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terça-feira, 21 de abril de 2015

Al Pacino assume o vício


Sabemos que o consumo de drogas e de álcool proliferam no meio artístico. O que é raro é vir a lume uma figura pública do espectáculo assumir o consumo de álcool como algo importante na sua vida. Foi o que aconteceu com o actor Al Pacino: numa entrevista ao jornal espanhol La Vanguardia, não teve problemas em assumir que foi consumidor de whisky toda a vida, ao ponto de dizer que foi tão importante como ter interpretado Michael Corleone no filme 'O Padrinho' ou de ter subido ao palco para levar à cena Shakespeare. 

La Vanguardia: A sua interpretação de 'O Padrinho' tornou-o famoso. E que papel tiveram Shakespeare e o álcool na sua carreira? 

Al Pacino: Bom, essas três coisas tiveram – e têm ainda – muita influência na minha vida. As três marcaram a minha existência e foram determinantes, cada uma à sua maneira, para a minha carreira. Posso dizer sem me enganar que as três – Michael Corleone em O Padrinho, Shakespeare e o whisky – tiveram grande responsabilidade no que sou agora. E sou sincero em dizer que fui feliz com as três coisas.

sexta-feira, 17 de abril de 2015

A entrevista de Ian Curtis

Eis uma das raríssimas entrevistas transcritas que Ian Curtis - mítico vocalista dos Joy Division - concedeu à BBC Radio. Além de outras curiosidades, Ian assume-se fã dos Bauhaus. Dada a raridade da entrevista, resolvi transcrever na íntegra.


WHAT SORT OF RELATIONSHIP DO YOU HAVE WITH OTHER MANCHESTER BANDS? 
We tend to be pretty isolated now really…apart from the Factory groups. We have a lot to do with the other groups on Factory. We tend to play a lot of gigs with them and … there’s other things like erm the Durutti Column LP – the sandpaper sleeve – we stuck that on. So everyone there, with each other, and groups they got booked with, groups like the Buzzcocks, that we knew when we started really. You know when we sort of see them, we talk to them, but it’s not very often. We’d like to, you know, see a lot more of other Manchester groups. Any other groups in general. 

WHAT DO YOU THINK OF THE STATE OF NEW WAVE? 
Don’t know. I think it’s, a lot of it tends to have lost its edge really. There’s quite a few new groups that I’ve heard.. odd records. Record or have seen maybe such as, eh, I like, I think it’s mostly old Factory groups really, I like the groups on Factory; A Certain Ratio and Section 25. I tend not to listen, when I’m listening to records, I don’t listen to much new wave stuff, i tend to listen to the stuff I used to listen to a few years back but sort of odd singles. I know someobody who works in a record shop where I live and I’ll go in there and he’ll play me “have you heard this single?” singles by er the group called The Tights, so an obscure thing … and a group called, I think, er Bauhaus, a london group, that’s one single. 

DO YOU HAVE ANY PLANS OF GIGGING OUTSIDE THIS COUNTRY? 
We’ve played in Europe already in Holland and Germany and we are going to America. We’re only going for er, I think they wanted us to go for about 3 months or so [laughs] , but we’re only going for about about 2 weeks, 3 weeks, and Rough Trade will probably be organising that. I think we’re going with Cabaret Voltaire. I like them, they’re a good group [laughs], I forgot about them. Yeah but, we tend to do what we want really. We play the music we want to play and we play the places we want to play. I’d hate to be on the usual record company where you get an album out and you do a tour, and you do all the Odeon,s and all the this that and the others. I couldn’t just do that at all. We had experience of that supporting the Buzzcocks. It was really soul destroying, you know, at the end of it. We said we’d never tour … and we’ll never do a tour I don’t think – or if we do it won’t be longer than about two weeks. 

WHAT IS YOUR SORT OF RELATIONSHIP WITH FACTORY RECORDS 
It’s very good sort of friends everyone knows each other it’s all 50:50. Everything’s split. 

DOESN’T IT IT SEEM A BIT INSULAR SORT OF BEING IN THE FACTORY SORT OF SET UP? 
Don’t know. I suppose to somebody looking at it from the outside i suppose it is really I mean you’re not pressurised into having to sign … like you know get a normal record company – they’re always looking for the next group for the next big thing … you know … to bring the record sales in and for them to promote and everything…but Factory just sign who they want to, put records by who they want to out, package it how they want to, you know, how they like doing it. It’s just run like that. You might get sort of a spurt of 3 singles out – you might not see anything for the next 6 months. You know. I like the relationship. 

WHERE DO YOU SEE OR WHERE DO YOU FEEL YOU WANT JOY DIVISION TO END OR GO TO? 
I just want to carry on the way we are, I think. Basically we want to play and enjoy what we like playing. I think when we stop doing that I think, well, that will be the time to pack it in. That’ll be the end.

domingo, 28 de setembro de 2014

Vasconcelos




António-Pedro Vasconcelos é um veterano do cinema português. Tem, indubitavelmente, uma sólida formação cinéfila e conhecimentos teóricos e práticos sobre o cinema, tanto mais que contactou directamente nos anos 60 com inúmeros realizadores da Nova Vaga francesa. 
Nesta entrevista que deu ao site C7nema, Vasconcelos explica como foi o seu percurso no cinema, a sua experiência decisiva em Paris e explana as suas opinões sobre o cinema português. Percebe-se, pelo que diz, que existem muitos ódios no pequeno circuito do cinema nacional e que ele se sente um bom exemplo de um "autor com público". 
António-Pedro Vasconcelos aproveita também para destilar veneno - coisa que já se sabia - contra a crítica de cinema portuguesa, que acusa de analfabeta e indigente. Uma opinião certamente controversa e que só alimenta o ódio entre o realizador e a crítica (já o público, ficará dividido entre ambos).

Repare-se no que Vasconcelos diz:

A crítica em Portugal é uma lástima, condicionada por preconceitos, nomeadamente esse, de que o quem tem público não faz cinema de autor, a não ser no caso do caso do cinema americano. Se for americano já aceitam. Pode não gostar do Spielberg, ou do Kubrick, mas eram autores. Eles têm público. Essa ideia foi letal para o cinema português e a crítica embarcou nisto completamente. O Truffaut e o Godard, quando eram críticos, tinham toda uma visão do mundo. Aqui em Portugal, além de não terem nada disto, não fazem ideia do que estão a falar. Como costumo dizer, não sabem distinguir um travelling de um ovo estrelado. Assim como o cinema português não cria nenhuma empatia com o público, os críticos de cá também não o fazem. Não servem de guia para os espetadores.

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Tarkovsky: pai e filho

A relação e influência que a poesia de Arsenii Tartkovsky teve junto do seu filho realizador Andrei. Livro sobre poesia e cinema, duas artes maiores e centrais no universo tarkovskiano, numa edição acabada de editar e à venda na Amazon. 
Imperdível.


A propósito da poesia de Arseni Tarkovsky, descobri uma entrevista realizada pelo jornal espanhol ABC (2002) à irmã do cineasta russo, Marina Tarkovskaia, na qual aborda a poesia do pai e a relação com os filmes do irmão. Nas duas perguntas sobre a poesia do pai e a sua relação com a arte cinematográfica do irmão, Marina diz isto:

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Desconhecia a poesia do seu pai. Pode falar-me dela?
Marina Tarkovskaia: Desde pequeno, Andrei e eu conhecíamos a poesia do meu pai, ainda que no regime soviético não se podia publicar os seus poemas porque ele não elogiava o partido Comunista nem Estaline. O seu primeiro livro devia ter sido publicado depois da segunda Grande Guerra mas quando já estava pronto, o Partido Comunista proibiu a sua edição. Só em 1962, quando tinha 55 anos, o meu pai conseguiu editar um livro. Chamava-se "Antes Que a neve Caia". O curioso é que nesse mesmo ano o meu irmão Andrei ganhou em Veneza com "A Infância de Ivan". Comecei a a conhecer mais a fundo a sua poesia mais tarde, quando compreendi que era um grande poeta.

Quais são os principais temas poéticos que aborda o seu pai?
Marina Tarkovskaia: Os mesmos temas que o Andrei abordava nos seus filmes. Os mundos criativos dos dois estão entrecruzados ao longo dos anos. Não é nenhuma surpresa se a poesia do meu pai está incluída nos filmes do meu irmão, como é o caso de "Stalker", "Nostalgia" e "O Espelho". O tema central destes filmes é o conhecimento de si mesmo. O meu pai tem poemas muito belos que falam de patriotas e de patriotismo, mas não no sentido social e propagandístico na velha tradição da União Soviética, mas numa perspectiva cultural

quinta-feira, 19 de junho de 2014

Michael Gira - A entrevista

Este título e esta introdução resumem a essência da música dos Swans de Michael Gira. Criadores do mais épico e grandioso disco de rock deste ano, "To Be Kind", o líder da banda deu uma interessante entrevista à revista  Music&Riots. 
Para ler tudo aqui.

quinta-feira, 1 de maio de 2014

5 Perguntas

O Jorge Teixeira, autor do blogue de cinema "Caminho Largo", desafiou-me a responder à rubrica "À Boleia". Cinco perguntas cirúrgicas sobre o meu entendimento do cinema, às quais respondi desta forma.

domingo, 1 de setembro de 2013

As opiniões de Pedro Costa

O realizador Pedro Costa deu uma entrevista em Espanha na qual afirma as suas fortes convicções sobre o cinema. Diz que o "maior cineasta de todos os tempos foi Jean Renoir". Ou que "no cinema a paciência e o tempo são fundamentais".
Criticou também o ensino do cinema e a nova geração de realizadores: "Los jóvenes estudiantes saben quién es Serguéi Eisenstein porque vieron una foto de él, pero no sus obras. Me entristece ver directores que reivindican la ignorancia y creen que para hacer una película sólo hay que tener ojos y estar en la calle."

sexta-feira, 29 de março de 2013

A última aparição de Truffaut



Em 1984, o realizador francês François Truffaut, pouco tempo antes de morrer, fez a sua última aparição pública na televisão francesa. Foi no célebre programa cultural "Apostrophe" do não menos célebre jornalista Bernard Pivot. Neste programa, emitido em pleno horário nobre da televisão pública francesa (coisa rara hoje em dia),  discutiam-se temas culturais como literatura, teatro, cinema e música e com artistas de relevo em estúdio.
Em Abril de 1984, Truffaut foi convidado a falar sobre as entrevistas que fez a Alfred Hitchcock e que foram publicadas em livro. No mesmo programa estava também o realizador Roman Polanski. Entre todos (Pivot, Truffaut e Polanski), estabeleceu-se um diálogo muito interessante à volta do cinema de Hitchcock.
Depois desta entrevista ao programa de Pivot, o cineasta francês nunca mais apareceu na televisão nem realizou mais nenhum filme. Truffaut já sofria de um tumor cerebral maligno o qual, seis meses mais tarde, em Outubro de 1984, lhe tiraria a vida com apenas 51 anos de idade.
Eis um excerto da referida entrevista.

terça-feira, 19 de março de 2013

Marion e Craig

Nesta divertida entrevista que Craig Ferguson (do programa "The Late Show" na CBS) fez à actriz francesa Marion Cotillard, ocorreu este delicioso e hilariante diálogo (a propósito do filme "Ferrugem e Osso",  no qual Marion interpreta uma mulher sem pernas):

- Craig: "Então qual é o assunto central do filme?"
- Marion: "Bom, é sobre um casal improvável que se apaixona..."
- Craig: "Realmente nunca vi esta história em nenhum outro filme!"
- Marion: "Ah, mas eu não tenho pernas nessa relação! Alguma vez viste algo parecido num filme?"
- Craig: "Pois é, não tem pernas no filme. Como é que fez isso?"
- Marion: "Bem... Eu sou tão boa actriz!"
- Craig: "É verdade que aprendeu a falar inglês a ver filmes americanos?"
- Marion: "Nem por isso, porque Charlie Chaplin não falava assim tanto"

quarta-feira, 28 de novembro de 2012

12 questões pertinentes a Woody Allen

O realizador Robert B. Weide realizou um documentário, há dois anos, sobre Woody Allen intitulado, simplesmente, "Woody Allen: A Documentary".
Nesse documentário, para além de uma retrospectiva da obra e vida de Allen, o cineasta de Nova Iorque submeteu-se a uma curiosa sessão de perguntas. Perguntas nada vulgares que revelam melhor o pensamento e gostos de Woody Allen.
Sabia que, se tivesse de optar entre o cinema e o desporto, Allen escolheria o desporto? E que preferia ter sido um grande músico a um grande realizador?
Eis 12 respostas a 12 curiosas questões.

quinta-feira, 22 de novembro de 2012

Pedro Borges e o cinema

A morte do cinema, é verdade ou é retórica?
Isso é para as pessoas se entreterem. O grande cinema deixou de ser arte popular. Se o John Ford ou o Hitchcock hoje fizessem filmes, não tinham espectadores nenhuns. Mas não foram os filmes que mudaram, foram as pessoas. O tempo de filas, semanas a fio, para ver filmes do Bergman ou do Truffaut acabou.
Mas porque é que acabou? Foi o blockbuster?
Não, foram as pessoas. Havia um certo tipo de pessoas com estatuto cultural e social para quem era obrigatório ir ao cinema ver esse tipo de filmes (como hoje é obrigatório beber 3 litros de cerveja ao sábado à noite ou ir ao futebol dar urros) e que ficaram aliviadíssimas quando isso deixou de ser obrigatório.
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Quem responde assim, sem papas na língua, é Pedro Borges, conhecido produtor, exibidor e distribuidor cinematográfico, outrora responsável pela Atalanta e, actualmente, mentor da melhor editora de DVD do mercado: a Midas Filmes.
O site de cinema À Pala de Walsh entrevistou-o e aconselho a ler o resultado dessa entrevista, na qual Borges emite opiniões bem formadas e pertinentes sobre o mundo do cinema e tudo o que gira à sua volta.
Com larga experiência no mercado e com vastos conhecimentos do meio, Pedro Borges aborda sem rodeios o estado do cinema em Portugal e no estrangeiro. Para que conste.

domingo, 30 de setembro de 2012

DCD

A revista Arte Sonora entrevistou os Dead Can Dance e revela pormenores interessantes sobre o método criativo (e técnico) para a gravação do recente álbum "Anastasis". Vale a pena ler.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Desprendimento de tudo

 
 
O escritor Albert Cossery (morreu aos 94 anos em 2008) é um dos meus escritores favoritos. Era um escritor invulgar e original, capaz de escrever sobre assuntos mundanos de forma extremamente polida. Interessava-se pelos "vencidos da vida" e não por heróis romanceados de forma épica.
Nasceu no Egipto mas toda a vida escreveu em francês. Metódico e solitário (viveu 63 anos no mesmo quarto de hotel), Albert Cossery tinha por hábito escrever apenas uma frase em cada dia, durante quase sessenta anos de carreira literária, produção que equivaleu a uns escassos oito livros publicados.
Albert Cossery fazia, na esteira da filosofia epicurista (o prazer e o hedonismo como valores primordiais para a vida), a apologia da preguiça e do ócio, vendo nestas atitudes o espelho de uma rebuscada actividade interior, como métodos valiosos de reflexão sobre a vida e o mundo. Vivia arredado da fama e da vaidade do círculo literário internacional.
O próprio Cossery viveu praticamente toda a vida de forma desprendida e despojada, segundo o próprio, veículos para a felicidade e para o bem-estar existencial.

Eis a prova numa das últimas entrevistas que deu:
 
- "Nunca pensou que as sociedades podem progredir?"
- "Um progresso espiritual, sim, mas não no sentido religioso. Espiritual, quer dizer no espírito. É muito difícil e é por esse facto que a humanidade não avançou nem um centímetro desde há milénios. Hoje vemo-lo um pouco por todo o mundo: as pessoas odeiam-se, entram em guerra, matam-se".
 
- "Qual é a arte de viver?"
- "Desprender-se de tudo o que nos ensinam, de todos os valores e dogmas".
 
- "O que é que caracteriza a arte de viver das personagens que criou?"
- "Em primeiro lugar, a falta de ambição. O que mata as pessoas é a ambição. E também esta tendência para a sociedade de consumo. Quando vejo publicidade na televisão, digo para mim próprio: podem apresentar-me isto anos a fio que nunca comprarei nada daquilo que mostram. Nunca desejei um belo automóvel. Nunca desejei outra coisa senão ser eu próprio. Posso caminhar na rua com as mãos nos bolsos e sentir-me um príncipe. Não é a posse de bens materiais que pode satisfazer um homem inteligente, que compreendeu o mundo em que vive".

quinta-feira, 6 de setembro de 2012

Woody Allen e "Ladrões de Bicicleta"

E por falar em Woody Allen: como se sabe, o seu último filme ("To Rome With Love") tem como cenário a cidade italiana de Roma. Daí que tenha sido desafiado pela imprensa italiana para escolher os seus filmes italianos preferidos. Um dos filmes italianos de que Woody Allen mais gosta (já o referiu várias vezes publicamente) é o magnífico "Ladrões de Bicicletas" (1948), obra-prima de Vittorio De Sica e um marco essencial do Neo-Realismo italiano.
Sobre esta película, Woody explicou os motivos pelos quais considera esta obra como absolutamente admirável. Os seus argumentos são tão simples, nobres e objectivos como o próprio filme em si:
"This, to me, was the supreme Italian film and one of the greatest films in the world. It was out when I was a teenager, in the same era as “Stromboli” and “Bitter Rice,” that wave at the time. When you see it, it seems so simple and effortless. I mean, what could be more simple? A guy has a bicycle which he needs for his livelihood, it gets stolen, and he goes to find it with his son. The boy’s relationship with his father was part anger, part desperate affection. It couldn’t help but make an impression on the most primitive level. You didn’t have to think about anything, you just watched the characters and their predicament. It’s flawless; every part of it works perfectly."

quarta-feira, 5 de setembro de 2012

Woody Allen e os filmes europeus

Woody Allen, em entrevista ao jornal El País, explica porque é que tem feito filmes nos últimos anos em cidades europeias: basicamente, porque é na Europa que lhe dão o dinheiro  que precisa sem que ninguém exija algo em troca (como nos EUA, onde lhe dão pouco dinheiro e querem saber tudo sobre o argumento e elenco). Diz ainda que concorda que estes filmes realizados na Europa possam ser considerados "guias turísticos", como já o era, o filme "Manhattan" e outras obras filmadas em Nova Iorque.
Vendo bem, são argumentos lúcidos e honestos. O cineasta não é hipócrita: vai ao cerne da questão de forma pragmática. Isto é, assume que o cinema é uma arte cara e filma nos países onde lhe dão dinheiro e liberdade criativa, condições essenciais para a prática cinematográfica em qualquer país do mundo. Faz sentido e não há mal nenhum em assumi-lo. Agora, concluir se esses filmes europeus são bons, maus ou medianos, é outra questão...
Woody Allen explica ainda que já recebeu propostas para filmar em Moscovo, na China e em cidades sul-americanas. Há tempos ventilou-se na imprensa que o presidente da Câmara Municipal de Lisboa terá manifestado interesse em convidar Woody Allen para filmar em Lisboa. Não sei se esta intenção tinha algum fundo de verdade ou não, mas não me repugnaria que Woody aceitasse tal desafio. Mas também é verdade que, até considerando a idade do realizador, os cinéfilos não podem esperar que Allen filme no futuro na sua cidade!
Teria de ter muitos anos pela frente (talvez vidas) para concretizar esta ideia.  
 

sábado, 4 de agosto de 2012

Ridley Scott e o universo

O realizador Ridley Scott deu uma entrevista ao jornal espanhol El Mundo a propósito do seu último filme "Prometheus". Nesta entrevista, Scott explica porque é que regressou à ficção científica iniciado com "Alien", argumenta acerca do seu ateísmo e assevera que "é absurdo pensar que estamos sozinhos no universo".

segunda-feira, 16 de julho de 2012

O que diz Haneke


Enquanto esperamos pela estreia nacional do novo filme de Michael Haneke, "Amour", recordo algumas ideias que o cineasta austríaco proferiu há dois anos a um jornal espanhol. São palavras que ajudam a compreender as opções formais e de conteúdo do seu cinema.


Tem uma visão desesperada da Humanidade?
Não. Por vezes perguntam-se se todos os meus filmes falavam sempre do mesmo e eu disse que representavam a guerra quotidiana entre os seres humanos. A guerra entre o casal, entre amigos ou entre filhos e pais. Essas pequenas guerras do dia-a-dia podem levar a uma guerra maior. Não têm necessariamente uma consequência imediata, mas acredito firmemente que várias gerações que desenvolvem pequenas guerras desembocam, mais cedo ou mais tarde, numa guerra geral.

Como descreve o seu cinema? Terror? Thriller? Realista?
Tenho elementos de filmes de terror ou de Thriller (como em "Funny Games"), mas o meu estilo é, exactamente, realista. Eu sou um realista. Por isso não usei música em "O Laço Branco", porque na vida real não existe banda sonora de fundo - só há música quando um personagem ouve um CD ou alguém a cantar. Muita gente me pergunta porque é que me fascino com o lado obscuro dos seres humanos e a verdade é que não é assim. Quando tento ser realista, ao retratar os seres humanos encontro sempre esses elementos obscuros da natureza humana. A realidade tem um lado obscuro. Não tenho outro remédio que lidar com isso. Por isso quase todos os meus filmes têm violência e crueldade, mas não é algo que procuro deliberadamente.

Porque é que nunca fez comédias?
Pela mesma razão que não se pede a um sapateiro que faça um chapéu. No entanto, adoro as comédias inteligentes e desfruto muito com os filmes do Woody Allen. Não há muitas comédias boas na história do cinema.

segunda-feira, 4 de junho de 2012

Para além de admirar a obra cinematográfica do realizador húngaro Béla Tarr, admiro também a sua postura e as suas ideias. Enquanto não estreia em sala o seu último filme, "O Cavalo de Turim" (dia 14 de Junho), sugiro a leitura de uma entrevista que deu à Time Out de Londres, na qual Béla Tarr explica porque é que, aos 56 anos de idade, decidiu abandonar a carreira no cinema. O cineasta fundamenta a sua decisão dizendo que já conseguiu fazer o cinema que sempre quis fazer acerca das questões existências: "Um cinema muito simples, muito puro, acerca do peso das nossas vidas e de como acabamos por ficar cada vez mais fracos até desaparecer."
Acrescenta que já não quer, no futuro, arrastar-se por festivais e festivais a revelar um cinema cuja fórmula se repete. Em suma, Tarr está convencido que já mostrou tudo o que tinha a mostrar no cinema e, por isso, retira-se (no auge do reconhecimento artístico internacional) com a consciência de ter concebido uma obra única.
E à semelhança do que acontecia com Andrei Tarkovski, também Béla Tarr atribui uma importância fundamental à ideia de "tempo" no seu cinema, a propósito dos seus longos planos.
Entrevista aqui.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Na morte de Sassetti

Quando morre um grande músico prematuramente (41 anos), poucas palavras sobram para dizer o que quer que seja. Para memória futura, ficam as palavras do próprio Bernardo Sassetti, tão honesto e genuíno nas opiniões que tinha sobre a música:

Jornalista: "As pessoas têm pouca capacidade para distinguir o que é genuíno?"
Bernardo Sasseti: "A oferta é tanta que gera muita confusão. Hoje os objectos só chegam às pessoas em grande volume através de coisas que são extra-artísticas, ligadas ao comércio, à venda, ou à má influência da televisão na venda de discos que são iguais a milhões de outros antes deles. Existem muitos produtos a que se chama música e que não são música. Música é uma procura, e 95 por cento da música que se lança hoje e que se vende é uma repetição de fórmulas. Ao mesmo tempo, a música portuguesa perdeu um lado genuíno. Recorre-se muito à fórmula fácil para chegar às pessoas. Mas será um problema dos artistas, ou será também dos consumidores, que são pouco exigentes?"
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Entrevista conduzida por Alexandra Prado Coelho publicada no Público.















quarta-feira, 14 de março de 2012

A sagacidade de Gonçalo M. Tavares


O escritor Gonçalo M. Tavares tem mais de 20 livros editados (em 10 anos) e está traduzido em 45 línguas. A propósito da edição do seu livro "Aprender a Rezar na Era da Técnica" em Espanha, o jornal El País entrevistou-o e o resultado é, mais uma vez, uma cabal demonstração de sagacidade e de inteligência por parte do escritor.
Com um olhar acutilante e extremamente atento ao mundo que o rodeia, Gonçalo M. Tavares disserta, numa linguagem acessível e objectiva (própria de sábios humildes), sobre os mais diversos temas: a criação literária, a religião, a crise económica, a Europa, o lugar do homem no mundo, a política, etc.
Para além de outras ideias interessantes veiculadas por Gonçalo M. Tavares, do que li ressalta-me na memória uma afirmação que dá que pensar: "Os episódios violentos na Europa não virão com metralhadoras mas sim com leis".
Vale bem a pena ler a entrevista.