Amon Tobin - "Foley Room" (2007)
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quinta-feira, 19 de novembro de 2015
segunda-feira, 9 de novembro de 2015
Capas num contexto imaginário
A Aptitude, empresa de web design, imaginou o contexto envolvente de célebres capas de disco. E o resultado deste exercício de imaginação foi este:
terça-feira, 13 de outubro de 2015
Demasiado
Cada vez mais me convenço disto:
- Há demasiada produção cinematográfica para cada vez menos amantes de cinema;
- Há demasiada edição de livros para tão poucos leitores;
- Há demasiado pouco tempo livre para conhecer tanta produção musical.
quinta-feira, 1 de outubro de 2015
terça-feira, 15 de setembro de 2015
Um disco com 30 anos que podia ter sido editado hoje
Um dos melhores discos pop de sempre acaba de cumprir 30 anos: "Seventh Dream of Teenage Heaven" dos Love and Rockets (ex-Bauhaus). Foi em 1985 que foi editado este grandioso disco. Um ano depois comprei o vinil e ouvi-o vezes e vezes sem conta, até captar cada som, cada ritmo, cada melodia. Fiquei viciado durante meses. Tão original que podia ter sido editado hoje sem perder um pingo de originalidade. Todos os temas deste álbum são pérolas musicais, mas este magnífico álbum fechava com absoluta chave de ouro com o tema "Saudade" (sim, em português). Um instrumental de rara beleza e evocação espiritual.
O resto do álbum pode escutá-lo no Youtube.
domingo, 12 de julho de 2015
terça-feira, 16 de junho de 2015
quarta-feira, 20 de maio de 2015
segunda-feira, 18 de maio de 2015
35 anos sem Ian Curtis
Lembro-me como se fosse hoje: o bloco de gelo que se abateu sobre mim com a audição de “Unknown Pleasures”. A minha formação de ouvinte tivera vários estágios, mas nada me tinha preparado para o embate que foi a audição do primeiro disco dos Joy Division. Quando somos adolescentes julgamos que temos o tempo todo do mundo para desfrutar das grandes descobertas musicais. E, na verdade, eu tinha esse tempo todo. Viver em casa dos pais, fechado num quarto hermético, com centenas de discos, cassetes, livros e posters, era mundo suficiente para mim. Claro, a vida de estudante também se fazia, suportada à custa de muita condescendência e resignação.
Daí que, com 15 ou 16 anos, ouvir música significava um refúgio tão revigorante e enérgico como julgo já não existir hoje. Representava marcar um território delimitado à base da militância severa do prazer estético partilhado com um círculo restrito de amigos. A descoberta da figura de Ian Curtis, mais do que a de Jim Morrisson, Iggy Pop, Lou Reed, David Bowie ou Peter Murphy, foi uma descoberta quase de cariz religiosa. Lia aqueles artigos incensados e devotos do Miguel Esteves Cardoso sobre a intensa e criativa movida de Manchester e fiquei, automaticamente, siderado. Ansioso por conhecer tudo numa era em que Internet nem figurava nos livros de ficção científica.
Porém, a devoção pelo prazer da descoberta levou-me a mover mundos e fundos até conseguir pôr os ouvidos na música de Ian Curtis. Primeiro com a banda Warsaw, ainda reminiscente da fúria punk; depois, sim, com a era estilizada, superlativamente estética, de “Unknown Pleasures” e, postumamente à morte de Curtis, com o legado “Closer”. Para um adolescente como eu, de temperamento algo sorumbático e reflexivo, a música dos Joy Division revelou-se como a suprema bênção identitária. Nenhuma outra música, nenhumas outras letras, nenhum outro disco se poderia colar melhor à minha alma do que aqueles discos. A poesia (porque de poesia se trata) de Ian Curtis resultava numa espécie de elegia sobre a presença terrena desta vida.
E tocava-me nas mais profundas das vísceras (porque a poesia não toca apenas na alma). Via Curtis como um criador ambicioso mas permanentemente insatisfeito, um angustiado feliz que tentava libertar os seus demónios interiores. Gostava das preocupações existenciais de Ian, devedoras das suas leituras de Kerouac, Burroughs, Ballard ou Camus. Cantava o sonho e o pesadelo, o amor e a morte, o desejo de existir e o medo de existir. Comprei um livro com as letras das canções, e li-as uma e outra vez, até sugar toda a essência daquelas palavras (decorava, na íntegra, algumas letras). E ouvia repetidamente, obsessivamente, algumas das canções. A agulha do gira-discos pousava, uma e outra vez, nas mesmas faixas dos vinis: “Isolation”, “Passover”, “Heart and Soul”, “A Means to na End”, “Disorder”, “Shadowplay”, etc.
E foi “Closer”, mais do que “Unknown Pleasures”, a deixar-me incondicionalmente devoto dos Joy Division. Tamanha devoção deveu-se, igualmente, à icónica arte gráfica de Peter Saville expressa na capa e no design, na produção inovadora de Martin Hannett, que concebeu aquela sonoridade única do disco, com a voz intensa e enxuta de Curtis, a bateria marcial de Stephen Morris, o baixo-tocado-como-uma-guitarra de Peter Hook, e a guitarra assanhada de Bernard Summer. Só mais tarde conheceria os tema-hinos, “Atmosphere” e “Love Will Tear us Apart”.
Ian Curtis só podia ter-se transformado em mártir do rock. Não havia outra solução. Como dizia Albert Camus, o suicídio é o único problema filosófico importante – saber se a vida merece ou não ser vivida. Curtis viveu intensamente e sempre no fio da navalha das emoções. O seu derradeiro acto foi o consumar de um fogo que tinha dentro de si. Lembro-me de que, no dia 18 de Maio de cada ano, sentia uma espécie de respeito e reverência espiritual para com a alma dos Joy Division. Era um dia especial.
E lembro-me de comemorar, com um amigo, os dez anos desse dia fatídico (Maio de 1990). Agora assinalam-se já 35 anos e a intensidade passional continua viva, ainda que algo indolente pela natural passagem do tempo. E os sonhos continuam vívidos, imersos numa realidade ainda por revelar, como se expressa na canção “Dead Souls”: “Someone Take These Dreams Away / That Point me To Another Day / A Duel of Personalities / That Strech all True Realities”.
domingo, 3 de maio de 2015
Moondog: o músico viking
À primeira impressão este homem parece um figurante de um filme antigo de Vikings ou de guerreiros medievais. Nada mais errado. Trata-se de Louis Hardin, mais conhecido pelo nome artístico Moondog. Morreu em 1999 com 82 anos e ficou conhecido por viver quase três décadas nas ruas de Nova Iorque (Sixth Avenue - "O Viking da Sexta Avenida"). Ficou cego ao 16 anos e renunciou à educação cristã vestindo-se com roupas e adereços nórdicos (lanças e tudo) que o próprio criava.
Na realidade, Moondog foi das personagens de rua mais fotografadas dos anos 40, 50 e 60 nos EUA.
Pode parecer um louco excêntrico, mas trata-se de um genial e lúcido compositor que desafia convenções ainda hoje. Inventou instrumentos e gravou dezenas de discos com peças musicais que fundiam o jazz com música clássica e ritmos tribais. Apesar de cego, Moondog foi um criador visionário, admirado por artistas ilustres como Stravinsky, Philip Glass, Bob Dylan, Frank Zappa, Leonard Bernstein, Steve Reich, Charlie Parker, entre muitos outros. Um dos seus temas mais conhecidos é o seu tributo a Charlie Parker com esta esplêndida música "Bird's Lament".
Moondog viveu os últimos 25 anos na Alemanha, país que lhe possibilitou a concretização de uma verdadeira carreira artística através do contributo de uma fã. Actualmente está a ser feito um documentário da realizadora Holly Elson sobre a vida incrível de Moondog. Chama-se "The Viking of Sixth Avenue: Moondog and His Music".
Pode parecer um louco excêntrico, mas trata-se de um genial e lúcido compositor que desafia convenções ainda hoje. Inventou instrumentos e gravou dezenas de discos com peças musicais que fundiam o jazz com música clássica e ritmos tribais. Apesar de cego, Moondog foi um criador visionário, admirado por artistas ilustres como Stravinsky, Philip Glass, Bob Dylan, Frank Zappa, Leonard Bernstein, Steve Reich, Charlie Parker, entre muitos outros. Um dos seus temas mais conhecidos é o seu tributo a Charlie Parker com esta esplêndida música "Bird's Lament".
Moondog viveu os últimos 25 anos na Alemanha, país que lhe possibilitou a concretização de uma verdadeira carreira artística através do contributo de uma fã. Actualmente está a ser feito um documentário da realizadora Holly Elson sobre a vida incrível de Moondog. Chama-se "The Viking of Sixth Avenue: Moondog and His Music".
Músico imenso, de uma criatividade que ultrapassa barreiras estilísticas, a obra de Moondog merece ser ouvida e apreciada (só no Youtube há mais de cem músicas disponíveis). Eis duas facetas musicais distintas de Moondog: o primeiro vídeo é de uma música de cariz clássico com um toque jazzístico. Pura criatividade em dois minutos de música:
O segundo vídeo representa outra vertente da visão criativa de Moondog: baseado nos sons e no ritmo do quotidiano de Nova Iorque, "Invocation" é um tema longo, fascinante, hipnótico e tribal que antecipa a estética da música minimalista (que surgiria apenas uma década depois):
O segundo vídeo representa outra vertente da visão criativa de Moondog: baseado nos sons e no ritmo do quotidiano de Nova Iorque, "Invocation" é um tema longo, fascinante, hipnótico e tribal que antecipa a estética da música minimalista (que surgiria apenas uma década depois):
sexta-feira, 24 de abril de 2015
John Zorn de regresso
John Zorn é um dos músicos mais importantes dos últimos 20 ou 30 anos. Com uma discografia imensa (edita uma média de 5/6 discos por ano), Zorn é um saxofonista visionário e vanguardista que gosta do risco e da inovação. Criou projectos de grande inovação estética como Naked City, Masada, Painkiller ou Electric Masada, onde misturou música de tradição judaica com jazz, metal, dub, electrónica, improvisação ou noise rock. Tem um vasto currículo de colaborações com dezenas dos mais influentes músicos de todos os quadrantes, sobretudo do panorama avantgarde norte-americano e japonês.
Aos 61 anos John Zorn continua com uma vitalidade e energia impressionantes. O seu último disco, intitulado "Simulacrum", comprova essa energia transbordante: neste disco Zorn não toca saxofone, é apenas compositor de uma música que extravasa fronteiras estéticas e desafia o ouvinte a cada segundo. Por isso não é música para todos, naquele sentido em que só apreciarão quem gosta de receber estímulos sonoros imprevisíveis e fora das convenções musicais ortodoxas. Neste novo disco Zorn reuniu um trio de instrumentistas improvável e de grande nível interpretativo:
- John Medeski no órgão
- Matt Hollenberg na guitarra eléctrica
- Kenny Grohowsky na bateria
É um power-trio que conjuga uma sublime capacidade de execução ao serviço da criatividade musical, realizando uma fusão estimulante de jazz, rock progressivo, improvisação e metal. Não é propriamente uma linguagem inovadora (o próprio Zorn já tivera experiêncais anteriores do género), mas não deixa de ser uma música imensamente rica e desafiadora.
sábado, 18 de abril de 2015
quarta-feira, 15 de abril de 2015
Brushy One String
Nunca gostei de músicos virtuosos. Daqueles músicos que, seja qual for o instrumento, têm por objectivo tocar o maior número de notas musicais por minuto. Transformam a música num perverso desporto com records mundiais. Considero que a verdadeira criatividade e talento vêm de ideias simples e despojadas. A técnica não é tudo.
É o caso de Brushy One String. É a antítese de um virtuoso e a sua simplicidade musical é deveras contagiante. Este jamaicano de nome verdadeiro Andrew Chin aprendeu a tocar guitarra quando era miúdo e por falta de dinheiro tocou quase sempre em guitarras sem as seis cordas habituais. Ao ponto de se especializar a tocar numa única corda (mais minimalista impossível). Mas isso não fez dele um músico menos dotado. Pelo contrário, aprendeu a tirar o máximo partido sonoro da única corda desenvolvendo um estilo de tocar muito próprio - toca na corda e percute na caixa da guitarra como se fosse um instrumento de percussão (que no fundo é). Além disso, Brushy tem uma bela voz com um timbre grave e bluesy.
Como em tudo na vida, Brushy One String teve sorte quando um dia o realizador Luciano Biotta percorria a Jamaica à procura de músicos para um filme chamado "Rise Up". Encontrou este peculiar músico e desde aí a sua carreira levantou voo: toca em importantes festivais de blues dos EUA e já editou um álbum ("Destiny"). O seu site é bastante completo com biografia, vídeos, músicas e imprensa.
O seu tema mais famoso é este irresistível "Chicken in The Corn" que faz parte da banda sonora do filme "Rise Up". E a verdade é só esta: Brushy precisa apenas de uma corda para expressar a sua arte de fazer canções com ritmo, sentimento e sedução.
terça-feira, 31 de março de 2015
Squarepusher: na vanguarda electrónica do século XXI
Squarepusher é o nome artístico de Tom Jenkinson, artista que há 20 anos tem dado cartas na evolução da música electrónica (a par de Aphex Twin e Amon Tobin). Squarepuser é um baixista de jazz virtuoso (na esteira do mítico Jaco Pastorius) que espantou o mundo quando em 1996 lançou o disco de estreia "Feed Me Weird Things", um misto de jazz frenético com drum'n'bass.
Há um ano este músico visionário editou um disco intitulado "Music For Robots" de que dei conta neste post. Um disco no qual verdadeiros robots faziam música a mando de Squarepusher. Um ano depois o músico regressa com um novo conceito visual e tecnológico (a componente visual sempre teve muita importância no seu trabalho), que irá acompanhar um novo álbum pela prestigiada editora Warp.
Sem grandes exageros, depois de ver o vídeo pode-se afirmar que a criatividade musical e visual de Squarepusher está para o século XXI como os Kraftwerk estiveram para as décadas de 1970/80. Ou seja, na vanguarda da música electrónica. Squarepusher desenvolveu um conceito estético e audiovisual caleidoscópico no qual os estímulos sonoros provocam uma reacção visual num ritmo estonteante para os sentidos. Não é música pop fácil para as massas, nem música para satisfazer todas as sensibilidades. Mas é música desafiante, original, provocadora, que rompe convenções e aponta pistas para o futuro. É música como se milhentos sons tecnológicos fossem centrifugados numa trituradora a alta velocidade e depois reorganizados segundo uma lógica própria.
Nota: A componente visual não é aconselhável para pessoas propensas à epilepsia ou a estímulos visuais fortes.
Nota: A componente visual não é aconselhável para pessoas propensas à epilepsia ou a estímulos visuais fortes.
domingo, 22 de março de 2015
REP de volta
É sempre um regozijo anunciar um novo livro de Rui Eduardo Paes (REP). Aliás, um não, mas sim dois livros num só: "Bestiário Ilustríssimo II" e "Bala". Em 2012 REP lançou o livro "Bestiário Ilustríssimo" de que dei conta neste post. O trabalho desenvolvido ao longo das últimas três décadas deste crítico e teórico da música é insubstituível. Tem sido um trajecto ímpar na divulgação daquelas músicas ditas mais criativas e inovadoras de todos os quadrantes: rock, jazz, improvisação, erudita contemporânea, electro-acústica, electrónica, pós-rock, etc. Aliás, se o caro leitor tiver curiosidade em conhecer que músicas o REP gosta, basta aceder aqui à lista dos 100 discos da sua preferência.
Com esta edição Rui Eduardo Paes conta já oito livros editados nos últimos 15 anos (o nono chegará antes do final do ano), dando sempre destaque às músicas menos convencionais e àquelas que os jornais habitualmente não falam. O seu vastíssimo conhecimento não se limita à história da música (da clássica às múltiplas vanguardas), mas estende-se também à história da arte em geral, ao cinema, e às teorias sociais, culturais e políticas que servem para contextualizar e explicar fenómenos estéticos determinados. REP escreve com fervor emergente de um jovem que retira enorme prazer pela descoberta de um novo disco entusiasmante, de um novo grupo ou músico que merece destaque. O seu enfoque é sempre o de um teórico que disserta sobre a música como expressão artística, seja em que terreno musical for. Daí que possamos ler nos seus livros referências que podem ir da rebuscada cena de música noise japonesa como das últimas tendências da electrónica cut'n'paste ou das jovens promessas do jazz nacional.
Mesmo que não conheçamos um artista que REP aborda (e há fortes probabilidades de tal acontecer), pela forma entusiasta como o ensaísta escreve, somos levados a googlar para ouvir do que se trata. No meu entendimento, há muito poucos jornalistas musicais nacionais que me conseguem provocar este impulso de querer saber, de querer conhecer, de querer ouvir. Mas a qualidade da sua escrita vai para além da mera recensão de um disco ou de um objecto estético. O seu estilo de escrita é por si altamente estimulante, revelando um notável domínio sobre a língua portuguesa que raia as características da boa literatura. Um estilo que Rui Eduardo Paes cultiva como uma arma contra o habitual cinzentismo e comodismo da crítica de arte em Portugal.
Mesmo que não conheçamos um artista que REP aborda (e há fortes probabilidades de tal acontecer), pela forma entusiasta como o ensaísta escreve, somos levados a googlar para ouvir do que se trata. No meu entendimento, há muito poucos jornalistas musicais nacionais que me conseguem provocar este impulso de querer saber, de querer conhecer, de querer ouvir. Mas a qualidade da sua escrita vai para além da mera recensão de um disco ou de um objecto estético. O seu estilo de escrita é por si altamente estimulante, revelando um notável domínio sobre a língua portuguesa que raia as características da boa literatura. Um estilo que Rui Eduardo Paes cultiva como uma arma contra o habitual cinzentismo e comodismo da crítica de arte em Portugal.
Por conseguinte, o valor da sua escrita - mais a mais porque é um "cavaleiro solitário" nesta área - é amplamente reconhecido e fruto de um laborioso trabalho de investigação de anos e anos. O livro que agora edita - dedicado à ideia de "tempo" na arte - continua a desafiar categorizações (é uma "anti-enciclopédia") e a reformular a especificidade formal da crítica musical. Destaque para o "Bestiário Ilustríssimo II" com as suas múltiplas, curtas e diversificadas críticas e discos, artistas, instrumentos musicais, bandas e movimentos (como o grande destaque dado ao Stoner Rock). Já o livro siamês "Bala", com as belas ilustrações de David de Campos, serve de complemento ao outro, num formato mais pequeno mas não menos interessante de reflexão sobre as manifestações artísticas mais interessantes do século XX e XXI.
A edição deste livro "dois-em-um" é da Chili Com Carne e pode ser encomendada aqui.
segunda-feira, 16 de março de 2015
A educação do meu gosto - 2
A educação do meu gosto – Música
Somos o que somos e gostamos do que gostamos porque estivemos sob influências de determinadas condicionantes. Ou como diria Ortega y Gasset: “Eu sou eu e a minha circunstância”.
É lugar-comum dizer-se que ma adolescência se forma a nossa personalidade e os nossos gostos. Um estudo recente indica que a idade média de influência da música para o resto da vida se situa no período entre os 14 e 18 anos. Não tenho vergonha de dizer que cheguei a comprar singles (singles!) de Madonna ou de Wham! Estávamos em meados dos anos 80 e basicamente ouvia apenas o que a rádio passava. Aos 12 anos comecei a aprender guitarra clássica e esta experiência deu-me bases para gostar de música erudita. Aos 18 entrei para um curso superior de música que me possibilitou contacto com as várias facetas da música contemporânea. Comecei a ouvir música na rádio espanhola que passava muito jazz, world-music e rock alternativo.
Da mesma forma que me aconteceu com o cinema, amigos mais velhos serviram de farol. Lembro-me uma vez um amigo que me sugeriu ouvir Echo & The Bunnymen, Jesus & Mary Chain, Joy Division, The Fall e Bauhaus (na imagem). Gravou-me cassetes e passei meses a ouvi-las. Tinha a felicidade de ter uma mesada bastante razoável que me possibilitou comprar discos em vinil. Comprava o semanário Blitz religiosamente todas as terças-feiras e ouvia atentamente o programa “Som da Frente” do António Sérgio (Rádio Comercial) à procura de novidades musicais. Cada disco que recebia em casa era uma relíquia guardada a sete chaves. Passei a corresponder-me com largas dezenas de amigos por todo o país que tinham gostos comuns e trocávamos gravações e listas.
Assim consegui juntar quase mil cassetes áudio com música de todos os géneros. Um amigo (mais uma vez) gravou-me compilações de músicos e bandas muito diferentes a que chamava “Heterodoxos”, onde podia caber Jimi Hendrix e Krafwerk, John Cage e Meredith Monk, John Coltrane e Einstürzende Neubauten. O meu gosto musical expandiu-se exponencialmente para todas as correntes que ousavam desafiar as convenções e procuravam a criatividade e a originalidade. Felizmente que hoje ainda mantenho esta curiosidade militante e este amor pela música.
sexta-feira, 13 de março de 2015
domingo, 15 de fevereiro de 2015
sábado, 7 de fevereiro de 2015
O assombroso Benjamin Clementine
Poucas coisas me dão mais prazer na vida do que descobrir um novo talento musical. Enche-me a alma. Regozijo-me com a descoberta de músicas e compositores/bandas que me desconcertem pela qualidade musical, pelo brilhantismo interpretativo ou pela originalidade.
É o caso recente do músico, cantor e compositor inglês Benjamin Clementine. Li recentemente uma crítica no jornal Público sobre este jovem de 26 anos e suscitou-me interesse. Parti à descoberta e foi fascínio logo à primeira audição. Benjamim Clementine é um portentoso cantor de apenas 26 anos que aprendeu sozinho a tocar piano e guitarra a partir dos 11. Em 2008, com 18 anos, resolve ir para Paris onde tocou durante alguns anos no metro, nos bares e hotéis até que um agente atento reparou no seu inato talento.
Desde aí gravou um EP e um álbum que acaba de ser editado. Já tocou no prestigiado Montreux Jazz Festival e já foi ao popular programa televisivo Jools Holland (BBC). A sua ascensão e reconhecimento estão a crescer progressivamente e não é para menos. A qualidade das composições de Benjamin são peças de ourivesaria de grande quilate. Ele próprio diz que o seu estilo musical expressionista foi influenciado por gente tão díspar como Tom Waits, Edith Piaf, Nina Simone (há que diga que é a versão masculina desta cantora), Scott Walker (quando canta no registo grave) e Erik Satie, Wim Mertens e Philip Glass no piano. A sua voz cristalina, versátil de acentuado timbre doce, arrepia pela intensidade e profundidade. As suas composições são todas de uma beleza e intensidade arrebatadoras, próprias de alguém com uma inspiração cheia de soul.
Clementine canta de forma pouco ortodoxa, soltando as frases rápidas ou lentas de forma surpreendente, com total controlo rítmico e melódico. As letras das suas canções são cuidadas e poeticamente sentidas. O seu poeta de eleição é o inglês William Blake. E nem se coíbe de fazer versões desconcertantes de grandes clássicos como "Voodoo Child" de Jimi Hendrix (aqui). Cultiva uma atitude dandy e subversiva que aprecio: dá concertos ao piano com os pés descalços, vestido com um casaco sem camisola por dentro e sentado no banco de forma quase vertical (contrariando o que as normas indicam). Ainda é cedo para confirmar se Clementine é um génio, mas a continuar a sua carreira como a começou vai tornar-se, de certeza absoluta, num dos grandes músicos e cantores do século XXI.
O seu álbum "At Least For Now" é já, quanto a mim, um disco que irá marcar 2015.
"I am an expressionist; I sing what I say, I say what I feel and i feel what I play by honesty and none other but honesty. Some will get bored of me, but I invite the patient listener to come forth, feel and most importantly engage with me without asking too many questions. Hopefully by the end of listening they shall get answers not questionable, wether pleasing or not."
Benjamin Clementine
Aqui deixo três obras-primas musicais em formato canção deste extraordinário songwriter:
Sugiro fortemente que vejam e oiçam esta mesma canção "Nemesis" numa magnífica versão a solo com Benjamin Clementine ao piano. Reparem na entrega emocional ao tema e como ele o termina. Aqui.
sexta-feira, 23 de janeiro de 2015
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