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terça-feira, 1 de setembro de 2015

"Os Médicos da Morte"

Hoje assinalam-se 76 anos do início da Segunda Guerra Mundial. Este é um período da história contemporânea que me interessa bastante e há dias comprei um livro (comecei a ler) fascinante que aborda os chamados "Médicos da Morte" do regime nazi. 70 anos após do fim deste terrível acontecimento bélico, este livro é um impressionante documento de 816 páginas consagrado aos horrores da medicina nazi perpetrados durante os 12 anos de vigência do terceiro Reich de Hitler. Do contexto social e ideológico que permitiu corromper em absoluto o papel do médico, aos responsáveis no terreno pelos actos mais hediondos, esta é uma obra baseada em testemunhos de sobreviventes, confissões de médicos SS e em milhares de documentos que os nazis não conseguiram destruir antes da derrota final. 

Milhares de crianças, deficientes, homossexuais, ciganos, judeus e até alemães dissidentes, prisioneiros de uma ideologia que os renegava da própria condição humana, foram alvo de atrozes experiências médicas com o objectivo aniquilar as raças inferiores ou ajudar no esforço de guerra. Foi o apogeu da crueldade do Terceiro Reich, um delírio científico que choca e repugna. E que deve ser lido para nunca ser esquecido. Os médicos nazis tinham rédea solta para fazer as experiências que quisessem nos campos de concentração. Incineraram, castraram, congelaram, sufocaram homens, mulheres e crianças sem misericórdia. Retiravam órgãos e membros, transfundiam sangue de uns para outros em experiências macabras... este livro prova quão monstruoso pode ser o ser humano.

segunda-feira, 24 de março de 2014

A estética, apenas a estética

Repugna-me a ideologia nacional-socialista nazi e a ditadura hitleriana. Mas, paradoxalmente, fascina-me a estética e a propaganda que o regime de Adolf Hitler incutiu junto das massas populares e do poder militar. 
Estas raras fotografias a cores são exemplos impressionantes do poder da imagem e da devoção cega a um líder que levou a Europa à tragédia mais absoluta e horrenda.




terça-feira, 21 de fevereiro de 2012

Ser ou não ser Hitler


A edição online do Jornal de Notícias dá conta de uma notícia surpreendente sobre o ditador alemão Adolf Hitler: uma investigação de uma revista francesa descobriu que Hitler terá tido um filho de uma jovem francesa. Já por si, a ser verdade, esta é uma notícia deveras bombástica. Mas eu queria chamar a atenção para outro pormenor inerente ao próprio corpo da notícia tal e como é veiculada: a imagem que surge a acompanhar a referida notícia não é de Adolf Hitler, mas sim do actor Bruno Ganz a interpretar... Adolf Hitler no filme "A Queda" (2004). Porque é que o jornalista ou editor do jornal não colocou uma fotografia do verdadeiro ditador? Só há duas hipóteses:

1) Por ignorância: o jornalista achou que esta imagem representa mesmo o Hitler real.
2) Por negligência: o jornalista até sabe que este é um actor no papel de Hitler mas julgou que não tinha importânica nenhuma utililizá-la à mesma.
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Seja qual for a razão, na era da informação e do conhecimento à distância de um clique, não há desculpas para cometer uma imprudência deste tipo. Pegando num filme actual, seria o mesmo que divulgar uma notícia sobre a ex-primeira ministra britânica Margaret Thatcher e surgir a acompanhar uma fotografia da sua representação fictícia no cinema: Meryl Streep.

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Entrevistas Póstumas (7) - Leni Riefenstahl



O Homem Que Sabia Demasiado - A sua reputação como cineasta é enorme, apesar de só ter realizado 8 longas-metragens. Como explica este facto?

Leni Riefenstahl - Bom, o meu percurso foi bastante longo, de cerca de sete décadas, mas estive muitos anos sem filmar depois do fim da Segunda Guerra Mundial. Fiz os meus filmes sobretudo entre 1932 e 1945, depois do fim da Guerra, como sabe, tive imensos problemas para desenvolver os meus projectos.

O Homem Que Sabia Demasiado - A que se deveram, no seu entender, esses problemas?

Leni Riefenstahl - Basicamente, por causa da minha ligação a Adolf Hitler e os dois filmes que fiz para o regime Nazi: "O Triunfo da Vontade" (1934) e "Olympia" (1938). O mundo inteiro acusou-me de colaboradora do regime hitleriano, mas isso não é bem verdade. Apesar do que se diz, não fui eu que ofereci os meus serviços como realizadora a Hitler. Ele é que me convidou depois de ter visto o meu primeiro filme, "A Luz Azul" (1932). Eu ainda declinei, sugerindo que fosse convidado um grande realizador alemão, Walter Ruttman, mas Hitler insistiu que fosse eu e, como estava ansiosa de trabalhar num grande projecto, resolvi aceitar. Como aconteceu a muita gente, eu fiquei fascinada quando ouvi o poder de oratória do Kaiser, e era difícil resistir ao seu incrível magnetismo. Nos anos em que fiz os filmes, desconhecia ainda as atrocidades cometidas contra os Judeus. Pode-ma chamar de ingénua, mas foi isso que aconteceu.

O Homem Que Sabia Demasiado - Acha justo que critiquem os seus filmes pela inevitável propaganda política mas que os elogiem, ao mesmo tempo, pela sua inovadora linguagem estética e formal?

Leni Riefenstahl - Sim, não me importo que as pessoas façam essa análise. Tive muitos meios técnicos ao meu dispor para filmar a convenção Nazi de Nuremberga e por isso inventei novos enquadramentos, novos movimentos de câmara, novas formas de montar as imagens.

O Homem Que Sabia Demasiado - Muitos anos depois, na década de 70, desiste do cinema e torna-se fotógrafa, fazendo reportagens nas tribos do Sudão.

Leni Riefenstahl - Desisti do cinema porque achava que já tinha tido as experiências estéticas que me realizaram. E como senti sempre obstáculos e boicotes para continuar a filmar por causa da minha alegada simpatia com o Nazismo, então experimentei a fotografia, uma outra arte nobre e extremamente gratificante. E com 80 anos descobri outro prazer único: a fotografia submarina! Em 2002, quando fiz 100 anos de idade, realizei um documentário sobre esse fascinante mundo subaquático.

O Homem Que Sabia Demasiado - O seu percurso artístico é indissociável do percurso político do regime Nazi e de Hitler. Há pouco tempo, o estilista John Galliano disse que simpatizava com a figura de Hitler; ontem o realizador Lars Von Trier, referiu que compreendia Hitler e se sentida nazi. A que se deve este fenómeno de "empatia" com uma figura tão terrível da hstória?

Leni Riefenstahl - É difícil explicar, ainda mais para mim, que vivi todos aqueles anos loucos e frenéticos na Alemanha de Hitler. Não creio que Hitler seja citado por ser uma personalidade cruel e responsável por milhões de mortes. Creio que é referenciado porque existe uma total ausência de liderança política na Europa e Hitler, para o bem e para o mal, encarnou um líder carismático, determinado, seguro e com grande poder de fascínio junto das populações. Se houvesse um líder político europeu actual com estas características, mas sem a brutal carga maléfica que lhe é atribuída, talvez as pessoas se esquecessem rapidamente que Hitler existiu.

Lars Von Trier e os "soundbytes"



Sinceramente, vindo de Lars Von Trier, já nada espanta ou choca. Há dois anos, a propósito do filme "Anticristo", disse que se considerava o "melhor realizador do mundo". Pelo meio proferiu várias opiniões controversas sobre política e cinema.

Agora, na conferência de imprensa, também em Cannes, acerca do seu novo filme, "Melancholia", o cineasta resolveu mandar umas piadas (espontâneas ou planeadas?) sobre Hitler e os judeus. Para além do despropósito e do mau gosto inerente a estas afirmações (é ver no vídeo o ar embaraçado da actriz Kirsten Dunst!), ressalta a conclusão de que Lars é um especialista em lançar "soundbytes" que têm, unicamente como fim, gerar publicidade gratuita à sua volta.

Parece um menino mimado que chega a uma festa de anos na qual é ignorado e, para se afirmar e chamar a atenção, resolve fazer ou dizer disparates. Lars Von Trier é um realizador que divide paixões no meio cinéfilo: há quem admire a sua dimensão estética, há quem o abomine pela ausência de ética. Uma coisa é certa: Lars arranja sempre motivos para falarem dele.

Deve seguir a máxima do pintor surrealista Salvador Dalí: "O que eu quero é que falem de mim. Nem que seja para dizer bem".

terça-feira, 30 de novembro de 2010

A estética de Leni


Independentemente da habitual controvérsia à volta desta fotógrafa e realizadora (amante de Hilter? Colaboracionista do regime nazi? Elemento de propaganda de Goebbels?), o que importa é que se torna necessário perceber que Leni Riefenstahl realizou dois dos mais espantosos documentos visuais da História do Século XX, designadamente, da História que precedeu a 2ª Grande Guerra Mundial.
A rigorosa composição plástica das imagens, o ritmo meticuloso da montagem, os ângulos e planos inovadores, o "zeitgeist" que transpira em cada sequência filmada, a apoteose coreográfica das paradas militares e os jogos de encenação teatral dos atletas (em "Olympia"), dos soldados e de Hitler (em "O Triunfo da Vontade"), fazem destes documentários objectos de um inigualável fascínio estético (mesmo que a ideologia do nacional-socialismo totalitário nazi que está subjacente a estes documentários seja alvo de incondicional repúdio - que é o meu próprio caso).
Em Portugal estão editados, que eu tenha conhecimento, estes dois filmes que consagraram para a eternidade a realizadora alemã Leni Riefenstahl: "Olympia" (1938) e "O Triunfo da Vontade" (1934).

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O discurso

Charlie Chaplin ("O Grande Ditador", 1940 ) e Adolf Hitler (Nuremberga, 1934)
Discurso final de Hynkel (Chaplin):
"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém, seguimos por outro caminho. A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criámos a época da produção veloz, mas sentimo-nos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz em grande escala, tem provocado a escassez. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos muito pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade; mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura!"

terça-feira, 20 de julho de 2010

A Lanterna Mágica de Bergman


Gosto muito de auto-biografias. Sobretudo de escritores, músicos, realizadores e actores. No capítulo das auto-biografias de realizadores, há muitos anos li uma auto-biografia que me impressionou particularmente: "O Meu Último Suspiro", de Luís Buñuel, escrita apenas 3 anos antes da sua morte (já falei dela aqui no blogue). A auto-biografia de Charlie Chaplin, Marlon Brandon e Andrei Tarkovski (este último não é bem no registo de auto-biografia convencional) também constituem fascinantes e derradeiros testemunhos de vida e de percurso artístico.
A última auto-biografia interessante que li é a do cineasta sueco Ingmar Bergman, intitulada "Lanterna Mágica". E surpreendeu-me a vários níveis: muitíssimo bem escrito, "Lanterna Mágica" ultrapassa o habitual registo de apontamentos biográficos, provando que uma auto-biografia pode ser, também, uma inequívoca obra literária. Ingmar Bergman escreve de forma extremamente sóbria e pragmática, com ironia e finura estilística. Quase como se fosse um romance.
Para meu espanto, aborda pouco a sua carreira como cineasta, interessando-se mais por contar o seu irregular (mas nem por isso menos importante) percurso como encenador de teatro. E escreve, sem pejo nem constrangimentos, sobre os mais diversos acontecimentos da sua vida: desde os amores e desamores com as mulheres, a primeira vez que se masturbou (!), as inúmeras doenças que o atormentaram desde cedo (enxaquecas, cólicas renais...), a relação difícil com o pai autoritário, a sua admiração juvenil por Hitler, a sua visão da crítica de teatro, a sua forte ligação com os actores com quem trabalhava, os altos e baixos da sua carreira (despedimentos, humilhações, prémios, consagrações...), etc.
Um verdadeiro manual para conhecer, muito mais a fundo, a obra e a vida de um dos grandes realizadores de cinema do século XX.
PS - Este livro está à venda, a um preço de promoção, na Fnac.

segunda-feira, 10 de maio de 2010

"Happy Birthday Adolf Hitler!"


Ontem assinalou-se a data da derrota oficial da Alemanha nazi na Segunda Guerra Mundial. 65 anos depois, parece que a memória histórica se esvai na sociedade actual. Supostamente, o nazismo foi um dos piores pesadelos da Humanidade, mas ainda há quem se esforce para o manter bem vivo...
Veja-se este caso: um jovem casal holandês, Heath e Deborah Campbell, tem três filhos. Tudo de normal até agora. O elemento que distorce esta aparente anormalidade é o facto de Heath Campbell ser um acérrimo... neo-nazi. Ora, como bom neo-nazi que é, Heath nega a existência do Holocausto, odeia de morte os Judeus e venera o fascismo alemão até às últimas consequências. Para provar o seu amor pela causa, resolveu baptizar os seus três filhos com nomes de acordo com a ideologia que idolatra. Então é assim: uma filha chama-se JoyceLynn Aryan Nation Campbell; a outra, Honszlynn Himler Campbell. E, crème de la crème, o filho mais novo, que acaba de fazer três anos, dá pelo singelo nome de Adolf Hitler Campbell! E logo com uma carinha de anjo (na imagem com os pais).
Ao que parece, o diligente neo-nazi ficou indignado pelo facto de uma pastelaria se ter recusado a confeccionar um bolo de aniversário para o filho por causa do infame nome. Convenhamos que não é todos os dias que se pode ver escrito, com creme de chocolate num bolo de aniversário, a dedicatória "Happy Birthday Adolf Hilter!". O pudor, a dignidade intelectual e o respeito pela memória de 6 milhões de judeus mortos no Holocausto terão pesado na consciência do pasteleiro e, consequentemente, na nega ao pedido.
Há estigmas e estigmas na vida. Mas o estigma que esta pobre criança, Adolf Hitler Campbell, vai carregar às costas até morrer, é daqueles estigmas que nem Jesus Cristo conseguiria suportar. Ele há coisas...
Heath Campbell com a filha JoyceLynn Aryan Nation Campbell.

segunda-feira, 11 de janeiro de 2010

A História contada por Oliver Stone


Segundo o jornal i, o realizador Oliver Stone continua a desbravar caminhos políticos inauditos. Depois de ter feito documentários sobre Fidel Castro e Hugo Chávez (absolvendo-os politicamente), depois de ter procurado conspirações internas na morte de John Fitzgerald Kennedy, de ter criticado duramente George W. Bush, de ter criado um presidente Nixon amorfo, Oliver Stone investiga agora as raízes mais obscuras da história norte-americana com uma mini-série de dez horas intitulada - "The Secret History of America".
O título deste trabalho é, já por si, todo um programa de intenções. Nele, o realizador de "Platoon" quer mostrar como corporações americanas ajudaram financeiramente o partido nazi alemão. Parece-me bem denunciar certos fenómenos históricos que se encontram ainda algo encobertos pela poeira dos tempos. O que já me parece abusivo e deturpador da verdade histórica é a tentativa, já revelada nas próprias palavras de Stone, em branquear a figura política, militar e histórica de Adolfo Hitler: "O líder nazi Adolf Hitler foi um bode expiatório fácil ao longo da história. Não podemos julgar as pessoas apenas como 'más' ou 'boas'. Hitler é o produto de uma série de acções. É uma relação de causa e efeito."

Sobre Estaline, o cineasta diz que nada tem a ver com Hitler: "Não quero pintá-lo como um herói, mas tento fazer-lhe uma representação mais factual. Lutou contra a máquina alemã mais do que qualquer pessoa." Eu acho estas declarações absolutamente infelizes, demagógicas e manipuladoras, e farão as delícias dos movimentos fascistas e neo-nazis. Depreende-se das palavras de Stone que devemos desculpar Estaline porque foi um bravo combatente de Hitler (sobretudo na decisiva batalha de Estalinegrado). E o reinado de terror que durou 30 anos às mãos deste maníaco assassino em massa, responsável pela aniquilação de mais de 25 milhões dos seus próprios concidadãos inocentes, encerrando 18 milhões nos infames campos de trabalhos forçados (Gulags)? E quererá Oliver Stone fazer-nos crer que Hitler não passou de um "produto de uma série de acções", sem responsabilidades na consumação dos maiores acontecimentos trágicos de toda a História da Humanidade (2ª Guerra Mundial, Holocausto, campos de extermínio)?
Repugna-me pensar que, em pleno Século XXI, após o crescimento dos movimentos pró-criacionistas norte-americanos que negam a Teoria da Evolução darwiniana e seguem literalmente as profecias bíblicas, se difunda à custa da nova mini-série de Oliver Stone, a ideia que Hitler, afinal, é apenas um triste e irresponsável "bode expiatório fácil ao longo da história".

sábado, 17 de outubro de 2009

O legado de Leni Riefenstahl


A realizadora Leni Riefenstahl representa um fenómeno excepcional na história das imagens do século XX. Odiada e adorada em igual proporção, Leni Riefenstahl será sempre conotada com o hediondo regime nazi. Adolf Hiltler e Goebbels escolheram-na para ser a cineasta da propaganda (Fritz Lang tinha negado tal "convite", exilando-se nos EUA), impressionados com o talento artístico revelado nos seus primeiros documentários (anos 30). Fruto dessa colaboração, Riefenstahl realizou dois monumentos estéticos de exaltação da raça ariana germânica. "O Triunfo da Vontade" (1935) e "Olympia" (1938), duas obras belas e grandiosas ao serviço de uma ideologia ditatorial e racista que preconizou o Holocausto.
Há quem assuma não poder apreciar a obra da realizadora alemã por causa da sua óbvia ligação ao nazismo (ainda que desmentida ou relativizada pela própria Leni); outros há, como eu, que conseguem estabelecer uma separação no âmago da obra de Riefenstahl: separar a vertente estética da vertente política e ideológica. O pioneiro trabalho da realizadora alemã foi determinante para a história do cinema, sobretudo ao nível da linguagem do documentário - Leni era uma vanguardista visionária, experimentalista, na forma como utilizou inovadoras técnicas de filmagem, planos, enquadramentos, movimentos de câmara, fotografia, montagem, etc.
Mas a obra de Leni Riefenstahl não se resumiu aos dois enormes monumentos estéticos em prol do ideal nazi. Antes dessa colaboração, fez outros documentários importantes. Além disso, manteve-se activa até ao fim da vida (morreu em 2003 com 101 anos!), filmando o mundo subaquático e tribos africanas. Neste preciso fim-de-semana, o blogue de cinema My One Thousand Movies, dedica um ciclo especial à obra desta controversa cineasta. Vale a pena descobrir.

domingo, 4 de outubro de 2009

Os sacanas de Tarantino


Só agora vi no cinema "Inglorious Basterds" de Quentin Tarantino. Mas antes de o ver, li muitas opiniões (amadoras e profissionais) sobre a última obra do autor de "Kill Bill". Raramente li uma opinião moderada. Quase todas eram (são) extremas: ou é genial pela sua energia, montagem e argumento, ou é uma profunda desilusão pela sua aparente auto-indulgência e fantasia histórica. Julgo que "Sacanas Sem Lei" não é uma coisa nem outra. Gostei muito do filme, mas não é, quanto a mim a obra-prima inovadora que foi "Reservoir Dogs" ou "Pulp Fiction", nem é um falhanço espalhafatoso.
Quentin Tarantino sabe muito de cinema, cita descaradamente filmes e cineastas, e filma com inesgotável dedicação e energia. Sabe construir histórias delirantes com grandes momentos - diálogos soberbos, interpretações majestosas, montagem cirúrgica, humor negro imprevisível, violência impiedosa e utilização sempre surpreendente da música. Também não me parece que "Inglorious Basterds", sendo um filme assumidamente anti-filme de guerra convencional, seja uma obra fracassada nos seus intentos. Sempre foi dito pelo realizador e produtores que este filme seria um filme que apresentaria uma estrutura narrativa livre e uma visão alternativa dos acontecimentos da 2ª Guerra Mundial (uma espécie de anti-"Valquíria").
Tarantino conseguiu essa meta, rasgando os requisitos primários da heroicidade clássica dos filmes de guerra e criando personagens de um imaginário febril. Talvez por isso, atrás de mim nas cadeiras do cinema, havia um jovem casal de namorados que, no fim dos primeiros 5 minutos de projecção já estava a refilar: "Que seca de filme!" (não espanta, os teenagers vão atrás do Brad Pitt porque é o Brad Pitt, estrela mediática, e não estão preparados para sequências longas de incisivos e desconcertantes diálogos).
É óbvio que "Sacanas Sem Lei" é uma prodigiosa homenagem à história do cinema. As citações e referências são muitas - o soldado nazi que é cinéfilo, a jovem francesa que é dona de um cinema que exibe filmes de G.W. Pabst e Leni Riefenstahl, o oficial inglês que é crítico de cinema e autor de uma tese sobre cinema expressionista alemão, a carta de "King Kong" que o oficial nazi coloca na testa (no bar), que era o filme preferido de Adolf Hitler, a propaganda nazi através da indústria dos filmes, a sala de cinema enquanto palco da matança final, a frase de Shosanna "Nós os franceses respeitamos os nossos realizadores", entre outras.

No meio do turbilhão de criatividade visual e narrativa deste filme de Tarantino, há a destacar fortemente as interpretações: em primeiro lugar, destacadíssimo e responsável por uma das mais impressionantes criações dos últimos anos, está Christoph Waltz como o implacável Coronel Hans Landa. Agora percebo o que queira dizer Tarantino quando disse o que disse sobre este espantoso actor: "I think that Landa is one of the best characters I've ever written and ever will write, and Christoph played it to a tee… It's true that if I couldn't have found someone as good as Christoph I might not have made Inglorious Basterds".
O filme é quase todo atravessado pela incrível prestação de Waltz, numa personagem cáustica, mordaz, paródica e extremamente cínica. A fluência em quatro línguas (inglês, alemão, francês e italiano) acrescenta mais valia e realismo à interpretação de Waltz, justo vencedor do prémio de melhor actor no último festival de Cannes. O próprio Brad Pitt é magnífico na pele do sanguinário tenente Aldo Raine, assim como muitos personagens secundários.
Em suma, "Sacanas Sem Lei" é um obra de grande fulgor, genuinamente "tarantiniana", porventura com um ritmo desequilibrado, porventura excessiva e ambiciosa, mas é um filme que a história definirá como determinante para a redefinição do género de filmes de guerra.

terça-feira, 1 de setembro de 2009

A Guerra insana começou há 70 anos

Faz hoje 70 anos que teve início o mais sanguinário conflito de toda a história da Humanidade: 2ª Guerra Mundial. Um conflito de uma brutalidade inimaginável que jamais deve ser esquecido, sobretudo pelas novas gerações.
Daí que a história, a literatura e o cinema tenham um papel determinante em não deixar morrer, na memória colectiva mundial, as atrocidades cometidas por todos os terríveis beligerantes, especialmente por Hitler e Estaline. Das largas dezenas de filmes sobre a Segunda Guerra Mundial, há muitos e bons filmes que documentam a violência deste conflito (focando um ou outro episódio em especial), mas o que me provoca mais emoção, o mais brutal pela secura das imagens, o mais espantoso pela violência insana e pelo horror, é “Vem e Vê”, do russo Elem Klimov. E sobre este filme não vou escrever mais nada porque o que tinha a dizer está tudo aqui.

segunda-feira, 8 de junho de 2009

sexta-feira, 5 de junho de 2009

65 anos do Dia D

Com o decisivo Dia-D, 6 de Junho de 1944, tinha início a libertação da Europa do jugo nazi, com o desembarque da Normandia das Forças Aliadas. A partir deste dia e dos que se seguiram, o rumo da História da Segunda Guerra Mundial mudou definitivamente. Milhares de soldados tombaram na praia de Omaha, milhares lutaram contra o império de Hitler em prol da liberdade da França e da Europa. Foi há 65 anos.
O cinema imortalizou o célebre desembarque na Normandia em vários filmes americanos, mas nenhum conseguiu captar a essência das terríveis batalhas como "O Resgate do Soldado Ryan" (1998) de Steven Spielberg. Uma sequência de violência brutal, com os primeiros soldados aliados no desembarque a serem dizimados como animais para abate em série. Spielberg filma esta longa sequência como se estivesse no centro da batalha a filmar um documentário (inspirou-se nas fotografias de Robert Capa), com a câmara ao ombro, sem música, mas com o impressionante silvar das balas a entrar na carne e no mar (espantoso trabalho de sonoplastia), com a respiração ofegante dos soldados a fugirem dos morteiros que caiam na praia, com o medo estampado no rosto dos combatentes, com o sangue a pintar de vermelho a água, com a praia pejada de cadáveres. Memorável.

quarta-feira, 29 de abril de 2009

O que disseram antes de morrer


No mítico filme "Citizen Kane" ("O Mundo a Seus Pés", 1941) de Orson Welles, estes lábios de Charles Foster Kane (interpretado pelo próprio Welles), diziam a última palavra antes de morrer: "Rosebud". Palavra enigmática que abre a primeira obra de Orson Welles e que seria a chave para toda a história do filme. Esta última palavra de Charles Foster antes de morrer fez-me lembrar outras frases famosas de personalidades que, momentos antes da morte, proferiram determinadas frases ou palavras que ficaram para a posteridade. Eis alguns exemplos:

"Aplaudam, amigos, a comédia acabou"
Ludwig van Beethoven

"Eu nunca deveria ter trocado de Scotch para Martini"
Humphrey Bogart

"Estou chateado com tudo isso"
Winston Churchill

"Raios! Nem se atreva a rezar a Deus por mim"
Joan Crawford (para a empregada)

"Levem estas freiras idiotas para longe de mim."
Norman Douglas

"Eu vejo uma luz negra!"
Victor Hugo

"Quando a música acabar, apaguem as luzes"
Adolf Hitler

"Bebam a mim!"
Pablo Picasso

"Morrer é facíl, comédia é difícil"
George Bernard Shaw

"Harmonia"
Arnold Schoenberg

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Duas notas sobre este dia

Nota 1: 20 de Abril de 1999. Há dez anos ocorria o massacre do Liceu Columbine. Dois jovens, de 17 e 18 anos, Eric Harris e Dylan Klebold, entraram pela escola munidos de armas de fogo automáticas, bombas e facas. De forma aleatória e durante uns infernais 49 minutos de ataque feroz, foram assassinados 12 estudantes. Partindo deste massacre, Michael Moore viria a realizar um documentário polémico sobre a violência e o mercado liberalizado de armas nos EUA, “Bowling for Columbine” (2002), e Gus Van Sant o magnífico "Elephant" (2003).

Nota 2:
Há 120 anos, também no no dia 20 de Abril de 1889, nascia Adolf Hitler. Existem indícios de que os dois jovens que perpetraram o massacre de Columbine escolheram o dia 20 de Abril para assinalar o nascimento do líder nazi (em 1999, passavam 110 anos). E hoje mesmo – não será mera coincidência - os serviços portugueses de segurança alertam para o crescimento do Partido Nacional Renovador (conotado com a extrema-direita) e o movimento neo-nazi em Portugal (sobretudo do grupo extremista e violento “Hammerskin”).

domingo, 12 de abril de 2009

Anne Frank e o atentado a Hitler


O “Diário de Anne Frank”, escrito entre 1942 e 1944, é um impressionante relato escrito por uma adolescente desde os 13 aos 15 anos. A maturidade da escrita da jovem Anne Frank revelou-se um testemunho perturbante do horror nazi durante a segunda Guerra Mundial. Ao longo de dois longos anos, Anne Frank e a sua família judaica, refugiaram-se no sótão de uma casa holandesa com medo de sair à rua e serem capturados pelos nazis. O diário era uma forma de escape para Anne Frank, no qual expunha, com grande inteligência e perspicácia, as suas angústias, preocupações e visões da guerra, através das informações recebidas pela rádio e testemunhos que ela própria recolhia. Ao folhear ao caso o livro “O Diário de Anne Frank” dei-me conta que a última página escrita no diário pela extraordinária jovem resistente, aborda o atentado a Adolf Hitler levado a cabo pelo oficial Claus Von Stauffenberg (recentemente adaptado ao cinema no filme “Valkiria”). Eis o que conta, em 21 de Julho de 1944, no diário, Anne Frank sobre o episódio do atentado:
“Estou cheia de esperanças, tudo vai bem! Sim, vai mesmo muito bem! Notícias sensacionais. Houve um atentado contra Hitler mas, imagina, os autores não foram comunistas, judeus ou capitalistas ingleses, mas sim um general alemão da nobre raça germânica e, ainda por cima, um general ainda jovem! A providência divina salvou a vida do Fuhrer e ele escapou – infelizmente, infelizmente – com algumas arranhadelas e queimaduras. Alguns oficiais e generais que andavam com ele morreram ou ficaram feridos. O autor principal foi fuzilado. Este atentado é a melhor prova de que muitos oficiais e generais estão fartos desta guerra e que veriam com prazer o Hitler afundar-se nos mais profundos precipícios”.
Anne Frank escreveria apenas mais uma página do diário no dia 1 de Agosto de 1944. Dias depois, a Gestapo descobria o esconderijo da família Frank, e a jovem foi deportada para o campo de concentração de Bergen-Belsen, onde morreria em Março de 1945, um mês antes do fim da guerra e da libertação do campo. O pai de Anne Frank, único sobrevivente da Holocausto, publicaria o diário da filha em 1947, transformando-se rapidamente num documento único sobre a o período mais agitado da segunda Guerra Mundial.
Site oficial de Anne Frank.

terça-feira, 3 de março de 2009

Sophie Scholl - relato de uma resistente


Sophie Scholl foi uma jovem (21 anos) estudante universitária alemã opositora do regime Nazi durante a 2ª Guerra Mundial. O seu nome ficou conhecido por ter pertencido a um corajoso movimento de resistência à ditadura de Hilter, o movimento "Rosa Branca".
Munique, 1943. Hitler está a devastar a Europa. Um grupo de jovens universitários recorre à resistência passiva para combater os nazis, formando o movimento "Rosa Branca". Sophie Scholl é a única mulher do grupo. Sophie e Hans Scholl, irmãos, são detidos pela Gestapo quando distribuíam panfletos contra o regime na Universidade de Munique. Pouco tempo depois são presos os restantes membros do grupo. A 22 de Fevereiro, Sophie e Hans foram acusados de alta traição e condenados à morte. A execução aconteceu ainda no mesmo dia - foram guilhotinados. Os restantes membros foram executados no mesmo ano. Os membros da Rosa Branca, principalmente Sophie Scholl, são ainda hoje respeitados na memória histórica da Alemanha, como símbolo de resistência face à crueldade do regime nacional-socialista.
O filme "Sophie Scholl - Os Último Dias" (2005, edição DVD da Prisvideo), do realizador alemão Marc Rothemund, retrata os últimos quatro dias de vida da jovem opositora, com um notável rigor histórico. Os momentos mais dramáticos do filme ocorrem aquando do cerrado interrogatório a que é sujeito Sophie Scholl pela Gestapo e no momento da julgamento falacioso. A tensão das discussões fazem gelar o sangue do espectador, pela forma determinada como Scholl denuncia os crimes Nazis face à total arrogância e indiferença dos militares, advogados e juízes. A condenação por alta traição de Scholl e dos outros elementos do movimento, deveu-se unicamente pelo distribuição de panfletos apelando à resistência pacífica do povo alemão no auge da guerra.
O movimento surgiu menos de uma ideologia política e mais da indignação com a forma como os alemães aceitavam o nazismo e a guerra feita em seu nome. A coragem dos membros do "Rosa Branca" ficou conhecida em toda a Alemanha ainda no decorrer da Segunda Guerra e até o conhecido escritor Thomas Mann reconheceu os seus méritos publicamente, numa comunicação transmitida pela BBC no dia 27 de Junho de 1943. Uma heroína que defendeu até às últimas consequências as convicções que a sua consciência lhe ditou.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009