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segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Kubik no Porto

Quarta-feira dia 30 de Setembro estarei a tocar com o meu projecto Kubik no Teatro Rivoli no Porto no âmbito do espectáculo de dança/performance "Intermitências#2" do coreógrafo Joclécio Azevedo. Os leitores do blogue do Porto (e norte do país em geral) estão convidados. 
Para ouvir a minha música clicar aqui.

sábado, 7 de fevereiro de 2015

O assombroso Benjamin Clementine


Poucas coisas me dão mais prazer na vida do que descobrir um novo talento musical. Enche-me a alma. Regozijo-me com a descoberta de músicas e compositores/bandas que me desconcertem pela qualidade musical, pelo brilhantismo interpretativo ou pela originalidade.
É o caso recente do músico, cantor e compositor inglês Benjamin Clementine. Li recentemente uma crítica no jornal Público sobre este jovem de 26 anos e suscitou-me interesse. Parti à descoberta e foi fascínio logo à primeira audição. Benjamim Clementine é um portentoso cantor de apenas 26 anos que aprendeu sozinho a tocar piano e guitarra a partir dos 11. Em 2008, com 18 anos, resolve ir para Paris onde tocou durante alguns anos no metro, nos bares e hotéis até que um agente atento reparou no seu inato talento.

Desde aí gravou um EP e um álbum que acaba de ser editado. Já tocou no prestigiado Montreux Jazz Festival e já foi ao popular programa televisivo Jools Holland (BBC). A sua ascensão e reconhecimento estão a crescer progressivamente e não é para menos. A qualidade das composições de Benjamin são peças de ourivesaria de grande quilate. Ele próprio diz que o seu estilo musical expressionista foi influenciado por gente tão díspar como Tom Waits, Edith Piaf, Nina Simone (há que diga que é a versão masculina desta cantora), Scott Walker (quando canta no registo grave) e Erik Satie, Wim Mertens e Philip Glass no piano. A sua voz cristalina, versátil de acentuado timbre doce, arrepia pela intensidade e profundidade. As suas composições são todas de uma beleza e intensidade arrebatadoras, próprias de alguém com uma inspiração cheia de soul.


Clementine canta de forma pouco ortodoxa, soltando as frases rápidas ou lentas de forma surpreendente, com total controlo rítmico e melódico. As letras das suas canções são cuidadas e poeticamente sentidas. O seu poeta de eleição é o inglês William Blake. E nem se coíbe de fazer versões desconcertantes de grandes clássicos como "Voodoo Child" de Jimi Hendrix (aqui). Cultiva uma atitude dandy e subversiva que aprecio: dá concertos ao piano com os pés descalços, vestido com um casaco sem camisola por dentro e sentado no banco de forma quase vertical (contrariando o que as normas indicam). Ainda é cedo para confirmar se Clementine é um génio, mas a continuar a sua carreira como a começou vai tornar-se, de certeza absoluta, num dos grandes músicos e cantores do século XXI.

O seu álbum "At Least For Now" é já, quanto a mim, um disco que irá marcar 2015.

"I am an expressionist; I sing what I say, I say what I feel and i feel what I play by honesty and none other but honesty. Some will get bored of me, but I invite the patient listener to come forth, feel and most importantly engage with me without asking too many questions. Hopefully by the end of listening they shall get answers not questionable, wether pleasing or not."
Benjamin Clementine

Aqui deixo três obras-primas musicais em formato canção deste extraordinário songwriter:
Sugiro fortemente que vejam e oiçam esta mesma canção "Nemesis" numa magnífica versão a solo com Benjamin Clementine ao piano. Reparem na entrega emocional ao tema e como ele o termina. Aqui.

terça-feira, 21 de outubro de 2014

Danny Elfman ao vivo!

Vai acontecer no dia do Halloween, dia 31 de Outubro e também dia 1 de Novembro no Nokia Theatre de Los Angeles: Danny Elfman interpreta (canta) ao vivo, acompanhado de uma orquestra, a banda sonora do filme "The Nightmare Before Christmas", obra prima de Tim Burton. Já o tinha feito há precisamente um ano em Londres e agora volta a fazê-lo - segundo o próprio - pela última vez.
Meu deus... Tivesse eu dinheiro e a esta hora já teria comprado o bilhete de avião e o do respectivo espectáculo!

Ver aqui mais informação e uma breve entrevista a Danny Elfman.

domingo, 5 de outubro de 2014

Uma noite inesquecível (e imaginária)

À primeira vista, este é um cartaz aparentemente antigo que noticia uma noite de concertos com as bandas que indica na mítica sala londrina Electric Ballroom de Camden Town. Porém, nada mais falso.
Trata-se de um cartaz forjado que apanhei a vaguear pela internet. Era impossível ter estas bandas no mesmo palco e na mesma noite, uma vez que os Clash, os Sex Pistols e os Joy Division terminaram a carreira uns anos antes de os Smiths começarem a deles.

Mas a verdade é que este cartaz deu-me que pensar numa coisa óbvia: que grande e inesquecível noite de música teria sido se este cartaz correspondesse à realidade!

sábado, 10 de maio de 2014

O regresso em grande dos Swans



Maquinal e tribal; arrebatadora e intempestiva; obsessiva e impactante. Eis alguns dos adjectivos para descrever a música dos Swans. Banda veterana liderada pelo carismático Michael Gira. 
Depois de um estonteante álbum editado em 2012 - "The Seer" - os Swans regressam à carga com um novo e duplo álbum, "To Be Kind" (candidato a disco do ano), do qual faz parte este hipnótico e frenético "Oxigen":
Para ouvir em streaming o álbum na íntegra abrir aqui.
Entretanto, a grande notícia é o regresso dos Swans a Portugal (depois de terem actuado há um ano no Festival Primavera Sound). Será no dia 4 de Outubro no Hard Club do Porto, no âmbito do festival Amplifest. 

Eis o que diz o (elucidativo) press release: 

Seja pelas marchas lentas, bárbaras e sufocantes dos seus primórdios industriais, pelo opressivo folk-rock dos discos da década de noventa ou pelas esmagadoras orquestrações dos trabalhos posteriores à reactivação da banda em 2010, não há como negar que os Swans são uma entidade sem paralelo na história da música. Capitaneados pela mente intempestiva de Michael Gira, que em palco conduz a banda como um maestro possuído por uma energia superior e desconhecida, e com o novo disco To Be Kind ainda a ferver-lhes nas mãos, os Swans soltarão a sua majestosa força sobre o palco do Amplifest. Um concerto dos Swans assemelha-se a uma centena de comboios desgovernados a atravessar-nos o corpo num êxtase latejante – e em Outubro o Hard Club será a estação de partida.

segunda-feira, 31 de março de 2014

A valsa de Hopkins

Antes de ser mundialmente famoso como actor de renome e muito antes de ter sido condecorado como Sir, Anthony Hopkins era um jovem pianista. Amante das artes em geral (sobretudo pintura e música) Hopkins chegou a compor peças musicais. Em especial, compôs há 50 anos uma valsa intitulada "And The Waltz Goes On", mas sempre teve medo de a ouvir ao vivo. Por isso esta composição do actor de "O Silêncio dos Inocentes" ficou na gaveta durante cinco décadas. Até agora.
O não menos famoso violinista e maestro André Rieu, foi desafiado por Hopkins a interpretar com a sua orquestra vienense esta peça musical do actor. Neste vídeo o violinista começa por explicar todo o contexto e depois dá início à interpretação da valsa. A valsa composta por Hopkins é inspirada na obra de Strauss, voluptuosa, alegre e quase cinematográfica.
Igualmente interessante é observar as reacções de Anthony Hopkins a escutar, pela primeira vez, a música que compôs há 50 anos. 

segunda-feira, 12 de março de 2012

"Movie Poster" by Kubik

O meu projecto musical Kubik apresentou sábado passado o concerto "Movie Poster", que consiste em apresentar música para determinados géneros cinematográficos em formato de poster (filmes de guerra, terror, western, comédia, ficção científica, noir....).
Estes são excertos desse projecto.
Eis a explicação mais pormenorizada do "Movie Poster".

sexta-feira, 2 de março de 2012

Dead Can Dance: finalmente!


Os Dead Can Dance sempre foram uma das maiores referência musicais para mim. Sou fã incondicional desde a primeira hora. Estranhamente, em mais de duas décadas de carreira, nunca tocaram ao vivo em Portugal. Finalmente, os fãs portugueses poderão ter a oportunidade de ver Lisa Gerrard e Brendan Perry ao vivo no próximo dia 24 de Outubro de 2012, na Casa da Música (Porto).
Os bilhetes, como seria de esperar, esgotaram ao fim de poucas horas (ontem). Eu já tenho o meu e não vejo a hora de contar os dias até poder assistir à (certamente) noite mágica do concerto.
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PS - A música dos Dead Can Dance foi, por diversas vezes, utilizada no cinema. Um tema que irei abordar brevemente.

domingo, 18 de dezembro de 2011

Sonic Youth - O último concerto?

Thurston Moore e Kim Gordon, ambos músicos dos Sonic Youth, anunciaram há um mês o divórcio. Devido a este facto, logo surgiram rumores do fim da banda que ambos lideram há 30 anos. Esta semana os Sonic Youth deram um concerto no Festival SWU no Brasil e, ao que consta, terá sido o último do grupo.
Se assim for, aqui fica para a posteridade o registo integral do espectáculo de uma das maiores bandas rock independentes de todos os tempos.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

Revisitar Talking Heads


Assinei há tempos a mailing list do músico David Byrne e recebi hoje a informação de que acaba de ser lançado um DVD contendo raridades de concertos ao vivo dos Talking Heads, uma das mais importantes bandas dos anos 70 e 80 da chamada New Wave. Esta edição, intitulada "Talking Heads Chronology" (tem uma excelente capa), contém várias actuações do início da carreira da ex-banda de Byrne (entre 1976 e 1983), assim como entrevistas, videoclips, um livro de 48 páginas e outros conteúdos interessantes que farão as delícias dos admiradores da banda que criou "Psycho Killer".

Eis a track list:

1) Mic Test (1976)
2) With Our Love (1975)
3) I'm Not In Love (1975)
4) Psycho Killer (1975)
5) Intros Montage (1976)
6) The Girls Want To Be With The Girls (1976)
7) Don't Worry About The Government (1978)
8) Dressing room fan footage: Found A Job (1978)
9) Thank You For Sending Me An Angel (1978)
10) Warning Sign (1978)
11) Artists Only (1979)
12) Take Me To The River (1979)
13) Crosseyed And Painless (1980)
14) Animals (1980) 15) Love → Building On Fire (1982)
16) Cities (1982)
17) Burning Down The House (1983)
18) Life During Wartime (2002)

segunda-feira, 3 de outubro de 2011

Kubik - Próximas actuações



Datas de apresentação do álbum "Psicotic Jazz Hall" ou do projecto "Movie Poster" de Kubik:

7 Outubro: FNAC Coimbra - 22h

14 Outubro: Universidade da Beira Interior (Covilhã)- 18h

28 Outubro: Carpediem Bar - Santo Tirso - 00h

5 Novembro: FNAC Viseu - 17h

10 Dezembro: FNAC Stª Catarina - 17h

10 Dezembro: FNAC Norteshopping - 22h

11 Dezembro: FNAC Gaiashopping - 17h


Todos os que vivem nestas cidades e arredores estão convidados.

quinta-feira, 28 de julho de 2011

Kubik e os posters de cinema

"Movie Poster": música para posters de cinema. Novo projecto de Kubik a apresentar numa mini-digressão pelo Altentejo na primeira semana de Agosto.

Toda a informação aqui.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Kubik - novo disco

O meu projecto musical pessoal, Kubik, apresentou, em concerto no passado Sábado (14 de Maio, no Teatro Municipal da Guarda), o novo álbum - "Psicotic Jazz Hall". A edição tem selo do TMG e pode ser encomendado através deste link. Brevemente estará também disponível nas lojas habituais.

"O percurso musical de Victor Afonso, nos seus quase vinte anos de longevidade, é uma das histórias de maior criatividade e diversidade da que a música portuguesa moderna teve o prazer de conhecer. Das compilações aos discos de originais, da memorável banda sonora original Guarda: A Memória das Coisas às apresentações ao vivo e aos filmes mudos com música original, Victor Afonso foi construindo um corpo de trabalho sem cedências artísticas de qualquer espécie, vanguardista e fusionista no melhor significado possível da palavra. Um trabalho que parte da música electrónica para se abeirar do noise, do jazz, da world music, da pop mais permeável e de tudo o mais que se atravesse no caminho; fluentemente experimental, amigo do sampling, aberto ao mundo.

O seu novo disco (e neste caso “novo” adquire todo um novo contexto), Psicotic Jazz Hall, que fecha a trilogia de álbuns começada por Oblique Musique (2001) e continuada por Metamorphosia (2005), é, quando julgávamos já impossível ir mais além, um constante abrir da palete sonora para deleite dos melómanos mais exigentes. Não é à toa que Mike Patton, mestre do baralha e volta a dar, viu em Victor Afonso um talento que transborda fronteiras. Está nos genes de Victor Afonso reinventar-se a cada vez que mostra novo trabalho. E Psicotic Jazz Hall não é excepção. Os treze temas que compõem este novo disco revelam uma complexidade que não é novidade, um cuidado com os pormenores que é apanágio de Kubik. E sempre que o imenso turbilhão de ideias e recursos encontra um aparente beco sem saída, Victor Afonso descobre uma forma de escapar em classe e em estilo.

O jazz é a matriz principal deste trabalho mas a fragmentação habitual leva esta viagem para outras esferas: que o groove de “Shina-Kak” desapareça já se isto é mentira. Como se Victor Afonso pegasse em toda a boa música do mundo, a desfizesse em estilhaços e depois, subversivamente, a voltasse a reconstruir: é assim que soa Psicotic Jazz Hall, um disco cujo título remete para o título de um álbum do francês Pascal Comelade que, como Victor Afonso, se serve de uma certa bizarria a seu bel-prazer. Da Guarda para o mundo, Victor Afonso volta a assinar um disco com atributos visíveis a partir de outros planetas mas para ser consumido com toda a humanidade."

André Gomes (Editor do Bodyspace, in BIS/TMG - Abril - Junho 2011)


Mais informação, músicas e vídeos em Kubik Music

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Diamanda Galás: A Diva Negra ao vivo


Nascida em San Diego, sob o sol escaldante da Califórnia, descendente de pais gregos ortodoxos, Diamanda Galás revelou-se, nos últimos 25 anos, a porta-voz de uma mensagem apocalíptica sobre as múltiplas e negras facetas da existência humana. Ex-estudante de Bioquímica, pianista de eleição com experiência clássica e de jazz, fluente em várias línguas, detentora de uma visão universalista da história e da cultura, imbuída da poesia maldita de Baudelaire, Marquês de Sade, Artaud, Rimbaud e Edgar Allan Poe, fascinada pelo lado espectral da vida humana e recorrendo a textos bíblicos e de outras culturas não ocidentais, Diamanda Galás percorreu nos seus discos um caminho tortuoso de purificação espiritual, de penitência árdua e sem concessões, rumo à catarse suprema.

Foi apelidada de herege, bruxa e diva, ao sabor das sensibilidades, mas uma coisa é certa: ninguém sai incólume e indiferente após uma experiência com a música de Diamanda Galás. Mais admirada na Europa do que nos EUA, a cantora foi galardoada, em Itália, (2008) com o prestigiado Prémio “Demetrio Stratos” pela sua trajectória internacional. Num mundo conspurcado pelo Mal, cujas manifestações se revelam através da violência ou Sida (viu um irmão morrer com esta doença), da morte, do sofrimento ou de genocídios, Diamanda Galás representa uma tentativa de cura libertadora. Uma cura que expurga esses males, uma cura que se materializa numa das vozes mais feéricas e ameaçadoras que alguma vez se ouviu no panorama da música contemporânea.

Numa espécie de reencarnação negra da cantora lírica Maria Callas, num misto de diva vampírica e de profetiza pessimista, Galás faz uso da sua incrível extensão vocal (quatro oitavas – pode cantar como Soprano ou Baixo) para, simultaneamente, propalar os pecados do homem e denunciar o dogmatismo religioso (a insidiosa moral cristã). Uma voz negra e profundamente expiatória perante a condição do ser humano (ela própria assevera: “Faço música para os que sofrem profundamente e têm consciência disso”).

No entanto, Galás também canta canções de amor… no seu estilo único de interpretação. Galás é insubmissa, controversa, radical, experimentalista, audaz, como ficou demonstrado em álbuns demenciais como “Litanies Of Satan” (1982), “Divine Punishment” (1986), “You Musty Be Certain of the Devil” (1988) ou “Plague Mass” (1991).


Bastariam estes três tremendos testamentos sonoros para perpetuar o nome de Galás nos anais da história da música, fruto da sua voz visceral capaz de exorcizar demónios e da sua criatividade pianística que está tão à vontade nos blues clássicos como nos devaneios musicais mais libertinos (ninguém diria que Galás tem como heróis musicais Edith Piaf, Ray Charles ou John Coltrane).

Não foi por acaso que o realizador Francis Ford Coppola a convidou para criar os gritos vampíricos do seu filme “Dracula” (1992) ou Oliver Stone para o filme “Natural Born Killers”(1994). Após o seu último registo ao vivo, “Malediction And Prayer”, datado de 1998, Diamanda Galás lançou edições sucessivas: “La Serpenta Canta”, editado no final de 2003, e “Defixiones: Will And Testament, Orders From The Dead”, lançado em Janeiro de 2004, ambos discos duplos, a solo e ao vivo.

“La Serpenta Canta” é um registo gravado ao vivo em Adelaide, Austrália, em 2001; trata-se, muito prosaicamente, de um recital de canções em que Diamanda Galás interpreta, acompanhada apenas pelo piano, standards de canções blues e soul de autores populares como Hank Williams, Ornette Coleman, Screamin’ Jay Hawkins ou The Supremes. Neste disco, Galás consegue a proeza de reinventar o espírito soul-jazz de temas clássicos como “My World Is Empty Without You”, “I Put a Spell On You” ou “Baby’s Insane”.

A cantora, respeitando as formas musicais dos originais, reorganiza-as harmonicamente, dando-lhes uma outra frescura tímbrica e, em suma, outra realidade sonora. Da mesma forma que o disco “Plague Mass” versava sobre as vítimas da Sida, uma parte da obra da cantora evoca o genocídio arménio e grego perpetrado pelo exército turco entre 1914 e 1923. Ou seja, novamente a veiculação de uma mensagem política incontestavelmente forte. Diamanda Galás socorre-se de poemas e textos históricos arménios, gregos, espanhóis e hebraicos sobre o tema, colocando o dedo na ferida aberta que constituem, ainda hoje, estas atrocidades cometidas há um século atrás.

Pelo meio da sua carreira Galás teve tempo de encetar uma notável experiência no rock mais convencional, com John Paul Jones, baixista dos Led Zeppelin, no álbum "This Sporting Life" de 1994. 2008 viria ao mundo "Gulity Guilty Guilty", um disco registado ao vivo com alguns momentos musicais de intensidade emocional arrebatadora.

A intolerância, a xenofobia e os direitos das mulheres oprimidas têm servido de inspiração para a música de Galás. A voz única e poderosa de Diamanda Galás chegerá bem alto no dia 9 de Julho à Guarda.

A cantora apresenta no Teatro Municipal da Guarda o espectáculo “The Refugee”, um conjunto de temas inspirados na canção, "O Prosfigas", que versa sobre a fatalidade dos exilados de Smyrna, durante o genocídio turco do povo grego em 1922.

Do programa constam ainda reinterpretações de canções do egípcio Mohamed Abdel Wahab, dos gregos Dionysis Savvapoulos e Lefteris Papadopoulos, da arménia Mara Yekmalian, dos espanhóis Camarón de la Isla e Pastora Pavón, ou do belga Jacques Brel.



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Artigo publico no boletim BIS (TMG), Abril 2011

sábado, 29 de janeiro de 2011

The Young Gods: rock sem guitarras

A mítica banda de culto The Young Gods, inicia hoje uma mini-digressão por Portugal: hoje no Porto, Domingo e Segunda-feira em Lisboa, e Terça-feira na Guarda.

Em 1985, uma revolução musical teve lugar em Genebra, Suíça, perpetrada por um jovem admirador de Jim Morrison (Doors) e dos Swans. Esse jovem, Franz Treichler, foi o mentor de uma das mais visionárias bandas dos últimos 25 anos: The Young Gods. Da pacata Suíça surgia, assim, um vulcão de energia e de insurreição sonora, tão influente para uma geração de músicos e bandas de todo o mundo.
No início de carreira, essa rebelião sonora foi corporizada com o recurso a equipamento rudimentar: magnetofones, dois teclados e um sampler Akai básico. Foi o material suficiente para incendiar as primeiras actuações ao vivo dos The Young Gods, ainda detentores de uma sonoridade agreste e com as performances carismáticas do vocalista e líder (que cantava, com a mesma fluência, em três línguas diferentes: inglês, alemão e francês). A Inglaterra, país atento aos novos valores, reparou na originalidade do trio suíço (uma banda de guitarras sem… guitarras!), pelo que não tardou que a editora independente Wax Trax! editasse, em 1987, o primeiro álbum de originais da banda. A imprensa depressa rotulou os The Young Gods como pioneiros do rock industrial, uma classificação acertada, uma vez que recorriam a pesados riffs de guitarra samplados, voz cavernosa e ritmos marcantes.
O jornal inglês Melody Maker descrevia a música do grupo como sendo o “rock mais incendiário do momento, capaz de criar um novo horizonte musical”. E estava tudo dito. O primeiro álbum, “The Young Gods” foi, por isso, uma fulgurante estreia que lançou sólidas sementes para uma brilhante carreira de 25 anos.
Apenas dois anos depois, em 1989, os The Young Gods subiam a parada com a obra-prima “L’Eau Rouge”, lançado por uma editora mais respeitada, Play It Again Sam. Neste disco, o trio de Franz Treichler, depurou a sua música, com uma mistura cirúrgica de orquestrações clássicas com guitarras noisy e ritmos industriais. Foi a rampa de lançamento da banda, não só na Europa como, sobretudo nos EUA, país pelo qual começaram a fazer várias digressões de sucesso.
Duas bandas seminais do rock alternativo norte-americano, Ministry e Nine Inch Nails, assumiram desde a primeira hora, a influência directa da música dos Young Gods. Porém, nada fazia prever que, ao terceiro álbum, os The Young Gods voltassem a surpreender com um álbum tremendamente original. Em 1991 o grupo lançou o álbum “Play Kurt Weill”, extraordinário e sofisticado disco de versões do célebre compositor alemão Kurt Weill, que Al Comet (teclista do grupo) considerou o “pai de toda a música pop”.
As grandes canções de Weill, como “Alabama Song” (cantada em tempos por Jim Morrison), “September Song”, “Mackie Messer” ou “Speak Low”, foram magistralmente recriadas pela banda suíça, com arranjos superlativos que misturaram a fidelidade à tradição e a vontade de inovação estética. Apesar da sonoridade alternativa e fora dos domínios do mainstream, os The Young Gods estavam, cada vez mais, a afirmar-se junto de novos públicos.
O empurrão para tal foi conseguido com o disco “T.V. Sky” (1993), totalmente cantado em inglês e que continha alguns dos maiores êxitos da banda: “Gasoline Man”, “Skinflowers” e “T.V. Sky”. Os anos 90 seriam ainda relevantes para a carreira dos suíços, uma vez que o álbum “Only Heaven” (1995) seria marcante para a carreira do grupo.
Após um silêncio de cinco anos, os The Young Gods regressaram em força na primeira década de 2000, com uma sonoridade mais electrónica, ambiental e menos visceral: os álbuns “Second Nature” (2000), “Music for Artificial Clouds” (2004) e “XXY” (editado em 2005 para celebrar 20 anos de carreira) e “Super Ready/Fragmenté” (2007) constituíram discos que proporcionaram uma grande diversidade de fãs.
Em 2008, o trio de Franz Treichler, sempre conotado com a música digital e electrónica, explorou um registo nunca anteriormente abordado: o acústico. Partiram para uma digressão de sucesso (que passou por Portugal) totalmente acústica, apresentando as grandes canções que marcaram 25 anos de actividade intensa. Entretanto, no final de 2010, Os The Young Gods lançaram um novo álbum, intitulado “Everybody Knows”, que regista uma nova etapa na criatividade do grupo, conseguindo regenerar a sua sonoridade, mais electrónica, mais contida, mas sempre com indesmentível energia e rasgo criativo.
Portugal será, por estes dias, um palco privilegiado para a apresentação do novo álbum (assim como alguns grandes êxitos mais antigos). Um palco que, certamente, será um lugar de total celebração musical. E pegando numa expressão de um jornalista inglês proferida há muitos anos, o concerto desta banda mítica será um momento de puro e contagiante “Unforgettable Fire” (por sua vez, uma expressão extraída de uma música dos U2). E não se pode pedir mais nada, portanto.
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Texto de Victor Afonso
Publicado no BIS (Boletim do TMG) na edição relativa aos meses de Janeiro, Fevereiro e Março 2011.
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"Miles Away" - do novo álbum "Everybody knows"

sábado, 20 de novembro de 2010

O super-grupo de John Zorn

Sempre fui um grande admirador de John Zorn. A sua vasta produção musical é de qualidade necessariamente desigual, mas é indubitável considerar a importância do seu contributo para a música contemporânea com projectos seminais como Naked City, Cobra ou (Electric) Masada.
Zorn é um músico que incorporou múltiplas referências estéticas num só "corpus" musical: improvisação, jazz, rock, étnica, electro-acústica, blues, hardcore, etc. A vanguarda é um conceito que sempre jogou bem com grande parte da obra zorniana.
Num dos grandes festivais de jazz da Europa, Marciac (sul de França), John Zorn reuniu um excepcional e ecléctico colectivo de músicos ("Exodus"), dirigindo-os na acção musical (também tocou saxofone): o fabuloso Marc Ribot na guitarra; o polivalente (e barbudo) Jamie Saft no órgão; Trevor Dunn no baixo (ex-Mr.Bungle); o vibrafonista Kenny Wollesen (tocou com Tom Waits ou Bill Frisell); o sempre fantástico baterista Joey Baron (Ex-Naked City) e um dos maiores percussionistas do mundo, Cyro Baptista.
Um super-grupo de luxo que, às ordens de John Zorn, cria uma música estimulante, desafiadora, exploradora de timbres, ritmos e texturas.
Excelente momento musical:

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Kubik e "A Felicidade" em Viseu



Dia 15 de Outubro de 2010, sexta-feira, pelas 22h, cine-concerto "A Felicidade" (1934) do realizador Alexander Medvedkine com música ao vivo de Kubik.
No Teatro Viriato - Viseu.
Alexander Medvedkine foi contemporâneo de grandes cineastas soviéticos como Eisenstein, Pudovkin, Dovjenko e Vertov, mas nunca chegou a ter a projecção e o reconhecimento destes realizadores compatriotas.
"A Felicidade" (na imagem) é um notável filme sobre a repercussão da Revolução Bolchevique no povo anónimo. Ao contrário da seriedade dos filmes de Eisenstein, Medvedkine opta antes pelo género de comédia do burlesco, directamente influenciado por Buster Keaton mas com um forte cunho surrealista. O resultado é um filme repleto de gags visuais, de crítica social/política e de grande rigor estético e formal, numa mistura estimulante de drama e comédia visual.
O realizador e documentarista Chris Marker foi um dos que reabilitou a figura e a importância de Medvedkine no cinema soviético, ao realizar o documentário "The Last Bolchevik" (1993). A Amazon.com lançou há dois anos, um DVD contendo o filme "A Felicidade" e o documentário de Chris Marker. Sem dúvida uma oportunidade para conhecer o trabalho de um realizador esquecido.
Quanto à música que irei tocar para acompanhar o filme ao vivo... A questão maior foi: que música é adequada para um filme de humor mudo anti-bolchevique banido na Rússia durante 40 anos? Num filme feito de uma fina e subtil estrutura formal e narrativa, só faz sentido uma música que consiga corresponder a essas características. Pretendi que houvesse uma relação dinâmica entre a imagem e a música, recorrendo a múltiplas sonoridades, texturas, ambientes e estilos musicais (com programações electrónicas e instrumentos avulsos - teclado MIDI, concertina, guitarra eléctrica, harmónica, flautas, xilofone, percussão).
Por conseguinte, se alguém estiver por Viseu esta sexta-feira, está desde já convidado a assistir a este cine-concerto.

terça-feira, 5 de outubro de 2010

A entrada dos "4 astronautas"


A entrada dos U2 no Estádio de Coimbra foi simples mas triunfal: os quatro músicos passaram pelo meio da multidão, dois à frente, dois atrás, impávidos e impassíveis face aos gritos da multidão.
Pareciam quatro astronautas compenetrados a caminho de uma difícil missão espacial. A música que acompanhou o momento da passagem dos camarins até à subida ao palco foi o tema "Space Oditty" de David Bowie - uma das minhas músicas preferidas de Bowie.
E fez todo o sentido escolher esta fabulosa música de Bowie - composta e editada em 1969, "Space Oddity" coincidiu com a alunagem, pela primeira vez, de um austronauta na Lua. Conta a história de um fictício Major Tom que, em viagem pelo espaço sideral, se sente solitário e deprimido face à magnitude do Universo face ao Homem.
Foi o mote imagético para uma odisseia especial (e espacial) com que os U2 presentearam o público.

Under a Blood Red Sky












Coimbra: 3 de Outubro de 2010
Fotos: Victor Afonso

segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A canção matinal de Bowie

O que têm em comum nomes da música tão diferentes como The Young Gods, David Bowie, Teresa Stratas, Dalida, Ute Lemper, The Doors, Allison Moorer, Marilyn Manson e The Wandering Bards? O ponto em comum é o facto destes grupos/músicos terem feito versões da célebre canção "Alabama Song (Whiskey Bar)" de Kurt Weill (colaborador de Bertolt Brecht em várias óperas e musicais). Neste excerto de um concerto ao vivo de David Bowie, o autor de "Low" começa por dizer que, quando estava a viver em Berlim, cantava todos os dias ao pequeno almoço esta canção. Convenhamos que se trata de uma inspirada versão do clássico de Kurt Weill.