Mostrar mensagens com a etiqueta Marcel Duchamp. Mostrar todas as mensagens
Mostrar mensagens com a etiqueta Marcel Duchamp. Mostrar todas as mensagens

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Cinema de vanguarda

Ter contacto pela primeira vez com o cinema de vanguarda é sempre uma experiência desafiadora para os sentidos. O cinema de vanguarda, existente desde o cinema mudo, percorreu e explorou estéticas completamente inovadoras na manipulação das imagens e dos seus significados. Tantas vezes relacionado com as artes plásticas, a música e a literatura, o cinema de vanguarda procurou novos caminhos artísticos e formas inovadoras de comunicação com o espectador. 
Neste link sugerem-se 10 filmes-chave desta corrente cinematográfica. Contém uma breve sinopse e os respectivos filmes na sua totalidade. Na referida lista, constam nomes importantes como Stan Brakhage, Maya Deren (na imagem), Kenneth Anger, Dziga Vertov ou Marcel Duchamp. 

sábado, 17 de março de 2012

Cinema experimental: o DVD


É uma edição já de 2005, mas continua a ser uma referência no género: "Avant-garde: Experimental Cinema of the 1920's and 30's". São dois DVDs (da prestigiada Kino Video) contendo 24 curtas-metragens e um total de 360 minutos de tempo. Cinema de vanguarda e experimental dos anos 20 e 30 do século XX, uma época de grandes revoluções estéticas e artísticas, de fusões de linguagens, de inovação e ousadia formal.
Apesar de não estarem representadas todas as obras-primas do cinema mudo experimental, esta edição contém uma grande variedade e qualidade de filmes. Alguns deles realizados por artistas plásticos que também experimentaram a linguagem do cinema, como Man Ray ou Marcel Duchamp. De cineastas propriamente ditos, vale a pena descobrir verdadeiros tesouros cinematográficos de Hans Richter, Watson & Webber, Fernand Leger, Joris Ivens, Dimitri Kirsanoff, Jean Epstein, ou Orson Welles (nos primórdios da sua carreira).
Eu comprei esta edição há alguns anos na Amazon americana, mas ainda se consegue comprar (só por importação) via Amazon inglesa, aqui.
Entretanto, em 2007 foi editada a série 2 desta colecção (menos interessante), com filmes experimentais compreendidos entre 1928 e 1954.

sábado, 26 de março de 2011

A Leica de Cartier-Bresson


Numa incursão pela livraria Bertrand deparei-me com este magnífico álbum de fotografias de um dos maiores fotógrafos do século XX, Henri Cartier-Bresson. "Um Silêncio Interior: Os Retratos de Henri Cartier-Bresson" (com Samuel Beckett na capa).
São apenas 160 páginas em grande formato com fotografias espantosas de artistas, intelectuais, cientistas, escritores e figuras da cultura do século passado.
Os retratos reproduzidos nesta obra pelo fundador da agência Magnum mostram, sem artifícios, os rostos de artistas e personalidades como Miró, Matisse, John Huston, Faulkner, Albert Camus, Sartre, Ezra Pound, Duchamp, Stravinsky, Beckett, Renoir, Piaf, Arthur Miller, entre muitos outros.
A inseparável câmara Leica de Cartier-Bresson capta o instante de forma despojada e seca. O olhar do fotógrafo é um olhar instintivo e penetrante, tentando comunicar aquilo que não se vê ao primeiro olhar: "Acima de tudo, procuro um silêncio interior. Esforço-me por traduzir a personalidade e não a expressão", afirmou um dia o fotógrafo. E, na verdade, sentimos a palpitação desse "silêncio interior" quando olhamos para retratos sublimes como os de Arthur Miller, Truman Capote e Marcel Duchamp:


terça-feira, 12 de outubro de 2010

Duchamp no muro e Banksy nos Simpsons


Quando estacionei o carro olhei para o muro da casa mesmo em frente e fiquei surpreendido com o que vi. Nada mais, nada menos do que uma reprodução perfeita em graffiti do "Urinol" (mais propriamente "Fonte") de Marcel Duchamp.
Lembro que este ready-made do artista francês foi considerado, há poucos anos, a obra de arte mais influente do Século XX. O que quer dizer muita coisa. A minha surpresa deveu-se ao facto deste graffiti fugir ao paradigma habitual da arte graffiti. Estarão os graffiters com uma consciência artística mais apurada? Terão deixado para trás os ícones da cultura hip-hop e urbana para se dedicarem à exploração das referências da arte vanguardista?
E por falar em graffiters, vale a pena dar uma olhadela ao surpreendente episódio da série de animação The Simpsons realizado por um dos mais consagrados e originais (e anónimos) "artista de rua" da última década - Banksy. Nem é bem um episódio, mas apenas os dois primeiros minutos do mesmo, nos quais Banksy destila fortes críticas ao trabalho forçado de operários asiáticos nas fábricas de mechandising dos... Simpsons!

domingo, 12 de setembro de 2010

Bugs Bunny ultra-violento


Já tinha abordado neste post a intervenção de guerrilha urbana do Decapitador, um artista londrino anónimo que se tem dedicado a degolar (com a ajuda preciosa do Photoshop) imagens da publicidade, moda e cinema.
Na senda do Decapitador, eis que surge o artista James Cauty que propõe uma intervenção estética similar, mas adaptada unicamente aos personagens de banda desenhada da Warner Bros (Looney Tunes).
James Cauty, (na imagem à esquerda com o filho numa exposição) foi outrora músico de dois importantes projectos musicais de pop electrónica – The KLF e The Orb, dedicando-se actualmente em exclusivo às artes plásticas.
Ora, o que James Cauty fez com os célebres personagens da Looney Tunes - Tom & Jerry, Bugs Bunny e Gato Silvestre, segue na esteira do trabalho subversivo do Decapitador. Isto é, intensifica, desproporcionalmente, a violência gráfica das imagens com degolações, sangue a jorros e desmembramentos. Manipula e altera digitalmente a realidade - como se pode ver no seu site. Há claramente a procura por um efeito de choque visual, subvertendo a lógica da natureza divertida dos “cartoons”. A exposição destes trabalhos de James Cauty esteve, há um ano, patente ao público na Aquarium Gallery em Londres (com o apropriado título “Splatter”) provocando alguma estupefacção e desconcerto.
Tom & Jerry assumem-se, nas mãos do artista, como personagens macabras e potenciadoras da violência mais "gore". É como se Peter Jackson fosse o realizador destes "cartoons" quando este fazia filmes de grande violência gráfica (mas ao mesmo tempo divertidos) como “Bad Taste” e “Braindead”. No fundo, não se trata de nenhuma intervenção artística inovadora, visto que o artista intervém directamente num objecto já pré-existente e, apropriando-se dele, modifica-o conforme o seu desejo de intencionalidade estética (Duchamp foi o primeiro a recorrer a este expediente com o famoso “ready made”).

quarta-feira, 8 de setembro de 2010

Man Ray


Man Ray (na imagem à direita, ao lado de Salvador Dalí) fez parte do movimento dadaísta e surrealista dos anos 20 e 30 do século XX. É um dos meus artistas e fotógrafos preferidos.
Um artista iconoclasta e original como poucos que marcou a arte de todo o século. Desenvolveu uma obra artística tão inovadora na pintura como na fotografia. Neste último campo, fez retratos únicos de artistas como Picasso, Dali, Magritte, Buñuel. Artaud, Satie, Cocteau, Stravinski, James Joyce, Ducahmp, Matisse, Picabia (foi amigo de quae todos)… E o nu feminino adquiriu outra elevação estética com as fotografias de Man Ray.
Para além destas intervenções artísticas que influenciaram grande parte da arte produzida nas décadas seguintes, Man Ray experimentou também o cinema como veículo para a sua visão libertária da arte.
No apogeu do movimento surrealista e expressionista, no qual todas as linguagens de vanguardas eram permitidas, Ray fez as curtas-metragens “Emak – Bakia” (1926), “L’Étoile de Mer” (1928) e “Les Mystères du Château de Dé” (1929).
Três absolutos expoentes do cinema como poesia visual, como plataforma de experimentação estética e formal. São filmes abstractos e que recorrem a técnicas inovadoras de filmagem, montagem e efeitos visuais (alguns devedores do mundo da fotografia).

Todos estes filmes (entre outros) estão disponíveis para visionamento no site da UbuWeb

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Perspectivas sobre o ferro de engomar


"Cadeau" de Man Ray é uma das obras mais emblemáticas do dadaísmo. Este ferro de engomar com pregos, um "ready made" na linha dos trabalhos de Marcel Duchamp, desafia a lógica racionalista da utilização de objectos do quotidiano. Isto é, o artista usa um objecto do dia-a-dia e recontextualiza-o esteticamente.
Vem isto a propósito de uma curiosa passagem do livro "A Volta ao Dia em 80 Mundos", de Júlio Cortázar. Conta o escritor argentino que, numa exposição em Genebra na qual se expunha esta obra de Man Ray, duas mulheres conversavam sobre a estranha obra de arte:

- No fundo não é assim tão diferente do meu ferro de engomar.
- Como assim?
- Sim, com este picas-te e com o meu queimas-te.
______________
Moral: o pragmatismo pode ser um bom critério de avaliação artística.

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

O silêncio e o ruído de John Cage em exposição


Até 10 de Janeiro de 2010, o Museu de Arte Contemporânea de Barcelona - Macba - tem patente uma extensa exposição retrospectiva do trabalho artístico revolucionário de John Cage. Chama-se "A Anarquia do Silêncio - John Cage e a Arte Experimental" e compreende a obra de Cage desde 1030 até à data da morte, 1992 (com pinturas, documentos, vídeos e partituras musicais). Conta também com obras de outros importantes artistas com os quais colaborou, como Marcel Duchamp, Andy Warhol, Robert Rauschenberg, Nam June Paik e outros ligados ao seminal movimento Fluxus.
John Cage foi um artista experimental visionário e inovador, responsável por algumas das mais importantes rupturas conceptuais, teóricas e estéticas do século XX, como a formulação do conceito de "piano preparado" (na imagem)e a introdução do ruído, do silêncio e da aleatoriedade na linguagem musical (foi também pioneiro na música electrónica, elecro-acústica e concreta). O trabalho e o pensamento de Cage acabariam por contaminar outras artes, como a dança, o cinema, a performance, e as artes plásticas.
Quem for a Barcelona até Janeiro próximo, terá uma excelente oportunidade de ver a maior exposição realizada sobre John Cage desde a sua morte.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Fotografia como metáfora visual

Voltei a Chema Madoz.
Em Janeiro deste ano, neste post, dei conta da minha descoberta deste esplêndido fotógrafo espanhol. Um fotógrafo de uma sensibilidade visual tão surpreendente quanto desarmante. A criatividade e imaginação de Chema Madoz desafiam o olhar do espectador, que procura dar um sentido (conceptual, não propriamente estético) às imagens paradoxais do fotógrafo. Madoz herda a tradição de Man Ray e Marcel Duchamp e transforma objectos do quotidiano em objectos artísticos. Subverte o contexto e o significado dos mesmos com subtis e simples alterações visuais, em fotografias a preto e branco de notável beleza plástica. Entretano, foi publicada uma monografia completa dos trabalhos do autor, desde os anos 80 até 2008.
Visitei o site do premiado fotógrafo e descobri (novas) pequenas obras primas:






quarta-feira, 16 de setembro de 2009

80 anos de "Un Chien Andalou"


Um dos filmes mais subversivos (considerando a época em que foi feito) e mais originais de sempre (considerando a influência que ainda hoje exerce) faz 80 anos desde que foi estreado, em 1929, numa célebre sessão em Paris. Sessão essa em que o realizador Luís Buñuel tinha pedras no bolso para atirar aos espectadores casos estes tivessem feito um escândalo por não gostarem do filme. Não foi o caso, e os artistas surrealistas (Man Ray, André Breton, Salvador Dalí, Marcel Duchamp) elegeram "Un Chien Andalou" (1929) como a obra cinematográfica que sintetizava as premissas da arte surrealista.
Um filme com apenas 17 minutos que ainda hoje incomoda pela recusa ostensiva de uma narrativa convencional, pelas imagens chocantes de um olho a ser cortado por uma lâmina, pela ousadia formal e pela repulsa da racionalização objectiva dos acontecimentos do filme. Uma obra de uma visão artística e estética inigualável, que rompeu linguagens e inaugurou uma nova lógica de associação de imagens, segundo os ditames aprendidos com a psicanálise freudiana e a escrita automática ditada pelo inconsciente. "Un Chien Andalou", filme de Buñuel e Dalí, fez 80 anos. 80 anos que parecem ter uma vitalidade criativa de uma obra acabada de fazer, tão ousada e vanguardista quanto o mais ousado e vanguardista dos actuais filmes ou cineastas experimentais.
O centro cultural Tabakalera de San Sabastián inaugura, amanhã, uma mega-exposição intitulada "Un Pero andaluz - 80 Años Después", dedicada ao mítico filme. Contará com a presença do filho de Buñuel, Juan Luís Buñuel e com dezenas de actividades, pinturas, fotografias, conferências, etc.
Na internet encontrei a "história" do filme condensada em três tiras de BD, desenhadas por um tal Mike Myhres. Olhando para esta banda desenhada, quem conhece o filme identifica claramente a sequência de imagens da obra de Buñuel e Dalí, como a lâmina no olho ou a mão de onde brotam formigas (só falta a imagem de Dalí vestido de padre a ser arrastado no chão por uma corda!).
Quem nunca viu esta obra intemporal, poderá fazê-lo aqui.
Parte 1 (carregar na imagem para melhor visualização)
Parte 2

Parte 3

sábado, 6 de dezembro de 2008

O silêncio interior de Cartier-Bresson


Numa incursão pela livraria Bertrand deparei-me com este magnífico álbum de fotografias de um dos maiores fotógrafos do século XX, Henri Cartier-Bresson. "Um Silêncio Interior: Os Retratos de Henri Cartier-Bresson" (Beckett na Capa). São apenas 160 páginas em grande formato com fotografias espantosas de artistas, intelectuais, cientistas, escritores e figuras da cultura do século passado. Os retratos reproduzidos nesta obra pelo fundador da agência Magnum mostram, sem artifícios, os rostos de artistas e personalidades como Miró, Matisse, John Huston, Faulkner, Albert Camus, Sartre, Ezra Pound, Duchamp, Stravinsky, Beckett, Renoir, Piaf, Arthur Miller, entre muitos outros.
A câmara Leica de Cartier-Bresson capta o instante de forma despojada e seca. O olhar do fotógrafo é um olhar instintivo e penetrante, tentando comunicar aquilo que não se vê ao primeiro olhar: "Acima de tudo, procuro um silêncio interior. Esforço-me por traduzir a personalidade e não a expressão", afirmou um dia o fotógrafo. E, na verdade, sentimos a palpitação desse "silêncio interior" quando olhamos para retratos sublimes como os de Arthur Miller, Truman Capote e Marcel Duchamp:




domingo, 5 de outubro de 2008

O que é hoje a vanguarda?


A revista Única do semanário Expresso desta semana dedica grande parte das suas páginas ao conceito de "vanguarda". Vanguarda na ciência, na investigação, nas artes, no pensamento. Há igualmente uma secção sobre 10 personalidades portuguesas que se encontram "à frente" em várias matérias: design, arquitectura, ciência, video-arte, cinema, moda, teatro, literatura, artes plásticas, etc. Como complemento explicativo ao tema explorado, o Expresso decide enumerar as várias manifestações artísticas às quais habitualmente conotamos com o conceito de vanguarda, ao qual deu o título "abecedário das vanguardas": futurismo, dadaísmo, expressionismo abstracto, cubismo, etc. Na música são referidos os inevitáveis John Zorn, John Cage, Pierre Boulez, Anton Webern, Schoenberg, Xenakis e Frank Zappa. De facto, todos estes nomes representaram diferentes formas de encarnar a vanguarda estética na música, mas é mais do que óbvio que se trata de uma lista muito reducionista. Haveria muitos outros nomes a referir, mas isso nem é o mais importante. A questão é que o jornalista Luís M. Faria, que assina o texto, refere-se da seguinte forma quando aborda Zappa: "Zappa - Porque o rock também tem vanguardas. Este artista nunca parou de experimentar, tendo mesmo tido uma colaboração muito badalada com Pierre Boulez. Também poderíamos referir Hector Zazou". A minha opinião é esta: a haver vanguardas no rock, estas não se resumem, nem de perto nem de longe, a Frank Zappa. Sempre houve experimentação na história do rock, como houve na electrónica, no jazz ou até na pop. Só não percebi a referência final ao Zazou: também é um artista vanguardista ou é citado porque, alegadamente, teve uma colaboração com Pierre Boulez?
A discussão à volta da vanguarda nas artes é muito complexa e abrangente. O que o Expresso fez foi enumerar e caracterizar, sinteticamente, as correntes mais consensuais das vanguardas artísticas. O que não fez (porque é mais arriscado e difícil) foi problematizar o tema. Dito de outro modo, seria interessante que o Expresso tivesse publicado um artigo sobre o que é hoje a vanguarda, ou que tivesse solicitado a especialistas opiniões sobre este assunto. É que importa saber se na criação artística contemporânea ainda sobrevive o conceito de vanguarda como foi concebido pelos "ismos" da primeira metade do século XX, ou se é já outra coisa mutável e sem definição precisa. Um dia o ensaísta e jornalista musical Rui Eduardo Paes disse que já não fazia sentido falar em vanguarda (no sentido estético da transgressão e inovação) na criação musical actual, mas sim em "manifestações de experimentação". Será que o conceito de vanguarda morreu, como conceito, com Marcel Duchamp, John Cage ou Fluxus? O próprio Expresso apenas dá como exemplos de conceitos de vanguarda, artistas e movimentos já longínquos no tempo, que fazem parte do passado. Se não estou em erro, os únicos artistas vivos que são citados são John Cale e John Zorn. As dezenas de outros artistas, compositores, teóricos, escritores, artistas plásticos referenciados como vanguardistas, estão há muito mortos e enterrados. Não é, porventura, sintomático? E já agora, porque é que não foi citado nem um único realizador ou estética cinematográfica no âmbito das vanguardas? Não houve vanguarda no cinema?
Partilho da ideia do Rui Eduardo Paes. A vanguarda, como conceito teórico para definir a criação artística inovadora e avançada, morreu com com a 2ª Guerra Mundial. A partir dos anos 50 e 60, a História da Arte regista múltiplas manifestações artísticas importantes mas que mais não são do que reinterpretações, apropriações e reciclagens estéticas das vanguardas históricas.
Na imagem: "L.H.O.O.Q." (1919) de Marcel Duchamp

segunda-feira, 4 de agosto de 2008

A música precisa de significado?

As linguagens das várias expressões artísticas contém elementos de ordem semântica, isto é, significante: são expressões que visam o estabelecimento de um processo de comunicação entre o criador, o objecto artístico e o correspondente receptor. Ora, se todas as linguagens artísticas se apropriam da realidade quotidiana para delas retirarem uma "consciência artística" (Marcel Duchamp, por exemplo), nem todas recorrem a esse processo nem possuem a mesma característica semântica. Na música, muitas vezes coloca-se a questão de saber qual a "mensagem" ou o "significado" de dada manifestação musical. Porém, acontece que a música pode existir por ela própria, sem necessidade de ser sustentada ou avalizada por qualquer outro tipo de conteúdo, seja formal ou conceptual.

Donde, o conceito de música não se reduza ao chavão simplista de "exprimir emoções e sentimentos por intermédio dos sons". As emoções podem estar ausentes (ou muito bem dissimuladas) numa criação musical. Uma obra musical pode afirmar-se unicamente como obra intelectual. Um qualquer compositor poderá ter apenas a intenção de criar um corpo sonoro específico, sem querer, necessariamente, explanar esta ou aquela expressividade emotiva. Assim, a única criação que manifesta esta possibilidade de "assemanticidade" (ausência de significado, de comunicação, de mensagem), é a música. A partir da publicação, em 1854, do livro "O Belo Musical" de Eduard Hanslick, as reflexões filosófico-estéticas à volta da arte musical têm esclarecido que a música não é um meio de comunicação por “natureza”, como a palavra escrita ou falada, visto que os sons têm já por si uma identidade própria (como muito bem demonstrou John Cage ou o português Jorge Peixinho), sem nenhum outro atributo adicional. Se quisermos ser rigorosos, a música é, literalmente falando, a mais ancestral arte, tendo-se manifestado desde o momento da criação do Universo e da matéria: o "Big-Bang", para além de ter dado início à criação do Universo, terá sido a mais majestosa e empolgante "criação musical" de todos os tempos.

Esta teoria explica-se porque foi nesse preciso momento em que o som e o silêncio e, consequentemente a música, surgiram. Donde, somos levados a concluir que a música já existe desde o preciso instante da criação do Tempo e do Espaço. Quer o físico Stephen Hawkind, quer o compositor experimental Karlheinz Stockhausen abordaram esta questão nestes termos. Por outro lado, já Pitágoras e Platão defendiam também que a música mais não era do que a representação da harmonia do Universo, o pulsar da vivência dos astros e dos planetas. Em música não há impreterivelmente que procurar nada fora da própria música; isto é, a razão da sua existência não se deve encontrar fora dos sons (ou do silêncio) que a constituem. Seguindo este raciocínio, há que atestar que não seria com o desaparecimento da Humanidade que a música se extinguiria de forma irremediável, até porque se atendermos à categorização da música realizada pelo filósofo Boécio (a qual postulava três formas musicais: a música "Humana", a música "Instrumental" e a música "Universal"), constataremos que a expressão musical dispensa a existência dos instrumentos e do próprio homem.

Que restaria então? Restaria a magnificência do silêncio – enquanto forma musical mais primária e cristalina - e a sublime emanação sonora proveniente da Natureza e do Universo (notemos que o compositor francês Olivier Messiaen dizia que não havia música mais perfeita que a dos pássaros). De resto, tanto quanto sabemos, a Mãe Natureza não se preocupa em procurar e atribuir significados às suas manifestações sonoras; essa é uma preocupação muitas vezes frívola do homem na tentativa obsessiva de querer dar significado a tudo. A racionalização dos fenómenos artísticos (neste caso musicais) nem sempre é o melhor processo para chegar ao entendimento da sua essência. Na realidade, o que mais interessa é constatação pura dessas manifestações sonoras. Existem, e é tudo quanto baste.

(texto originalmente publicado em www.divergencias.com)

terça-feira, 24 de junho de 2008

Spermcube - esperma artístico


A arte contemporânea não pára de surpreender. Para os que defendem que a originalidade é um conceito inexistente no mundo da arte de hoje em dia, que tudo foi já inventado, e que todas as soluções artísticas foram idealizadas, é melhor apreciar esta proposta. Nos anos 60, um artista italiano discípulo de Marcel Duchamp - Piero Manzoni - inventou a obra "Merda de Artista" (90 latas de fezes do próprio artista). Agora, o artista francês Philippe Meste propõe uma proposta assaz semelhante na premissa e relacionado com um fluido corporal: pretende reunir 1 metro cúbico de... esperma humano (na imagem). Exactamente isso: sémen.
O projecto, chamado SpermCube, pretende que um cubo transparente com 1 metro cúbico (1000 litros) de capacidade seja enchido com esperma de qualquer homem no mundo. Qualquer homem pode participar (o autor refere a universalidade do projecto), ajudando assim a "criar" a obra de arte para ser exposta numa galeria de arte. O site de Philippe Meste, que pode ser acedido aqui, envia um kit completo para o dador interessado poder doar o seu esperma e enviá-lo por correio. Ah, de tempos a tempos também existem recolhas de esperma em galerias de arte. O esperma contido no "Spermcube" será depois congelado, para manter as suas propriedades intactas, e assim nascerá uma obra de arte "construída" por todos. Já há referência na internet que se trata de uma obra... machista, visto que só os homens podem contribuir. Afinal a arte encontra novas formas de intervenção e de romper cânones estabelecidos nesta espécie de "ready-made" interactivo reinventado. Será que os bancos de esperma estão a ficar desfalcados com o desvio de sémen para este projecto?
Seja com for, agora o artista precisa é de dadores de todo o mundo, pois ao que parece, está ainda longe de encher os 1000 litros de esperma no seu cubo (é um "work-in-progress").
Alguém se oferece como dador?

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Graffiti & Duchamp


Quando estacionei o carro olhei para o muro da casa mesmo em frente fiquei surpreendido com o que vi. Nada mais nada menos do que uma reprodução perfeita em graffiti do "Urinol" (mais propriamente "Fonte") de Marcel Duchamp. Lembro que este ready-made do artista francês foi considerada a obra de arte mais influente do Século XX. O que quer dizer muita coisa. A minha surpresa deveu-se ao facto deste graffiti fugir ao paradigma habitual da arte graffiti. Estarão os graffiters com uma consciência artística mais aturada? Terão deixado para trás os ícones da cultura hip-hop e urbana para se dedicarem à exploração das referências da arte vanguardista?
E por falar em graffiters, vale a pena dar uma olhadela no surpreendente trabalho de um dos artistas de rua mais consagrados e originais (e anónimos) da última década - Banksy.