
Durante muitos anos ouvi falar deste livro como sendo uma referência de culto para várias gerações. Durante muitos anos li que o seu escritor, J. D. Salinger, se tinha isolado após ter escrito esta obra em 1951. Durante muitos anos ouvi dizer que se tratava de uma obra literária de grande inovação formal e estilística. Só a morte do escritor, em Janeiro deste ano, me despertou, definitivamente, para a leitura de "À Espera no Centeio" ("The Catcher in the Rye"). Atraso após atraso, lá o li este Verão. E em boa hora.
Salinger expôs neste livro uma escrita áspera e rude, mas extremamente fluída e consistente. Uma escrita repleta de humor cáustico sobre a vida de um impulsivo e depressivo adolescente - Holden Caufield - revoltado e em crise existencial. Holden Caulfield, narrador e protagonista desta história, revela-se um jovem angustiado perante as incertezas da sua vida e do seu relacionamento com os outros. Holden é expulso do colégio e foge de casa deambulando por uma Nova Iorque excitante de animação e aventura (o livro foi controverso por fazer uso de muito calão e de ter abordado, sem pudor, episódios sobre sexo promíscuo, drogas, álcool e violência).
"À Espera no Centeio" já não terá o impacto que teve nos anos 50 e 60 (em plena época dos "rebeldes sem causa" de James Dean) mas agora compreendi, após a leitura compulsiva, porque é que continua, ainda hoje a fascinar os leitores (nos EUA vende anualmente 200 mil exemplares). Uma obra de grande fulgor sobre a procura da identidade juvenil, sobre a alienação e a rebeldia.
Curioso o facto deste livro de Salinger ter, alegadamente, inspirado alguns crimes famosos: Mark David Chapman, o assassino de John Lennon, lia este livro minutos antes de disparar contra o músico dos Beatles. O atirador que tentou matar o presidente Ronald Reagan refere que foi inspirado pelo mesmo livro.
Outro aspecto interessante: dado o notável poder visual que este livro emana e a sua inerente importância literária, grandes realizadores e actores tentaram, ao longo de décadas, adaptá-lo ao cinema (ou na realização ou na interpretação do protagonista do livro): Elia Kazan, Billy Wilder, Jerry Lewis, Marlon Brando, Jack Nicholson, John Cusack, Leonardo DiCaprio, Terrence Malick, entre outros.
J.D. Salinger sempre recusou vender os direitos de autor. Agora que o escritor morreu, consta-se que a família descendente pondera cedê-los para levar ao grande ecrã esta fabulosa aventura literária. Seria uma excelente notícia!