar no magnífico - e premonitório - filme "Eles Vivem" (1988) de John Carpenter. Filme em que todos os meios de comunicação social eram dominados por extraterrestres que mantinham a aparência de um mundo real quando, na realidade, o que existia era um conjunto de ordens subliminares para a população "obedecer", "não protestar", "consumir", "ver televisão", "não pensar", "dormir"... A verdadeira realidade, tenebrosa e refém de interesses iníquos, só podia ser contemplada com uns óculos especiais...
Voltando ao graffiti e contrariando a sua mensagem: devemos cada vez mais "pensar" (criticamente e pelas nossas próprias cabeças), cada vez mais "existir" (em conformidade com os tempos actuais) e cada vez menos "assistir" (passivamente, sem reacção).

sexta-feira, 26 de abril de 2013

Cinemateca a definhar

O drama da falta de apoio à cultura continua em Portugal. Neste caso, a Cinemateca Portuguesa (Lisboa), verdadeira instituição de utilidade pública e espaço de preservação da memória e difusão da história do cinema, debate-se com graves problemas financeiros que põem em causa toda a sua estrutura e função (no fundo, este é um caso paradigmático que comprova o estado geral da cultura e das artes em Portugal). 
Desde há meses que os cortes do Estado têm condicionado de forma directa a acção da Cinemateca, como a suspensão da publicação da programação, a redução de exibições diárias e a não legendagem electrónica dos filmes.
Agora são os ciclos temáticos que são afectados, facto que deteriora gravemente a qualidade do serviço prestado por esta instituição. Basta ler o pragmático comunicado da própria Cinemateca para ficar a conhecer a situação deveras periclitante com que se debate a Cinemateca: 

"Por falta de dinheiro, a Cinemateca Portuguesa suspendeu os ciclos de cinema para o mês de maio. A direcção da Cinemateca afirma não poder assumir compromissos financeiros com a importação de filmes e legendagem. A falta de receitas foi agravada por causa da acentuada quebra na publicidade que fez baixar a taxa cobrada às televisões. Se não houver um reforço das receitas a direcção da Cinemateca diz que não vai poder assumir encargos com o aluguer, transporte ou legendagem dos filme."

terça-feira, 19 de março de 2013

Sem salas de cinema

Situação actual segundo a Secretaria de Estado da Cultura: 212 concelhos de Portugal - o equivalente a 3 milhões e 875 mil habitantes -, não têm acesso a qualquer sala de cinema de exibição comercial regular. Para além desta larga franja de população sem qualquer acesso ao cinema, há ainda a registar 1 milhão e 600 mil habitantes que têm apenas acesso a salas de cinema exploradas pela Lusomundo. E como o resto dos indicadores de desenvolvimento do país, a tendência é, claramente para piorar no futuro...

sexta-feira, 30 de novembro de 2012

Não gosto...


Não gosto de ouvir mexer e mastigar pipocas ao meu lado na sala de cinema.
Não gosto de levar com gargalhadas histriónicas do espectador ao meu lado.
Não gosto da dificuldade de retirar o papel celofane dos CDs e de embalagens de gadgets.
Não gosto do excesso de publicidade dos canais televisivos durante os intervalos das séries ou filmes.
Não gosto das músicas que acabam em ‘fade-out’.
Não gosto das músicas com solos intermináveis de guitarra ou de 'gritinhos' estridentes do vocalista.
Não gosto de ler livros com mais de 500 páginas e com menos de 60.
Não gosto de revivalismos musicais serôdios e inconsequentes.
Não gosto de ver sempre os mesmos clichés nos filmes de acção.
Não gosto de telenovelas nem de séries juvenis.
Não gosto de sair da sala de cinema logo que o filme termina.
Não gosto de ouvir rádio que passa sempre as mesmas músicas durante anos.
Não gosto de locutores ignorantes que querem passar por inteligentes.
Não gosto da cultura imposta pela sociedade de consumo e do espectáculo.
Não gosto de ler poesia que não comunica com o leitor.
Não gosto de filósofos herméticos e impenetráveis.
Não gosto da quantidade absurda de livros editados por dia em Portugal.
Não gosto de ver as prateleiras das livrarias abarrotadas de best-sellers.
Não gosto de certos filmes menos inspirados de Woody Allen.
Não gosto de quem não gosta de discos de vinil.
Não gosto da exploração comercial de sequelas e prequelas.
Não gosto dos preços excessivos das caixas de DVD de colecção.
Não gosto de canções lamechas e de filmes lamechas.
Não gosto da música em alto volume nos espaços públicos.
Não gosto da presença da televisão nos restaurantes.
Não gosto de ouvir “Eu ouço todos os tipos de música”
Não gosto de ficar decepcionado com um filme ou um disco que julgava excelente.
Não gosto de comentários autoritários e ‘sabidões’ sobre um filme.
Não gosto de quem não aceita a opinião contrária.
Não gosto de filmes "franchizados".
Não gosto de ver animais “morrer” no cinema.
Não gosto de políticos vendidos, evangelizadores, padres moralistas, falsos messias, vendedores da banha da cobra, economistas presunçosos, delatores, neo-liberais e pseudo-intelectuais de esquerda.
Não gosto…
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sexta-feira, 2 de novembro de 2012

Matar a cultura

Lê-se e não se acredita (no Diário de Notícias): depois da Cinemateca Nacional ter comunicado que já não tinha dinheiro para as legendagens electrónicas, agora informa que, face a "condicionalismos administrativos e financeiros", já não tem condições para a impressão do seu programa (o veículo mais importante de divulgar a sua actividade).
Todas as decisões - ou grande parte delas - de despesas de uma instituição como a Cinemateca, têm de ter a autorização do Ministro das Finanças, Vítor Gaspar. E como é conhecida a obsessiva e cega visão economicista deste ministro, corta-se em tudo o que é possível e mais banal, prejudicando gravemente o funcionamento normal de uma instituição nacional como a Cinemateca.
E este é apenas um exemplo, no meio de muitos outros: é impressionante constatar a forma desprezível como o Governo português trata a cultura e como a visão da mesma provoca a destruição de toda uma memória cultural (material e imaterial) que levou décadas a construir em Portugal. 
Julgo que os governantes deste país não ficarão parados até verem todas as instituições culturais em completo e vil abandono (para poupar dinheiro, claro). Trata-se já de consumar um objectivo político: matar a cultura.
Ler a notícia aqui.

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

As legendas!

Segundo esta notícia, a Cinemateca Portuguesa vai ser obrigada a cortar nas legendas dos filmes que exibe devido aos cortes orçamentais impostos pelo Governo. Esta notícia é sintomática e prenuncia tempos cada vez mais difíceis para a cultura.
Por um lado, porque representa o minar gradual de toda e qualquer actividade cultural. Por outro, porque significa que o desinvestimento no apoio às artes e à produção cultural é uma clara opção política e governativa de Passos Coelho (que por acaso é o "Ministro da Cultura!").
Uma instituição de inestimável serviço público nacional como a Cinemateca chegar ao ponto de não ter dinheiro para pagar legendas é grave. E é um prenúncio de que coisas piores hão-de acontecer a curto e médio prazo, até à destruição definitiva da memória cinematográfica deste país.
Mas o que se passa com a Cinemateca passa-se com muitas outras instituições, associações e grupos de índole artístico e cultural de Portugal: a asfixia económica está, aos poucos, a deitar por terra projectos de valor a todos os níveis e a reduzir a pó a ideia de cultura em todos os seus sentidos.
 

domingo, 30 de setembro de 2012

O estado da cultura em Espanha

Antón Reixa, carismático cantor e poeta do grupo pop-rock galego Os Ressentidos (nos anos 80), é o actual presidente da SGAE, a entidade espanhola equivalente à Sociedade Portuguesa de Autores.
Antón Reixa veio reafirmar aquilo que outros artistas e personalidades da cultura espanhola (como o realizador Pedro Almodóvar) já disseram: que a cultura está (e vai continuar a estar) num processo de degradação absoluta.
Essa degradação deve-se ao aumento do IVA que afecta dramaticamente as actividades culturais e à redução substancial do orçamento do Governo espanhol no apoio à cultura e às artes.
Lamenta Antón Reixa: "Os governantes tendem a compreender a cultura não como algo produtivo mas como algo ornamental. Esta crise está a contribuir para a liquidação da esperança como se a criatividade colectiva e individual e o acesso aos espectáculos culturais fossem algo de supérflúo".
Para Reixa, a "indústria cultural gera autoestima, identidade, riqueza e postos de trabalho", pelo que está decidido a estabelecer todas as linhas de diálogo com o Governo para que a situação calamitosa da cultura em Espanha mude.
Qualquer semelhança com a realidade portuguesa não é mera coincidência.
 

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Dois livros importantes

Na Fnac deparei-me com uma pequena bancada de livros, editados já há alguns anos, com 20% de desconto. Nada de anormal, não fosse o caso da referida bancada disponibilizar dois dos mais importantes e influentes títulos do século XX ao nível das ideias políticas, sociais, filosóficas e culturais: "A Sociedade do Espectáculo" do situacionista Guy Debord e "A Desobediência Civil" do filósofo Henry David Thoreau.
Dois livros que, cada um à sua maneira, preconizaram uma nova visão da sociedade (o do Guy Debord foi o livro de mesa de cabeceira dos agitadores do "Maio de 68") e do homem, refutando leis e valores que instigaram a sociedade à obediência cega e agitando mentalidades instituídas. Ambos os livros defenderam a justiça, os direitos das minorias e a liberdade como valor universal e inalianável. O livro de Thoreau, apesar de ter sido escrito no final do século XIX, mantém uma espantosa actualidade. E o livro de Debord, lançado na erupção revolucionária dos anos 60, continua a desafiar a cultura do espectáculo e a agitar consciências adormecidas.
Dois títulos, baratos, altamente recomendáveis à venda na Fnac.

sexta-feira, 30 de março de 2012

Kathryn Bigelow vs. Bin Laden


É uma notícia surpreendente - ou talvez não: a realizadora Kathryn Bigelow (na imagem a rodar o oscarizado "The Hurt Locker" sobre a guerra do Iraque) encontra-se neste momento a filmar o seu próximo filme intitulado "Zero Dark Thirty". O argumento tem por tema central a morte do terrorista Osama Bin Laden pelo exército norte-americano no Afeganistão, há quase um ano atrás.
A expectativa é grande para saber se Kathryn irá respeitar a versão oficial dos acontecimentos veiculada pelo governo de Barack Obama, ou se fará uma versão livre, misturando ficção e realismo (e até, porventura, com críticas implícitas à Administração Obama).
Ainda vamos ter de esperar para ver o resultado deste aliciante novo filme de Kathryn Bigelow, uma vez que a estreia (americana) de "Zero Dark Thirty" está agendada apenas para Dezembro deste ano.

quarta-feira, 14 de março de 2012

A sagacidade de Gonçalo M. Tavares


O escritor Gonçalo M. Tavares tem mais de 20 livros editados (em 10 anos) e está traduzido em 45 línguas. A propósito da edição do seu livro "Aprender a Rezar na Era da Técnica" em Espanha, o jornal El País entrevistou-o e o resultado é, mais uma vez, uma cabal demonstração de sagacidade e de inteligência por parte do escritor.
Com um olhar acutilante e extremamente atento ao mundo que o rodeia, Gonçalo M. Tavares disserta, numa linguagem acessível e objectiva (própria de sábios humildes), sobre os mais diversos temas: a criação literária, a religião, a crise económica, a Europa, o lugar do homem no mundo, a política, etc.
Para além de outras ideias interessantes veiculadas por Gonçalo M. Tavares, do que li ressalta-me na memória uma afirmação que dá que pensar: "Os episódios violentos na Europa não virão com metralhadoras mas sim com leis".
Vale bem a pena ler a entrevista.

terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ser ou não ser Hitler


A edição online do Jornal de Notícias dá conta de uma notícia surpreendente sobre o ditador alemão Adolf Hitler: uma investigação de uma revista francesa descobriu que Hitler terá tido um filho de uma jovem francesa. Já por si, a ser verdade, esta é uma notícia deveras bombástica. Mas eu queria chamar a atenção para outro pormenor inerente ao próprio corpo da notícia tal e como é veiculada: a imagem que surge a acompanhar a referida notícia não é de Adolf Hitler, mas sim do actor Bruno Ganz a interpretar... Adolf Hitler no filme "A Queda" (2004). Porque é que o jornalista ou editor do jornal não colocou uma fotografia do verdadeiro ditador? Só há duas hipóteses:

1) Por ignorância: o jornalista achou que esta imagem representa mesmo o Hitler real.
2) Por negligência: o jornalista até sabe que este é um actor no papel de Hitler mas julgou que não tinha importânica nenhuma utililizá-la à mesma.
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Seja qual for a razão, na era da informação e do conhecimento à distância de um clique, não há desculpas para cometer uma imprudência deste tipo. Pegando num filme actual, seria o mesmo que divulgar uma notícia sobre a ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher e surgir a acompanhar uma fotografia da sua representação fictícia no cinema: Meryl Streep.

domingo, 19 de fevereiro de 2012

Dreyer e Manuel António Pina

O escritor, poeta e cronista Manuel António Pina deu uma entrevista ao jornal i, na qual revela todo o seu desencanto com a política e o estado actual do país.
Numa determinada passagem, respondendo acerca do seu desencanto e falta de esperança na política nacional, Manuel António Pina evoca o filme "A Palavra" (1955) de Carl Dreyer para justificar o seu ponto de vista. A forma inteligente como descreve a essência do filme é deveras esclarecedora:

Jornalista - "Está um bocadinho desencantado?"

Manuel António Pina - "Estou muito. Eu não tenho nenhuma fé. Mas escrevi recentemente uma crónica chamada “O que fica depois do que se perde”, sobre o filme “A Palavra”, do Dreyer. É uma história sobre a fé. Conta a vida de um luterano que tem três filhos, o mais velho é ateu, o segundo tem uma loucura mística, convence-se que é a reencarnação de Cristo, e o terceiro, o pai tenta casá-lo com uma rapariga de outra seita protestante. Todos consideram louco aquele que se julga Cristo, eu até escrevi na crónica loucura entre aspas, para acrescentar uma nota em que dizia que sou céptico, mas sou céptico em relação ao próprio cepticismo, mas depois acabei por tirar as aspas porque já não tinha espaço para as explicar. A certa altura do filme, a mulher do filho mais velho, ateu, morre, e as duas crianças pedem ao tio que ressuscite a mãe, porque têm aquela fé pura e sem limites acreditam nisso – é das cenas mais comoventes da história do cinema – e ele ressuscita-a. As únicas pessoas que não ficam surpreendidas são as duas crianças. É curioso que eu que não tenha fé nenhuma, mas quando vejo coisas daquelas sinto uma espécie de melancolia. É a sensação que têm os amputados que sentem a perna que já não têm."
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A entrevista completa aqui.

terça-feira, 7 de fevereiro de 2012

Contra o ACTA!

Primeiro foram as propostas de lei americanas anti-pirataria PIPA e SOPA a agitarem as águas cibernéticas à escala global. Agora, bem mais grave e contundente, discute-se o ACTA, um acordo multinacional que é muito mais prejudicial para a liberdade da internet tal como a conhecemos hoje.
O ACTA significa Anti-Counterfeit Trade Agreement e pretende proteger as propriedades intelectuais no mundo inteiro. A intenção até pode ser considerada legítima, só que as consequências previsíveis são devastadoras a todos os níveis.
O ACTA foi negociado secretamente por um selectivo grupo de países ricos e desenvolvidos (EUA, Canadá e Inglaterra à cabeça) e por poderes corporativos fora das convenções internacionais já existentes sobre a criação de novas propriedades intelectuais, como o World Intellectual Property e a World Trade Organisation.
O ACTA propõe que os servidores de internet funcionem como "vigilantes" na rede, e serão obrigados a fornecer dados privados dos utilizadores suspeitos de detentores de direitos autorais. A ser aplicado este acordo, a censura, a limitação de liberdade e o controlo de partilha de informação seriam fortemente implementadas, e todo o paradigma cultural da internet tal como o conhecemos deixaria de existir. É como se se aplicasse, à risca, a teoria do "Big Brother" que George Orwell preconizou no seu visionário livro "1984".
A internet passaria a ser quase policiada e uma simples partilha de conteúdo de imagem ou som poderia dar direito a... prisão. A título de exemplo, este mesmo blog não poderia mais existir, porque disponibiliza conteúdos - imagens, vídeos, textos e sons - passíveis de direitos autorais. O próprio Youtube poderia ter de restringir a informação online ou, em última análise, encerrar actividade.
Um atentado à liberdade e um ataque repressivo à cultura digital que parecem ficção científica mas não é. Portugal, como é habitual, foi a reboque dos países europeus e já assinou este acordo (será ratificado em Junho próximo no Parlamento Europeu).
Poucas - mas dignas e corajosas - são as vozes com responsabilidade política que se insurgiram contra esta enormidade. Só o partido Bloco de Esquerda, pela voz firme e objectiva da deputada Catarina Martins, teve a coragem de levantar o problema no Parlamento - aqui.
Por todo o mundo circulam petições, manifestações na rua, manifestos online e outras formas de protesto perante esta sombria forma de manipulação de um instrumento de informação e comunicação que revolucionou o mundo nos últimos 20 anos.
Ver o site Stop Acta!
E eis a petição que qualquer cidadão pode (deve!) assinar contra o ACTA.
Para compreender o alcance diabólico deste plano de controlo ditatorial da comunicação na rede, nada como visionar o seguinte vídeo.

sexta-feira, 14 de outubro de 2011

A visão de Bergman


O realizador sueco Ingmar Bergman, para além de grande cineasta, era também um cidadão muito atento ao que o rodeava, com convicções sociais e políticas vincadas. Há muitos anos atrás, Ingmar Bergman escreveu o seguinte pensamento acerca do mundo e da política (parece que foi escrito em reacção às medidas de austeridade impostas ontem pelo e ao estado actual da política/sociedade em Portugal):

“Tenho uma forte sensação de que o nosso mundo está prestes a afundar-se. Os nossos sistemas políticos estão profundamente comprometidos e já não têm utilidade. Os nossos padrões de comportamento social revelaram-se um fracasso. A tragédia é que não podemos, nem queremos, nem temos força para mudar o rumo das coisas. Já é demasiado tarde para revoluções e, lá no fundo, já nem sequer acreditamos nos seus efeitos positivos. Ao virar da esquina temos um mundo de insectos à nossa espera e um dia ele vai abater-se sobre a nossa existência ultra-individualizada.”

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Entrevistas Póstumas (7) - Leni Riefenstahl



O Homem Que Sabia Demasiado - A sua reputação como cineasta é enorme, apesar de só ter realizado 8 longas-metragens. Como explica este facto?

Leni Riefenstahl - Bom, o meu percurso foi bastante longo, de cerca de sete décadas, mas estive muitos anos sem filmar depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Fiz os meus filmes sobretudo entre 1932 e 1945, depois do fim da Guerra, como sabe, tive imensos problemas para desenvolver os meus projectos.

O Homem Que Sabia Demasiado - A que se deveram, no seu entender, esses problemas?

Leni Riefenstahl - Basicamente, por causa da minha ligação a Adolf Hitler e os dois filmes que fiz para o regime Nazi: "O Triunfo da Vontade" (1934) e "Olympia" (1938). O mundo inteiro acusou-me de colaboradora do regime hitleriano, mas isso não é bem verdade. Apesar do que se diz, não fui eu que ofereci os meus serviços como realizadora a Hitler. Ele é que me convidou depois de ter visto o meu primeiro filme, "A Luz Azul" (1932). Eu ainda declinei, sugerindo que fosse convidado um grande realizador alemão, Walter Ruttman, mas Hitler insistiu que fosse eu e, como estava ansiosa de trabalhar num grande projecto, resolvi aceitar. Como aconteceu a muita gente, eu fiquei fascinada quando ouvi o poder de oratória do Kaiser, e era difícil resistir ao seu incrível magnetismo. Nos anos em que fiz os filmes, desconhecia ainda as atrocidades cometidas contra os Judeus. Pode-ma chamar de ingénua, mas foi isso que aconteceu.

O Homem Que Sabia Demasiado - Acha justo que critiquem os seus filmes pela inevitável propaganda política mas que os elogiem, ao mesmo tempo, pela sua inovadora linguagem estética e formal?

Leni Riefenstahl - Sim, não me importo que as pessoas façam essa análise. Tive muitos meios técnicos ao meu dispor para filmar a convenção Nazi de Nuremberga e por isso inventei novos enquadramentos, novos movimentos de câmara, novas formas de montar as imagens.

O Homem Que Sabia Demasiado - Muitos anos depois, na década de 70, desiste do cinema e torna-se fotógrafa, fazendo reportagens nas tribos do Sudão.

Leni Riefenstahl - Desisti do cinema porque achava que já tinha tido as experiências estéticas que me realizaram. E como senti sempre obstáculos e boicotes para continuar a filmar por causa da minha alegada simpatia com o Nazismo, então experimentei a fotografia, uma outra arte nobre e extremamente gratificante. E com 80 anos descobri outro prazer único: a fotografia submarina! Em 2002, quando fiz 100 anos de idade, realizei um documentário sobre esse fascinante mundo subaquático.

O Homem Que Sabia Demasiado - O seu percurso artístico é indissociável do percurso político do regime Nazi e de Hitler. Há pouco tempo, o estilista John Galliano disse que simpatizava com a figura de Hitler; ontem o realizador Lars Von Trier, referiu que compreendia Hitler e se sentida nazi. A que se deve este fenómeno de "empatia" com uma figura tão terrível da hstória?

Leni Riefenstahl - É difícil explicar, ainda mais para mim, que vivi todos aqueles anos loucos e frenéticos na Alemanha de Hitler. Não creio que Hitler seja citado por ser uma personalidade cruel e responsável por milhões de mortes. Creio que é referenciado porque existe uma total ausência de liderança política na Europa e Hitler, para o bem e para o mal, encarnou um líder carismático, determinado, seguro e com grande poder de fascínio junto das populações. Se houvesse um líder político europeu actual com estas características, mas sem a brutal carga maléfica que lhe é atribuída, talvez as pessoas se esquecessem rapidamente que Hitler existiu.

terça-feira, 19 de abril de 2011

A paranóia e o medo

Nos tempos que correm fala-se muito da manipulação da informação e da crescente paranóia à volta de alegados eminentes perigos que ameaçam a Humanidade. Ou a sociedade tal como a conhecemos. Há, por isso, teorias da conspiração para todos os gostos, de inspiração política, económica ou até religiosa.

Um dos melhores filmes sobre estes temas - ainda que não de forma aberta - é o filme "Bug" (2006), do realizador William Friedkin. Passou ao lado de muita gente quando estreou em Portugal no verão de 2006 (o Verão não é altura propícia para se dar atenção a este tipo de filmes).

Do mesmo realizador do essencial thriller dos anos 70 "Os Incorruptíveis Contra a Droga" (1971) e um dos mais assustadores filmes de terror de sempre, "O Exorcista" (1973), "Bug" é um filme-catarse dos traumas reminiscentes do pós-11 de Setembro. Numa contenção rara de recursos - um cenário de hotel decrépito e quatro personagens assoladas pela paranóia e pelo medo - o argumento é baseado numa peça de teatro de sucesso.

Paranóia, viagem aos abismos dos fantasmas interiores, metáfora política em jeito de pesadelo kafkiano num filme portentoso capaz de por em causa toda a ideia de segurança social e política contemporânea.

Devia ser visto por todos quantos detêm poder político e/ou económico à escala global.

quarta-feira, 13 de abril de 2011

Lumet no Conselho de Estado

O Conselho de Estado, convocado pelo Presidente Cavaco Silva, reuniu dias depois da demissão de José Sócrates. Diversas personalidades sentadas à volta de uma grande mesa para discutirem sobre o destino do país.


No filme de Sidney Lumet (comentado mais abaixo), "12 Homens em Fúria", a imagem é idêntica. Mas em vez do destino de um país, os homens discutiam o destino de um rapaz acusado de matar o pai. As diferenças não são muitas. A encenação é semelhante, as poses de poder de decisão também.

E com esta analogia penso no grande filme que Lumet poderia ter feito sobre esse Conselho de Estado (à semelhança da história do filme, revelaria as contradições, as acusações, as traições, as reviravoltas, os segredos escondidos, as meias-verdades, as influências por baixo da mesa, a hipocrisia, os preconceitos, a mentira, a crispação, o pretensiosimo, a chantagem, o autoritarismo, os ressentimentos e o jogo duplo que fazem parte do debate político).

segunda-feira, 27 de dezembro de 2010

Refém dentro do caixão


Um motorista ao serviço do exército norte-americano (interpretação magnífica de Ryan Reynolds) no Iraque é alvo de ataques de rebeldes e acorda, amordaçado, num caixão de madeira, a vários metros debaixo do solo. É este o simples mote dramático para o filme "Buried", do realizador espanhol Rodrigo Cortés (um argumento que faria as delícias de Alfred Hitchcock).
"Buried" é, tenho quase a certeza, o primeiro thriller mainstream integralmente filmado num único espaço (ou décor). Neste caso, o exíguo e claustrofóbico caixão. E não é pelo facto de todo o filme, desde o primeiro ao último plano, se passar dentro do caixão que se torna monótono ou previsível. Muito pelo contrário. Rodrigo Cortés soube filmar superiormente o interior do caixão com o homem lá dentro, com vários ângulos, perspectivas e abordagens visuais (e também com longos planos totalmente negros). A tensão crescente a a angústia daquele personagem enclausurado naquela terrível situação, atinge em cheio o espectador ao nível da ansiedade e da sensação fóbica do espaço reduzido (de referir que a acção decorre quase em tempo real da filmagem).
Paul Conroy (personagem do filme) é preso e feito refém dentro do caixão, tendo apenas um isqueiro, uma lanterna, um telemóvel e um frasco de bebida. Ao que parece, o cerne do filme não é mera ficção: outros casos registados já houve de soldados, jornalistas e outros profissionais ocidentais serem presos nestas situações.
Só que o exército americano tenta encobrir este facto.
O objectivo dos rebeldes é que o prisioneiro, fazendo uso do telemóvel e num tempo limitado, grave uma mensagem de pedido de resgate (5 milhões de euros) e a envie para as autoridades americanas e até para os meios de comunicação. Só que no filme de Cortés percebe-se que o exército está mais preocupado em identificar e aniquilar os rebeldes do que em salvar o malogrado homem...
É também neste aspecto que "Buried" se revela uma aposta ganha: a forma como, a partir de uma situação tão extrema de um homem preso em circunstâncias inéditas, se preconizam críticas tão directas à hipocrisia dos interesses americanos na guerra do Iraque.
Aliás, o final do filme, absolutamente impactante, imprevisível e perturbador (ao nível do final de "The Mist") tem a ver com a manipulação da informação por parte das autoridades americanas. "Buried" é, por isso, uma notável experiência cinematográfica, um prodigioso exercício técnico sem perda de emoção dramática, de uma intensidade quase hipnótica e com uma forte dose de denúncia política.
Só um aviso: esta película não é nada aconselhável para quem sofre de claustrofobia, ansiedade ou tafofobia, ou seja, a fobia que se caracteriza pelo medo mórbido de ser enterrado vivo e acordar preso dentro de um caixão sob o solo (como este célebre episódio de "Hitchcock Apresenta").