De todas as publicações especializadas em música e cultura que vi sobre a morte de Lou Reed, esta foi a que mais me impressionou: a capa da célebre e icónica revista Rolling Stone é despojada e visualmente marcante. O rosto do músico falecido, ainda jovem, óculos escuros Ray Ban, ocupa todo o espaço disponível da capa. Não há necessidade de frases grandiloquentes visíveis, apenas constam o nome do artista e as respectivas datas de nascimento e de falecimento.
É uma capa aparentemente simples e fácil de compor em termos gráficos, mas produz resultados de forte impacto no imaginário do leitor.
Ainda a propósito da morte de Lou Reed: um amigo meu, professor de Educação Musical numa escola do 2º Ciclo do Ensino Básico, enviou-me uma mensagem que conta o seguinte: "Hoje tive um dos momentos mais belos da minha vida de professor: para mostrar que tinha morrido um grande músico, dei a ouvir aos meus alunos a música 'Perfect Day' do Lou Reed e ouviram em silêncio profundo! Tive que conter as lágrimas. Às vezes há momentos assim."
Sabendo que os alunos de 10, 11 e 12 anos não conheciam Lou Reed e que os seus interesses musicais pouco ou nada têm que ver com a música de Reed, não deixa de ser enternecedor ouvir esta reacção. Sinal de que a grande música contagia qualquer idade e sinal de que os alunos se deixaram seduzir pela beleza desta magnífica canção e prestaram - com o seu inusitado silêncio - uma justa homenagem à alma do músico.
Muito bonito, portanto.
Hoje morreu Lou Reed.
Figura icónica do rock, Lou Reed foi para mim o génio que revolucionou o rock com os seminais The Velvet Underground (apadrinhados por Andy Warhol). Foi com esta banda, em Nova Iorque, que Lou Reed marcou toda uma geração e influenciou várias outras de ouvintes e de músicos e guitarristas.
Neste dia e nos próximos, muitas homenagens irão acontecer, sobretudo ao som dos seus hinos "Perfect Day" ou "Walk on The Wild Side". Mas na carreira a solo de Reed há um disco que poucos conhecerão mas que se tornou num disco maldito da história do rock (e se formos rigorosos, de toda a história da música). Lou Reed, uns anos após o fim dos Velvet Underground, em 1975, grava essa infâmia e embuste (para uns) ou obra genial e visionária (para outros tantos): "Metal Machine Music" (incluo-me no segundo grupo de opiniões).
Num aspecto todos estão de acordo: trata-se de um registo radical, concebido e gravado sem concessões, feito à base de feedback de guitarra e de manipulação de ruído branco. Reed disse que gravou o disco "completamente pedrado". Acredito. Já foi considerado o pior álbum de rock de sempre e já foi incluído na lista dos discos mais inovadores de sempre. Em que ficamos?
Na verdade, o disco vale sobretudo como testemunho conceptual e experimental, mais do que estritamente musical. Deve tanto ao rock de guitarras dos Velvet como aos princípios estéticos e teóricos de La Monte Young, de John Cage ou dos concretistas Pierre Schaeffer e Pierre Henry. Deve também à teoria dos "intonarumori", as célebres máquinas de produzir ruído industrial do futurista italiano Luigi Russolo. E é um disco que influenciou bandas tão diversas como os Sonic youth, Glenn Branca ou Throbbing Gristle, Merzbow e todos os subgéneros do noise, do industrial e do electro-acústico. Ouvi-lo na íntegra é deveras uma experiência exigente e dura, muito diferente de ouvir uma canção de Lou Reed do álbum "Transformer" (1972).
Mas a verdade é que, ao longo destes 30 e tal anos, não acredito que alguém, alguma vez, tenha ouvido "Metal Machine Music" do princípio ao fim sem ter tido lesões cerebrais irreversíveis. Mas quem sabe, tratar-se-ia de uma experiência limite no teste à capacidade auditiva humana. Não eram os Einstürzende Neubeutan que defendiam que "é preciso ouvir com dor"?
O disco já foi apresentado ao vivo por diversas vezes, como demonstra esta actuação do colectivo de música experimental Zeitkratzer com a própria presença de Lou Reed (versão mais soft do que no disco):
Matt Mahurin é um reconhecido ilustrador, fotógrafo e realizador americano de videoclips musicais. O seu percurso foi sobretudo cimentado através de um considerável currículo na realização de videoclips para músicos e bandas como os U2, Peter Gabriel, Metallica, Lou Reed ou Tom Waits.
Para este último icónico músico, Matt Mahurin realizou dois videoclips em 1999: "Hold On" e "What's He Building". Agora acaba de consumar a sua terceira colaboração com Tom Waits: criou as imagens para a música "Hell Broke Luce" (do álbum "Bad as Me"). E que imagens! Matt Mahurin recorreu à sua diversificada experiência acumulada como ilustrador e realizador e conseguiu criar um espantoso e surpreendente manifesto visual para os sons (e palavras) de Tom Waits. A música "Hell Broke Luce" é densa e negra e as imagens correspondem na perfeição a estas premissas, naquele que é já considerado um dos melhores videoclips dos últimos anos de Tom Waits:
Um dos mais lendários e influentes álbuns rock de toda a história da segunda metade do século XX assinala hoje 45 anos da edição original (1967): “The Velvet Underground & Nico”. Lou Reed, vindo do rock, e John Cale, da música erudita contemporânea (influenciado pelo grupo Fluxus e John Cage), foram apadrinhados pelo guru da Pop Art, Andy Warhol (a capa mítica é da sua autoria) que também foi o responsável por incluir a cantora Nico no alinhamento do disco (cantando em três temas).
Desta mistura artística, no seio da efervescente e criativa Nova Iorque da década de 60, surgiu o álbum “The Velvet Underground & Nico”, um álbum feito de canções perfeitas (na sua própria imperfeição) sobre temáticas controversas: consumo de drogas, desvios sexuais, prostituição ou sadismo. Musicalmente, todas as canções do álbum emanam uma energia e uma sedução sonora raramente superadas (ou até alcançadas), com uma instrumentação densa, ritmos maquinais e vocalizações à beira do abismo (sobretudo os temas cantados por Nico). E o rock nunca mais foi o mesmo…
Parece que, depois das sequelas e prequelas, Hollywood vai investir em força nos filmes biográficos de personalidades famosas das artes do espectáculo.
Na última década, houve dezenas de "biopics" sobre outras tantas figuras históricas mundiais: Bob Dylan, Edith Piaf, Ian Curtis, Bettie Page, Truman Capote, John Lennon, Harvey Pekar, Margareth Thatcher, Winston Churchill, Kurt Cobain, Nelson Mandela, Harvey Milk, Coco Chanel, Stravinski, Che Guevara, Ian Dury, Johnny Cash, Ray Charles, Howard Hughes, Frida Kahlo, Marilyn Monroe, etc. (até em Portugal já pegou a moda: depois de Amália Rodrigues e Aristides de Sousa Mendes, está em marca o filme biográfico do António Variações).
A mais recente notícia de um projecto para um filme de cariz biográfico é "Grace of Monaco", sobre a actriz e princesa Grace Kelly. O filme será realizado por Olivier Dahan, conhecido pelo filme biográfico de Edith Piaf, "La Vie en Rose". Entretanto, parece que se confirma que Megan Fox vai encarnar a diva Elizabeth Taylor num filme sobre esta actriz que reinou na era dourada de Hollywood.
Se algum produtor de Hollywood ler este blog, eis as minhas sugestões de nomes (cinema, música, pintura e literatura) para futuros "biopics":
- Erik Satie
- Marcel Duchamp
- Antonin Artaud
- Francis Bacon
- Katharine Hepburn
- Lou Reed
- René Magritte
- Humphrey Bogart
- John Cage
- Frank Zappa
- Alfred Hitchcock
- Ozzy Osbourne
- Ingrid Bergman
- Greta Garbo
- Charles Bukowski
- Louise Brooks
- Montgomery Clift
- Dennis Hopper
- Janis Joplin
- Samuel Beckett
- John Wayne
- William S. Burroughs
- Glenn Gould
- Boris Vian
- Malcom McLaren
- Eric von Stroheim
- Jacques Tati
- Jimi Hendrix
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Acredito que, com actores e actrizes adequados a cada personalidade e o realizador ideal, poderiam sair daqui grandes filmes.
ADENDA: Acabo de ler no jornal Expresso que, afinal, quem vai interpretar Elizabeth Taylor é a actriz Lindsay Lohan, num filme com o título "Elizabeth & Richard".
Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William S. Burroughs, incendiaram a cultura dos anos 50 e 60 com a "Beat Generation", ao som de jazz e literatura "libertária".
O poema de Ginsberg, "Howl - Uivo", (considerado por muitos obsceno e pornográfico - pode ser lido aqui) foi o livro de poesia mais vendido da história dos EUA, tendo vendido mais de 1 milhão de exemplares em pouco tempo. "Howl" foi também um enorme grito de revolta de uma geração assumidamente insurrecta e ávida de novas experiências (artísticas e existenciais), imbuída de festas hedonistas repletas de sexo, música jazz e aventuras deambulatórias pela geografia norte-americana. Juntamente com "Naked Lunch" de William S. Burroughs e "On The Road" de Jack Kerouac, "Howl" completaria a trilogia da contracultura da Geração Beat.
Bob Dylan, Jim Morrison, Lou Reed, Leonard Cohen entre muitos outros músicos, foram sempre fãs incondicionais da poesia de Allen Ginsberg. E até os portugueses Mão Morta partiram do poema "Uivo" para conceberem o seu álbum "Nus" (2004). Depois de contaminar a literatura, a música, a poesia e as artes plásticas, era uma questão de tempo até que a vida e obra do poeta beat fossem transpostas para o universo da Sétima Arte.
Rob Epsteins e Jeffrey Friedman, mais conhecidos por documentários, levaram Ginsberg ao grande ecrã, com o actor James Francono papel do poeta. O filme, intitulado "Howl", começa no momento em que Ginsberg é julgado no tribunal de São Francisco por causa da sua controversa obra. Pelo meio, consta que o filme - a estrear em Setembro - relata as desventuras de Ginsberg com os seus amigos escritores homossexuais e todo o ambiente de contracultura que se vivia naqueles efeverscentes anos.
Na imagem da esquerda, Allen Ginsberg, na direita, James Franco como Ginsberg.
Em Outubro estreia o novo filme do realizador David Fincher,"The Social Network", sobre o fundador da rede social Facebook, Mark Zuckerberg (na imagem). Há dias surgiu um novo trailer que revela algo mais do que poderá ser esta nova película do autor de "Zodiac" e "Se7en".
Se à partida a ideia de uma longa-metragem sobre uma rede social da internet poderia parecer algo fútil e sem substância dramática, a verdade é que, vendo o novo trailer e lendo algumas informações complementares, o filme de Fincher pode confirmar-se como um interessante e sugestivo filme.
Para já tem a segurança e mestria da realização e direcção de actores, já comprovadíssima, de David Fincher. Depois, o tema acaba por ter potencial para a construção dramática que um bom filme deve conter. Consta-se que o filme não é apenas sobre a história do surgimento da rede Facebook. É muito mais do que isso. É também uma metáfora sobre o papel da tecnologia e da comunicação global na era moderna, afectando assim (para o bem e para o mal) as próprias relações humanas e o entendimento do mundo actual.
Particularmente interessante é a escolha da música para este filme. O trailer é acompanhado pela versão "Creep" (dos Radiohead) pela mão do grupo coral feminino Scala & Kolacny Brothers (este grupo belga é conhecido pelas versões "a cappella" de temas pop e rock dos U2, Nirvana, Depeche Mode, Lou Reed, Muse, etc). Mais relevante, neste capítulo da música do filme, é que Trent Reznor, dos Nine Inch Nails, é o compositor da banda sonora original. Reznor já tinha colaborado nas bandas sonoras dos filmes "Lost Highway" e "Natural Born Killers", mas apenas como consultor.
Neste projecto de Fincher, Reznor tem um papel bem mais criativo na composição musical. O próprio músico avisa, no site oficialdos NIN: "Speaking of the film... it's really fucking good. And dark!".
Enquanto o filme não chega, fiquemos com as sugestivas imagens do trailer acompanhadas com a versão coral de "Creep":
Kate Moss, Johnny Depp e Iggy Pop David Bowie, Iggy Pop e Lou Redd Iggy Pop em acção Iggy Pop e Nick Cave Iggy Pop e Blondie ______
A vida de Iggy Pop (da fase dos primeiros anos com a sua banda The Stooges)vai ser adaptada ao cinema. O actor que vai interpretar tão carismática figura musical é o jovem actor Elijah Wood.
"Scratch My Back" é o título do novo disco de Peter Gabriel, inteiramente constituído com versões de artistas como Radiohead, Bon Iver, David Bowie, Neil Young, Paul Simon, The Magnetic Fields, e Lou Reed. E também dos Arcade Fire, e logo com um dos grandes temas do álbum "Neon Bible": "My Body is a Cage".
A versão do ex-Genesis está bem conseguida, mais lírica e sensual do que o tema original dos Arcade Fire (com uma carga bem mais dramática e intensa). Aqui fica:
Quando escrevi o post sobre os The Horrors reflecti sobre um facto óbvio mas que nem sempre é reconhecido: a música rock das últimas décadas não teria sido a mesma sem a herança dos The Velvet Underground. A mítica banda nova-iorquina, constituída por Lou Reed, John Cale e Nico, revolucionou a estética rock dos anos 60 com uma pujança criativa deliberadamente "arty" por influência directa de Andy Warhol e da formação musical erudita de John Cale.
A música dos Velvet Underground era trementadamente visionária e crua, aberta à experimentação (ruído, improvisação, minimalismo) e representava o reflexo perfeito da combustão cultural e artística da Nova Iorque da segunda metade dos anos 60. Por isso foram, porventura, a banda rock mais influente e determinante para a evolução de um certo panorama rock, como o psicadelismo, o rock progressivo, o punk e o rock mais experimental. Quer em termos de sonoridade, quer em termos de imagem e de atitude, a banda de Reed e de Cale foi essencial para que grupos como os The Horrors (e tantos outros ao longo de 4 décadas) tenham aparecido.
PS - A curta mas intensa carreira dos Velvet Underground e sua relação com Andy Warhol daria, certamente, para um bom filme. Para quando um "biopic"? A mais recente biografia lançada em Outubro - "The Velvet Underground - New York Art" - poderia servir de mote para essa adaptação ao cinema.
O realizador underground e vanguardista Jonas Mekas está em Lisboa como convidado especial do festival DocLisboa. O jornal Público entrevistou-o. Apreciei a honestidade do homem e do artista e a visão que manifesta do mundo. Foi, particularmente, testemunha das revoluções culturais e artísticas de Nova Iorque da década de 60. Eis o que diz a propósito:
PÚBLICO - "O ambiente artístico na Nova Iorque contemporânea tem alguma coisa de comparável ao que era nesses tempos?" JONAS MEKAS - "Não. Continua a ser uma cidade muito activa. Na música, sobretudo. No cinema e na pintura acho que está bastante... morta. Não há a mesma energia. Nos últimos 30 anos deixou de haver uma capital mundial da arte. Nos anos 20 era Paris. Depois, nos anos 60, era Nova Iorque. A partir do final dos anos 70 tornou-se uma coisa mais dispersa. Há uns centros, nos EUA, em França, em Inglaterra, na Alemanha, mas não há uma capital. Não há uma cidade de que se diga: é ali que as coisas se passam. E se há é sempre muito efémero, dura umas semanas. Aparece um artista em Pequim e fala-se de Pequim durante dois meses, depois aparece um artista na Nova Zelândia e toda a gente se esquece de Pequim."
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Se me fosse possível escolher duas décadas do século XX em pudesse viver, teria escolhido, precisamente, a febril Paris dos anos 20 e a inebriante Nova Iorque dos anos 60. Nem mais. Ou seja, como diria Lou Reed: "Take a Walk on The Wild Side".
Parece que os produtores de cinema se voltaram, definitivamente, para o mercados dos "biopics" de figuras musicais marcantes da história. Depois das biografias cinematográficas de Johnny Cash, Ian Curtis, Bob Dylan, Edith Piaf, Sid Vicious, Rolling Stones, Elvis Presley (TV), entre outros, agora a banda Ramones vai também ser levada ao cinema(entretanto Martin Scorsese já anunciou o seu biopic sobre Frank Sinatra e Spike Lee sobre James Brown).
Nunca fui um fã de Ramones, mas admito que tenha potencial para um filme interessante.
Eu sugeria mais alguns nomes de músicos e bandas que dariam excelente filmes (tendo como critério a vida pessoal e artística do músico):
Ainda a propósito dos The Feelies: lembrei-me que o álbum "Only Life" de 1988 fechava com uma versão de um tema clássico dos Velvet Underground, "What Goes On" (tema original de Lou Reed incluído no disco "The Velvet Underground" de 1969). Eu gosto muito da música original (assim como gosto muito dos VU), mas na altura em que o disco saiu cheguei a comentar com amigos que esta versão era superior à composição original de Reed. Agora não tenho a certeza disso, mas continuo a gostar muito da versão dos The Feelies, mais solta ritmicamente, mais incisiva nas guitarras:
O que têm em comum estes nomes da música - Tony Conrad, Jon Hassel, Philip Glass, Steve Reich, Spacemen 3, Brian Eno, Terry Riley, Lou Reed, John Cale? Todos eles (entre outros que não foram citados) foram influenciados por um músico americano chamado La Monte Young, um compositor e teórico que exerceu uma profunda revolução estética na música contemporânea (ainda que não seja tão conhecido quanto outros revolucionário, John Cage). Com ar de eremita e claramente misantropo, (velho barbudo - é fisicamente parecido com o compositor estoniano Arvo Pärt), La Monte Young influenciou toda uma geração de músicos (do rock à electrónica, da erudita contemporânea ao jazz).
La Monte Young, considerado o percursor maior da música minimalista (e mais tarde minimal repetitiva) nasceu no estado americano do Idaho, em 1935. A sua música pode ser classificada como a mais complexa e radical do movimento minimalista, mas também é considerada como a mais interessante e original.
Entre 1956 e 1960, estudou em Los Angeles e Berkeley composição, teoria musical e contraponto. Durante esse período, colaborou com músicos de jazz como do quilate de Eric Dolphy e Don Cherry. Em 1959 dá-se uma viragem decisiva na criação musical de Young, quando ganha uma bolsa de estudos e se transfere para a escola de música de Darmstadt, em Los Angeles, onde o alemão Stockhausen ministrava os seus cursos de verão (que influenciaram toda uma geração de músicos). A experiência acarreta uma reviravolta em sua carreira, servindo este choque para acentuar ainda mais o radicalismo de suas composições. E esse radicalismo radicava, essencialmente, na exploração da música "contínua", com a utilização de tons de duração extensa, ou seja, o som sustentado ao infinito, improvisado e prolongado ininterruptamente. Mais tarde, La Monte Young junta-se a Cage na exploração da música aleatória e funda o movimento artístico de vanguarda Fluxus.
La Monte Young considera a música como um Ser Eterno, independente da existência do homem, e critica a civilização ocidental por obrigar a música a se degenerar em algo meramente humano – desnaturado e privado de essência. Daí que na década de 70 se tenha estudado a fundo a música indiana, que considerava mais espiritual e profunda. La Monte acredita na música como forma de religião e ele próprio se vê como sacerdote da cerimónia electrónica do seu tempo, recuperando a dimensão de hipnose e transe da música primitiva. O seu conceito de "Dream House", uma peça musical que deveria ser interpretada continuamente em "drones" incessantes, expericenciada como um organismo vivo, influenciou a música psicadélica, a experimental, o ambient, e a electrónica.
Os seus discos são quase impossíveis de conseguir, não dá concertos nem entrevistas, a informação que existe na internet sobre a sua vida e obra é muito escassa, e há até rumores que já morreu mas ainda ninguém sabe. Sem dúvida que La Monte Young é um compositor único, com uma visão única da função que a arte e a música devem ter.
A que soa uma banda rock que reclama influências de grupos como The Velvet Underground, Spacemen 3, The Jesus and Mary Chain, Suicide, Joy Division, Syd Barret, Spiritualized, Pink Floyd, The Raveonettes e toda uma série de bandas psicadélicas dos anos 60 e 70? Bom, pode soar terrivelmente mal ou terrivelmente bem. E é na segunda classificação que se situa a banda The Black Angels. Uma banda americana que foi buscar inspiração directa (até para o logotipo!) ao mítico grupo de Lou Reed, John Cale e Nico - o próprio nome da banda foi retirado da canção "The Black Angel's Death Song" dos Velvet Underground.
Sendo uma banda cujas coordenadas estéticas são bem definidas, os The Black Angels fogem, mesmo assim, a certos clichés cristalizados do rock de guitarras e impõem a sua própria linguagem com canções musculadas (ao nível de guitarras e percussão), guitarras saturadas de efeitos wah-wah e vocalizações etéreas. Formaram-se em 2004 e lançaram apenas dois álbuns, "Passover", em 2006 (título de uma música dos Joy Division) e "Directions to See a Ghost", em 2008. Uma excelente banda revivalista, mesmo para quem não aprecie revivalismos (como é o meu caso). Vale bem a pena ouvir estes dois temas em volume alto e com janelas abertas. É rock 'n' roll psicadélico puro e duro. Em 2009.
Uma das bandas mais influentes de sempre, constituída em 1965, continua a suscitar interesse, hoje em dia, por parte do público e dos jornalistas. The Velvet Underground, a banda mítica de John Cale e Lou Reed, apadrinhada por Andy Warhol e pela sua "Factory", revolucionou o rock letárgico da década de 60, com uma visão vanguardista do som e da palavra.
Já se editaram muitos livros sobre os Velvet Underground, mas nunca são demais as novas obras que se publiquem e tentem explicar todo o fenómeno artístico e musical do grupo. Estas são as capas dos dois próximos livros de referências sobre a banda: "The Velvet Underground: An Illustrated History of a Walk on the Wild Side" e "The Velvet Underground" (este último com o contributo do ex-presidente da República Checa, Vaclav Havel). Ambos vão ser editados apenas em Setembro e Outubro de 2009, mas já há muita gente a fazer a pré-reserva de compra. Compreende-se a urgência.