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quarta-feira, 22 de julho de 2015

Dalí e a sua musa

É preciso ler este texto para compreender a devoção que o pintor Salvador Dalí tinha pela sua musa e amante Gala. Só de uma mente delirante e criativa como a de Dalí para escrever isto:

"I name my wife: Gala, Galushka, Gradiva; Oliva, for the oval shape of her face and the colour of her skin; Oliveta, diminutive for Olive; and its delirious derivatives Oliueta, Oriueta, Buribeta, Buriueteta, Suliueta, Solibubuleta, Oliburibuleta, Ciueta, Liueta. I also call her Lionette, because when she gets angry she roars like the Metro-Goldwyn-Mayer lion"
Salvador Dali


segunda-feira, 29 de junho de 2015

Dalí e Harpo

Imagem pouco conhecida: o encontro entre o pintor Salvador Dalí e Harpo Marx. Dalí era um grande admirador do humor subversivo dos Irmãos Marx e simpatizava em especial com Harpo Marx (que era "mudo" e tocava harpa). Em 1937 encontraram-se a propósito de uma entrevista para a revista Harper Bazaar. 

Eis o que escreveu Salvador Dalí sobre Harpo: 
“I met Harpo for the first time in his garden. He was naked, crowned with roses, and in the center of a veritable forest of harps (he was surrounded by at least five hundred harps). He was caressing, like a new Leda, a dazzling white swan, and feeding it a statue of the Venus de Milo made of cheese, which he grated against the strings of the nearest harp. An almost springlike breeze drew a curious murmur from the harp forest. In Harpo’s pupils glows the same spectral light to be observed in Picasso’s.”

sábado, 28 de março de 2015

Uma fotografia cheia de artistas

Houve um tempo em que era possível reunir numa só fotografia grandes génios das artes e da cultura. Sobretudo nas décadas de 1920/30, em Paris, cidade onde se reunia a nata dos artistas de vanguarda (surrealismo futurismo, literatura, artes plásticas e cinema).
Senão, vejamos quem faz parte desta fotografia (datada de 1930).

Em cima: Paul Eluard, Jean Arp, Yves Tanguy e Rene Crevel
Em baixo: Tristan Tzara, Andre Breton, Salvador Dali, Max Ernst e Man Ray.

Ou seja, nesta imagem histórica estão reunidos quase todos os principais artistas de vanguarda da época. Para completar e enriquecer a fotografia só falta o realizador Luis Buñuel, que nesta altura já tinha realizado a curta-metragem surrealista "Un Chien Andalou" (1929) com Salvador Dali e era amigo de quase todos estes visionários.

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Dalí e os postais de Natal

Em tempos que já lá vão era hábito na época de Natal qualquer pessoa enviar e receber coloridos postais de Natal para os amigos e família. Com o advento da comunicação digital institucionalizada e global, os votos de Bom Natal reduziram-se a meros mails impessoais e mensagens de texto abreviadas. 
Nos anos 60 e 70, um irreverente pintor chamado Salvador Dalí foi contratado por uma empresa para pintar postais de Natal apelativos e originais. Dalí, no seu estilo plástico e temático inconfundível, desenhou uma colecção de postais que tiveram relativa saída comercial (e que hoje são objectos raros e caros). 
Aqui ficam três exemplos:

sábado, 6 de setembro de 2014

Woody Allen: enquanto espero...

Enquanto não vejo o último filme de Woody Allen, "Magia ao Luar", revi "Midnight in Paris" (2011) e reconfirmei: este filme é uma das melhores obras de Allen dos últimos 10 anos (ok, se somarmos também o fabuloso "Match Point" de 2006 e o mais recente "Blue Jasmine" de 2013).
Uma das melhores cenas - das muitas que o filme contém - é esta com três personagens artísticas históricas da vanguarda surrealista dos anos 1920: Salvador Dalí, Man Ray e Luis Buñuel. Adrien Brody é brilhante na pela de um irreverente Dalí, na forma como fala e nos seus devaneios imaginários.
Os diálogos deste sequência estão ao melhor nível do que Allen nos habituou, assim como a inteligência e a criatividade na forma como faz referências às obras dos próprios artistas, como é o caso do diálogo final entre Pender (Owen Wilson) e Luis Buñuel: aquele diz a este que lhe surgiu uma excelente ideia para um filme: "Um grupo de pessoas estão num jantar muito elegante e no fim do jantar tentam sair da sala mas não podem". Ao que Buñuel pergunta: "Não podem sair porquê?"

Ora, esta referência mais não é do que ao filme "O Anjo Exterminador" que Buñuel realizou em 1962. E não fica por aqui: Pender diz: "Talvez um dia ao barbear-se encontre a resposta". Mais uma referência ao filme surrealista "Un Chien Andalou" (1928) que tem a famosa cena do corte do olho com a lâmina de barbear. É este tipo de diálogos que torna este (como outros do mesmo realizador) filme num belíssimo tratado de escrita para cinema.  

segunda-feira, 14 de outubro de 2013

"Un Chien Andalou" por Kubik

Há dez anos (2003) compunha - com o projecto musical Kubik - a primeira banda sonora original para um filme mudo: o clássico "Un Chien Andalou" (1928) de Luis Buñuel e Salvador Dalí. Este foi um dos filmes mais revolucionários e subversivos de todo o período mudo, introduzindo o surrealismo na estrutura narrativa no cinema. 
A música (e alguma sonoplastia) pretende complementar o lado surreal e onírico do filme. 
Mais info: Kubik Music 

terça-feira, 23 de abril de 2013

O que diz Tarkovski #1

"Buñuel é, sobretudo, portador de uma consciência poética. Ele sabe que a estrutura estética não necessita de manifestos, e que a força da arte não se encontra aí, mas sim no poder de persuasão, naquela força vital única a que se referia Gogol. E há que salientar que a obra de Buñuel está profundamente enraizada na cultura clásica espanhola. É impossível pensar nele sem o seu vínculo inspirado com Cervantes e El Greco, Lorca e Picasso, Salvador Dalí e Arrabal."

quinta-feira, 6 de dezembro de 2012

A carta de dez em dez anos

Depois de ter realizado "Este Obscuro Objecto de Desejo" (1977), Luis Buñuel retirou-se do cinema. Estava cada vez mais surdo e a saúde começava a faltar-lhe. Sempre fora um grande bebedor e fumador e, apesar da sua enorme resistência, começou a sofrer de diabetes e de cancro do fígado. Por outro lado, sentia a memória fugir-lhe e por isso ainda foi a tempo de escrever a sua (brilhante) autobiografia três anos antes de morrer (1983): "O Meu Último Suspiro".
Em Novembro de 1982, o também muito combalido Salvador Dalí (a sua mulher e diva Gala morrera em Junho desse ano), tentou convencer Buñuel a regressarem ambos ao trabalho (estiveram zangados décadas sem se falarem). 
Para tal, enviou-lhe a seguinte mensagem: "Querido Buñuel: de dez em dez anos envio-te uma carta com a qual não estás de acordo, mas eu insisto. Esta noite concebi um filme que podemos fazer em dez dias, não a propósito do demónio filosófico, mas do nosso diabozinho. Se te apetecer, vem ver-me ao castelo de Púbol. Um abraço, Dalí".
E a resposta seca de Buñuel foi: "Recebi os teus dois telegramas. Fantástica a ideia do filme, mas retirei-me do cinema há cinco anos e quase não saio de casa. É uma pena. Um abraço, Buñuel".
Oito meses depois, Luis Buñuel morreu...
 

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A (verdadeira) estreia de Orson Welles

Muita gente identifica a fulgurante estreia de Orson Welles no cinema om "Citizen Kane" (1941). Porém, em rigor, "Citizen Kane" foi a primeira longa-metragem de Welles, mas não a sua primeira experiência concreta no cinema.
A sua absoluta estreia ocorreu quando o realizador tinha apenas 19 anos de idade e, com o seu amigo William Vance, realizou em 1934 uma curta-metragem muda em 16 mmm (e 8 minutos de duração) com o título "The Hearts of Age". Este filme foi filmado durante uma tarde de domingo na casa do cineasta durante o Verão de 1934.
"The Hearts of Age" manifestas influências visuais das obras surrealistas "Un Chien Andalou" (1929) de Luis Buñuel/Salvador Dalí e "Sangue de Um Poeta" (1930) de Jean Cocteau. A curta não tem, no entanto, a criatividade e o arrojo estético das películas citadas, pelo que mais não é do que  uma curiosidade para os fãs de Orson Welles, em particular, e dos cinéfilos em geral.
Durante muito tempo, esta estreia de Welles esteve à disposição apenas nos Arquivos da Biblioteca do Congresso Americano em Washington, mas nos últimos anos acabou por ficar disponível na internet. Claro que o curta em si não tem nada demais, sendo mais uma curiosidade para os fãs de Orson Welles e de cinéfilos em geral. 
"The Hearts of Age" foi sonorizado com uma banda sonora do guitarrista americano Larry Marotta, músico com uma considerável experiência em composições para cinema mudo.

segunda-feira, 2 de julho de 2012

O sonho de Gregory Peck


Que relações teve o excêntrico pintor Salvador Dalí com o cinema? De que forma a arte do cinema influenciou a sua pintura ou vice-versa? Sabe-se que houve um projecto abortado entre Walt Disney e Dalí para a realização conjunta de um filme de animação surrealista chamado "Destiny". Sabe-se da seminal colaboração entre Dalí e Luis Buñuel para a criação dos míticos filmes "Un Chien Andalou" (1928) e "La Edad de Oro" (1930), expoentes máximos do surrealismo no cinema.
Mas sabe-se também que Alfred Hitchcock encomendou a sequência do sonho a Salvador Dalí para o magnífico filme "Spellbound" (1945), no qual Gregory Peck "sonha" a sequência imaginada pelo pintor espanhol: 

quarta-feira, 29 de fevereiro de 2012

Joyce no "Hugo"

O filme "Meia-Noite em Paris" de Woody Allen estava recheado de personagens artísticas do início do século XX: Ernest Hemingway. Cole Porter, F. Scott Fitzgerald, Salvador Dalí, Pablo Picasso, Gertrude Stein, Man Ray, Luis Buñuel, etc. Estas figuras desempenhavam um papel relevante na história do filme.
Ora, Martin Scorsese, outros cineasta culto e com sensibilidade artística apurada, também incluiu no ser recente (e oscarizado) filme "A Invenção de Hugo", algumas figuras essenciais da arte da primeira metade do século XX. Só que, ao contrário de lhes atribuir um papel importante no argumento (como fez Woody Allen), apenas as utilizou como meros figurantes. Talvez tenha sido apenas para dar um toque mais erudito ao ambiente parisiense e para contextualizar historicamente a história de Hugo.
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Eis as personagens artísticas que surgem em "A Invenção de Hugo":
O guitarrista de jazz Jean "Django" Reinhardt

O escritor James Joyce e o pintor Salvador Dalí

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Um génio esquecido


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound e George Antheil)
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Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.

George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.

Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil. Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "bad boy of music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar

Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos. Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o pianista de free jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à américa natal e enverada por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal. Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.

sábado, 22 de outubro de 2011

Os artistas no filme de Allen

No brilhante filme de Woody Allen, "Midnight in Paris", surge uma autêntica galeria de figuras históricas que conviveram nos excitantes anos 20 do século XX em Paris. Houve muitos outros escritores, pintores e poetas que viviam na bela capital francesa naquela época (alguns portugueses, como Mário de Sá Carneiro), mas só esta lista de personalidades culturais (que Allen incluiu no seu filme) é suficiente para provar a intensa vida artística e de boémia dos "loucos anos 20":

- Zelda e F. Scott Fitzgerald
- Ernest Hemingway
- Salvador Dalí (na imagem)
- Gertrude Stein
- Cole Poter
- Josephine Baker
- Pablo Picasso
- Man Ray
- Luis Buñuel
- T.S. Eliot
- Henri Matisse
- Henri de Toulouse-Lautrec
- Paul Gauguin
- Edgar Degas
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Afinal de contas, tal como o protagonista do filme, quem não gostaria de ter vivido em Paris nesses anos e poder ter tido a experiência de contactar com algumas destas figuras geniais da história da arte?

domingo, 21 de agosto de 2011

A caveira de "O Silêncio dos Inocentes"


Há quem diga que o filme "O Silêncio dos Inocentes" (1991) de Jonathan Demme oculta uma mensagem subliminar (ou secreta) no próprio cartaz que se tornou tão famoso como a interpretação arrepiante de Anthony Hopkins.

Nas costas da borboleta que esconde a boca de Jodie Foster vislumbra-se uma caveira. E é uma caveira. Mas não é uma caveira qualquer. Se olharmos com atenção e fizermos zoom na imagem, constataremos que se trata de uma caveira... humana, concebida com mulheres nuas. Essa imagem, datada de 1939, é da autoria do pintor surrealista Salvador Dalí, que criou esta icónica caveira. O realizador Jonathan Demme deu autorização para a inclusão desta criação de Dalí no cartaz do filme, mas terão sido poucos que terão descortinado a verdadeira natureza desta imagem.

Estas sete mulheres da caveira na borboleta do poster do filme simbolizam, para alguns, as setes vítimas do assassino em série.



Foi a partir desta imagem da caveira "daliliana" que o filme de terror "The Descent" iria criar o respectivo poster (mas com apenas 6 mulheres e... vestidas):

quinta-feira, 9 de junho de 2011

O caldeirão da arte

Que artista sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar o surrealismo (egocentrista) de Salvador Dalí, a expressividade (temperamental) de Jackson Pollock, a provocação (pop) de Andy Warhol e as paisagens (melancólicas) de Edward Hopper?

Que compositor sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a simplicidade (genial) de Erik Satie, a efervescência (rítmica) de Stravinsky, a exploração (tímbrica) de Edgar Varèse e o nacionalismo (musical) de Bartók?

Que realizador sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a frieza (emocional) de Bergman, o humor (absurdo) de Groucho Marx, a violência (estilizada) de Sam Peckinpah e a perversidade (da carne e da mente) de David Cronenberg?

Que escritor sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a verve (erótica) de Henry Miller, a visão (pessimista) de Schopenhauer, a loucura (desenfreada) de Ezra Pound e a placidez (contagiante) de Albert Cossery?

Que banda sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a pop (decadentista) dos Tindersticks, o humor (cáustico) dos Butthole Surfers, a convulsão (sónica) dos Einstürzende Neubauten e o lirismo (noir) dos Dead Can Dance?

Que fotógrafo sairia de um caldeirão no qual se pudesse juntar a plasticidade (perturbadora) de Diane Arbus, a beleza (etérea) de Sebastião Salgado, a irreverência (sexual) de Robert Mapplethorpe, e a espontaneidade (histórica) de Robert Capa?

quarta-feira, 1 de junho de 2011

Entrevistas Póstumas (8) - Luis Buñuel


O Homem Que Sabia Demasiado - É verdade que os seus filmes são anti-clericais?

Luis Buñuel - Como sabe, eu sou ateu graças a Deus, e em muitos dos meus filmes manifesto esta minha inquetude. Acredito que é preciso ter fé, mas uma fé não necessariamente de cariz religiosa, cristã. Eu fui educado na mais fundamentalista fé cristã, até que fui para Paris muito novo e comecei a ter contacto com a fascinante vida mundana e artística. Este contacto abriu-me novas portas de percepção, de entendimento do mundo.

O Homem Que Sabia Demasiado - O facto de ter conhecido um artista tão especial como Salvador Dalí contribuiu para isso?

Luis Buñuel - Sem dúvida. Fui grande amigo do Salvador nos anos 20, assim como do Garcia Lorca, grande poeta de língua espanhola. Com o Dalí realizei o meu primeiro filme, "Un Chien Andalou", que escrevi a meias com ele. Depois ainda começámos a escrever o argumento de "L'age D'or" mas depressa me zanguei com o Salvador. O seu ego era, já nessa altura, insuportável de aturar.Nas décadas seguintes só falei umas poucas vezes com ele.

O Homem Que Sabia Demasiado - É verdade que tinha pedras no bolso durante a estreia de "Un Chien Andalou", para o caso do público não gostar do filme e assobiar?

Luis Buñuel - Eh eh eh... É verdade. Estava escondido atrás do ecrã, ansioso pelo final do filme para perceber a reacção do público. Mas para meu espanto, quase todos gostaram e aplaudiram. Mas essa estreia não fez com que tivesse imensos problemas com as autoridades morais e religiosas nos meus filmes seguintes.

O Homem Que Sabia Demasiado - Por causa da sua veia irreverente e até subversiva...

Luis Buñuel - Hum... Não sei se me qualifico como tal. Sempre fiz o cinema em que acreditei, sobre as minhas próprias obsessões, sem pensar em chocar mentalidades específicas. E como já sei que me vai perguntar quais são as minhas obsessões, digo-lhas já: sexo, morte, religião, padres, liberdade, Deus, burguesia, mendigos, surrealismo, freiras, erotismo, fé...

O Homem Que Sabia Demasiado - Arrepende-se de alguma coisa?

Luis Buñuel - Bom... Talvez de não ter casado com a Catherine Deneuve. Ela era fogo, um verdadeiro vulcão de sensualidade.

O Homem Que Sabia Demasiado - O que achou do facto de Manoel de Oliveira ter feito uma espécie de continuidade ao seu filme "Belle de Jour" com o filme "Belle Toujours"?

Luis Buñuel - Achei óptimo. O Oliveira é um cineasta com uma forte identidade, mas eu sei que o meu cinema o influenciou. Para mim funcionou como uma homenagem.

O Homem Que Sabia Demasiado - Filmou em Espanha, México e França. Foram experiências muito diferentes?

Luis Buñuel - Sim. O meu exílio forçado no México acabou por ser benéfico, uma vez que fiz lá um dos meus filmes preferidos, "Los Olvidados". E em França foi o país onde realizei os filmes com mais sucesso.

O Homem Que Sabia Demasiado - Na sua autobiografia, "O Meu Último Suspiro", refere no final do último capítulo, que gostaria que, depois de morrer, voltar ao mundo de dez em dez anos para ler os jornais e saber em que estado se encontram o homem e a sociedade. Ainda faz isso?

Luis Buñuel - Oh, não! Já não sinto saudade deste mundo, não me interessa. A última vez que li notícias sobre o estado do mundo prometi desistir de voltar a fazê-lo. É um mundo deprimente, cheio de injustiças, de sofrimento, de selvajaria, de intolerância a todos os níveis. Deixe-me cá estar sossegadinho!

quinta-feira, 19 de maio de 2011

Lars Von Trier e os "soundbytes"



Sinceramente, vindo de Lars Von Trier, já nada espanta ou choca. Há dois anos, a propósito do filme "Anticristo", disse que se considerava o "melhor realizador do mundo". Pelo meio proferiu várias opiniões controversas sobre política e cinema.

Agora, na conferência de imprensa, também em Cannes, acerca do seu novo filme, "Melancholia", o cineasta resolveu mandar umas piadas (espontâneas ou planeadas?) sobre Hitler e os judeus. Para além do despropósito e do mau gosto inerente a estas afirmações (é ver no vídeo o ar embaraçado da actriz Kirsten Dunst!), ressalta a conclusão de que Lars é um especialista em lançar "soundbytes" que têm, unicamente como fim, gerar publicidade gratuita à sua volta.

Parece um menino mimado que chega a uma festa de anos na qual é ignorado e, para se afirmar e chamar a atenção, resolve fazer ou dizer disparates. Lars Von Trier é um realizador que divide paixões no meio cinéfilo: há quem admire a sua dimensão estética, há quem o abomine pela ausência de ética. Uma coisa é certa: Lars arranja sempre motivos para falarem dele.

Deve seguir a máxima do pintor surrealista Salvador Dalí: "O que eu quero é que falem de mim. Nem que seja para dizer bem".

domingo, 20 de março de 2011

Sida, Arte, Galás, Cristo e Censura


David Wojnarowicz foi um pintor, performer, fotógrafo, escritor e realizador. Morreu em 1992 vítima de Sida, com apenas 37 anos.
Em 1987, este artista fez uma curta-metragem que ainda hoje suscita reacções controversas: "Fire in My Belly". Este curto filme, realizador no formato Super 8mm, inicialmente silencioso e concebido com base numa montagem de imagens aparentemente desligadas umas das outras, aborda a temática da Sida e, por inerência, a vida, a morte, o sexo, a fé e o sofrimento humano.
O filme, segundo David Wojnarowicz, pretendia ser uma meditação poética sobre a forma como o homem lida com uma doença devastadora como a Sida e tudo o que ela acarreta, mas a Igreja Católica e políticos conservadores fizeram outra interpretação desta obra: perversa, provocadora e ofensiva para com os valores religiosos e ícones como Jesus Cristo. Isto porque o realizador mostra um crucifixo coberto de formigas (uma ideia surrealista herdada de Salvador Dalí), dinheiro e derramamento de sangue entre outras imagens consideradas "chocantes". A pressão foi tanta que ainda em Dezembro de 2010, as vozes contestatárias censuraram o filme ao ponto de o retirar de uma exposição num museu nos EUA.
Para mim, o conteúdo da obra nada tem de chocante. Há imagens mais chocantes que são exibidas à hora dos telejornais das televisões e ninguém se incomoda. A arte deve ser interventiva, incómoda, contra-poder, precisamente para despertar consciências e agitar mentalidades.
Voltando ao filme: convém dizer que o seu visionamento se torna uma experiência mais intensa por causa da música que acompanha as imagens surpreendentes: Diamanda Galás. A Diva Negra, que viu um irmão morrer de Sida e que considera esta doença como uma praga moderna, empresta a sua impressionante voz (vinda das profundezas dos infernos) e música (a partir de um excerto de "This is The Law of The Plague") a "Fire in my Belly".
A música de Diamanda é emocionalmente perturbadora e, aliada a estas imagens, forma um conjunto audiovisual realmente único:
Nota: este é um excerto do filme "Fire in My Belly", a versão completa tem 20 minutos, é muda e pode ser vista aqui.

segunda-feira, 25 de outubro de 2010

A criatividade esquecida de Antheil


(Imagens: George Antheil / Ezra Pound com George Antheil)
Pergunto-me muitas vezes porque é que o génio artístico de George Antheil (pronuncia-se "antil") não é reconhecido ou nem sequer surge, muitas das vezes, referenciado nos dicionários musicais como merecia.
George Antheil (1900 - 1959) foi um músico à frente do seu tempo. Nascido nos EUA, New Jersey, aprendeu muito cedo a tocar piano. Um dia teve um ímpeto expansionista e deixou os EUA com uns imberbes 22 anos, mudando-se para a Europa (Paris, Berlim, Viena...) onde conheceu Stravinsky, uma das suas principais referências. Começou a dar concertos de piano que ficaram famosos pela total inovação técnica de abordar o teclado: de forma percussiva e violenta, gerando amálgamas sonoras abruptas e harmonicamente dissonantes. Numa época em que ainda se respirava a música melódica dos impressionistas (Debussy, Ravel...), George Antheil quebrou regras e violentou os ouvidos mais sensíveis, de tal forma que alguns concertos acabavam em verdadeiros motins.
Vanguardista e revolucionário foram os primeiros epítetos atribuídos a Antheil.
Estávamos nos gloriosos e ricos anos 20 do século XX e o próprio pianista auto-proclamava-se, apropriadamente, "Bad Boy of Music". A sua irreverente visão criativa da música levou-o a experimentar inusitadas combinações de instrumentos que nunca tinham sido tentadas, inventar instrumentos (como os futuristas italianos) e a utilização, como fez também Edgar Varèse, de sons e ruídos urbanos - sirenes, buzinas, ruídos industriais, etc.
Com um espírito ávido de novas experiências artísticas e novos conhecimentos, foi amigo de artistas ilustres: James Joyce, Ezra Pound, Gertrude Stein, Pablo Picasso, Salvador Dali, Ernest Hemingway, Erik Satie, Igor Stravinsky, Fernand Léger... Ou seja, alguma da nata artística daqueles anos.
Uma das suas obras musicais mais conhecidas e celebradas é a música que compôs para o filme dadaísta "Ballet Mécanique" de 1924, realizado pelo pintor e cineasta Fernand Léger. "Ballet Mécanique" é um marco insuperável do cinema de vanguarda dos anos 20, uma proposta visual abstracta, usando técnicas mistas - fotografia, colagens de imagens, animação, imagem real, ângulos de câmara e montagem ritmada. A música de George Antheil é um portento de erupção rítmica e combinações tímbricas, numa massa sonora agreste e imprevisível (aqui se nota onde o pianista de free-jazz Cecil Taylor foi buscar inspiração) - um "ballet mecânico" com objectos e formas) como se poder ver e ouvir aqui:

Mais tarde, George Antheil regressa à América natal e envereda por uma carreira de compositor de bandas sonoras para filmes de Hollywood. Com o passar dos anos, a música de Antheil foi evoluindo para um estágio estético mais convencional, quase próximo no neo-clacissismo, deixando para trás os anos de rebeldia e ousadia formal.
Agora chamo a especial atenção para o que se segue: a recriação da peça musical "Ballet Mécanique" de George Antheil recriada por uma orquestra de instrumentos... robots. Trata-se do projecto norte-americano LEMUR - League of Electronic Musical Urban Robots . A apresentação deste concerto aconteceu na Nation Gallery of Art, Washington, em 2006. São 16 pianos a tocar simultaneamente com uma parafernália imensa de percussão e objectos sonoros pré-controlados.

Deveras impressionante.