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segunda-feira, 25 de maio de 2015

Memórias de "Que Grande es el Cine!"


É recorrente as televisões portuguesas programarem filmes de qualidade para horários improváveis (muitas das vezes, madrugada dentro). Há muitos anos atrás, a RTP fazia verdadeiro serviço público quando passava, às quartas-feiras à noite (21h30), uma sessão de cinema. Filmes de qualidade em horário nobre com apenas um intervalo pelo meio. Isto já para não falar da programação cinéfila de cinema clássico da RTP2, que teve o seu auge até meados da década de 90. Desde que os canais privados entraram no mercado, a programação de cinema de qualidade desmoronou-se.
Desde há uns anos a esta parte a programação das televisões em horário nobre tem sido monopolizada com telelixo: telenovelas aos molhos, futebol e programas medíocres de entretenimento (reality shows e afins). E, claro, intervalos infindáveis de publicidade maçuda (um intervalo comercial da TVI dura, em média, 20 intermináveis minutos). Por isso os filmes, séries e programas de informação de qualidade são relegados para secundaríssimo plano, quase sempre depois da meia-noite. Claro que há alternativas: televisão por cabo e clubes de vídeo online. Só que há dezenas de milhares de famílias portuguesas que não podem pagar televisão por cabo. E assim estupidificam-se, de forma passiva, assistindo à boçalidade televisiva diária. A nova televisão digital e os novos pacotes multimédia (Nos e Meo) podem atenuar a nefasta formatação da televisão actual e alargar as possibilidades de visionamento do espectador, mas estes produtos vão levar muitos anos a generalizar-se por toda a população.
Como vivo perto de Espanha habituei-me a ver televisão, desde muito cedo, do país vizinho. Durante anos vi clássicos de aventuras ao sábado à tarde e durante anos vi, pela primeira vez, verdadeiras obras-primas do cinema em horário nobre. Era o caso do excelente programa "Qué Grande es el Cine!" (exibido entre 1995 e 2005 na TVE2 - a equivalente à RTP2) do jornalista e realizador José Luis Garci (na imagem).


Durante esses anos, todas as segundas-feiras à noite depois de jantar, era exibido um filme clássico (legendado) e depois comentado e discutido durante 40 minutos por parte de críticos de cinema e realizadores (como se faz agora depois de um jogo de futebol). Um notável serviço público, pedagógico e cultural, num formato quase impensável nos dias de hoje. Foi neste programa que vi grandes filmes de John Ford, Orson Welles, Murnau, Charles Laughton, Hitchcock, Capra, Truffaut, Nicholas Ray, etc. Aposto que, nos 10 anos que durou o programa, este contribuiu para formar o gosto cinéfilo de muitas pessoas (uma geração?) para a verdadeira arte do cinema. Aqui podem ver-se muitos desses programas no Youtube.
Era com critérios destes que se deveria reger toda e qualquer televisão pública.

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

Cinéfilo, eu?

Por vezes discute-se o que é ser cinéfilo. Segundo João Bénard da Costa, ex-Director da Cinemateca Portuguesa, há uma significativa diferença entre "gostar" de cinema e "amar" o cinema.
E é verdade que esta diferença define o que é um verdadeiro cinéfilo e um espectador vulgar de cinema.
Repare-se na seguinte tabela comparativa que elaborei. Não se trata de um estudo científico e académico. É aquilo que a minha intuição e experiência dizem: uma pessoa que goste de cinema e que tenha alguns conhecimentos, fará uma lista de preferências como aquelas que estão na tabela da esquerda. Será, por assim dizer, um Cinéfilo QB (quanto baste). Mas para os mesmo filmes haverá o verdadeiro Cinéfilo, aquele que tem um conhecimento mais profundo da história do cinema e um gosto mais definido, por isso, escolhe outros filmes menos conhecidos dos mesmos cineastas.

Cinéfilo QB                                                                          Cinéfilo
"Citizen Kane"-------------------Orson Welles ------------------"Macbeth" (1948)
"2001 - Odisseia no Espaço"---Stanley Kubrick---------------"The Killing" (1956)
"O Sétimo Selo"-----------------Ingmar Bergman-------------"A Fonte da Donzela" (1959)
"Manhattan"----------------------Woody Allen-------------------"Zelig" (1983)
"Janela Indiscreta"---------------Alfred Hitchcock--------------"The Lodger" (1927)
"A Lista de Schindler"----------Steven Spielberg---------------"Duel" (1971)
"Nosferatu"-----------------------F.W. Murnau-------------------"Tabu" (1933)
"O Padrinho"---------------------Francis Coppola----------------"Rumble Fish" (1983)
"O Touro Enraivecido"---------Martin Scorsese-----------------"Mean Streats" (1973

Depois há outra facção de cinéfilos, que são os hardcore, aqueles "ratos de cinemateca" que acham que até os filmes da coluna da direita são demasiado mainstream para o seu gosto refinado. Estes cinéfilos hardcore gostam é dos clássicos mais obscuros, dos títulos de culto das sessões da meia-noite e de festivais de cinema independentes. São os amantes incondicionais do cinema mais alternativo/vanguardista, formando uma espécie de elite cinéfila.

Uma lista de filmes preferidos dos Cinéfilos Hardcore será por exemplo assim:

"Meshes of the Afternoon" (1943) - Maya Deren 
"Woman in The Dunes" (1964) - Hiroshi Teshigahara
"Pastoral: To Die In The Country" (1974) - Shuji Terayama
"Warning Shadows" (1923) - Arthur Robinson
"Thunderbolt" (1929) - Josef von Sternberg
"The Stranger on The Third Floor" (1940) - Boris Ingster
"Begotten" (1990) - E. Elias Merhige
"O Quadro Negro" (2000) - Samira Makhmalbaf
"Daisies" (1966) - Vera Chytilová
"Flaming Creatures" (1963) - Jack Smith
"O Anjo das Ruas" (1928) - Frank Borzage
"My Degeneration" (1990) - Jon Moritsugu
"Love Making"  (1969) - Stan Brakhage

E o caro leitor, em que categoria de cinéfilo se integra?

sábado, 29 de novembro de 2014

Ed Wood e Orson Welles


No sublime filme "Ed Wood" (1994) de Tim Burton, há um diálogo delicioso em que Johnny Depp na pele de Ed Wood (considerado o pior realizador do mundo) conhece uma mulher num bar que lhe pergunta:

Mulher: E senhor o que faz?
Ed Wood: Trabalho no cinema: sou realizador, actor, argumentista e produtor.
Mulher: Ora, ninguém faz isso tudo ao mesmo tempo!
Ed Wood: Oh sim, no mundo do cinema só duas pessoas o conseguem: Orson Welles e eu!

terça-feira, 15 de julho de 2014

O último plano de um grande filme

Em 1949, ainda a Europa sofria da terrível ressaca da 2ª Guerra Mundial, um realizador de nome Carol Reed realizou em Viena um dos mais emblemáticos filmes 'noir' de sempre: "The Third Man", baseado num livro do mestre Graham Greene com Orson Welles e Joseph Cotten como protagonistas.
Ora, este filme ficou marcado por uma realização superlativa, fotografia contrastante (ganhou o Óscar nesta categoria) e uma narrativa de puro suspense. O filme de Reed marcou também o imaginário dos cinéfilos pela música, com um dos mais memoráveis temas de abertura da autoria do músico Anton Karas (pode ouvir aqui). 
Mas o que queria chamar a atenção do caro leitor era para a última sequência do filme (pode ser vista em vídeo aqui), com um dos planos finais mais belos da história do cinema: Joseph Cotten (na pele de Holly Martins) aguarda a chegada de Alida Valli (como Anna Schmidt). Esta, altiva e quase cínica, passa por ele sem sequer desviar o olhar. É um plano fixo magnífico, pela simetria do mesmo, pela beleza plástica e visual do enquadramento.
Sempre me interroguei se esta rua ainda existia. E existe. Trata-se de um cemitério de Viena e actualmente está nas condições que pode ver na imagem em baixo.


quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Argumentos no papel

Recentemente Quentin Tarantino desistiu de realizar um filme porque o seu argumento foi tornado público. Ele não foi o primeiro. Veja aqui uma lista de 12 casos em que os argumentistas/realizadores (como Orson Welles, Samuel Fuller ou David Lynch) desistiram, por algum motivo, de filmar os argumentos que não passaram do papel.

segunda-feira, 3 de fevereiro de 2014

Grandes filmes antes dos 30 anos

Neste post - bastante comentado - abordei os primeiros grandes filmes realizados por jovens cineastas. Aquelas primeiras obras fabulosas que marcaram a restante filmografia do cineasta e até da história do cinema. Mas nem todos esses realizadores eram jovens realizadores. Quantos realizadores se podem orgulhar de terem feito primeiras obras de inexcedível qualidade antes dos 30 anos de idade?

Eis quinze filmes da minha preferência pessoal no rol de cineastas que assinaram filmes superlativos até aos 30 anos de idade (ordenados por ordem crescente de preferência, título do filme, ano, realizador e respectiva idade à data da realização do filme):

15 - "As Aventuras de Pee Wee" (1985) - Tim Burton (27 anos)
14 - "Little Odessa" (1994) - James Gray (24 anos)
13 - "Paths of Glory" (1957) - Stanley Kubrick (29 anos)
12 - "American Graffiti" (1973) - George Lucas (29 anos)
11 - "Os 400 Golpes" (1959) - François Truffaut (27 anos)
10 - "Sherlock Jr." (1924) - Buster Keaton (29 anos)
9 - "Magnolia" (1999) - Paul Thomas Anderson (29 anos)
8 - "Reservoir Dogs" (1992) - Quentin Tarantino (29 anos)
7 - "Pi" (1998) - Darren Aronofsky (30 anos)
6 - "Duel" (1971) - Steven Spielberg (25 anos)
5 - "Sexo, Mentiras e Vídeo" (1989) - Steven Soderbergh (26 anos)
4 - "Magnificent Ambersons" (1942) - Orson Welles (27 anos)
3 - "Un Chien Andalou" (1929) - Luís Buñuel (29 anos)
2 - "Citizen Kane" (1941) - Orson Welles (26 anos)
1 - "O Couraçado Potemkine" (1925) - Sergei Eisenstein (27 anos)

sábado, 7 de setembro de 2013

Cinema: a discussão do top 10



Para quem ainda não sabe ou para quem quer relembrar, 846 críticos escolhidos pela revista Sight & Sound escolheram há um ano os 10 melhores filmes de sempre. 
Pela primeira vez, o clássico de Welles, "Citizen Kane", foi destronado:

1 - "Vertigo" (Alfred Hitchcock, 1958)
2 - "Citizen Kane" (Orson Welles, 1941)
3 - "Tokyo Story" (Yasujirô Ozu, 1953)
4 - "La Règle du Jeu" (Jean Renoir, 1939)
5 - "Sunrise" (F.W. Murnau, 1927)
6 - "2001: A Space Odyssey" (Stanley Kubrick, 1968)
7 - "The Searchers" (John Ford, 1956)
8 - "Man with a Movie Camera" (Dziga Vertov, 1929)
9 - "The Passion of Joan of Arc" (Carl Theodor Dreyer, 1928)
10 - "8½" (Federico Fellini, 1963)
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Apesar de se tratar de uma lista elaborada por críticos e jornalistas especializados, não deixa por isso de ser uma lista subjectiva e passível de discussão. Isto é, será legítimo perguntar porque é que não consta nenhum filme de Sergei Eisenstein, Andrei Tarkovski, Charlie Chaplin, Robert Bresson, Jacques Tati, Ingmar Bergman ou tantos outros? Simplesmente porque não "cabem" no top 10 original mas poderiam, perfeitamente, integrá-lo.  

quinta-feira, 5 de setembro de 2013

O regresso a "Soy Cuba"

Revi o passado fim-de-semana o filme "Soy Cuba" (1964) de Kalatozov e voltei a sentir o mesmo espanto que senti quando o vi pela primeira vez. E confirmei algo que arrisco, sem problemas, dizer: este filme é das obras cinematográficas mais belas e originais de toda a história do cinema (subiu para um lugar cimeiro do meu top 10 de sempre). Só filmes grandiosos como "Touch of Evil" de Orson Welles ou "O Último Ano em Marienbad" de Alain Resnais se equiparam, em termos estéticos e formais, a esta obra do cineasta russo.
Foi necessário um cineasta da dimensão mediática de um Martin Scorsese para tirar do limbo do esquecimento este incrível filme.
Todos quantos amam o cinema e as imagens (e já agora, Cuba, deixando para trás as conotações políticas e propagandísticas que o filme transmite) devem ver esta obra de arte uma vez na vida.
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Eis aqui o que escrevi sobre esta obra ímpar de Kalatozov. 

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

Christopher Nolan - cinéfilo improvável

E já que publiquei (ver post abaixo) a lista dos 10 filmes preferios de Roger Corman, eis mais uma série de listas bem interessantes divulgadas pelo site Flavorwire. Trata-se de uma lista de 10 realizadores - de Woody Allen a Quentin Tarantino, de Francis Ford Coppola a Stanley Kubrick.
Claro que há listas mais interessantes do que outras. A de Kubrick, Scorsese ou do Woody Allen são reveladoras da sua imensa cinefilia. Mas a lista que mais me surpreendeu foi a de Christopher Nolan ("Batman" e "Inception") que demonstra ter um gosto cinéfilo deveras aguçado.
A saber: Nolan cita como filmes preferidos "Twelve Angry Men" de Sidney Lumet, "Greed" de Eric von Stroheim, "The Testament of Dr. Mabuse" de Fritz Lang, o (raramente) citado "Mr. Arkadin" (também conhecido como "Confidential Report") de Orson Welles ou "Koyaanisqatsi" de Godfrey Reggio. Sem dúvida que Nolan conhece bom cinema clássico, algo que nem sempre transparece nos seus filmes "mainstream".
Ver aqui a lista completa.

terça-feira, 16 de julho de 2013

Orson Welles na fotografia

Encontrei esta imagem no Facebook. Não sei de quem é a autoria e desconheço qual o ano de origem. Pouco importa (ou talvez não). O que sei é que se trata de uma das mais espantosas fotografias que já vi com Orson Welles. Quero acreditar que nada nesta imagem foi encenado (o raio de sol, o fumo, as sombras...) e que a composição plástica resultou de um feliz momento de espontaneidade. É como se esta fotografia pudesse ter sido retirada de um filme barroco e superiormente estético de Welles, como "Touch of Evil" ou "Macbeth". Mas não. Trata-se apenas (e já é muito) de uma belíssima fotografia tirada a um cineasta no sítio certo, no momento certo.

sábado, 27 de abril de 2013

Os preferidos de Kubrick

A meio dos anos 1970, um jornalista perguntou a Stanley Kubrick quais os seus filmes preferidos de sempre. Eis as escolhas do cineasta:

- "Os Inúteis" (1953) - Federico Fellini
- "Morangos Silvestres" (1958) - Ingmar Bergman
- "Citizen Kane" (1941) - Orson Welles
- "O Tesouro de Sierra Madre" (1948) - John Huston
- "Luzes da Cidade" (1931) - Charlie Chaplin
- "Henrique V" (1948) - Lawrence Olivier
- "A Noite" (1961) - Michelangelo Antonioni
- "The Bank Dick" (1940) - Edward Cline
- "Roxie Hart" (1942) - William Wellman
- "Os Anjos do Inferno" (1939) - Howard Hughes

segunda-feira, 1 de abril de 2013

A estreia mais importante do cinema?

Dia 1 de Maio de 1941, Nova Iorque: estreia do filme que iria mudar para sempre o cinema: "Citizen Kane", de um jovem realizador com apenas 26 anos, Orson Welles, de seu nome. A primeira fotografia é extraordinária pelo feliz enquadramento do instante captado pela objectiva do fotógrafo: Welles sai do táxi, cigarrilha na boca, mesmo em frente ao cinema Palace que, em segundo plano, revela em néon brilhante o seu nome e o da sua primeira obra-prima.
Esta terá sido, certamente, uma das estreias mais importantes de toda a história da Sétima Arte.

domingo, 11 de novembro de 2012

terça-feira, 14 de agosto de 2012

A (verdadeira) estreia de Orson Welles

Muita gente identifica a fulgurante estreia de Orson Welles no cinema om "Citizen Kane" (1941). Porém, em rigor, "Citizen Kane" foi a primeira longa-metragem de Welles, mas não a sua primeira experiência concreta no cinema.
A sua absoluta estreia ocorreu quando o realizador tinha apenas 19 anos de idade e, com o seu amigo William Vance, realizou em 1934 uma curta-metragem muda em 16 mmm (e 8 minutos de duração) com o título "The Hearts of Age". Este filme foi filmado durante uma tarde de domingo na casa do cineasta durante o Verão de 1934.
"The Hearts of Age" manifestas influências visuais das obras surrealistas "Un Chien Andalou" (1929) de Luis Buñuel/Salvador Dalí e "Sangue de Um Poeta" (1930) de Jean Cocteau. A curta não tem, no entanto, a criatividade e o arrojo estético das películas citadas, pelo que mais não é do que  uma curiosidade para os fãs de Orson Welles, em particular, e dos cinéfilos em geral.
Durante muito tempo, esta estreia de Welles esteve à disposição apenas nos Arquivos da Biblioteca do Congresso Americano em Washington, mas nos últimos anos acabou por ficar disponível na internet. Claro que o curta em si não tem nada demais, sendo mais uma curiosidade para os fãs de Orson Welles e de cinéfilos em geral. 
"The Hearts of Age" foi sonorizado com uma banda sonora do guitarrista americano Larry Marotta, músico com uma considerável experiência em composições para cinema mudo.

terça-feira, 31 de julho de 2012

A morte de Chris Marker


Morreu, aos 91 anos de idade, um grande cineasta: Chris Marker.
Lembro que a Fnac tem à venda uma sublime edição em DVD (Atalanta): dois DVDs com três filmes de Chris Marker, cineasta experimental que há um ano foi alvo de uma importante retrospectiva no Estoril Film Festival. O preço é bastante simpático: 19,99€. Só não comprei esta edição porque já tenho os filmes essenciais de Marker que adquiri na Amazon:  "Sans Soleil" e "La Jetée".
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Mas afinal quem foi Chris Marker?
Nasceu em França em 1922. Combateu na 2ª Guerra Mundial, estudou filosofia com Jean Paul Sartre e Guy Debord mas especializou-se em documentários, tendo sido ainda produtor, escritor, operador de câmara, artista multimédia e jornalista.
Jean-Luc Godard, Orson Welles, Federico Fellini, Pasolini, Chantal Akerman, Wim Wenders, Werner Herzog, Errol Morris, Abbas Kiarostami, e Agnès Varda diziam que Marker era um dos melhores cineastas do mundo - um "ensaísta das imagens". Trabalhou com Alain Resnais no sublime documentário sobre Auschwitz - “Noite e Nevoeiro” (1955). Deu muito poucas entrevistas ao longo da vida e quando lhe pediam uma fotografia, dava a do seu gato Guillaume.
Marker realizou em 1962 um dos mais enigmáticos, originais e belos filmes de sempre: "La Jetée". É um filme de ficção científica (aborda dois temas recorrentes: o holocausto nuclear e a viagem no tempo), feito com imagens estáticas, fotografias filmadas, à excepção de um único movimento. Se o cinema permite uma sofisticada manipulação do tempo através da montagem, "La Jetée" demonstra que mesmo imagens estáticas são capazes de fluir e de se submeter ao transcorrer do tempo. Mas este é apenas um dos trunfos estéticos desta obra maior do cinema mundial. A poesia das imagens, a soberba montagem, a história envolvente, a voz off subtil, fazem deste filme uma experiência artística única.

As novas gerações talvez saibam da existência do filme porque "La Jetée" de Marker inspirou o filme que Terry Gilliam (ex-Monty Python) fez em 1995, "12 Macacos", com Brad Pitt e Bruce Willis. O realizador Terry Gilliam diz mesmo que "La Jetée" de Marker “tem a melhor montagem que alguma vez viu, com a música e a voz a marcar o ritmo e a deslumbrar o espectador”. As influências estéticas e plásticas do filme de Chris Marker perduram até aos dias de hoje, não só no seio do próprio cinema, como na música, na fotografia e nas artes plásticas.
No caso da música, David Bowie tem um vídeo intitulado “Jump They Say” com referências directas ao filme de Marker; o grupo de jazz Chicago Underground Trio e os Isotope 217 têm um disco chamado "La Jetée" (1999 e 1999, respectivamente); o projecto de pós-rock Tortoise editou um disco intitulado "Jetty" (1998).
Em 1982, Chris Marker realizou outra obra seminal,“Sans Soleil”, que resultou numa complexa reflexão sobre a cultura da imagem na sociedade pós-moderna – filme, vídeo e fotografia. E voltou a abordar os seus temas de eleição: ficção científica, memória, tempo, viagem, culturas de África e Japão.
Chris Marker realizou, nos seus últimos anos de trabalho, um notável documentário sobre a vida do realizador russo Andrei Tarkovski - "One Day in the Life of Andrei Arsenevitvh" (2000) e em 2005 criou um trabalho multimédia e digital para o MoMa – Museu of Modern art de New York.

domingo, 15 de julho de 2012

Os melhores filmes jamais feitos

Ja escrevi aqui acerca de um conjunto de dez filmes de realizadores famosos que nunca foram concretizados. 
Ora, o site List Universe publica uma lista que vai ao encontro do que já tinha publicado: "Top 10 Greates Movies Never Made". O título desta reportagem diz tudo, mas basicamente são projectos que ficaram apenas no papel de realizadores como Akira Kurosawa, Stanley Kubrick, Orson Welles ou Bernardo Bertolucci. Ou Francis Ford Coppola, que em tempos manteve o desejo de fazer o ambicioso filme "Megalopolis" (esboço do filme na imagem). 
Vale a pena conhecer a lista.

quinta-feira, 17 de maio de 2012

Entrevista Póstuma (11) - Marlene Dietrich

Depois de 10 Entrevistas Póstumas feita a realizadores como Kubrick, Buñuel, Tati, ou músicos como Ian Curtis ou Jimi Hendrix, volta uma nova ronda de Entrevistas Póstumas.
A primeira entrevistada: Marlene Dietrich (1901 - 1992)
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O Homem Que Sabia Demasiado - Disse numa entrevista: "Na vida real, a maioria dos actores de cinema é uma decepção. Eu, por outro lado, sou melhor na vida real do que no cinema."

Marlene Dietrich - Oh, quando disse isso estava no início da carreira, ainda não tinha alcançado a maldita fama que consegui muitos anos depois. Mas é verdade que sempre pensei isso. Os actores são uma espécie rara, com muitos tiques e presunções que não suporto. Podem acusar-me de ter também alguns tiques, mas sempre me achei uma mulher mais interessante na vida real do que no cinema.

O Homem Que Sabia Demasiado - Participou em sete filmes do realizador Josef von Sternberg, com o início mítico no filme "O Anjo Azul", que lançou a sua carreira como "sex-symbol".

Marlene Dietrich - Pois foi. Trabalhei com Sternberg de 1930 a 1935, na Alemanha. Foram anos muito duros, de total entrega e sacrifício. Poderia ter continuado a trabalhar com Sternberg, mas o Nazismo estava no poder e não me identificava com ele. Hitler ainda me convidou para protagonizar filmes de propaganda nazi, mas recusei e exilei-me nos EUA. Hitler chamou-me de "traidora", mas não me importei...

O Homem Que Sabia Demasiado - Anos depois a 2ª Guerra Mundial deflagra e dedica-se a cantar para as tropas aliadas.

Marlene Dietrich - Foi uma espécie de catarse. Senti que a minha voz e a minha presença eram fortes e ajudavam o moral dos soldados.

O Homem Que Sabia Demasiado - Mesmo com o seu visual algo andrógino.

Marlene Dietrich - Ah ah ah! Sempre gostei de cultivar essa imagem. Sabe, fui das primeiras figuras públicas femininas a usar calças de homem e a fumar em 1920! Mas os homens gostavam disso, ficavam todos caídos por mim.  

O Homem Que Sabia Demasiado - A sua filha Maria Riva escreveu um livro sobre si no qual a declarava uma pessoa fria e autoritária.

Marlene Dietrich - Sempre gostei da minha filha. Apesar de alguns problemas, tínhamos uma boa relação. Mas preferia não comentar.

O Homem Que Sabia Demasiado - Um dos últimos grandes filmes em que participou foi em "Sede do Mal" (1958) de Orson Welles, em que interpreta uma cigana cartomante. Gostou desse papel e do filme?

Marlene Dietrich - Adorei trabalhar com o Orson! Nesse filme interpretava o capitão Quinlan, um polícia corrupto, gordo e sebento, que tentava seduzir-me. Ah ah ah, cada vez que me lembro do que nos divertimos a fazer esse fantástico filme. O Orson era completamente louco. Genialmente louco.


O Homem Que Sabia Demasiado - Morreu com 90 anos. É verdade que tinha medo do envelhecimento e da morte?

Marlene Dietrich - Custa-me admitir, mas é verdade. Tinha horror à velhice e guardei numa gaveta todas as fotos de quando era nova. Por isso me isolei de todos e de tudo. Fui aguentando a solidão e o sofrimento da velhice, até ao fim irremediável.

domingo, 13 de maio de 2012

O médico cinéfilo


Só há dias reparei, ao ver um episódio da série "Dr. House" na televisão, que o colega de House, o Dr. James Wilson (interpretado pelo actor Robert Sean Leonard) tem na parede do seu gabinete (pelo menos) dois posters de filmes: "Touch of Evil" (1958) de Orson Welles, e "Vertigo" (1958) de Alfred Hitchcock (na imagem, vislumbra-se do lado esquerdo o poster de "Touch of Evil" e do lado direito o poster de "Vertigo"). Um médico com excelente gosto cinéfilo, portanto.
Se um dia eu entrasse num consultório médico e me deparasse com estes posters de cinema na parede, certamente que a minha confiança e consideração para com esse médico subiria em flecha. É que um doutor cinéfilo só pode dar boas garantias médicas!