sábado, 12 de março de 2011

Livro "A Audiovisão" em português!


Michel Chion é um escritor francês, argumentista, ensaísta, professor, jornalista (colaborador de muitos anos da "Cahiers du Cinéma"), compositor de música experimental e concreta e um especialista no cinema russo.
Michel Chion é, igualmente, uma autoridade mundial na investigação da relação entre a música, o som e as imagens (do cinema), com várias obras de referência publicadas. Tem livros sobre David Lynch, Pierre Henry, Pierre Schaeffer, Jacques Tati, Andrei Tarkovksi, Stanley Kubrick e Terence Malick. Um dos seus textos mais citados é sobre a voz no cinema e suas múltiplas formas de expressão.
Há dois anos, Michel Chion deu uma entrevista à revista Wire na qual explicou todo o seu percurso profissional, as ligações aos músicos que fizeram história, as relações com a tecnologia musical, as metodologias de trabalho e de investigação nas mais diversas áreas, entre outros assuntos interessantes. Nessa entrevista, deu também a conhecer os seus cineastas de eleição: Tati, Tarkovski, Fellini, Malick e Kubrick.
Chion dizia na entrevista que não apreciava particularmente realizadores do chamado "paradoxo audiovisual snobista e da retórica", como Godard. Chion contrapõe dizendo que prefere o cinema puro e realista de Tarkovski, com um sentimento infantil muito mais forte e poético. Creio que foi a primeira vez que li uma opinião negativa referente a Godard vindo de alguém tão especializado em cinema.
Controvérsias à parte, importa referir que a grande notícia tem a ver com o facto que, finalmente, foi editado no mercado livreiro português o grande livro de referência de Michel Chion: "A Audiovisão - Som e Imagem no Cinema".
Trata-se de um magnífico estudo sobre o som e a música no cinema, escrito numa linguagem acessível e nada académica ou hermética (como por vezes é habitual neste tipo de ensaios). Uma obra que se encontra à venda em qualquer livraria e se revela de viciante leitura para o cinéfilo que procure aprofundar um tema tão fascinante quanto este.
Nota: De Michel Chion havia até à data, tanto quanto sei, um único livro em edição nacional (que eu também tenho e recomendo): "Músicas, Media e Tecnologias" (edição Instituto Piaget).

quinta-feira, 10 de março de 2011

Cronenberg na gasolineira


Há não muitos anos atrás (talvez 10 anos, quando o mercado do DVD surgiu em força como artigo de consumo popular), era preciso estar particularmente atento para conseguir comprar filmes de culto.
Em Portugal não havia edições nacionais de filmes de qualidade, de culto, clássicos ou de autor. Era preciso encomendar de sites estrangeiros especializados (Amazon, Criterion, dvdgo.com, entre outros). E quando se conseguia encontrar o "tal" filme, o preço nem sempre era especialmente convidativo (cheguei a comprar edições em DVD por 60€).
Agora tudo mudou. A massificação do DVD e a banalização editorial de filmes leva a que seja extremamente fácil, para qualquer cinéfilo, encontrar bons filmes a preços irrisórios e nos lugares mais improváveis (sim, a Fnac já foi chão que deu uvas).
Digo isto porque hoje, quando pagava o combustível numa gasolineira, deparei-me com uma pequena estante com filmes em DVD à venda. Quase que nem liguei à primeira, porque a experiência dizia-me que este tipo de estabelecimento comercial vendia filmes comerciais sem interesse nenhum.
Só ao segundo olhar me apercebi que estavam à venda, pelo ridículo preço de 1,99€, três grandes filmes: "A Mosca" de David Cronenberg, "O Meu Tio" de Jacques Tati e "Um Peixe Chamado Wanda" de Charles Crichton.
Esta constatação leva-me a uma imediata conclusão: ser cinéfilo coleccionador de DVD, hoje, é uma tarefa muitíssimo mais fácil - e barata - do que há dez anos atrás.

Playtime #49


A solução: "Gertrud" (1964) - Carl Th. Dreyer
Quem descobriu: Álvaro Martins

quarta-feira, 9 de março de 2011

Béla Lugosi vs. Boris Karloff

É um dos momentos mais hilariantes e emblemáticos do grande filme "Ed Wood" (1994) de Tim Burton: Béla Lugosi, no eterno papel de Drácula, aceita assinar um autógrafo a um jovem no intervalo de umas filmagens. Até que se apercebe, numa explosão de raiva, que foi confundido com o actor concorrente, Boris Karloff. Toda a reacção de Béla Lugosi é hilariante, assim como os "paninhos quentes" que Ed Wood coloca para refrear os ânimos do actor.
Para além disso, é um grande momento de cinema, com notáveis interpretações de Martin Landau (ganhou, com total justiça, o Óscar para melhor actor secundário) e Johnny Depp, no papel do tresloucado realizador de "culto".

terça-feira, 8 de março de 2011

Harold Lloyd nos 40 anos da sua morte




Quando falamos de comédia burlesca do cinema mudo invocam-se, inevitavelmente, dois nomes fundamentais: Charles Chaplin e Buster Keaton.
No entanto, há um terceiro artista que raramente é equiparado, em qualidade e prestígio, aos outros dois: Harold Lloyd. Fez cerca de 200 filmes nas décadas de 10 e 20 e desenvolveu um estilo de comédia que misturava Chaplin (o lado desastrado e humanista) e Keaton (pela destreza física na concretização das proezas cómicas). O seu filme mais conhecido foi "O Homem Mosca" (1923), no qual Harold desempenhava impressionantes acrobacias que desafiavam a gravidade.
O seu look aparentemente ingénuo - óculos pretos redondos, chapéu de palha e fato justo - outorgou-lhe uma identidade muito própria.
Hoje comemoram-se 40 anos da morte de Harold Lloyd e, para assinalar a data e a grandeza deste subvalorizado comediante, aqui ficam alguns dos seus melhores momentos (em formato "gag") que marcaram a comédia dos primeiros tempos do cinema cómico americano:
A Fnac tem à venda um pack de DVD com os melhores filmes de Harold Lloyd.

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #12

Clicar na imagem para aumentar.

"Blue Valentine" - Salvar o amor

De quando em vez o cinema independente americano brinda-nos como pérolas como "Blue Valentine" (título retirado de um álbum de Tom Waits).
Um filme que escapa à lógica previsível dos melodramas comerciais de Hollywood e nos revela, com desarmante e cru realismo, o apogeu e a desintegração amorosa vividos por um jovem casal. Dois personagens - superiormente interpretados por Michelle Williams (nomeada ao Óscar) e Ryan Gosling - dão vida a uma relação em que o amor é substituído pela desolação dos sentimentos e pelo desmoronar dos sonhos. Um argumento simples e directo, filmado com total brilhantismo e sem recorrer aos lugares-comuns do género.
Magistralmente bem montado (com flashbacks que se encaixam na perfeição no ritmo narrativo), o realizador Derek Cianfrance construiu, em tons melancólicos e serenos, uma sólida e fascinante história sobre o amor nos tempos modernos. Um amor que se dissolve sem remissão fruto da lassidão do casal, da ausência de entrega, do desnorte causado pela monotonia quotidiana que nem o amor por uma pequena filha pode salvar.
"Blue Valentine" tem como banda sonora a música do grupo Grizzly Bear, que contribui para criar todo o ambiente de encantamento e ruptura emocional que o filme transporta para o espectador.
E como um bom filme termina apenas no fim dos créditos, vale a pena apreciar o notável trabalho gráfico do genérico final, feito de explosões de cores e sons, como que a sublimar as contradições sentimentais por que passou o casal protagonista.
Para já, um dos pequenos-grandes filmes de 2011.

sábado, 5 de março de 2011

Luis Buñuel


Um amigo meu, Gaspar Garção, escreveu, no âmbito da disciplina de Jornalismo, uma brilhante dissertação sobre a vida e obra do realizador espanhol Luis Buñuel, porventura um dos mais consagrados e originais cineastas europeus de sempre. O referido texto foi publicado numa prestigiada revista de cultura do Brasil.
Vale muito a pena ler para quem não conhece muito do trabalho do autor de "Viridiana".
Aqui.

sexta-feira, 4 de março de 2011

Filme de qualidade


Quando era miúdo e passava ao lado da única sala de espectáculos onde se expunham os velhinhos e básicos cartazes de cinema, intrigava-me uma informação que por vezes lia. Naquele tempo, essa única sala de cinema exibia apenas filmes decadentes de kung-fu (se calhar o Tarantino não lhes chamaria assim!) ou de "Western Spaghetti" de terceira categoria. Essa informação a que me refiro diz respeito à designação que na altura gozavam certos filmes: "Filme de Qualidade".
Como referi era um miúdo e o pouco que conhecia de cinema não me permitia retirar conclusões concretas sobre o que era, efectivamente, um "filme de qualidade". Seria um género cinematográfico que se distinguia de todos os restantes? Quais os critérios que definiam e identificavam essa qualidade num filme?
Só com o passar do tempo e algum aconselhamento de amigos mais velhos me apercebi do que significava o selo de qualidade num filme. Selo que há muitos anos deixou de fazer sentido no seio do marketing dos filmes.
Houve, no entanto, um dia em que reparei num filme que ostentava esse selo "Filme de Qualidade" e que mudaria para sempre a minha relação com o cinema: "Apocalypse Now". Os antigos cartazes de cinema, mostrando uma imagem pequena (e muitas vezes degradada) do filme, foram suficientes para me fazerem comprar o bilhete e assistir à reposição da obra-prima de Francis Ford Coppola.
E a verdade é que, a partir do visionamento de "Apocalypse Now", não precisei mais de reparar nas classificações dos filmes para compreender do que falamos quando falamos de um filme de "qualidade".

quinta-feira, 3 de março de 2011

Não há outro filme como este

Discos que mudam uma vida - 134


É um dos meus discos de jazz preferidos de sempre: “The Lounge Lizards” (1981) pelos The Lounge Lizards. Banda de jazz sui generis, constituída por um naipe de notáveis músicos: o saxofonista John Lurie (que viria mais tarde a fazer música para filmes de Jim Jarmusch), o seu irmão Evan Lurie (piano e órgão), o baterista Anton Fier (saído da seminal banda de rock The Feelies) e o guitarrista Arto Lindsay (com experiência no rock subversivo do movimento No-Wave).
Todos construíram um jazz de indiscutível modernidade estética, numa fusão que deve tanto à atitude punk como a Charlie Parker, ao swing ou ao free-jazz. “The Loung Lizards” tem temas curtos e incisivos, de insuspeita criatividade rítmica e melódica, nos quais o saxofone de Lurie toma rédea solta e a guitarra eléctrica assanhada de Arto Lindsay imprime um cunho de inovadora sofisticação estética.

quarta-feira, 2 de março de 2011

Macy é Edmond


O que poderia acontecer se uma cartomante nos dissesse: "Você não pertence a esta vida." O protagonista do filme "Edmond" (2005), um vulgar homem de negócios com uma vida pouco estimulante e monótona, de seu nome Edmond, dá uma resposta possível: perturbado com a sentença, chega a casa, diz à mulher que vai sair para não mais voltar. E assim faz. Começa a deambular pelas ruas de Nova Iorque, cheias de tentações e perigos ao virar da esquina.
Edmond empreende uma viagem existencial à procura de um sentido de libertação espiritual, à procura de sensações de energia e adrenalina que o façam sentir... vivo.
Sexo, crime, violência, desespero, descontrolo emocional - um calvário terreno até à expiação dos pecados finais. Ecoam por esta película uma simbiose de laivos de "Fight Club" ou de "Eyes Wide Shut". É como se Edmond se culpasse por viver uma vida vazia, absorta, ausente.
Edmond é interpretado pelo excelente actor William H. Macy. Aliás, todo o filme é suportado pela performance de Macy.
"Edmond" passou completamente ao lado do panorama cinematográfico de Portugal (nem teve estreia nacional), mas vale a pena conhecê-lo. Fez furor quando, no ano de estreia, passou pelo festival de Sundance.
O realizador Stuart Gordon - conhecido sobretudo pelo singular filme de terror gore "Re-Animator" (1985) -, faz par com o notável argumentista e realizador David Mamet. Mamet sabe contar uma história como ninguém - uma história quase sempre com contornos que desafiam a lógica narrativa habitual, com elementos assaz surrealistas e muito bem engendrados. Nota-se a cada passo que a escrita é de Mamet, nos diálogos truculentos, nas situações narrativas criadas, na sátira social, nas personagens no limite do abismo.
Veja-se este diálogo:
Glenna: You know who I hate?
Edmond: No, who is that?
Glenna: Faggots.
Edmond: Yes, I hate them too. Do you know why?
Glenna: Why?
Edmond: They suck cock. And that's the truest thing you will ever hear.