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quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Uma big band em estado de ebulição

Esta é bem capaz de ser uma das mais delirantes big bands que alguma vez pisou a face da terra.
Chama-se Flat Earth Society, existe desde 1999, são (geralmente) 22 músicos de formações distintas liderados pelo clarinetista Peter Vermeersche. O projecto é originário da Bélgica.
Misturam músicas num caldeirão onde cabe: Frank Zappa, John Zorn, Mike Patton, Duke Ellington, Sun Ra, Henry Mancini, Carl Stalling (compositor de cartoons), Ennio Morricone, Louis Armstrong, jazz, blues, rock, experimental, e o mais que se queira imaginar. O resultado musical é uma orquestra em completa ebulição criativa, em estado de delírio frenético e constante. São todos instrumentistas com elevada técnica mas também com elevada capacidade criativa. Há também um lado fortemente cinematográfico na sua música.
Diversão e profundidade são duas das muitas nuances da big band, que de big band convencional pouco tem. Lançaram em 2013 o último álbum (altamente recomendável) chamado "13" e foi para mim um dos discos do ano.
Diz quem já viu ao vivo os Flat Earth Society que são uma experiência irrepetível, excitante e surpreendente. Acredito. E eu acreditarei na Virgem Maria quando ler a notícia que esta tresloucada e original orquestra vem tocar um dia em solo português.
PS - Em Portugal temos uma big banda muito equivalente: LUME - Lisbon Underground Music Ensemble.

domingo, 4 de agosto de 2013

A Paris de Woody Allen

Os meus pais foram emigrantes em França e eu vivi até aos sete anos no centro de Paris. Tenho ainda fortes recordações da minha vida na capital francesa. Lembro-me das ruas, das avenidas, dos parques, do rio Sena, de alguns monumentos e da escola onde estudei. Vou voltar a Paris de férias este mês e estou ansioso para me reencontrar com as minhas próprias memórias e sentir a beleza que esta cidade transmite. 
Por isso me lembrei do início do filme "Midnight in Paris" (2011) de Woody Allen. Antes da história propriamente dita ter início, o realizador filmou a cidade em diferentes planos fixos para dar uma perspectiva multifacetada da beleza e singularidade estética únicas da capital. 
São três minutos maravilhosos ao som da música "Si Tu Vois Ma Mère" do clarinetista de jazz Sidney Bechet (uma das referências musicais de Woody). A combinação entre uma certa melancolia transmitida pela música, a fotografia deslumbrante e as imagens das ruas, da arquitectura, das luzes, das matizes de cor de Paris, fazem desta introdução uma ode belíssima a Paris. 
E para quem conhece Paris e já circulou pelas suas ruas, jardins, avenidas e cafés, concordará que esta sequência é de um deslumbramento nostálgico deveras comovente.  
Obrigado, Woody Allen.

sábado, 15 de junho de 2013

"A" Maiúsculo com Círculo à Volta



Rui Eduardo Paes tem sido um combatente. As suas armas são a sua imensa sabedoria musical/cultural e a sua escrita em livros e imprensa escrita ao longo de quase 30 anos de intensa actividade de crítico e ensaísta. Por isso é o melhor especialista português sobre as novas tendências artísticas contemporâneas no que à música diz respeito e, por inerência, a todo o vasto e complexo pensamento subjacente.
Rui Eduardo Paes, de quem já escrevi várias vezes neste blogue, estuda a problemática das músicas contemporâneas de índole experimental e a significação das estéticas de ruptura face aos valores culturais instituídos. Dito de outro modo, aborda todas as expressões artísticas tidas como de vanguarda, nas suas múltiplas formas e configurações - música electroacústica, free-jazz, improvisada, electrónica, noise, multimédia, erudita contemporânea, computer music, fusões estilísticas bizarras e outras derivações estéticas radicais e alternativas face à cultura "mainstream" dominante. 
Rui Eduardo Paes tem sido uma voz crítica única no panorama jornalístico nacional, revelando sempre uma argumentação extremamente bem urdida, lúcida e uma visão histórica dos factos simultaneamente original e pertinente. Analisa eloquentemente os fenómenos artísticos, disseca-os com auxílio de teorias não só musicais como filosóficas e literárias, citando para tal autores tão prementes para a cultura contemporânea como Virilio, Camus, Borges, Sartre, Lyotard, Deleuze, Debord, Heidegger ou Cioran. 
Além disso, explora a congeminação de relações entre distintas áreas do pensamento ensaístico, tentando estabelecer elos de ligação entre correntes específicas do pensamento artístico (surrealismo, dadaísmo, pós-modernidade, teoria do Caos, minimalismo, nihilismo...) com outras tantas correntes musicais e artísticas (free jazz, música concreta, electrónica, improvisação, instalações multimédia, cinema experimental, pintura conceptual...).
A novidade que o seu novo livro traz é que o ponto de vista essencial é o ponto de vista político associado às manifestações estéticas contemporâneas. O título é, de resto, todo um programa de intenções: "A" Maiúsculo Com Círculo à Volta". O anarquismo histórico e as suas formas libertárias de expressão são intercaladas, pelo autor, com múltiplas abordagens a músicos, escritores, cientistas ou artistas multimédia. Um livro que, uma vez mais, prova que o autor rejeita o conformismo de pensamento e ousa analisar novas abordagens, novas relações, novos pontos de vista sobres os fenómenos artístico-culturais-sociais-filosóficos do mundo contemporâneo.

Com a edição conjunta da Chili Com Carne e Thisco, o novo livro de Rui Eduardo Paes relaciona as músicas de hoje (jazz, improvisação, pop-rock, noise, electrónica experimental, música contemporânea) com as novas tendências do pensamento libertário, descobrindo analogias mas também desmistificando ideias feitas. Entre os temas percorridos ao longo dos 10 capítulos amplamente ilustrados estão o ocultismo, a espiritualidade, a ciência, a ficção científica, a tecnologia, o amor e o sexo, com referência a autores como Robert Anton Wilson, Hakim Bey ou Murray Bookchin (o livro é ilustrado por vários artistas da Associação Chili Com Carne: Joana Pires, Marcos Farrajota, André Coelho, Jucifer, Bráulio Amado (acumulando o cargo de Designer do livro), José Feitor, David Campos, André Lemos ou João Chambel).
Trata-se pois, de uma obra ousada na forma e no conteúdo; não será de fácil leitura para leitores pouco habituados à torrente de informação criteriosamente debitada por Rui Eduardo Paes (numa página pode ter dezenas de referências a músicos, escritores ou filósofos), mas será certamente uma experiência altamente enriquecedora absorver tamanha sapiência nesta forma tão original e "anárquica" de interpretar a cultura paradoxal característica da sociedade em que vivemos.

terça-feira, 26 de março de 2013

Petra e os filmes

Petra Haden é uma das três filhas do grande contrabaixista de jazz Charlie Haden.
Petra é cantora de jazz (e não só) e lançou recentemente um interessante álbum intitulado "Petra Goes to The Movies". Tal como o nome indicia, Petra Haden pegou em 16 temas musicais de filmes (uns mais famosos do que outros) e recriou-os no estilo "a capella", ou seja, só com vozes (apesar de ter também músicos convidados da estirpe de Brad MehldauBill Frisell e do próprio pai, Charlie Haden).
O resultado é algo desequilibrado, isto é, nesta selecção há temas mais criativos e outros menos inspirados, mas na generalidade, trata-se de um disco merecedor de atenção que foi buscar inspiração ao imaginário do cinema e das suas músicas (ver lista em baixo). 
Particularmente feliz e original é esta recriação do tema principal do clássico "Psycho" que Bernard Herrmann imortalizou para o filme de Hitchcock:


1. Rebel Without A Cause Main Title - 2:50
2. God's Lonely Man - Taxi Driver - 2:01
3. Cool Hand Luke Main Title - Cool Hand Luke - 2:08
4. Cinema Paradiso - Cinema Paradiso - 3:01
5. A Fistful Of Dollars Theme - A Fistful Of Dollars - 1:51
6. Psycho Main Title - Psycho - 2:03
7. Goldfinger Main Title - Goldfinger - 2:11
8. Carlotta's Galop - 8 1/2 - 3:01
9. It Might Be You - Tootsie - 5:15
10. The Planet Krypton - Superman - 1:22
11. Superman Theme - Superman - 3:55
12. My Bodyguard - My Bodyguard - 2:50
13. Pascal's Waltz - Big Night - 1:24
14. Calling You - Bagdad Cafe - 4:47
15. Hand Covers Bruise - The Social Network - 4:21
16. This Is Not America - The Falcon and the Snowman - 4:59
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Aqui pode ouvir todos os temas em streaming numa divertida encenação com a própria artista a encarnar os personagens principais de cada filme citado.

quinta-feira, 21 de março de 2013

A estrada sem fim

Vi "On The Road" de Walter Salles, baseado no mítico livro homónimo de Jack Kerouac. Não vou dizer - como já li - que o livro "é melhor do que o filme". Acho que esta discussão (saber se o livro é melhor do que o filme ou vice-versa) é uma discussão estéril, na justa medida em que um filme e um livro são objectos totalmente distintos, logo, têm de ter uma avaliação estética diferenciada. 
Seja como for, apesar de estar longe de ser uma obra-prima, "On The Road" faz justiça fiel às incríveis histórias contidas na obra de Kerouac, na qual o próprio e o seu amigo Neil Cassady viajaram, durante anos, pela mítica Route 66 dos EUA, conhecendo as figuras mais excêntricas da América dos anos 40 e vivendo as mais tresloucadas experiências de vida.
"On The Road" (filme e livro), paradigma da literatura "Beat Generation", é uma verdadeira trip psicadélica pelas entranhas de uma América pós-guerra, uma viagem de um grupo de jovens em busca de uma identidade, de uma total liberdade com muito jazz à mistura, muita droga, muito sexo e, não menos importante, muita (e boa) literatura (leitura e escrita). 
Em certa medida, "On The Road" condensa um espirito que hoje já não seduz a maioria da juventude: a ânsia da descoberta de novas sensações veiculadas pela arte (literatura e jazz) numa deambulação  com a estrada sem fim (da vida e de alcatrão) como único horizonte.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

quinta-feira, 15 de novembro de 2012

Gostava...

- Gostava de ter vivido os anos de ouro do cinema clássico de Hollywood.
- Gostava de ter presenciado concertos de Charlie Parker, John Coltrane e Miles Davis em clubes nocturnos escuros e cheios de fumo de Nova Iorque de meados do século passado.
- Gostava de ter passeado nas ruas de Paris dos anos 1910 e 1920, no seio da agitação artística e cultural e ter tomado um café na esplanada do mítico Café de Flore.
- Gostava de ter ouvido ao vivo Maria Callas cantar a "Carmen" de Bizet.
- Gostava de ter assistido aos anos de criatividade fervilhante da "Factory" de Andy Warhol nos anos 60 em Nova Iorque.
- Gostava de ter assistido à gravação do primeiro álbum dos The Velvet Underground.
- Gostava de ter visto a estreia apoteótica de "Metropolis" de Fritz Lang, em Berlim (1927).
- Gostava de ter estado presente na entrega do Óscar Honorário a Charlie Chaplin em 1972.
- Gostava de ter assistido ao concerto de Jimi Hendrix no festival de Woodstock (1969).
- Gostava de ter assistido aos primeiros concertos dos Sex Pistols e dos Joy Division.
- Gostava de ter visto pintar, in loco, Salvador Dalí, Jackson Pollock e Magritte.
- Gostava de ter assistido à estreia de "A Sagração da Primavera" de Stravinsky em Paris (1913).
- Gostava de ter sido varredor do estúdio de filmagem do filme "12 Homens em Fúria" (1957) de Sidney Lumet.
- Gostava de ter tomado um copo de absinto na companhia de Fernando Pessoa no Martinho da Arcada, em Lisboa dos anos 1920.
- Gostava de ter assistido à rodagem de "The Shining" de Stanley Kubrick, "Blade Runner" de Ridley Scott e de "Stalker" de Andrei Tarkovski.
- Gostava de ter feito a viagem costa-a-costa dos EUA com Jack Kerouac que viria a dar no livro "On The Road".
- Gostava de ter visto o filme "Koyaanisqatsi" com orquestra ao vivo conduzida por Philip Glass.
- Gostava de ter acompanhado a gravação de todos os álbuns dos Dead Can Dance. 
- Gostava de ter presenciado a reacção do público aos primeiros filmes de George Méliès nos anos 1910.
- Gostava de ter tomado café em Los Angeles com Marlon Brando, Elizabeth Taylor, Buster Keaton, Sam Peckinpah, Audrey Hepburn e Maureen O'Hara.
- Gostava de ter sido figurante em todos os filmes de Alfred Hitchcock.
- Gostava... 

sábado, 27 de outubro de 2012

Para conhecer Miles Davis

Miles Davis, um dos maiores génios da história do jazz, é o objecto de análise neste magnífico documentário "The Miles Davis Story" (2001). 
Realizado para a BBC, o documentário aborda os momentos mais importantes do incrível e rico percurso de vida e de artista de Miles, desde os primórdios da carreira em St. Louis até às múltiplas colaborações com outros grandes nomes do jazz.
Músico inovador e sempre à procura da originalidade, Miles Davis é, ainda hoje, dos mais influentes músicos de sempre, porque o seu legado estético se estendeu por várias décadas e explorou as fusões estilísticas mais inusitadas. 
Por isso vale a pena ver "The Miles Davis Story", pela qualidade do conteúdo, mas também pela forma sóbria como é realizado e montado.
 

terça-feira, 18 de setembro de 2012

Rui Eduardo Paes

Portugal está prestes a perder um dos seus melhores críticos, ensaístas e jornalistas musicais: Rui Eduardo Paes. Isto porque um amigo meu me reencaminhou um mail do próprio jornalista a dizer que, caso não encontre trabalho em Portugal brevemente, a solução poderá passar pela emigração.
Rui Eduardo Paes, com uma carreira de 30 anos, lançou há pouco tempo o seu sexto livro sobre música, "Breviário Ilustríssimo", um notável livro sobre as mais variadas correntes musicais de vanguarda (e não só) contemporâneas, portuguesas e estrangeiras. O livro pode ser encomendado online aqui.
Para quem não conhece o trabalho deste importante jornalista no desemprego, eis o que Nuno Catarino escreveu no jornal Público sobre este autor e o respectivo livro:

"O musicólogo Rui Eduardo Paes tem desenvolvido uma intensa actividade na escrita sobre música(s) ao longo dos últimos 30 anos, entre o jornalismo, a crítica e a reflexão ensaística. Tendo estado, nos últimos tempos, mais ligado ao universo do jazz (na qualidade de editor da revista jazz.pt), Paes não abdica de atravessar géneros, com ênfase no experimental.
Ao longo de uma obra vasta – "Ruínas" (1996), "A Orelha Perdida de Van Gogh" (1998), "Cyber-Parker" (1999), "Phonomaton" (2001), "Stravinsky Morreu" (2003) –, Paes tem desenvolvido ensaios que reflectem sobre as questões que caracterizam as "novas músicas". Estes livros serão actualmente quase impossíveis de encontrar, na sequência da falência da editora Hugin, e este novo "Bestiário Ilustríssimo" vem devolver o seu nome às prateleiras das livrarias, fechando um hiato de nove anos sem publicar. Numa edição que recupera o título de uma série de peças publicadas no jornal Blitz há cerca de 20 anos, Paes reúne textos mais recentes, produzidos para finalidades diversas (folhas de sala de concertos, artigos de revista, guiões de conferências e "liner notes" de discos).
São 50 textos, distribuídos por 260 páginas, que divergem em temas e géneros, sendo embora atravessados por algumas questões comuns que acabam por estar presentes de forma recorrente: as problemáticas da improvisação; o papel da tecnologia na produção musical; as ligações entre o jazz e as outras músicas; ou as intersecções entre música e outras artes.
Demonstrando una rara capacidade de criar paralelos entre temas, Paes estabelece metáforas, propondo analogias, questionando e desafiando. Sendo boa parte dos textos acerca de músicos vindos das áreas do jazz e da música improvisada do nosso tempo (como Elliott Sharp, Sei Miguel, Daniel Levin, Red Trio, Peter Brotzmann, Nobuyasu Furuya, Carlos "Zìngaro", Mostly Other People Do The Killing ou Steve Lehman), vai também a extremos diferentes e menos previsíveis – como Paganini, Aki Onda ou Mão Morta. Independentemente da área de proveniência, cada tema é laboriosamente analisado sob originais pontos de vista.
Cada texto engloba um manancial de referências, numa espécie de aura enciclopédica, mas a escrita de Paes favorece uma leitura e descomplicada, sem esforço, que resulta prazenteira. Refira-se ainda a inclusão das deliciosas ilustrações de Joana Pires, que funcionam como excelente complemento à prosa saborosa do escritor."
 
Nuno Catarino no Público (suplemento Ípsilon).
Classificação do livro: ****

quinta-feira, 31 de maio de 2012

Música com "poder de fogo"

Gosto de música que agite, que seja imprevisível, possante e arrojada (mas também gosto de música com efeitos contrários: que amacie e atenue a tensão). Gosto de música visceral, intransigente, arrebatadora. Gosto de música que extravase os limites de convenções e géneros. Gosto de música que não se limite a copiar fórmulas ortodoxas. Gosto de música enérgica, irrequieta e com “poder de fogo”.
Por isso gosto dos noruegueses Shining. Porque têm todos estes atributos (e mais alguns) na forma explosiva como combinam jazz, rock progressivo e metal.
É favor colocar o volume bem alto para deixar soltar toda a energia inerente. 

domingo, 18 de março de 2012

Do jazz à música de circo


Segundo a página da Wikipedia dedicada ao grupo Mr. Bungle, as influências que a banda de Mike Patton assumiu durante a sua carreira (1985 - 2000) são as seguintes: funk, free jazz, surf rock, punk, heavy metal, klezmer, ska, kecak, avant-jazz, folk, noise rock, pop, doo-wop, funk metal, electronica, swing, space age pop and exotica, death metal, rockabilly, bossa nova, progressive rock, country & western, circus music, video game and cartoon music.
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Sim, pode parecer exagero, mas a verdade é que o eclectismo musical e a diversidade estética explorados pelos Mr.Bungle reflectiu todas estas (e porventura outras) referências musicais. Aliás, como bem se percebe ouvindo esta obra-prima musical chamada "Ars Moriendi" (do Álbum "California" de 1999):

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Joyce no "Hugo"

O filme "Meia-Noite em Paris" de Woody Allen estava recheado de personagens artísticas do início do século XX: Ernest Hemingway. Cole Porter, F. Scott Fitzgerald, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Gertrude Stein, Man Ray, Luis Buñuel, etc. Estas figuras desempenhavam um papel relevante na história do filme.
Ora, Martin Scorsese, outros cineasta culto e com sensibilidade artística apurada, também incluiu no ser recente (e oscarizado) filme "A Invenção de Hugo", algumas figuras essenciais da arte da primeira metade do século XX. Só que, ao contrário de lhes atribuir um papel importante no argumento (como fez Woody Allen), apenas as utilizou como meros figurantes. Talvez tenha sido apenas para dar um toque mais erudito ao ambiente parisiense e para contextualizar historicamente a história de Hugo.
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Eis as personagens artísticas que surgem em "A Invenção de Hugo":
O guitarrista de jazz Jean "Django" Reinhardt

O escritor James Joyce e o pintor Salvador Dalí

sexta-feira, 3 de fevereiro de 2012

Denzel e Monk

Denzel Washington já interpretou várias figuras negras míticas, como o activista político Malcolm X ou o pugilista Rubin 'Hurricane' Carter.
Numa entrevista concedida a um site espanhol, o actor refere que recusou interpretar Nelson Mandela porque "não se via no papel e não tem pretensões de interpretar todas as lendas negras".
O jornalista insistiu e perguntou que outras personalidades negras especiais gostaria de encarnar. Ao que Denzel respondeu: "Thelonious Monk, um dos grandes músicos de jazz da história com graves problemas mentais. Deixou de tocar piano repentinamente e nunca mais tocou. Decidiu deixar de falar e, um dia, decidiu deixar-se ficar na cama, onde viria a morrer. É uma história fascinante".
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É bem verdade: Thelonious Monk foi um dos músicos de jazz mais influentes mas também um dos mais bizarros e surpreendentes (e neste capítulo teve concorrência forte no mundo do jazz, como Charlie Parker ou Sun Ra). Seria muito interessante uma adaptação ao cinema da vida e obra de Monk, e certamente que Denzel Washington faria uma boa figura no papel do principal criador do género Bebop.

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

Os (alucinantes) Shining


Aviso: esta música não é para todos.

Os noruegueses Shining (não confundir com o filme de Kubrick) são uma superbanda - com 10 anos de existência - que fazem uma improvável fusão de rock progressivo, metal e... jazz. Um mistura muito arriscada e corajosa, uma vez que, aparentemente são géneros inconciliáveis. Eu gosto de rock progressivo (facção krautrock alemão) e de jazz; gosto menos de metal (há muitas poucas bandas realmente originais dentro do género), mas gosto de ser surpreendido por fusões de estilos. E este é manifestamente o caso. E o resultado desta fusão estética é, no mínimo, explosivo. Nota-se que os Shining (liderados por um saxofonista com formação jazzística) são músicos muito bem dotados tecnicamente que arquitectam uma máquina impressionante de ritmo e energia sem concessões. Ou se adere de forma entusiástica ou provoca repulsa no ouvinte.

Pessoalmente, gosto destas provocações sonoras e de ser abalado com este tipo de turbilhão musical. É como se os Shining misturassem, numa trituradora sonora, os Naked City de John Zorn, o jazz de Ornette Coleman e o avant-rock mais extremo. Esta banda oriunda da Noruega editou, recentemente, o álbum ao vivo "Live Blackjazz", que tem sido altamente elogiado pela crítica especializada..

Voltando ao início: esta música não é para todos.

domingo, 22 de maio de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

45 anos de jazz radiofónico


Em 2011, o programa “Cinco Minutos de Jazz” de José Duarte comemora 45 anos de emissões! É o programa diário - de segunda a sexta - mais antigo da rádio portuguesa. A primeira emissão foi em 21 de Fevereiro 1966. A sua abertura e fecho pertencem já à história da rádio portuguesa. De Segunda a Sexta, na Antena 1 às 03:55 e 21:55.,”Cinco Minutos de Jazz” tem como objectivo divulgar música jazz de todos os estilos e de todos os anos - jazz de New Orleans, swing dos anos 30, bebop dos anos 40, big bands, hard bop dos anos 50, estilos que coabitam até com o free jazz ou com as novas tendências modernas.

José Duarte confessou um dia que, em conversa com um músico estrangeiro, referiu que mantinha há várias décadas um programa de apenas 5 minutos de jazz na rádio. O músico não acreditou. Não admira. O programa “5 Minutos de Jazz” deve ser caso único em todo o mundo, não só pela especificidade do próprio programa, como também pela longevidade. Por vezes acusado de conservador no gosto musical, a verdade é que José Duarte se tem revelado um incansável divulgador de jazz em Portugal. Parabéns, portanto.

quinta-feira, 3 de março de 2011

Discos que mudam uma vida - 134


É um dos meus discos de jazz preferidos de sempre: “The Lounge Lizards” (1981) pelos The Lounge Lizards. Banda de jazz sui generis, constituída por um naipe de notáveis músicos: o saxofonista John Lurie (que viria mais tarde a fazer música para filmes de Jim Jarmusch), o seu irmão Evan Lurie (piano e órgão), o baterista Anton Fier (saído da seminal banda de rock The Feelies) e o guitarrista Arto Lindsay (com experiência no rock subversivo do movimento No-Wave).
Todos construíram um jazz de indiscutível modernidade estética, numa fusão que deve tanto à atitude punk como a Charlie Parker, ao swing ou ao free-jazz. “The Loung Lizards” tem temas curtos e incisivos, de insuspeita criatividade rítmica e melódica, nos quais o saxofone de Lurie toma rédea solta e a guitarra eléctrica assanhada de Arto Lindsay imprime um cunho de inovadora sofisticação estética.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

LUME - Big Band do século XXI


Há fenómenos que não compreendo: um dos mais originais discos de música portuguesa editados (no final) de 2010 praticamente passou despercebido na imprensa: LUME - Lisbon Underground Music Ensemble, liderado pelo compositor, director de orquestra, pianista e manipulador de electrónica Marco Barroso.
Há pelo menos dois anos que esta singular orquestra de jazz (com 15 músicos oriundos de várias experiências) andava a dar nas vistas com concertos em sítios muito específicos. Agora, com o primeiro disco de estreia, o LUME impõe-se como uma big band de jazz do século XXI. Uma big band que mistura, num caldeirão explosivo, o jazz de Duke Ellington, Albert Ayler, John Zorn, o rock tresmalhado de Frank Zappa, Residents, Mr. Bungle, Tortoise, a electroacústica experimental de Charles Ives e Ligeti, a música para cinema de Ennio Morricone ou Henry Mancini e a música erudita contemporânea de Stravinsky ou Messiaen. A tudo isto há ainda a juntar a electrónica com utilização de samples de filmes e excertos de músicas rock.
O resultado musical é um fervilhar impressionante de ideias por segundo, num ritmo swing trepidante (a fazer lembrar, por vezes, Naked City de Zorn) conduzido por uma excepcional secção de sopros. Lá fora há algumas orquestras de jazz que pisam território estético semelhante ao LUME (como a Viena Art Orchestra ou os Flat Earth Society) mas eu arrisco afirmar, sem pudor, que a música de Marco Barroso é muito mais criativa e desafiadora. Esta orquestra, prova, igualmente, a grande qualidade técnica dos instrumentistas portugueses que em nada ficam a dever às grandes referências internacionais.
O crítico de música e ensaísta Rui Eduardo Paes refere que estamos perante um "disco pós-moderno". Isto porque rompe fronteiras estilísticas, subverte linguagens e mistura, com elevado bom gosto, estéticas aparentemente antagónicas, resultando num todo orgânico. Um projecto de uma riqueza musical rara no nosso país. Desejo ardentemente que o trabalho do LUME seja reconhecido em Portugal e, também, no estrangeiro.

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

O jazz e a literatura


Em Portugal, que eu tenha conhecimento, há apenas um livro que versa sobre a relação entre literatura e jazz. É um livrinho editado pela Campo das Letras, há uns anos, da autoria de Miguel Martins. Lá fora há vários títulos, mas destaco este: "Ask me Now" de Sascha Feinstein, procura estabelecer pontes de ligação (e há muitas!) entre os músicos de jazz e a criação literária.
O jazz era a música de eleição da Beat Generation (Kerouac, Burroughs, Ginsberg), que servia de espécie de "carburante energético" para os davaneios criativos destes escritores.
Para além desta associação, muitos outros escritores mantiveram fortes ligações com o jazz: Boris Vian (que também foi músico), Malcolm Lowry, Georges Simenon, Milan Kundera (foi baterista de jazz!), Sam Shepard, Henry Miller, Julio Cortazár, ou os portugueses António Ferro, Carlos Oliveira ou Jorge de Sena.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

O táxi de Travis

Revi no canal Hollywood o clássico "Taxi Driver" de Martin Scorsese. Há muitos anos que não o via e não perdeu um pingo de impacto.
Para além do filme em si, gostei de rever o genérico inicial, com a sequência do fumo a dissipar-se para dar lugar, lentamente, ao aparecimento do táxi de Travis Bickle.
A música - do grande Bernard Herrmann - é magnífica na forma como, num espaço de segundos, cria um ambiente misterioso (enquanto o nevoeiro persiste) para depois transformá-lo num suave travo jazzístico pontuado pelo saxofone, ao sabor da agitação nocturna de Nova Iorque.
São pormenores deste calibre que fazem a diferença entre um cineasta banal e um com marca de autor personalizada.