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domingo, 6 de maio de 2012

À procura da pepita





"Hoje é impossível fazer uma selecção musical criteriosa. Há quem perca tempos infinitos a ouvir lixo na internet, nomeadamente no myspace. De vez em quando, no meio de milhares de toneladas de lixo, surge uma pepita. Mas isso é sempre assim. Já os prospectores de ouro trabalhavam uma vida inteira para encontrar uma pepita. As rádios, mesmo antes do advento da internet, deixaram de passar música. Mesmo no meu tempo, deixaram de passar música interessante. Hoje, efectivamente tem-se um grande acesso a tudo o que se faz, mas é preciso saber à partida o que é que se quer, para onde dirigir a busca. Senão, anda-se muito tempo à procura para não se encontrar nada".
Adolfo Luxúria Canibal (líder e vocalista do grupo rock Mão Morta).

segunda-feira, 22 de fevereiro de 2010

Um canibal na capa


O que nos pode dizer uma capa de uma revista de música? Muito e pouco. Neste caso, a edição de Março da BLITZ, diz-nos tudo. Ou não estivesse em grande destaque o maior ícone (meço as palavras) do rock nacional alternativo - já não sei muito bem o que isto quer dizer - dos últimos 25 anos: Adolfo Luxúria Canibal, líder e vocalista dos Mão Morta. Uma entrevista de fundo ao sr. Canibal já vale os 2,50€ da revista.
E verdade seja dita: é mesmo uma capa extraordinária.

sábado, 9 de maio de 2009

Encontrar a pepita

"Com toda a oferta, como é que se faz uma selecção musical do que vale a ou não pena de ser ouvido?"
Adolfo Luxúria Canibal: "Hoje é impossível fazer uma selecção. Há quem perca tempos infinitos a ouvir lixo na internet, nomeadamente no myspace. De vez em quando, no meio de milhares de toneladas de lixo, surge uma pepita. Mas isso é sempre assim. Já os prospectores de ouro trabalhavam uma vida inteira para encontrar uma pepita. As rádios, mesmo antes do advento da internet, deixaram de passar música. Mesmo no meu tempo, deixaram de passar música interessante. Hoje, efectivamente tem-se um grande acesso a tudo o que se faz, mas é preciso saber à partida o que é que se quer, para onde dirigir a busca. Senão, anda-se muito tempo à procura para não se encontrar nada".
In revista "Pormenores", número 1, Maio 2009

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Hemingway no cinema (entre outros possíveis)


A indústria de Hollywood continua obcecada com remakes e "filmes trigémeos". O que está mesmo a dar é adaptar ao grande ecrã a vida de personalidades famosas, sobretudo oriundas do mundo das artes e do espectáculo. A notícia mais recente tem a ver com a concepção de um filme biográfico sobre a vida do escritor Ernest Hemingway (1899 - 1961). É mais uma figura das artes controversa que teve uma vida pessoal e profissional atribulada, elementos que enriquecem sempre um filme (já para não falar do facto de Hemingway se ter suicidado). Mas este filme sobre o Prémio Nobel da Literatura arrisca-se a entrar no rol dos gémeos ou trigémeos, já que existem outras produções em andamento sobre a vida do autor de "O Velhor e o Mar". Em 1996, o realizador Richard Attenborough já tinha feito uma adaptação ao cinema da vida de Hemingway, mas o filme concentrava-se apenas num período da juventude do escritor.
Se pudesse sugerir vidas de artistas para serem adaptadas ao cinema, eis alguns nomes que escolheria (que poderiam, ou não, resultar em filmes interessantes):
Estrangeiros:
- James Joyce
- Mishima
- Malevitch
- Nietzsche
- George Orwell
- Magritte
- John Cage
- Bokowski
- Marquês de Sade
- Frank Zappa
- Antonin Artaud
- Luís Buñuel
- Man Ray
- Jacques Brel
- William Burroughs
- Boris Vian
- Jack Kerouac

Portugueses:
- Almada Negreiros
- Mário de Sá-Carneiro
- Luiz Pacheco
- Amadeo de Sousa Cardoso
- Fernando Pessoa
- Mário Cesariny
- António Variações
- Adolfo Luxúria Canibal

Agora é só imaginar um realizador adequado para cada levar ao grande ecrã a vida de cada um destes nomes...

quinta-feira, 20 de novembro de 2008

Festa do Cinema Periférico



Festa do Cinema Periférico começa hoje até Domingo
Cinema São Jorge - Lisboa

A produtora Periferia Filmes apresenta as sua produções cinematográficas e concertos todas as noites. Filmes de Edgar Pêra, João Trabulo, João Canijo, Rodrigo Areias, Paulo Furtado, Rita Azevedo Gomes, João Rodrigues. E música com Adolfo Luxúria Canibal, The Legendary Tiger Man, Sean Riley & The Slowriders e Kubik.

O meu alter-ego musical Kubik vai actuar no Domingo, 23 - 19h30 (estão todos convidados):

KUBIK musica ao vivo o filme “A Felicidade” de Aleksander Medvedkine
Para concluir a Festa do Cinema Periférico, um cine-concerto, no qual Kubik porá em música um genial momento do cinema mudo: “A Felicidade” (Schastyé, 1934), do russo Aleksandr Medvedkine (1900-89). “A Felicidade” é uma obra-prima relativamente pouco vista, pois o seu realizador só foi realmente reconhecido nos anos 70, graças ao em empenho de Chris Marker. Medvedkine era contemporâneo de Eisenstein, que o admirava e escreveu a seu respeito, mas os seus filmes eram excessivamente originais para o sistema soviético. Em 1932-33, Medvedkine percorreu a Ucrânia num “cine-comboio”, com uma equipa que improvisava pequenos filmes com os camponeses nas paragens. Foi desta experiência que nasceu “A Felicidade”, um filme em que um estábulo ou um celeiro podem sair andando, um morto pode ressuscitar, um cavalo pode subir a um telhado de colmo para comê-lo, um filme em que o grotesco e o maravilhoso se fundem.


(imagem do filme "A Felicidade")

domingo, 20 de abril de 2008

Adolfo Luxúria Canibal - A visão de Maldoror



Há dias, no programa "Quem Quer Ser Milionário" da RTP, apareceu esta pergunta: "quem é o vocalista e líder do grupo Mão Morta?". O concorrente não sabia e estava indeciso entre duas possibilidades apresentadas: Adolfo Luxúria Canibal e Adérito Murmúrio Visceral (grande nome, sem dúvida). Concursos televisivos à parte, este intróito serve para dizer que o vocalista dos Mão Morta é uma das personalidades musicais portuguesas mais interessantes e marcantes dos últimos 20 anos. Já lidei com ele quer em contexto profissional, quer em contexto pessoal, e atrevo-me a dizer que o Adolfo é a maior referência musical para os cultores da cultura alternativa e independente. Tem uma visão artística, política, cultural e social bem vincada em valores que foi adquirindo com as leituras dos autores malditos (Sade, Lautréamont, Bataille, Heiner Müller, Debord, Ginsberg...) e a assimilação das referências estéticas do rock mais experimental.
Os Mão Morta, identidade musical negra e danada, delinearam um imaginário estético próprio, único na forma e no conteúdo a nível nacional (ainda que com óbvias referências a grupos estrangeiros). Os seus discos tiveram, quase todos, uma base temática explorada até ao tutano, expondo as feridas de uma sociedade podre de valores, absorta de referências. O culto à volta do grupo foi-se gerando a partir do segundo álbum, "Corações Felpudos", 1990), fruto de concertos míticos, teatralizados e nos quais Adolfo se expunha como se sentisse na pele o estigma da expiação dos pecados mundanos. As letras soturnas sobre sangue, morte, decadência, raiva, transgressão, insurreição, deram consistência à aura do grupo de Braga.
Agora, numa transmutação artística mais abrangente e ousada, os Mão Morta vão apresentar quarta-feira, na Culturgest, o espectáculo "Maldoror" com base no célebre livro maldito "Os Cantos de Maldoror" do francês Isidore Ducasse, mais conhecido como Conde de Lautréamont. No Expresso deste Sábado, em formato de entrevista, Adolfo Luxúria Canibal expõe, de forma concisa e pragmática (como é seu hábito), a trajectória de 25 anos de vida artística, desde as vivências na Braga conservadora pós-25 de Abril, até à actualidade. Para além de outros aspectos interessantes do seu discurso, o vocalista dos Mão Morta refere que na sua vivência de estudante se vivia a política de outra forma: "A política nessa altura tinha um carácter muito cultural. As pessoas não se limitavam a discutir política ou a ler Marx e Lenine. Lia-se de tudo, discutiam-se muitas ideias, viajava-se muito, falava-se de pintura. A partilha de impressões sobre as mais variadas artes era enorme. Comecei a interessar-me pela literatura antes de me interessar pela música, e o livro "Os Cantos de Maldoror" entusiasmou-me porque só conhecia os clássicos da literatura portuguesa. A leitura de "Maldoror" entusiasmou-me com a violência da linguagem, com as imagens e descrições muito fortes. Todo aquele ímpeto contra Deus, contra a religião e contra o homem, eram ideias e imagens fascinantes para mim, sobretudo por estar inserido numa sociedade altamente politizada logo após o 25 de Abril e numa cidade como Braga."
Parece-me que este discurso de Adolfo seria impossível ouvi-lo da boca de um jovem da sociedade de hoje. Precisamente porque os tempos sociais e políticos são outros, e porque as novas gerações já não sentem o mesmo ímpeto de procurar linguagens artísticas alternativas à cultura dominante. Já não existe essa vontade de libertação e de afirmação por certos ideais utópicos que mobilizavam gerações há 30 anos atrás. O comodismo assentou arraiais, a política é um conceito completamente alheio aos jovens, não incentiva à mobilização, ao combate, à procura de formas alternativas de cultura. Adolfo Luxúria Canibal continua a ser uma voz inconformada, libertária e revoltosa, uma voz que denuncia e remexe nas feridas abertas (ideológicas, sociais ou artísticas).

Nota: na imagem, Adolfo a ler o livro "A Cozinha Canibal" de Roland Topor.