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terça-feira, 25 de novembro de 2014

Pessoa em edição especial

Edição de luxo (capas em madeira!) de "As Flores do Mal" de Fernando Pessoa com fotografias de Pedro Norton. Um belo objecto cultural numa época digital que dissemina a desmaterialização do livro.
"As Flores do Mal" é o livro dos vícios de Fernando Pessoa: absinto e aguardente, ópio e morfina, tabaco e muitos fumos, tal qual Pessoa e os seus heterónimos os sentiram e os cantaram. No total são 32 textos e poemas de Pessoa e respectivos heterónimos. São textos de inocência e abandono, textos de decadência e confissão - acompanhados por fotografias insubmissas - que nos dão a ler Fernando Pessoa como nunca o lemos.

Pena o preço elevado: 55€

sábado, 23 de agosto de 2014

Como ser Não-Humano



É o melhor livro que li nestas férias e, por ser pequeno (130 páginas), lê-se de um fòlego. Uma das mais importantes obras literárias japonesas "malditas" do pós-guerra de um atormentado escritor - Ozamu Dazai (na imagem) - que cometeu suicídio aos 39 anos.
Obra literária profundamente existencialista sobre a condição humana, pungente na narrativa e "directa ao osso".

Eis a sinopse:
"Não-Humano apresenta-nos a imagem de um homem que carrega as suas misérias, fraquezas e amores, como um sino de um leproso pelo mundo, a imagem da nossa simples humanidade.  uma das obras mais influentes e mais populares da literatura japonesa do pós-Guerra. Último romance de Osamu Dazai, o livro faz eco dos sentimentos da jovem geração que vive a dolorosa passagem para uma nova sociedade individualizada e tecnológica.
Descrevendo-se como um falhado e alguém que vive à margem da sociedade, Yozo, o protagonista de Não-humano, enfrenta desde a sua infância uma existência de extrema solidão, causada pela sua total incapacidade em compreender os seres humanos, que teme e dos quais se esconde atrás de uma máscara cómica. Esta sua insuperável inadequação a uma vida normal, pautada por tormentosas relações com as mulheres e crescente desespero, levá-lo-á a uma progressiva alienação da sociedade com consequências trágicas."

Edição Cavalo de Ferro, 2014. À venda na Fnac ou Bertrand.

sábado, 17 de maio de 2014

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Peter Hook e o livro sobre os Joy Division

Numa visita à Fnac deparei-me com este livro que Peter Hook escreveu sobre a sua banda, os míticos Joy Division. Trata-se de uma abordagem na primeira pessoa de alguém que conviveu de perto com a revolução musical que a banda de Manchester significou, revelando pormenores divertidos, surpreendentes e outros mais sórdidos, sobre a curta carreira artística dos Joy Division. 
São mais de 400 páginas escritas pelo ex-baixista da banda de Ian Curtis, numa edição negra belíssima em capa dura. O problema é o preço: tratando-se de um livro de importação, custa 31€. No entanto, recorrendo a livrarias internacionais online, consegue-se comprar esta mesma edição a metade do preço (!) e com portes grátis (!!), como nesta Book Depository.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Paris: livraria icónica

Em Paris visitei uma livraria irresistível. Irresistível pelo encanto, charme e conteúdo: "Shakespeare and Company"
Fica situada no número 17 da Rue de la Bucherie, mesmo atrás da célebre catedral Notre Dame. Abriu em 1951 e actualmente é considerada das livrarias mais distintas e icónicas da capital francesa. Para tal muito serviu ter sido cenário de dois importantes filmes: "Before Sunset" (2004) de Richard Linklater e de "Midnight in Paris" (2011) de Woody Allen
A "Shakespeare and Company" é especializada em literatura anglo-americana e é fruto de uma livraria original (com o mesmo nome) que funcionou entre 1919 e 1940, frequentada na altura por artistas e escritores como Man Ray, Ernest Hemingway, Ezra Pound ou Gertrude Stein.
Actualmente a livraria é gerida por Sylvia Beach Whitman, filha do ex-proprietário George Whitman. Neste espaço respira-se literatura e arte como se o tempo parasse. Existem frequentemente actividades como leituras públicas de poesia, encontros de escritores, tertúlias literárias, etc.
Uma livraria que não é apenas um depósito de livros, mas sim um magnífico espaço de fruição e partilha de saberes, fazendo justiça à Paris boémia e artística.
(Fotos: Victor Afonso)






terça-feira, 2 de abril de 2013

Espanha e os livros

Apesar de ser um país que também está a enfrentar gravemente a crise, Espanha é muito diferente de Portugal. Visitei há uma semana a cidade de Salamanca e, sempre que lá vou, fico deslumbrado. Com a arquitectura, com o dinamismo urbano, com o património, com o cosmopolitismo dos estudantes, com a magnífica Plaza Mayor, com a oferta comercial e cultural... Enfim, uma cidade bela e sempre atractiva em múltiplos aspectos e onde não se "sente" a crise.
Um dos sítios onde se qualquer leitor se pode perder durante horas é a livraria Cervantes, que é deveras irrepreensível e um exemplo a seguir pelas livrarias portuguesas. Para cada tema há uma diversidade incrível de títulos. E o sentido de oportunidade e de actualidade é surpreendente: para dar um simples exemplo, tinham passado apenas três semanas da eleição do novo Papa Francisco e a livraria já tinha disponível duas obras biográficas em castelhano! 
A secção onde fiquei mesmo maravilhado foi na secção de cinema: largas dezenas e dezenas de títulos, quase todos originalmente escritos por jornalistas e ensaístas espanhóis (poucas traduções, o que prova o dinamismo editorial espanhol), sobre os mais improváveis temas: o cinema e a época egípcia; o cinema e as drogas; o cinema e o papel das mães; o cinema como terapia; o cinema e a psiquiatria; o cinema e a guerra, o cinema e a arquitectura, etc, etc. Vi também a tradução das memórias da realizadora alemã Leni Riefenstahl, obra que tarda para o mercado português.
Ou seja, uma espantosa variedade de livros para quem se interessa pelo cinema e suas múltiplas áreas de intervenção social, estética, histórica ou cultural. Acabei por comprar este magnífico livro sobre a relação entre o cinema e a música.
PS - aqui tinha escrito sobre uma superlativa livraria só sobre cinema de Madrid (que eu visitei numas férias de Verão). 

quinta-feira, 19 de julho de 2012

Chaplin e Bergman: dois livros

São dois livros que descobri na livraria Bertrand, colocados estrategicamente um ao lado do outro (para chamar a atenção do leitor mais cinéfilo): "Chaplin: Os Primeiros Anos" (Ed. Bizâncio) de Stephen Weissman e "A Lanterna Mágica" (Ed. Relógio D'Água) de Ingmar Bergman.
O primeiro livro apenas folheei e pareceu-me muito interessante porque centraliza a sua análise na vida e obra de Chaplin durante a primeira década do século XX, descortinando histórias quotidianas de criança e da difícil ascensão ao estrelato.
Já sobre o livro "A Lanterna Mágica", conheço bem porque já tinha uma edição antiga deste título. Trata-se da magnífica e imperdível autobriografia do realizador sueco, que comentei num post anterior, exactamente aqui. Visto que são raras as boas edições de livros de (e sobre) cinema em Portugal, eis duas boas propostas de leitura para este verão. Para o cinéfilo e não só.

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

As ilustrações de Hugo Cabret

Numa visita à livraria Bertrand folheei o livro "A Invenção de Hugo Cabret", que foi adaptado ao cinema por Martin Scorsese. E gostei bastante daquilo que vi e li. O livro chama a atenção pela sua forma e no modo de contar a historia, na medida em que proporciona uma visão cinematográfica ao leitor, deixando de lado a parte descritiva e priveligiando a parte visual (geralmente pouca explorada pelos livros convencionais).
Metade do livro é, pois, preenchido por preciosas e belíssimas ilustrações a preto e branco (como estas duas) que contam essa história infanto-juvenil da obra escrita por Brian Selznick. Ainda não vi o filme (estou desejoso), mas a avaliar pela qualidade geral que o livro revela e pela temática do mesmo (uma homenagem às fantasias cinematográficas de George Méliès e dos primórdios do cinema), não vejo a hora de ver esta nova e - certamente - surpreendente obra de Scorsese.


terça-feira, 5 de julho de 2011

Os livros de cinema nas livrarias


Não compreendo como em Portugal se editam tão poucos livros de e sobre cinema. Durante anos, as edições minimamente regulares foram da responsabilidade da Cinemateca (títulos que nem sempre chegam aos escaparates das livrarias) e, mais recentemente, as Edições Texto & Grafias, que têm lançado com alguma periodicidade, livros importantes relativos à teoria e estética do cinema (o último foi o essencial “Audiovisão” de Michel Chion).
Fora isso, contam-se por uma mão ou duas (se quisermos ser generosos) as boas novidades editoriais que vão surgindo por... ano.
aqui referi o meu total êxtase quando entrei na célebre livraria madrilena exclusivamente vocacionada para o cinema, a Ocho y Medio. Mas eu já não pedia, em Portugal, uma livraria só de cinema. Bastava-me uma livraria que tivesse novidades (nacionais ou estrangeiras) com qualidade e com alguma regularidade. O que não acontece. Nem na Fnac, nem na Bertrand (na imagem). Cada vez que consulto na Bertrand a prateleira exígua com os livros sobre cinema, fico decepcionado com a escassez de títulos e da falta de variedade dos mesmos (meia dúzia de livros).
Ok, dir-me-ão: "se queres bons e variados livros de cinema vai à Amazon ou a outra livraria online". Pois eu sei disso e já comprei vários nesta modalidade. Mas a verdade é que, num mundo perfeito, seria muito mais interessante que estivessem disponíveis na livraria, para os poder folhear, tocar, ler passagens, ver o índice, etc.
PS - E só agora reparei na imagem que, no meio dos habituais títulos, está lá perdido um livro cor-de-rosa para as mulheres com o título "Como Estar Fabulosa" (ou algo do género).
Enfim...

domingo, 19 de junho de 2011

Chaplin e as viagens pela Europa

Eis uma boa surpresa que encontrei na minha última visita à livraria Bertrand: "A Minha Viagem Pela Europa" (Almedina) de Charlie Chaplin. Trata-se de um diário do realizador acerca das suas viagens pela Europa após um esgotamento emocional e profissional nos EUA, a partir da década de 40 do século XX.
O testemunho em primeira mão aborda as experiências que Chaplin teve em vários países (França, Alemanha, Suíça, Inglaterra...) por onde passou para promover os seus filmes ou, simplesmente, para passar férias (acabou por fixar residência durante os seus últimos anos na Suíça, onde acabaria por morrer).

sábado, 30 de abril de 2011

Kubrick a preço de saldo

Já tinha vários livros sobre Stanley Kubrick mas faltava-me, na minha biblioteca sobre cinema, esta preciosa edição da Taschen: "Stanley Kubrick - A Filmografia Completa" em edição portuguesa.
Encontrei este livro à venda na livraria Bertrand por um preço muito simpático: 9,90€.
Um Kubrick a preço de saldo, portanto.

terça-feira, 29 de março de 2011

Os diários reunidos de Tarkovski


Imperdível para os fãs do realizador Andrei Tarkovski: acaba de ser editado em Espanha (pela editora de Salamanca Sígueme) um livro contendo os sete diários de Tarkovski, escritos na Rússia e na Europa a partir de 1970 até quase ao fim da sua vida (1986).

No total, são mais de 600 páginas com imensa informação sobre os pensamentos do cineasta de "Stalker" sobre o processo criativo, as suas anotações de produção, notas sobre o cinema e questões de ordem eminentemente familiar, reflexões filosóficas sobre a arte, desabafos do seu crescente isolamento artístico e consequente exílio, etc. Sem dúvida um riquíssimo documento que complementa o seu livro de memórias intitulado "Esculpir o Tempo".

O título deste volume, "Martirologio", evoca os processos judiciais contra os cristãos do Império Romano que se negaram a oferecer sacrifícios aos deuses e ao imperador, sofrendo por isso, condenações à morte.

O livro custa 39€ e está à venda online aqui.

sábado, 12 de março de 2011

Livro "A Audiovisão" em português!


Michel Chion é um escritor francês, argumentista, ensaísta, professor, jornalista (colaborador de muitos anos da "Cahiers du Cinéma"), compositor de música experimental e concreta e um especialista no cinema russo.
Michel Chion é, igualmente, uma autoridade mundial na investigação da relação entre a música, o som e as imagens (do cinema), com várias obras de referência publicadas. Tem livros sobre David Lynch, Pierre Henry, Pierre Schaeffer, Jacques Tati, Andrei Tarkovksi, Stanley Kubrick e Terence Malick. Um dos seus textos mais citados é sobre a voz no cinema e suas múltiplas formas de expressão.
Há dois anos, Michel Chion deu uma entrevista à revista Wire na qual explicou todo o seu percurso profissional, as ligações aos músicos que fizeram história, as relações com a tecnologia musical, as metodologias de trabalho e de investigação nas mais diversas áreas, entre outros assuntos interessantes. Nessa entrevista, deu também a conhecer os seus cineastas de eleição: Tati, Tarkovski, Fellini, Malick e Kubrick.
Chion dizia na entrevista que não apreciava particularmente realizadores do chamado "paradoxo audiovisual snobista e da retórica", como Godard. Chion contrapõe dizendo que prefere o cinema puro e realista de Tarkovski, com um sentimento infantil muito mais forte e poético. Creio que foi a primeira vez que li uma opinião negativa referente a Godard vindo de alguém tão especializado em cinema.
Controvérsias à parte, importa referir que a grande notícia tem a ver com o facto que, finalmente, foi editado no mercado livreiro português o grande livro de referência de Michel Chion: "A Audiovisão - Som e Imagem no Cinema".
Trata-se de um magnífico estudo sobre o som e a música no cinema, escrito numa linguagem acessível e nada académica ou hermética (como por vezes é habitual neste tipo de ensaios). Uma obra que se encontra à venda em qualquer livraria e se revela de viciante leitura para o cinéfilo que procure aprofundar um tema tão fascinante quanto este.
Nota: De Michel Chion havia até à data, tanto quanto sei, um único livro em edição nacional (que eu também tenho e recomendo): "Músicas, Media e Tecnologias" (edição Instituto Piaget).

domingo, 27 de fevereiro de 2011

O cinema substitui a escola


Na minha última visita à livraria Bertrand tive uma agradável surpresa: deparei-me com a edição portuguesa de um livro do qual já havia 13 traduções internacionais e de que falei há já dois anos.
Trata-se de "O Clube de Cinema" (Pergaminho), que conta a verídica história de um pai que educa o seu problemático filho adolescente (que abandonou a escola) com recurso ao visionamento de uma criteriosa selecção de filmes.
Quando terminar de ler o livro, farei uma resenha no blogue.
Para perceber todo o contexto desta fantástica história, é favor ler este post.
____
Crítica do jornal O Globo acerca do livro:
"Um livro terno, franco e divertido. É simplesmente a história de um pai que está quase a entrar em desespero por causa do filho problemático, com o qual mal consegue falar, e que subitamente arrisca uma estratégia inusitada para se aproximar do miúdo e ajudá-lo a amadurecer. E é sempre empolgante confirmar-se através da literatura e do cinema que a arte não serve apenas para nos divertirmos nos tempos livres, mas para nos ajudar a crescer e a ser pessoas melhores.

sábado, 1 de janeiro de 2011

Balanço 2010 - Os livros


Em Portugal existe um mercado livreiro avassalador: são editados, em média, cerca de 40 novos títulos... diariamente. Por ano, são milhares de novos livros que inundam as prateleiras das livrarias (sem contar com as reedições). Ou seja, nem o leitor mais obsessivo e mais endinheirado consegue acompanhar este frenético ritmo editorial. Uma selecção criteriosa impõe-se.
Houve muitos bons livros que não consegui ler (ou porque não tive tempo ou porque simplesmente não os podia comprar a todos). Alguns ainda estão na "fila de espera de leitura" e nem se encontram mencionados nesta lista necessariamente resumida:

1 - "À Espera no Centeio" - J.D. Salinger (Difel)
2 - "Menos Que Zero" - Brett Easton Ellis (Teorema)
3 - "Um Repentino Pensamento Libertador" - Kjell Askildsen (Ahab)
4 - "Pão Com Fianbre" - Charles Bukowski (Ulisseia)
5 - "Do Inconveniente de Ter Nascido" - E.M. Cioran (Letra Livre)
6 - "Dalí e Eu - Uma História Surreal" - Stan Lauryssens (Editoral Presença)
7 - "Contos Fantásticos" - Edgar Allan Poe (Ulisseia)
8 - "Os Grandes Mistérios da História" - Vários autores (Clube do Autor)
9 - "Filho de Jesus" - Dennis Johnson (Ahab)
10 - "Submundo" - Don DeLillo (Sextante)
11 - "Contos de Amor, Loucura e Morte" - Horacio Quiroga (Cavalo de Ferro)
12 - "Correios" - Charles Bukowski (Antígona)
13 - "As Vidas dos Outros" - Pedro Mexia (Tinta da China)

sexta-feira, 3 de dezembro de 2010

Um novo livro sobre Tarkovski


Portugal é um país parco em edições de livros sobre cinema.
Diria mesmo: um país extremamente pobre neste capítulo. São escassos os críticos, historiadores ou jornalistas que se dedicam à escrita sobre cinema em Portugal (à excepção de estudos de teor mais académico ou no âmbito de uma instituição como a Cinemateca). Panorama totalmente diferente é o espanhol.
Desde há longos anos que, vivendo perto da fronteira de Espanha, acompanho o mercado livreiro (e da comunicação social em geral) me deparo com constantes e importantes novidades no mercado da edição de livros de arte, cultura, música, cinema, literatura, etc.
Sobre cinema, há até uma fascinante livraria em Madrid unicamente dedicada ao cinema, da qual dei conta neste post. No mercado livreiro espanhol existe uma diversidade e um dinamismo editorial avassalador, com obras muito interessantes sobre os mais variados temas do universo cinematográfico.
Um dos mais respeitados especialistas mundiais do realizador russo Andrei Tarkovski é espanhol: Rafael Llano. É da sua autoria uma monumental biografia em dois volumes sobre o autor de "Stalker" e é ele, igualmente, um dos responsáveis por um dos melhores e mais completos sites sobre o cineasta russo. Ora, este preciso site acaba de informar da edição de mais um livro sobre Tarkovski, da autoria do professor, jornalista e ensaísta espanhol Carlos Tejeda. Tal como conta neste site, Carlos Tejeda classifica da seguinte forma o cinema de Tarkovski: "Tarkovski representa um cinema de nostalgia. Nostalgia do passado, do presente e do futuro. Tudo está impregnado de recordações, memórias, melancolia, evocações, visões, desassossego, rituais, viagens. Muitas viagens: a viagem como permanente procura." Um novo livro sobre Tarkovski é, quanto a mim, sempre motivo de interesse e regozijo.
O autor mantém um interessante blog no qual publica os seus textos e, como se nota pelas imagens em baixo, para além de admirador de Tarkovski, Carlos Tejeda é também um admirador confesso de Jacques Tati!

sábado, 25 de setembro de 2010

Música e loucura


Oliver Sacks, conhecido neurologista e escritor americano, ficou mundialmente famoso com o livro "Despertares" adaptado ao cinema por Penny Marshall em 1990, e que contava com os actores Robin Williams e Robert de Niro. É autor do brilhante livro "Musicofilia", o qual relaciona doenças do foro neurológico com a música.
Sacks tem dedicado parte da sua vida a estudar a influência que a música tem nos seus doentes, nomeadamente, naqueles que sofrem de doenças degenerativas como Alzheimer ou Parkinson. O resultado das suas investigações e experiências revela que os sons são um remédio para a demência (não é novidade absoluta), mas que também podem levar à loucura uma pessoa mentalmente sã (esta afirmação já contém alguma novidade).
Sacks revela um caso de um pianista que sofreu de uma variante grave de Parkinson que mal se conseguia mover com espasmos nervosos. Um dia, sentou-se ao piano e interpretou brilhantemente um "Nocturno" de Chopin. Assim que parou de tocar, voltaram os sintomas da sua doença. Este é apenas um exemplo (entre muitos) do poder que a música exerce sobre o nosso cérebro. A mais recente técnica de pesquisa cerebral - a ressonância magnética funcional, demonstra que ainda há muito para descobrir sobre o modo como o cérebro humano responde aos estímulos sonoros e musicais. Mas uma coisa é certa - a música tem propriedades terapêuticas incríveis (a musicoterapia é uma ciência comprovada). Já Edwin Gordon, reputado teórico que dedicou a sua vida à influência da música no desenvolvimento cognitivo, provara isso mesmo.
Por seu lado, o livro "O Efeito Mozart", editado há uns anos em Portugal, já demonstrara inúmeras provas de como a música exerce um poder curativo e regenerador no homem (e não só no homem, uma vez que está comprovado que a música de Mozart incrementa o crescimento de plantas e a produção de leite nas vacas).
Quanto à questão da música poder levar à loucura é algo muito mais difícil de comprovar. É o mesmo que afirmar que a pintura ou a escultura ou o cinema levam também à loucura. Se não há predisposição para qualquer tipo de esquizofrenia ou paranóia, se não há outros estímulos e circunstâncias que ajudem a desenvolver comportamentos de loucura clínica em alguém, como se pode afirmar que a música, por si mesma, "leva à loucura"? Ficaremos loucos se ouvirmos de forma patológica determinado disco, género musical ou grupo? Será que o death metal ouvido pelos jovens influencia actos de violência (como já foi sugerido?). Será que ouvindo obsessivamente Leonard Cohen ou Erik Satie entramos em depressão? Neste campo teórico, é muito mais perigoso e difícil comprovar laços de causa-efeito.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Uma livraria para cada família


Hay-on-Wye podia ser o nome de uma bebida estranha ou um trocadilho fonético inventado por algum comediante de "stand-up". Mas Hay-on-Wye é, surpreendentemente, o nome de uma pequena vila do País de Gales que faz fronteira com Inglaterra e que tem menos de 3 mil habitantes. A razão desta cidade ser mundialmente conhecida não se restringe, unicamente, ao seu nome original e às suas bucólicas paisagens naturais, mas sobretudo porque esta terra tem o maior número de livrarias por cada habitante. A proporção é, precisamente, de uma livraria para cada 35 habitantes, ou seja, uma livraria para cada família!
No total, Hay-on-Wye tem 38 livrarias, muitas vendem livros em segunda-mão, outras livros novos, e há muitas livrarias especializadas sobre os mais diversos temas: música, ornitologia, religião, fotografia, história, apicultura, criminologia, etc. Uma livraria que me interessaria sobremaneira é a Hay Cinema Bookshop, que tem nas suas prateleiras 400 mil livros sobre... cinema.
Em poucas décadas, a vila transformou-se numa Meca dos bibliófilos de todo o mundo, um verdadeiro paraíso para os amantes de livros e literatura. Este fenómeno crescente de proliferação de livrarias transformou por completo a economia local e o fluxo turístico. Uma livraria em quase cada esquina da cidade. Mais: há estantes de livros ao ar livre espalhadas pelas ruas, que se chamam Honesty Bookshop (o nome diz tudo) - ninguém controla as vendas, existindo um pequeno pote no qual cada comprador deposita o dinheiro pela aquisição de um determinado livro. Seria possível este conceito em Portugal?

Este fenómeno de crescimento exponencial de livrarias numa tão pequena cidade, ficou a dever-se a um homem, Richard Booth, que começou a vender livros em segunda mão ao quilo no antigo quartel dos bombeiros em 1961. A enorme quantidade de livros de Booth atraiu um grande número de negociantes de livros e coleccionadores para a cidade, que rapidamente ficou conhecida como a Vila dos Livros. Negócio puxa negócio e Hay-on-Wye não pára de chamar novos investidores e turistas. A dimensão de livrarias por metro quadrado proporcionou a criação de um festival anual de literatura (apoiado pelo jornal The Guardian), chamado Hay Festival, considerado o maior festival de literatura da Grã-Bretanha (atrai 80 mil pessoas ao longo de 10 dias desde 1988), e por onde já passaram figuras mundiais como Harold Pinter, Martin Amis, Bill Bryson, Salman Rushdie, ou John Irving. O próprio Bill Clinton, ex-presidente dos EUA, descreveu este festival com a sintomática frase: "Um Woodstock do cérebro".
No fundo, o fenómeno cultural que Hay-on-Wye representa é um belo exemplo de como ideias simples podem promover o desenvolvimento de uma localidade. Seria muito interessante que houvesse um conceito semelhante em cada país (já não digo em cada cidade).

quinta-feira, 18 de março de 2010

A arte de roubar livros


Sabia que há pessoas que se disfarçam de padres para roubar livros num forro falso da batina? Sabia que a livraria portuense Lello regista por ano uma centena de livros roubados? E que José Pinho, da Ler Devagar, aponta para 20 livros roubados por mês? Ou que a famosa Bertrand do Chiado só num fim-de-semana viu desaparecer 18 exemplares do mesmo livro?
E que nem as mais de mil páginas do volumoso livro "2666" de Roberto Bolaño escapa aos larápios? E que é muito comum apanhar figuras públicas a roubas nas livraras (e o mais vergonhoso ainda é o que roubam: até os livros de anedotas do Herman, segundo conta o livreiro Jaime Bulhosa)?
Tudo isto e mais na incrível reportagem sobre "Como se Roubam Livros em Portugal".

quinta-feira, 5 de novembro de 2009

Os horrores de Treblinka


O jornal francês Libération escreveu o seguinte sobre este livro: "De todos os textos sobre a máquina de extermínio nazi, este é um dos mais excepcionais". Não espanta. O judeu Chil Rajchman, sobrevivente do terrível campo de extermínio de Treblinka (Polónia), guardou num caderno as suas negras memórias da experiência por que passou. E só aceitou publicá-las em 2004, após a sua morte.
Chil Rajchman contou neste livro os seus dez meses de estadia no inferno (Rajchman tinha 28 anos quando foi deportado para Treblinka, em Outubro de 1942). No momento da libertação do campo, este judeu foi um dos 57 sobreviventes entre os 750.000 judeus enviados para Treblinka para aí serem gaseados. "Sou o Último dos Judeus" não tem a verve da escrita de um Primo Levi ou de um Elie Wiesel. Não, a escrita de Rajchman é muito menos literária e muito mais descritiva, muito mais pragmática, quase ao nível jornalístico, uma espécie de documentário do abominável terror testemunhado. Ler esta obra é ser constantemente violentado pelos pormenores dos horrores do Holocausto nazi, contados com tal minúcia que chega a criar no leitor imagens visuais das torturas e dos bárbaros assassínios descritos.
O livro está à venda desde há uns dias nas livrarias e as suas 149 páginas lêem-se num ápice.
É mais um livro a perpetuar a memória histórica colectiva da Humanidade, à semelhança do livro "Sonderkommando", que conta as atrocidades cometidas em Auschwitz relatado aqui e aqui.