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domingo, 19 de abril de 2015

Uma obra-prima redescoberta



Um dos melhores filmes que vi nos últimos tempos tem... 90 anos. Trata-se de uma obra-prima japonesa do período do cinema mudo. Esteve quase cinco décadas perdido até ter sido encontrada uma cópia em 1971, o que possibilitou revelar ao mundo um filme extraordinário. Chama-se "Uma Página de Loucura" (1926) do realizador Teinosuke Kinugasa. 

Contemporâneo de Murnau e Eisenstein, Teinosuke Kinugasa mistura a atmosfera psicológica do primeiro com a montagem frenética do segundo. Os corredores cinzentos e a iluminação expressionista de um manicómio servem de pano de fundo para a historia de um marinheiro que se torna varredor para estar próximo da sua mulher que sofreu um colapso no passado e se encontra internada no hospício.


O ambiente do filme transparece loucura e profunda inquietação: personagens que dançam de forma esquizofrénica e gritam com as suas bocas sujas e escancaradas. A câmara capta ângulos ousados e subjectivos e movimenta-se à mercê da espiral de desespero dos personagens. Ao contrário da grande maioria de filmes mudos, este não possui intertítulos nem narração. Kinugasa foi um artista vanguardista que em nada fica atrás do formalismo estético de realizadores como Dziga Vertov, Sergei Eisenstein ou Walter Ruttmann. "Uma Página de Loucura" é um espantoso trabalho de construção visual e plástica que o mundo desconheceu durante décadas mas cuja idade não belisca em nada a sua modernidade. Uma pérola cinematográfica, portanto.

O filme na íntegra (60 minutos) está disponível no Youtube em baixo. Chamo a particular atenção para a espantosa banda sonora musical e sonoplástica do Aono Jikken Ensemble. Uma banda sonora nada convencional feita de ruídos, melodias orientais e percussão caótica - como no incrível e intenso momento a partir do minuto 23.

segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Eisenstein por Greenaway


Eis uma extraordinária novidade do cinema: vai estrear este ano o novo filme do exuberante realizador Peter Greenaway. Mas não é tudo. Desta vez, ao que parece, o cineasta colocou de lado a sua veia estética barroca e visualmente excessiva para se concentrar na experiência que o realizador russo Sergei Eisenstein teve no México, em 1930, durante 10 dias, para filmar o documentário "Que Viva México!" sobre o Dia dos Mortos. Promete. 

Eis o trailer:

segunda-feira, 17 de março de 2014

Quando estreou "Potemkine"

Durante décadas Portugal viveu sob o jugo do Estado Novo: o povo não tinha acesso à cultura como nos países democráticos. Assim que se deu a revolução do 25 de Abril, uma ânsia apoderou-se da sociedade portuguesa para conhecer os fenómenos culturais fulgurantes que se davam "lá fora".
Era o caso do cinema. O filme "O Couraçado Potemkine" de Sergei Eisenstein, originalmente de 1925, só foi visto publicamente num cinema em Portugal em 1974, na ressaca da liberdade. Veja-se esta fotografia incrível: a população em massa para ver um filme (proibido) do período mudo!
Mais informação sobre esta estreia aqui.

segunda-feira, 10 de março de 2014

O leão na praça da revolta

Há dias houve uma grande manifestação de polícias à frente da Assembleia da República, em Lisboa. Mesmo em frente à escadaria, existem duas grandes estátuas de dois leões. Esta situação fez-me lembrar o o filme "O Couraçado Potemkine" (1925) de Sergei Eisenstein: neste clássico do cinema mudo, ocorre a célebre sequência do massacre da escadaria de Odessa, na qual há elementos em comum com a cena da manifestação em Lisboa. 
Desde logo, a manifestação de massas; depois, a escadaria; e por fim, as estátuas dos leões. A única coisa que não é igual relativamente ao filme (e ainda bem), é que em Lisboa não houve massacre nem violência. E também os leões não se "levantaram indignados" como no filme de Eisenstein.
O realizador russo, exímio esteta da montagem, criou a ilusão do movimento das estátuas dos leões através de uma rápida montagem sequencial: primeiro o leão deitado, depois o leão a acordar, e por fim o leão já erguido - como que a insurgir-se contra a violência que observava.

Eis os três planos sequenciais do filme de Eisenstein:

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Grandes filmes antes dos 30 anos

Neste post - bastante comentado - abordei os primeiros grandes filmes realizados por jovens cineastas. Aquelas primeiras obras fabulosas que marcaram a restante filmografia do cineasta e até da história do cinema. Mas nem todos esses realizadores eram jovens realizadores. Quantos realizadores se podem orgulhar de terem feito primeiras obras de inexcedível qualidade antes dos 30 anos de idade?

Eis quinze filmes da minha preferência pessoal no rol de cineastas que assinaram filmes superlativos até aos 30 anos de idade (ordenados por ordem crescente de preferência, título do filme, ano, realizador e respectiva idade à data da realização do filme):

15 - "As Aventuras de Pee Wee" (1985) - Tim Burton (27 anos)
14 - "Little Odessa" (1994) - James Gray (24 anos)
13 - "Paths of Glory" (1957) - Stanley Kubrick (29 anos)
12 - "American Graffiti" (1973) - George Lucas (29 anos)
11 - "Os 400 Golpes" (1959) - François Truffaut (27 anos)
10 - "Sherlock Jr." (1924) - Buster Keaton (29 anos)
9 - "Magnolia" (1999) - Paul Thomas Anderson (29 anos)
8 - "Reservoir Dogs" (1992) - Quentin Tarantino (29 anos)
7 - "Pi" (1998) - Darren Aronofsky (30 anos)
6 - "Duel" (1971) - Steven Spielberg (25 anos)
5 - "Sexo, Mentiras e Vídeo" (1989) - Steven Soderbergh (26 anos)
4 - "Magnificent Ambersons" (1942) - Orson Welles (27 anos)
3 - "Un Chien Andalou" (1929) - Luís Buñuel (29 anos)
2 - "Citizen Kane" (1941) - Orson Welles (26 anos)
1 - "O Couraçado Potemkine" (1925) - Sergei Eisenstein (27 anos)

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Potemkine e o cinema

No dia em que foi divulgada mais uma estatística devastadora para o cinema em Portugal (menos 1,3 milhões de espectadores e menos 8,5 milhões de receitas em 2013), revelo um dos mais antigos cinemas ainda em actividade - sítio onde estreou a obra-prima "O Couraçado Potemkine" (1925) de Sergei Eisenstein:

terça-feira, 24 de dezembro de 2013

O Natal segundo...

Eis um vídeo que irá fazer as delícias dos cinéfilos: um grupo de comediantes filmou curtas sequências sobre o Natal ao estilo de realizadores como Kubrick, Scorsese, Woody Allen, Michael Moore, Eisenstein ou Lars Von Trier
Através da montagem, da forma de filmar e da música, reconhecemos imediatamente as estéticas de cada realizador. Uma forma divertida e original de celebrar o Natal e, ao mesmo tempo, um inspirado exercício cinéfilo.

sábado, 21 de dezembro de 2013

Carta ao Pai Natal


Querido Pai Natal: este ano de 2013 portei-me bem. Por isso peço-te gentilmente que me ofereças estas prendas em baixo descriminadas. São algumas caixas de DVDs e Blu-Ray que gostaria de receber este ano. No total serão apenas algumas centenas de euros, não é um valor significativo no teu gigantesco orçamento anual para prendas para todo o planeta. Obrigado pela tua atenção, Pai Natal.
Então faz o favor de apontar:













segunda-feira, 30 de setembro de 2013

O que diz Tarkovski #8

"Ivan, o Terrível" de Eisenstein é um filme espantosmante poderoso  e arrebatador na sua composição musical e rítmica. Tudo nele - montagem, mudanças de plano e sincronização - é elaborado com subtileza e disciplina. A caracterização, a composição harmoniosa das imagens e a atmosfera do filme aproximam-se tanto do teatro que ele quase deixa de ser - segundo a minha visão puramente teórica - uma obra cinematográfica."
 

quinta-feira, 1 de agosto de 2013

O Top 10 de Roger Corman

O site The Criterion Collection, editora de DVD e Blu-Ray especializada em edições de cinema de autor e clássico, tem uma rubrica muito interessante. Chama-se, simplesmente, Top 10, e convida um realizador ou outra figura do cinema a revelar as suas dez preferências nos títulos do (rico e diversificado) catálogo da Criterion.
O último realizador a responder a este desafio foi o veterano Roger Corman, autor de culto na área do cinema independente e de terror. É deveras surpreendente comprovar as suas escolhas, uma vez que se trata de um Top 10 de primeiríssima qualidade no que concerne ao gosto cinéfilo mais apurado. Nada de filmes de terror (que o possam ter influenciado) ou outros títulos mais ligados ao cinema alternativo e de Série B. 
Roger Corman seleccionou filmes da elite cinéfila: Buñuel, Eisenstein, Kazan, Vittorio De Sica, entre outros. Para além da mera selecção dos títulos, Corman apresenta ainda um pequeno texto explicativo que justificam as escolhas. 
Vale muito a pena confirmar aqui.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

Neste dia

Neste dia dedicado aos mortos não faltam sugestões de filmes de zombies e de terror para assinalar a data. Pois eu prefiro ver "Que Viva México!" (1933) do mestre russo Sergei Eisenstein, obra que explora a cultura mexicana e, necessariamente, o ritual do Dia dos Mortos:

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Vertov e Alloy Orchestra

Caro leitor: se nunca viu o filme "O Homem da Câmara de Filmar" (1929) de Dziga Vertov, esta é uma oportunidade ideal. Se já viu, aconselho a rever esta versão.
Isto porque se trata da versão (que eu adquiri em DVD há 7 anos) com música original da Alloy Orchestra (na imagem). É certo que há uma versão mais famosa com música composta pela Cinematic Orchestra (aqui), mas eu prefiro esta.
Alloy Orchestra, apesar do nome, é um trio de músicos norte-americano especializado, há muitos anos, em compor bandas sonoras originais para cinema mudo. Já fizeram música praticamente para todos os grandes clássicos dessa época ("Metropolis", "Nosferatu", "The General", "Blackmail", "Strike", etc). De todos os trabalhos que conheço desta Alloy Orchestra, considero que o melhor é mesmo o que fizeram para a obra-prima de Vertov.
Uma música incisiva, ao mesmo tempo séria e lúdica (ao bom estilo dos anos 1920), com um rigor sonoplástico, orquestral e rítmico verdaderamente notáveis.
Ver o filme de Dziga Vertov com esta música é, de facto, outra experiência. Acreditem. 
 

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Música para cinema - uma abordagem




O cinema existe desde 28 de Dezembro de 1895, data em que as experiências incipientes dos irmãos Auguste e Louis Lumière, com o “cinematógrafo”, espantaram o público burguês do Grand Café de Paris. Os inventores do cinema lançaram as bases desta emergente linguagem artística com filmagens de um minuto, nas quais mostravam a vida quotidiana de cidadãos comuns.
Apesar do sucesso popular imediato daquelas sessões de projecção cinematográfica (por onde passou o escritor Eça de Queiroz), os irmãos Lumière não auguravam futuro para o cinema. Felizmente que outro francês, George Méliès (realizador do célebre filme “Viagem à Lua”, considerada a primeira ficção do cinema), não pensava da mesma forma e desenvolveu, sobremaneira, a linguagem cinematográfica, ainda que muito ligada à estética teatral. Depois, outros notáveis realizadores se encarregariam de desenvolver a linguagem do cinema de distintas formas.
O que é certo é que durante os primeiros 30 anos da sua história, o cinema foi mudo, mas não totalmente silencioso. Significa isto que o som estava ausente das imagens, apenas havendo um ou outro acompanhamento de piano ou de uma pequena orquestra durante a exibição pública, geralmente tocado por detrás da tela de projecção. Algumas ténues experiências foram feitas na conjugação som-imagem, nomeadamente, na utilização que alguns realizadores fizeram utilizando a música de compositores clássicos, como Saint-Saëns, Pizzetti ou Satie. Curiosamente, outros grandes compositores como Stravinsky, Bartók, Ravel ou Schoenberg, que se aventuraram na criação de música para filmes, manifestaram-se ineptos criadores de bandas sonoras para cinema. Daí que a relação entre o cinema e a música seja uma relação artística complexa e problemática, uma vez que se reveste de múltiplas facetas e visões distintas, levantando determinadas questões pertinentes que praticamente se mantêm vivas até hoje: será a música para cinema meramente ilustrativa? Os compositores para cinema são compositores de primeira ou de segunda? A banda sonora para filme é um género à parte da restante produção musical? Um filme fica mais rico se tiver sempre uma partitura original (como nos filmes Spielberg) ou bandas sonoras adaptadas (como nos filmes de Kubrick)?

Nos primórdios, por impossibilidade técnica, o filme era desprovido de som (banda sonora ou diálogos), e os realizadores e espectadores pouco se importavam com isso. A interpretação dos actores era mais física e expressiva, uma vez que o som dos diálogos era inexistente. Dava-se relevo às imagens e suas múltiplas formas expressivas. Quando o sonoro surgiu, no filme “The Jazz Singer” (1927, com o actor Al Jonhson a imitar um cantor de jazz negro), houve alguma resistência por parte de grandes vultos do cinema à novidade técnica do som. O próprio Charlie Chaplin chegou a dizer que o som iria “matar o cinema”. E Greta Garbo foi das poucas actrizes que se conseguiu afirmar no período sonoro com a mesma veemência com que o tinha feito no mudo. A revolução do sonoro tinha começado. Apesar da ausência de som e de música, este foi um período extremamente criativo no que se refere à consolidação da linguagem artística do cinema, enquanto forma estética (montagem, realização, fotografia, cenários) e objecto semiótico (narrativo, ficcional, documental).

Determinados filmes foram efectivamente silenciosos durante décadas. Chaplin musicou, ele próprio, os filmes “Luzes da Cidade” (1931) e “Tempos Modernos” (1936) apenas durante a década de 60.
Buñuel fez o mesmo com a obra-prima “Un Chien Andalou” (1929), à qual adicionou a banda sonora (tango argentino) 35 anos depois da estreia. Ou seja, os realizadores de cinema cedo se aperceberam da grande importância que a música detinha como complemento das imagens. Por isso Eisenstein trabalhou logo em 1938 com o compositor Sergei Prokofiev, que compôs a banda sonora épica do filme “Alexander Nevsky”, num exemplo acabado da perfeita sincronia criativa entre imagem e som. Os sons (no sentido da sonorização da narrativa) e a banda sonora (a música propriamente dita com funcionalidade dramática) desempenham um motor emocional próprio no espectador, desencadeando reacções que não seriam possíveis caso não houvesse essa componente sonora.

Durante o período áureo da indústria de Hollywood - dos anos 40 a 60 do Século XX – revelaram-se grandes compositores para cinema: Bernard Herrmann. Elmer Bernstein, Nino Rota, Ennio Morricone, Henri Mancini, Alfred Newman entre muitos outros. Hoje qualquer cinéfilo identifica a ligação estética entre determinados cineastas e músicos: David Cronenberg e a música de Howard Shore, Sergio Leone e a música de Ennio Morricone, Steven Spielberg e a música de John Williams, Hitchcock e a música de Bernard Herrmann, Tim Burton e a música de Danny Elfman, Peter Greenaway e a música de Michael Nyman, etc. Durante os últimos anos, uma das estratégias de reabilitação do cinema mudo tem sido conseguido com o fenómeno dos cine-concertos (ou filmes-concertos).

Isto é, filmes que são acompanhados com música original interpretada ao vivo e em tempo real da projecção. Há inclusive compositores e grupos musicais que se dedicam exclusivamente à criação de bandas sonoras para filmes mudos. Projectos de diversas proveniências estéticas e nacionalidades têm criado música original para filmes imortais do período mudo: Art Zoyd, Pet Shop Boys, Cinematic Orchestra, Alloy Orchestra, Clã, Mário Laginha, Nuno Rebelo, etc.
No fundo, novos campos de experiências estéticas se abriram com a confluência dos filmes com os concertos ao vivo.

sábado, 14 de julho de 2012

Os filmes de Chaplin

Geraldine Chaplin, actriz e filha de Charlie Chaplin, disse um dia que a última vez que viu o pai vivo estava a ver um filme de Jerry Lewis e a a rir-se desalmadamente. Geraldine ficou com uma imagem doce do último momento em que viu o pai vivo: o rei da comédia a rir-se de um actor e realizador (também ele) cómico. O humor como elo de ligação artística e emocional entre dois grandes artistas.  
Geraldine Chaplin referiu também que o pai tinha uma predilecção muito especial por "2001 - Odisseia no Espaço" (1968) de Stanley Kubrick. A tal ponto que o viu várias vezes na sala de cinema.
O próprio Charlie Chaplin, questionado sobre os seus filmes favoritos, comentou que adorava "Sunrise" (1927) de Murnau (foi uma influência para "City Lights") e "O Couraçado Potemkine" (1925) de Sergei Eisenstein, que considerava o melhor filme jamais realizado.




terça-feira, 3 de julho de 2012

O poder da montagem

Quem viu o jogo da meia-final entre a selecção da Alemanha e a da Itália no Euro 2012, certamente terá reparado numa imagem em que se vê uma adepta alemã (na fotografia) a chorar na sequência do segundo golo da Itália. Certo? Errado.
Soube-se agora que a mulher que surgia a chorar não o estava a fazer por causa da derrota, mas sim por resposta emocional ao momento em que o hino alemão soava no estádio. Pelo menos é o que garante a própria mulher que, regressada a casa após ter assistido ao jogo, se deparou com esta manipulação da sua imagem pela televisão polaca.
Basicamente, o que a realização televisiva da UEFA fez foi ter gravado a imagem da mulher com a lágrima durante o hino, para depois colocar a mesma imagem logo a seguir ao segundo golo de Mario Bolatelli que eliminaria a Alemanha. Chama-se a isto manipulação emocional através de um recurso básico de montagem. 
O princípio teórico da montagem, estabelecido desde o período do cinema mudo, foi já muito estudado, sobretudo desde o famoso "Efeito Kuleshov" de 1929, no qual o realizador Kuleshov demonstrou o poder da montagem através de uma sucessão de imagens que, segundo a sua ordem, atribuíam significados contraditórios ao espectador (ver mais aqui). O realizador Sergei Eisenstein foi um eminente estudioso das potencialidades da montagem ao serviço da expressão estética das imagens, tão patente em filmes essenciais como "O Couraçado Potemkine" (1925) ou "Outubro" (1927). OU seja, a montagem pode atribuir significados diferentes às mesmas imagens dependendo da ordem em que estas forem... montadas.
Não sei se o realizador do jogo de futebol citado conhece estes filmes e a teoria por detrás do "Efeito Kuleshov", mas a verdade é que nem precisa. Ao manipular a imagem da mulher a chorar, o que fez foi confirmar a teoria dos russos: a de que a montagem consubstancia, porventura, a essência da linguagem cinematográfica e dos seus significados. Seja no cinema ou na televisão. 

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Cine-Concerto

Duas obras-primas do cinema mudo e um filme “mudo” por opção estética vão ser musicados ao vivo por três músicos: Micro Animal Voice, Élia Fernandes e Kubik.
Do fascinante cinema experimental de Man Ray (“Emak-Bakia”), passando pelo expressionismo plástico do russo Eisenstein (“Romance Sentimentale”), até à experiência fílmica de Samuel Beckett (“Film”, com Buster Keaton), estas são três propostas cinematográficass diferentes que resultarão em três experiências audiovisuais marcantes.
Estão todos convidados, sábado, no Teatro Municipal da Guarda.
Mais informação aqui

quinta-feira, 16 de fevereiro de 2012

Os rostos de Hitch

Quando falamos de realizadores que sabiam filmar a expressão dos rostos e dos olhos, facilmente nos lembramos de Carl Dreyer, de Eisenstein ou de Bergman.
Realizadores que iluminavam o rosto de forma superlativa, ao ponto de não haver necessidade de palavras para descrever as complexas emoções humanas.
Mas quando falamos de realizadores que sabiam filmar a expressão dos rostos, raramente nos lembramos de Alfred Hitchcock. E são dele algumas das mais poderosas imagens de rostos, de olhares e de expressões faciais de toda a história do cinema.
Eis algumas provas (quase todas associadas ao medo, à angústia e ao prenúncio de morte):







Sequência de imagens correspondem aos filmes: Rear Window, Psycho, Topaz, Stage Fright, I Confess, Psycho, The Wrong Man, Frenxy x 3, Psycho, Birds, Vertigo, Psycho, Birds e Family Plot - o último plano do último filme de Hitchcock.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

Eisenstein: a autobiografia


Gosto de autobiografias de realizadores. Já li umas quantas deveras extraordinárias, como as de Charles Chaplin, Andrei Tarkovski ou Luis Buñuel.
Uma autobiografia que nunca consegui ler - até porque não existe edição portuguesa (brasileira sim) é a do realizador Sergei Eisenstein: "Memórias Imorais".

Eis o que reza a interessante sinopse: "Este é um livro de memórias sui generis. E nem poderia ser diferente. Escrito, dois anos antes de sua morte, por um dos maiores e mais inovadores cineastas de todos os tempos, tem um estilo fragmentário e assistemático que faz lembrar os brilhantes efeitos de montagem obtidos por Eisenstein nos seus filmes.
Nele, o autor de "O Couraçado Potemkin" narra a sua vida na Rússia desde a Revolução - em que serviu no exército bolchevique como voluntário -, as viagens pelo Ocidente, os encontros com celebridades como Jean Cocteau, Paul Éluard e James Joyce, os triunfos e as tribulações. Memórias imorais mostra, além disso, a grande erudição de Eisenstein - que, no entanto, nada tinha de pedantismo. Dois capítulos falam, por exemplo, de sua relação apaixonada com os livros, outro discute a obra de Edgar Allan Poe, etc. Essas memórias mostram também a diversidade de interesses do autor, que, entre outras coisas, foi um excepcional desenhista, como se pode constatar pelos trabalhos reproduzidos no livro."

domingo, 25 de dezembro de 2011

"The Artist" - O filme mudo


É o grande fenómeno do momento no mundo do cinema: o filme "The Artist" do realizador francês Michel Hazanavicius. A estreia deste filme aconteceu no último Festival de Cannes, competindo à Palma de Ouro (perdeu para "The Tree of Life") e o actor principal, Jean Dujardin, ganhou mesmo o Prémio de Melhor Actor. Recentemente foi nomeado para seis prémios Globos de Ouro e já se fala, insistentemente, nas nomeações para os almejados Óscares. A sensação à volta de "The Artist" é que se trata de um filme... mudo. Toda a sua estética visual remete para os filmes mudos dos gloriosos anos 1920. O realizador demorou 10 anos a convencer os produtores a investir neste projecto. E o resultado está à vista. A crítica e o público (já estreou comercialmente no final de Novembro nos EUA) têm sido quase unânimes nos elogios a este filme que foi pensado como se fosse realizado, de facto, entre 1927 e 1933 (época em que o sonoro veio substituir o mudo e que serve de pano de fundo para a história de "The Artist").

Michel Hazanavicius não é o primeiro realizador a explorar a estética do cinema mudo. O canadiano Guy Maddin (escrevi sobe ele aqui) já o fizera com brilhantes resultados formais. A inovação que "The Artist" acarreta é que não se limita a ser um mero exercício de estilo saudosista a preto e branco. Os valores de produção, as interpretações marcantes, a realização, a fotografia, a banda sonora e a história de amor (também amor ao cinema) são, tudo o indica, razões para considerar "The Artist" como uma obra absolutamente singular dos tempos modernos.

Além do mais, este filme de Hazanavicius tem outro mérito: o de chamar a atenção - sobretudo para as novas gerações de cinéfilos - para a história do cinema mudo. Vendo "The Artist", os jovens espectadores que desconhecem o período mudo, poderão ficar sensibilizados e motivados a descobrir e ver os grandes mestres desta época da história do cinema: Fritz Lang, Charlie Chaplin, Buster Keaton, Eisenstein, Murnau, etc.

domingo, 11 de dezembro de 2011

O legado de Eisenstein



Encontrei este livro na Fnac: "Eisenstein on the Audiovisual: The Montage of Music, Image and Sound in Cinema" de Robert Robertson. Só conhecia de nome esta obra (vi-a referenciada num site internacional de cinema), visto que o seu autor é um compositor e cineasta que goza de alguma reputação nos circuitos mais académicos. O tema do livro constituiu a base da tese de doutoramento de Robertson no prestigiado King's College de Londres.

Nesta obra ensaística, o autor disserta sobre a influência decisiva que o russo Eisenstein exerceu sobre a história da sétima arte sob o ponto de vista da montagem, música e som no cinema e na produção audiovisual subsequente. Robert Robertson disserta ainda sobre o impacto que as teorias e a estética de Eisenstein tiveram em áreas tão diversas como o teatro, a dança, a ópera e a arte multimédia.

O livro está à venda na Fnac por 21€.
(Nota curiosa para a capa original do livro: O cineasta a fazer a barba no topo de um edifício em Nova Iorque).