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domingo, 18 de dezembro de 2011

Sonic Youth - O último concerto?

Thurston Moore e Kim Gordon, ambos músicos dos Sonic Youth, anunciaram há um mês o divórcio. Devido a este facto, logo surgiram rumores do fim da banda que ambos lideram há 30 anos. Esta semana os Sonic Youth deram um concerto no Festival SWU no Brasil e, ao que consta, terá sido o último do grupo.
Se assim for, aqui fica para a posteridade o registo integral do espectáculo de uma das maiores bandas rock independentes de todos os tempos.

segunda-feira, 6 de junho de 2011

Thurston Moore a solo

Thurston Moore, um dos mais influentes guitarristas rock dos últimos 30 anos à frente dos seminais Sonic Youth, deixou por momentos de lado as guitarras assanhadas da sua banda de sempre e editou um álbum a solo surpreendente, de título "Demolished Thoughts".

Um disco recheado de canções melodiosas, com violoncelos, guitarras acústicas, sem vestígios de bateria. Dir-se-ia que Thurston vive um período de grande serenidade e contemplação estética. "Demolished Thoughts" conta com a produção do experiente Beck e revela, em todo o seu esplendor musical, uma outra faceta (sublime) de Thurston Moore.

segunda-feira, 18 de abril de 2011

Entrevista Póstuma (4) - Jimi Hendrix


O Homem Que Sabia Demasiado - Em 1965 disse: 'Quero fazer com a minha guitarra o que Little Richard fez com a sua voz'. O que queria dizer com esta afirmação?

Jimi Hendrix - O Little Richard tinha uma forma de cantar muito própria, com uma tremenda garra, soltava as frases com ritmo e geria muito bem os momentos enérgicos com os mais calmos. Por isso foi uma lenda e um visionário do rock 'n' roll, com o qual tive o prazer de tocar durante um ano. Tentei, por isso, fazer da minha guitarra uma espécie de extensão da maleabilidade vocal de Richard. Modéstia à parte, creio que o consegui.

O Homem Que Sabia Demasiado - Não só conseguiu igualar essas qualidades como, claramente, as superou. Por algum motivo é considerado o guitarrista mais influente de todos os tempos.

Jimi Hendrix - Bom, nunca lidei muito bem com essa classificação tão linsonjeira. No meu tempo houve outros grandes guitarristas tão bons como eu - Chuck Berry, Buddy Guy, Bo Diddley, B.B. King... Todos eles foram tão influentes quanto eu. E a seguir a mim vieram outros grandes guitarristas. A diferença que eu incuti é que inovei na forma de tocar rock e blues com a guitarra eléctrica, com um dedilhar só meu, solos que me saiam das entranhas da alma, e uma atitude em palco que muitos jornalistas consideravam "magnética".

O Homem Que Sabia Demasiado - E não foi só por isso, dado que o Jimi foi também inovador ao utilizar o próprio estúdio de gravação como elemento de criação musical, originando uma nova metodologia de gravação musical.

Jimi Hendrix - Sim, é verdade que fui dos primeiros músicos a utilizar a estereofonia e outras técnicas de gravação que enriqueciam musicalmente o meu trabalho. Mas isso foram apenas recursos técnicos, nada faria sentido se não houvesse a mínima criatividade ou a exploração de ideias novas.

O Homem Que Sabia Demasiado - É impossível falar em si sem falar do Festival de Woodstock de 1970, esse acontecimento mítico da cultura popular da segunda metade do século XX.

Jimi Hendrix - Oh, Woodstock!... Haveria tanto para contar sobre esses loucos dias. A verdade é que foi um acontecimento único de partilha de emoções fortes de toda uma geração que partilhava valores comuns. E não era apenas o movimento "flower power" que centralizava a atenção mundial, era a música associada, as ideias que defendiam, a disseminação do amor livre e o combate feroz à guerra do Vietname. Tudo isso confluiu para um festival que marcou várias gerações e...

O Homem Que Sabia Demasiado - E que marcou também pela negativa por causa das drogas.

Jimi Hendrix - As drogas faziam parte inerente da forma de viver de toda essa geração. Os escritores da Beat Generation e o jazz também se juntaram a nós e foram um rastilho para criar um espírito comum mais livre das convenções e da moralidade da sociedade conservadora. Admito que tomei algumas drogas, nesse contexto específico, mas foram essenciais para criar a minha música e para tocar da forma como tocava.

O Homem Que Sabia Demasiado - Em 1967, num concerto em Londres, Jimi Hendrix incendiou, pela primeira vez, uma guitarra em palco. Qual a razão?

Jimi Hendrix - Muitos disseram que era a droga que me incentivava a queimar as guitarras. Nada mais errado. O fogo é o elemento mais mágico das tribos, o elemento mais purificador. No auge das minhas actuações - e sobretudo quando corriam bem e sentia a energia da parte do público - era levado a queimar a guitarra, símbolo do rock, para a purificar, o momento de êxtase total. Era o meu momento de puro ritual, de libertação depois das descargas de adrenalina rock.


O Homem Que Sabia Demasiado - Se tivesse que escolher um guitarrista actual que pudesse ser, de certa forma, o seu discípulo, quem escolheria?


Jimi Hendrix - Humm... Muito difícil responder. Mas talvez escolhesse Thurston Moore, dos Sonic Youth. Acho que, nas últimas duas décadas, foi o guitarrista que mais se assemelhou à minha energia e criatividade guitarrística.

segunda-feira, 28 de dezembro de 2009

2009 - Os discos

Sem ordem particular:

Animal Collective - "Merriweather Post Pavilion"
Two Fingers - "Two Fingers"
Fuck Buttons - "Tarot Sport"
Dan Deacon - "Bromst"
Sonic Youth - "The Eternal"
The xx - "The xx"
Micachu & The Shapes - "Jewlerry"
The Horrors - "Primary Colours"
Black Lips - "200 Million Thousand"
Dirty Projectors - "Bitte Orca"
Clutchy Hopkins Meets Lord Kenjamim - "Music is my Medicine"
John Zorn - "Filmworks XXIII - El General"
Sparks - "The Seduction of Ingmar Bergman"
Tortoise - "Beacons of Ancestorship"
Zu - "Carboniferous"
The Mars Volta - "Octahedron"
Sigur Ros - "We Play Endlessy"
Squarepusher - "Numbers Lucent"
Ben Frost - "By The Throat"
Tom Waits - "Glitter and Doom Live"
David Sylvian - "Manafon"
The Cinematic Orchestra - "Les Ailes Pourpres"
AGF/Delay - "Symptoms"
Boredoms - "Super Roots 10"
Kasabian - "The West Rider Pauper Lunatic Asylum"
DJ Spooky - "Spooksong"
PJ Harvey And John Parish - "A Woman A Man Walked By"
Grizzly Bear - Veckatimest
Leonard Cohen - "Live in London"
Lightning Bolt - "Earthly Delights"
Jah Wobble and the Chinese Dub Orchestra - "Chinese Dub"
KTU - "Quiver"
Cecilia Bartoli - "Sacrificium"
Nils Petter Molvaer - "Hamada"
Mexican Institute of Sound - "Soy Sauce"
Luke Vibert - "Rhythm"

Capa do ano:

terça-feira, 6 de outubro de 2009

"Biopics" para todos os gostos

Parece que os produtores de cinema se voltaram, definitivamente, para o mercados dos "biopics" de figuras musicais marcantes da história. Depois das biografias cinematográficas de Johnny Cash, Ian Curtis, Bob Dylan, Edith Piaf, Sid Vicious, Rolling Stones, Elvis Presley (TV), entre outros, agora a banda Ramones vai também ser levada ao cinema (entretanto Martin Scorsese já anunciou o seu biopic sobre Frank Sinatra e Spike Lee sobre James Brown).
Nunca fui um fã de Ramones, mas admito que tenha potencial para um filme interessante.
Eu sugeria mais alguns nomes de músicos e bandas que dariam excelente filmes (tendo como critério a vida pessoal e artística do músico):
- Frank Zappa
- Jimi Hendrix
- Blixa Bargeld (Einsturzende Neubauten)
- Gustav Mahler
- Lou Reed
- Erik Satie
- Tom Waits
- Syd Barrett
- Lydia Lunch
- Iggy Pop
- John Coltrane
- Sun Ra
- Sonic Youth
- Freddy Mercury
- Kraftwerk
- Leonard Cohen
- Public Enemy
- Janis Joplin
- Talking Heads
- Spike Jones
- Billie Holiday
- Captain Beefheart
- John Cage
- John Zorn
- Ennio Morricone
- (...)

quarta-feira, 16 de setembro de 2009

Discos que vão de 0,0 a 10,0


Sempre achei os critérios de classificação de discos da Pitchfork um exagero. Enquanto que na imprensa portuguesa (e não só), a classificação se situa entre a nota 0 e a 5, ou entre a 0 e a 10, na Pitchfork vai de 0,0 a 10,0. Significa que há discos com pontuação tão preciosista e minuciosa como 4,3 ou 7,7. A minha dúvida de sempre é: o que difere um disco avaliado, por exemplo, com nota 8,4 de um com 8,3? Ou 8,5?
De qualquer forma, dado o preciosismo desta classificação, fui pesquisar quais os discos que a Pitchfork pontuou com a rara nota máxima, 10,0, atribuída a discos considerados "perfeitos". Dentro desta exigente pontuação, encontrei discos de Amon Tobin, Radiohead, DJ Shadow, Bob Dylan, Sonic Youth, Glenn Branca ou Wire. No extremo oposto, com nota 0,0, a qual deve ser considerada autêntico lixo poluente, vi referências a discos de Kiss, Liz Phair, Francisco Lopez, ou The Flaming Lips.
Velhos tempos em que Miguel Esteves Cardoso, aquando da sua fase de crítico musical no livro "Escrítica Pop", classificava os discos péssimos com... baldes de excremento (desenhados e tudo!).

sábado, 5 de setembro de 2009

AbztraQt Sir Q


Se vivessem em Nova Iorque, seriam muito mais respeitados e admirados. Facilmente dariam abundantes concertos no circuito "downtown" da grande cidade. Só que, apesar da sonoridade claramente cosmopolita e estilisticamente transversal, vivem em Portugal e este facto condiciona muita coisa. Chamam-se AbztraQt Sir Q e editaram um dos mais inventivos discos em 2008 - "Qorn Pop Garden". Uma guitarra, um baixo, uma bateria e uma voz feminina em constante sobressalto. Mais a mistura de free-pop (piscadela de olho à banda de João Peste, que até participa num tema), rock estilhaçado à Sonic Youth e ambiências orientais fazem deste projecto um caso à parte. As canções são tudo menos convencionais (na forma, na estrutura), prendendo a atenção constante do ouvinte. Por vezes fazem lembrar a modernidade exótica das primeiras músicas do B52's e do movimento New Wave (e também No Wave).
Os AbztraQt Sir Q são um caso sério a seguir com atenção.
Myspace e entrevista ao grupo.

segunda-feira, 17 de agosto de 2009

O regresso de Spike Jonze


Spike Jonze sempre se revelou um realizador (e actor) à parte. À parte das linguagens formatadas, das convenções narrativas e visuais. Provas? A coleccção imensa e riquíssima de videoclips que realizou a nata da música pop-rock - Björk, Beastie Boys, R.E.M., The Chemical Brothers, Fatboy Slim, Sonic Youth, Daft Punk, Pavement, Yeah Yeah Yeahs, entre outros. Em todos estes trabalhos de realização de videoclips, Spike Jonze deixou a sua distinta marca audiviosual.
No cinema, as suas duas principais experiências deram que falar pela originalidade das propostas, que em parte, diga-se, se deveram aos argumentos de Charlie Kaufman: "Being John Malkovich" (1999) e "Adaptation" (2002).
Já há algum tempo que se fala do regresso de Jonze à realização de longas-metragens, coisa que irá ocorrer já durante o próximo Outono. O filme é baseado numa clássica história infantil que Spike Jonze explora com o acrescento de um imaginário febril. A película em causa intitula-se "Where The Wild Things Are" ("O Sítio das Coisas Selvagens") e mistura live-action com animação digital. O poster é fascinante, pelo que revela e pelo que sugere. O trailer é ainda melhor, não só pela inspirada montagem, mas também pela música, que se adequa como uma luva às imagens. Trata-se da música "Wake Up" dos canadianos Arcade Fire. A canção (por acaso a minha preferida dos dois discos da banda) foi regravada especialmente para o filme de Spike Jonze. Aguardemos, pois, pelo Outono para poder ver esta nova obra do cineasta que um dia foi casado com Sofia Coppola.
Trailer aqui.

sexta-feira, 3 de abril de 2009

Dez canções sobre o demónio Manson


Ainda há dias escrevia aqui sobre o culto à volta do assassino Charles Manson, responsável pela morte de Sharon Tate (mulher de Polanski) e amigos em 1969, e eis que o New Musical Express publica dez canções (de distintos artistas) com inspiração ou referências ao lunático Manson. O curioso é que Charles Manson inspirou-se nos Beatles e na sua música "Helter Skelter" para cometer os crimes, julgando que esta canção continha uma mensagem secreta subliminar que incentivava actos homicidas.
É difícil de explicar o macabro fascínio que dezenas de músicos têm manifestado pela figura de Charles Manson e de todo o fenómeno de "pop culture" construído à volta da personagem e dos seus actos, mas a verdade é que o Mal materialziado na violência insana e macabra tem sempre mais potencial de fascinação artística do que o Bem. E a encarnação do mal por parte de Manson e dos seus discípulos "Family" (que seguiam Manson como se fosse Deus - ou demónio) continua a inspirar livros, filmes, e músicas. As dez canções que o NME publica são canções inspiradas nos crimes que chocaram a América e percorrem bandas tão diferentes como os Sonic Youth, Nine Inch Nails, Cabaret Voltaire, Ramones ou Neil Young.
Nota: a imagem deste post não é o verdadeiro Charles Manson, ams sim o actor Jeremy Davies que interpreta o assassino no interessante filme "Helter Skelter" (2004). Há edição portuguesa em DVD.

segunda-feira, 20 de outubro de 2008

Díptico - 35


"Goodbye 20th Century: A Biography of Sonic Youth" - David Browne
"Psychic Confusion: The Sonic Youth Story" - Steve Chick

terça-feira, 12 de agosto de 2008

Guitarra e guitarristas


Aprendi a tocar guitarra com 10 anos. Como é habitual no ensino deste instrumento, primeiro aprendi guitarra clássica, para depois passar para a eléctrica. Nunca primei pela técnica ou pelo virtuosismo. Toco o suficiente para a música que faço. Ponto. Sempre menosprezei o virtuosismo pelo virtuosismo, a técnica pela técnica, como é apanágio de muitos músicos (e ouvintes). E nunca apreciei os chamados "guitar heroes". Por isso nunca gostei de Eric Clapton, Carlos Santana, Steve Vai, Joe Satriani, Jeff Beck, Stevie Ray Vaughan e afins. É certo que têm o seu lugar na história da música rock e da guitarra eléctrica, mas musicalmente dizem-me praticamente zero. É aqui que reside o fulcro da questão: posso reconhecer capacidades instrumentais num guitarrista mas não me identificar, de todo, com a sua música. De resto, esta premissa é válida para muitos outros instrumentistas e intérpretes.
Aos tecnicistas ferozes, que debitam 30 notas diferentes a cada segundo (escalas atrás de escalas), prefiro sempre os guitarristas que fazem da guitarra um instrumento de combate sonoro. Guitarristas que dão mais importância à exploração tímbrica e rítmica do instrumento. Que abordam a guitarra com total emoção em detrimento da técnica. Guitarristas que preferem a subtileza e a simplicidade eficaz do que os solos intermináveis. Bastam dois ou três acordes para fazer música interessante - depende é de como se utilizam e exploram esses acordes (o punk-rock é um exemplo). Neste capítulo, há melhores guitarristas do que os de blues? Bo Diddley (recentemente falecido), Buddie Guy, (o grande) Robert Johnson, Lightnin' Hopkins, B.B. King, Big Bill Broonzy, Johnny Lee Hooker, Muddy Waters. Todos os grandes guitarristas - do rock ao jazz - aprenderam com os mestres do blues. Foram os verdadeiros visionários no dedilhar das cordas da guitarra, como se esta fosse a manifestação sonora da alma humana.
Na história do rock há um nome incontornável e decisivo: Jimi Hendrix, considerado por muitos o melhor guitarrista de sempre. Tinha técnica, é verdade, mas a sua mestria foi posta ao serviço de ideias musicais incendiárias e de formas de tocar revolucionárias. Os densos riffs de guitarra dos The Velvet Underground, as malhas noise de Glenn Branca, de Lee Ranaldo e Thruston Moore (Sonic Youth), os primeiros Jesus and Mary Chain, o inventivo The Edge (U2), o rítmico Dick Dale, os inovadores Robert Fripp, Fred Frith, Jim O'Rourke e John Fahey, o elegante Ry Cooder, são apenas exemplos de guitarristas que tocam com o coração nas mãos. Com um estilo totalmente distinto da mediania dos guitarristas mundiais, "guitar heroes" incluídos.
A revista Rolling Stone, citada pelo site Hotguitarrist.com, lançou mais uma das suas habituais listas em que se seleccionam os 100 melhores guitarristas de sempre. A questão é que nunca se sabe quais os critérios destas listas: o que significa "melhor guitarrista"? Aquele que corresponde ao paradigma da capacidade técnica ou aquele que priveligia a criatividade e a inovação? Seja como for, subjectividades à parte, o certo é que o primeiro lugar é inquesionável: o guitarrista canhoto que um dia cantou "Hey Joe, where you're walking with that gun in your hand?". Ver aqui lista

quinta-feira, 24 de julho de 2008

Christian Marclay - o visionário do gira-discos




Este é daqueles discos que fizeram história. Christian Marclay, compositor, artista visual, professor, tem atrás de si uma longa carreira de explorador sonoro e de colaborações com os músicos mais importantes do panorama musical vanguardista: Otomo Yoshihide, John Zorn, Elliott Sharp, Butch Morris, Erik M., Keiji Haino, músicos dos Sonic Youth, etc. Ainda jovem, interessou-se por correntes artísticas conotadas com a ousadia formal e estética, como o movimento Fluxus e a arte conceptual. Depois de um curto período no qual se entusiasmou com a energia subversiva do punk rock, enveredou de seguida pela experimentação partindo da exploração (material e sonora) do gira-discos ("turntable", termo que deu origem a uma prática musical, o "turntablism", que por sua vez, teve como antecessor a prática da música concreta). Toda a matéria sonora e musical é válida para Marclay - dos ruídos mais sujos aos géneros como o rock ou a clássica.
De resto, Christian Marclay é mesmo considerado o precursor da utilização do gira-discos enquanto instrumento musical não convencional. Não o utiliza no mesmo sentido em que o faz um DJ de hip-hop, mas antes como objecto performativo, de manipulação sonora através dos mais distintos procedimentos técnicos. Desde a década de 70 e, sobretudo, a de 80, Christian Marclay explorou múltiplas formas de manipular o som através dos gira-discos (e gramofones antigos) e dos discos de vinil. Todo o equipamento serviu de base para o seu trabalho de explorador sonoro: gira-discos com rotações estragadas ou alteradas, discos partidos ou literalmente colados, técnicas de scratch, de mistura, de alterações de pitch. Todas estas ferramentas (entre outras) serviram para conceber o álbum "More Encores.", lançado em 1988. Este disco é decisivo na história da música pela inovação com que Christian Marclay explora a música de outrem. Ou seja, todas as doze faixas têm como matéria musical composições de outros tantos músicos. Houve uma atitude apropriacionista, à luz do "ready made" de Duchamp, ao manipular os sons de compositores famosos. Aliás, "More Encores" é mesmo considerado o primeiro grande disco que recorre, exclusivamente, a samples analógicos de outros artistas. E que artistas: John Cage, Maria Callas, John Zorn, Jimi Hendrix, Jane Birkin, Chopin, Strauss, Fred Frith, entre outros. Christian Marclay manipula, literalmente, os discos destes músicos com algumas das técnicas já descritas para compor algo de completamente novo e esteticamente desafiante. O trabalho de Marclay é também conceptual, ao nível da abordagem dos pressupostos teóricos da linguagem musical. E é um disco que tem de ser ouvido em vinil (até porque tem como matéria prima de base o vinil), dado que o formato digital não revela todas as nuances tímbricas concebidas a pensar na rodela vinílica. É o próprio músico que defende: "interesso-me pelos sons que as pessoas não querem - como o som da agulha no disco riscado, o ruído da superfície do vinil, ou o scratch, por exemplo".
Em Junho de 2001 tive a feliz oportunidade de conhecer pessoalmente Christian Marclay. Foi na Bienal de Artes da Maia - "UrbanLab", dado que fui convidado para tocar na primeira parte do Christian Marclay DJ Trio (com Christian Marclay, Erik M. e Toshio Kashiwara). Foi particularmente interessante para mim ouvir o o próprio artista e músico a explicar os seus procedimentos criativos. Na altura, estava entusiasmado porque se encontrava a desenvolver uma instalação sonora com Lee Ranaldo (dos Sonic Youth). A impressão com que fiquei é que Marclay é um artista humilde, de fortes convicções artísticas e que tem consciência que o seu trabalho como "turntablist" foi pioneiro e fortemente influente na história da música do final do século XX.
Aconselho vivamente a ver este mini-documentário de 5 minutos sobre o trabalho de Christian Marclay:

sexta-feira, 28 de março de 2008

Jarboe - é impossível explodir o vazio


Houve um tempo em que Nova Iorque era o centro nevrálgico da actividade musical dita underground. Na era pré e pós No-Wave, no final dos anos 70, a emergência de novas propostas, arriscadas e nervosas, transformou-se num fluxo prolífero de renovadas linguagens estéticas. Cruzaram-se múltiplas sensibilidades musicais e abriram-se horizontes imprevisíveis no espectro da música rock (e não só). Desse caldeirão de novas referências, podemos referenciar músicos e bandas como Glenn Branca, Lydia Lunch, Foetus, Sonic Youth, Teenage Jesus and The Jerks e, inevitavelmente, os Swans. Michael Gira, o líder desta banda marcante nas décadas de 80 e 90, soube como poucos traduzir em sons a efervescência existencial (sexo, morte, religião, decadência, podridão eram temas recorrentes) em perturbantes e negros registos como “Cop” (1984), “Greed” (1986) ou o fundamental “White Light Form The Mouth of Infinity” (1991). Como complemento vocal (e instrumental, nos teclados), havia nos Swans um discreto mas influente elemento: Jarboe. A sua voz, ora melodiosa, ora irascível, tornou-se numa referência absoluta no panorama das vocalistas femininas do espectro rock e experimental, onde pontuam também os nomes incontornáveis de Diamanda Galás e Lydia Lunch.Ainda na regência dos Swans, em finais dos anos 80, surge um dos mais interessantes projectos paralelos à actividade do grupo, os Skin, fruto da cumplicidade entre Michael Gira e Jarboe. Desta efémera aliança surgiram dois excelentes álbuns - “Blood, Women, Roses” de 1987, e “Shame, Humilty, Revenge” de 1988. Depois do fim da carreira seminal dos Swans, Jarboe trilhou um percurso musical próprio, feito de colaborações diversas e de discos cada vez mais pessoais e intimistas, não deixando de lado a faceta mais negra e experimental que sempre a caracterizou. Por seu turno, a veia criativa de Jarboe expandiu-se para novos territórios de exploração e novas congeminações musicais. Álbuns a solo como “Beautiful People Ltd” (1993) e “Sacrificial Cake” (1995), este último editado pela Alternative Tentacles, confirmaram Jarboe como uma intrépida exploradora de emoções e pesquisadora de soluções sonoras surpreendentes (nomeadamente, com a introdução de samples electrónicos).
Em 1998,
“Anhedoniac” vê a luz do dia. Registo duro e directo, no qual Jarboe, como é seu apanágio, transgride e subverte todos os limites: estilhaça qualquer vislumbre de formato de canção, alterna melodias encantatórias com devaneios guturais, constrói labirínticos puzzles instrumentais e abre a porta da colaboração a gente da electrónica experimental como os Pan Sonic. O disco “Anhedoniac” foi posteriormente reeditado pela editora Atavistic, num trabalho de remasterização, novo design gráfico e com “bonus tracks”. Sob a máxima “You Can’t Explode What’s Empty”, Jarboe expõe os males do mundo numa descarnada entrega emocional. Musicalmente, a ex-Swans vagueia por entre músicas lamurientas, densas e repletas de insinuações inquietantes sobre a condição humana no mundo moderno. Jarboe cruza texturas aparentemente desconexas, cria ambientes soturnos e alegóricos, provoca e desconcerta o ouvinte. No fundo, tal e qual como fazem todos os grandes artistas.

domingo, 3 de fevereiro de 2008

The Jesus & Mary Chain - a herança de um disco


João Lisboa conta no último Expresso que Stephen Merritt, músico, compositor e cantor em distintos projectos - Magnetic Fields, Gothic Archies ou The 6ths - diz o seguinte a propósito do disco "Psychocandy" (1986) dos The Jesus & Mary Chain: "Na minha opinião, desde 1986, não se passou mais nada, as coisas não progrediram, não foi dado qualquer passo em frente. Tudo o que daí em diante aconteceu tinha já acontecido em 1986."
Há um evidente exagero nas palavras de Merritt. Mas há, de igual modo, um fundo de verdade. Passaram 20 anos e não houve assim tantos discos absolutamente originais, a quebrar barreiras na linguagem rock, como este primeiro espantoso álbum dos irmãos escoceses Jim e William Reid. Claro que "Psychocandy" absorveu a estética devedora dos Velvet Underground e de Glenn Branca, com os riffs noise das guitarras e o feedback sujo dos amplificadores. Mas a originalidade do som dos Jesus and Mary Chain advem sobretudo da fusão entre a melodia doce com as batidas minimais e o ruído sónico. Uma pulsão libertária que estilhaçou o conceito vulgar de canção rock e deitou por terra a linha ténue entre o que é ruído e o que é melodia de textuta pop. Os Mary Chain fizeram parte da geração de ouro das bandas de guitarras dos anos 80: Dinaussaur Jr, Rapemen, My Bloody Valentine, Fugazi, Jane's Addiction, Pixies, Sonic Youth, Husker Du, entre outras.
Sobre este disco tenho uma história curiosa. Lembro-me de ter o vinil a tocar no meu quarto e estar um amigo meu pouco conhecedor do rock alternativo em geral e dos Jesus ans Mary Chain em particular. As canções de "Psychocandy" tocavam alto, ruidosas e num frémito de pura energia sónica. De repente, reparo no meu amigo a mexer no equalizador da aparelhagem de som. Perguntei-lhe o que estava a fazer. Respondeu-me: "este disco parece estar estragado, estou a tentar diminuir o ruído". Verídico.
Última curiosidade para dizer que um tema de "Psychocandy" - a belíssima canção "Just Like Honey" - surge no final do filme "Lost in Translation" de Sofia Coppola. na verdade, Sofia Coppola acertou na mouche para documentar, musicalmente, aquele final de filme.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Sound & Vision, Sound Art

Dois livros, duas obras fascinantes para compreender toda a complexidade do fenómeno musical contemporâneo. São livros editados muito recentemente (há poucos meses) no mercado internacional (na Fnac só por importação) e estão disponíveis através de venda directa na Amazon inglesa. "Sound & Vision", escrito a meias pelos italianos Luca Beatrice e Alberto Campo, renova a análise às tendências actuais da cultura audiovisual, fazendo o cruzamento entre as artes visuais e as manifestações sonoras (o livro tanto aborda Keith Haring como Mathew Barney, Chris Cunningham - a imagem da capa é retirada do videocplip "Come to Daddy" -, Aphex Twin ou Björk. Quanto ao segundo livro, com o sugestivo título "Sound Art - Beyond Music, Between Categories", do músico e escritor Alan Licht, propõe uma séria e aprofundada reflexão sobre o som enquanto arte, numa perspectiva histórica evolutiva. Partindo do Futurismo de Marinetti e Russolo, até ao minimalismo de LaMonte Young, às diabruras noise dos Sonic Youth ou ao malabarismo de discos de Christian Marclay, "Sound Art" é um livro essencial para os melómanos e curiosos na história das artes audiovisuais do Século XX e XXI. Além disso, esta obra conta ainda com um prefácio do músico Jim O'Rourke. Dois livros que se complementam para um melhor entendimento das estéticas e tendências artísticas audiovisuais contemporâneas.

domingo, 30 de dezembro de 2007

2007 - escolhas são escolhas


É inevitável. O calendário marca o fim de 2007. E no final do ano, fazem-se as recensões do melhor (e pior) do ano que passou. Já tinha colocado o post sobre os melhores discos, aqui e aqui; agora é a minha lista pessoal (e subjectiva) de filmes e livros. Do cinema há ainda títulos que quiçá poderiam incluir-se na lista mas que ainda não vi (os novos Cronenberg e Van Sant, por exemplo).

FILMES 2007:

1 – INLAND EMPIRE – DAVID LYNCH
2 – PECADOS ÍNTIMOS – TODD FIELD
3 – CONTROL – ANTON CORBIJN
4 – BUG – WILLIAM FRIEDKIN
5 – CARTAS DE IWO JIMA – CLINT EASTWOOD
6 – A VIDA DOS OUTROS - FLORIAN DONNERSMARCK
7 – ZODIAC – DAVID FINCHER
8 – O BOM ALEMÃO – STEVEN SODERBERGH
9 – DEATH PROOF – QUENTIN TARANTINO
10 – O LIVRO NEGRO – PAUL VERHOEVEN
11 – ZIDANE – RETRATO DO SÉCULO XXI – GORDON / PARRENO
12 - HALF NELSON - RYAN FLECK
13 - SHORTBUS - JOHN CAMERON MITCHELL
14 - 300 - ZACK SNYDER
15 - RATATUI - BRAD BIRD

Cinema - acontecimentos do ano:
- Mortes de Bergman e Antonioni
- Aclamação internacional (sobretudo nos EUA) de Pedro Costa
- Filme “Corrupção” e conflito realizador vs. produtor
- Encerramento de salas de cinema de autor – Quarteto, Nimas e King
- O apogeu do género documentário – Al Gore, "O Grande Silêncio", "Sicko", Doclisboa…
- Prémios para documentário "Ainda Há Pastores?"
- Sucesso de séries de televisão - 24, Prison Break, Dr. House, Lost...
- Editora Midas Filmes – edições DVD de cinema de autor
- Filme em qualidade 3D ("Beowulf")

Melhores edições DVD do ano:
- Colecção Fassbinder
- Colecção Tarkovski
- Colecção Hal Hartley
- Colecção Aalin Resnais
- Edição especial de "Blade Runner"
- Edição "Hiroshima Meu Amor + "Noite e Nevoeiro"
- Edição especial de Leni Riefenstahl
- Colecção "Os Malucos do Circo" - Monty Python
- Colecção Robert Bresson
- Pack Douglas Sirk
- "Histórias do Cinema" - Godard

Música - acontecimentos do ano:
- Golpe fatal na indústria discográfica – Radiohead, Madonna, Prince
- Morte de Tony Wilson, Stockhausen, Ligeti, Rostropovitch, Pavarotti e Oscar Peterson
- Ornette Coleman ao vivo na Gulbenkian
- Actividade cultural da ZDB
- Reconversão do jornal BLITZ para a revista BLITZ
- Nova orquestra de Câmara Portuguesa de Pedro Carneiro
- Profusão de concertos comentados
- Sucesso e qualidade do festival FMM Sines
Reedições do ano:
- Young Marble Giants - Colossal Youth
- Laurie Anderson - Big Science
- David Bowie - Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders From Mars
- Leonard Cohen - Songs of Love and Hate
- Pink Floyd - The Piper at the Gates of Dawn
- Sonic Youth - Daydream Nation
- John Coltrane - My Favourite Things: Coltrane at Newport

LIVROS :

O FIM DA FÉ – SAM HARRIES
DEUS NÃO É GRANDE – CRISTOPHER HITCHENS
A DESILUSÃO DE DEUS – RICHARD HAWKINS
LENI – VIDA E OBRA DE LENI RIEFENSTAHL – STEVEN BACH
SOBRE HUMANOS E OUTROS ANIMAIS - JOHN GRAY
TODO O MUNDO – PHILP ROTH
AUTOBIOGRAFIA DOS MONTY PYTHON
GUIA TERAPÊUTICO DO CINEMA
– PEDRO MARTA SANTOS
GORE VIDAL – NAVEGAÇÃO PONTO POR PONTO
APRENDER A REZAR NA ERA DA TÉCNICA – GONÇALO M. TAVARES
CAL – JOSÉ LUÍS PEIXOTO
PURA ANARQUIA – WOODY ALLEN
O HOMEM EM QUEDA - DON DELILLO
BREVE HISTÓRIA DO FUTURO - JACQUES ATTALI

Livros - acontecimentos do ano:
- Consagração de Gonçalo M. Tavares e Valter Hugo Mãe
- Crescimento dos e-books
- Debate entre Vasco Pulido Valente e Miguel Sousa Tavares
- Proliferação editorial de livros sobre Salazar
- Abertura da megalivraria Byblos
- Paes do Amaral e o domínio do mercado livreiro
- Exagero de edições: 14 mil livros no ano, média 100 por semana.
- Proliferação massiva de romances históricos sucedâneos do Código DaVinci

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Isto é rock

Há qualquer coisa de demencial nesta performance ao vivo dos Sonic Youth num programa de televisão norte-americano (algures nos finais dos anos 80). A energia da banda de Lee Ranaldo e Thurston Moore incendeiam o estúdio com um dos seus melhores temas de sempre - "Silver Rocket". Os riffs de guitarra, o ritmo em galope circular, a atitude dos músicos em "palco" e a improvisação noise pelo meio fazem desta performance um monumento de uma categoria inexistente: "melhor actuação live em estúdio de TV."

terça-feira, 4 de dezembro de 2007

A revolução do ruído


É um álbum maldito da história do rock (e se formos rigorosos, de toda a história da música). Lou Reed, uns anos após o fim dos Velvet Underground, em 1975, grava essa infâmia e embuste (para uns) ou obra genial e premonitória (para outros tantos): "Metal Machine Music". Num aspecto todos estão de acordo: trata-se de um registo radical, concebido e gravado sem concessões, feito à base de feedback de guitarra e de manipulação de ruído branco. Reed diz que gravou o disco completamente pedrado. Acreditamos. Já foi considerado o pior álbum de rock de sempre; e já foi incluído na lista dos discos mais inovadores de sempre. Em que ficamos?
Na verdade, o disco vale sobretudo como testemunho conceptual, mais do que estritamente musical. Deve tanto ao rock de guitarras dos Velvet como aos princípios estéticos e teóricos de La Monte Young, de John Cage ou dos concretistas Pierre Schaeffer e Pierre Henry. Deve também à teoria dos "intonarumori", as célebres máquinas de produzir ruído industrial do futurista italiano Luigi Russolo. E é um disco que influenciou artista tão diversos como Sonic youth, Throbbing Gristle, Merzbow e todos os subgéneros do noise, do industrial e do electro-acústico. Ouvi-lo não será o mesmo que ouvir Robert Wyatt ao entardecer enquanto se bebe um martini (que raio de associação!). Ao longo destes 30 e tal anos, não acredito que alguém, alguma vez, tenha ouvido "Metal Machine Music" do princípio ao fim sem ter tido lesões cerebrais irreversíveis. Mas quem sabe, tratar-se-ia de uma experiência limite no teste à capacidade auditiva humana. Não eram os Einstürzende Neubeutan que diziam que "é preciso ouvir com dor"?