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terça-feira, 28 de julho de 2015

Documentário: a vez de Brando

E eis que um dos maiores actores de sempre de Hollywood tem direito a um documentário: Marlon Brando. E não é um documentário construído de forma convencional, com depoimentos e entrevistas. Ao longo da sua atribulada vida o actor de "O Padrinho" foi gravando os seus pensamentos no que resultou em mais de 300 horas de gravações. 
O que o realizador Stevan Riley fez foi um trabalho colossal de montagem para reduzir as 300 horas a apenas 1h45. Ou seja, durante todo o filme apenas ouvimos a voz do próprio Brando a falar de mil e uma coisas da sua vida pessoal e artística com imagens de aruivo. Com certeza um dispositivo narrativo original nos documentários modernos.
Chama-se "Listen to Me Marlon".

terça-feira, 9 de setembro de 2014

Hopper Now

"Apocalypse Now" foi dos filmes que mais me impressionou enquanto jovem espectador.  Sobre esse efeito que teve em mim já o referi neste post.
O que queria realçar é que das coisas que mais me impressionaram na obra-prima de Coppola - para além da história e da realização - foram as notáveis interpretações de Martin Sheen, Robert Duvall e Marlon Brando.
Mas a verdade é que há uma tendência para esquecer essa espantosa performance do "louco" fotógrafo interpretada pelo grande Dennis Hopper (ele que na vida real também foi um talentoso fotógrafo). Uma interpretação que surge apenas no último terço do filme mas que impressiona pela sua exuberância, energia e contundência. 
Hopper é um elemento que dá mais substância à loucura da guerra do Vietnam, complementando os delírios do inesquecível Coronel Kurtz (Marlon Brando).

domingo, 3 de agosto de 2014

Scorsese artista aos 11 anos

Que Martin Scorsese é um realizador que recorre sempre ao storyboard, já se sabia. O que não se sabia é que este gosto especial do cineasta pelos desenhos das cenas dos filmes advém desde o tempo de criança. Scorsese sempre revelou talento para o desenho. E, com apenas 11 anos, Scorsese desenhou um storyboard para um filme imaginário com o título "The Eternal City", um épico da época romana ao estilo Cecil B. DeMille. 
Com uns ainda imberbes 11 anos, Scorsese impressiona pelo nível de detalhe plástico destes desenhos e pelos próprios enquadramentos "pensados" para o cinema. Mais: o então ainda jovem cineasta em potência tinha até um elenco perfeito para este filme: Marlon Brando, Richard Burton e Alec Guiness!
Claro que o projecto para o filme "The Eternal City" nunca foi concretizado. Mas fica o registo desta incrível precocidade artística que viria a confirmar-se, posteriormente, na brilhante carreira de um dos maiores realizadores dos últimos 35 anos.

segunda-feira, 6 de agosto de 2012

Tati e Brando

Nunca me teria passado pela cabeça que dois artistas do cinema tão geniais e diferentes como Jacques Tati e Marlon Brando se tivessem, alguma vez, conhecido pessoalmente. Mas esta fotografia tão sugestiva comprova o encontro e a aparente relação afável entre o realizador francês e o actor norteamericano. Facto que me suscita uma pergunta interessante: e se Marlon Brando tivesse sido actor num filme de Jacques Tati?

sexta-feira, 15 de junho de 2012

Marlon Brandon, 1947

Corria o ano de 1947 e um jovem actor de nome Marlon Brandon, tentava a sorte num casting para entrar num filme chamado "Rebel Without a Cause". O argumento estava escrito e Brando, então com apenas 23 anos de idade, tentou a sorte num "sreen test" de 5 minutos. Por qualquer razão, o projecto foi abandonado pelo estúdio e apenas 8 anos depois foi retomado com um novo argumento e... um novo actor: James Dean.
Marlon Brando não entraria no mítico filme de Nicholas Ray que iria imortalizar James Dean como ícone de uma geração. No entanto, logo em 1951, Brando interpretaria a não menos mítica personagem Stanley em "A Streetcar Named Desire" de Elia Kazan. E o resto é história...
Seja como for, é interessante ver este vídeo em que, Marlon Brando, revela e comprova (em apenas 5 minutos) todo o seu imenso talento como actor.
Provavelmente, o melhor actor da história do cinema.

quarta-feira, 13 de junho de 2012

Quando fumar dava estilo

Houve um tempo em que fumar era um acto de puro glamour e estilo. No universo do cinema, os anos dourados para os actores fumadores foram as décadas de 40, 50 e 60. Grandes estrelas ostentavam o cigarro como algo de inseparável nas suas vidas, quer no cinema, quer na dita vida "real". Alguns morreram, precisamente, vítimas do vício, o qual era, no início, exclusivo dos homens, mas que timidamente foi adoptado pelas mulheres (Katherine Hepburn ou Marlene Dietrich são exemplos).
Eis apenas algumas figuras célebres de Hollywood na era em que fumar não prejudicava a fama e o estilo (apenas prejudicava a saúde): Bing Crosby, Burt Lancaster, Errol Flynn, Glenn Ford, Jack Lemmon, James Dean, Marlon Brando e Clark Gable.

quinta-feira, 10 de maio de 2012

Sabemos que no mundo do cinema muitos projectos mudam de mãos. Nesta perspectiva, eis alguns filmes clássicos que quase foram parar a outros realizadores:

- "Breakfast at Tiffany's" de Blake Edwards, quase realizado por John Frankenheimer
- "Harry Potter e a Pedra Filosofal" de Chris Columbus, quase realizado por Steven Spielberg.
- "O Padrinho" de Francis Coppola, quase realizado por Sergio Leone.
- "Tubarão" de Steven Spielberg, quase realizado por Dick Richards.
- "Dune" de David Lynch, quase realizado por Alejandro Jodorowsky.
- "O Exorcista" de William Friedkin, quase realizado por Peter Bogdanovich.
- "Alien" de Ridley Scott, quase realizado por Roger Corman.
- "A Face Oculta" de Marlon Brando, quase realizado por Stanley Kubrick.
- "Jurassic Park" de Steven Spielberg, quase realizado por Tim Burton.
- "Total Recall" de Paul Verhoeven, quase realizado por David Cronenberg.

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Brando e Hepburn na casa de banho


Há dias jantei num restaurante espanhol.

Quando me dirigi à respectiva casa de banho reparei numa singular sinalética de divisão de sexos: uma fotografia de Marlon Brando na porta da casa de banho dos homens e uma fotografia de Audrey Hepburn na porta da casa de banho das mulheres.

Ou seja, uma solução de elementar bom gosto ao nível da diferença de género para uma casa de banho de tendência marcadamente cinéfila.

PS - Teria gostado mais de ver as fotos de e Richard Burton e Elizabeth Taylor.

quarta-feira, 15 de junho de 2011

Entrevistas Póstumas (9) -James Dean

O Homem Que Sabia Demasiado - É um caso único na história do cinema: fez apenas três filmes e tornou-se rapidamente num mito da cultura popular.

James Dean - Nunca procurei ser um símbolo de uma geração, ainda que o filme "Rebeldes Sem Causa" (1955) tenha ajudado a tal. O realizador Nicholas Ray estava sempre a dizer-me que aquele filme iria transformar-me num símbolo de rebeldia juvenil, mas eu nunca quis, conscientemente, assumir tal destaque. A rebeldia da juventude nasceu com o Rock 'n'Roll na década de 50 e mais tarde com o fenómeno Hippie. Eu fui apenas um actor que fiz o melhor nos poucos filmes em que participei.

O Homem Que Sabia Demasiado - E que grandes filmes! O filme "A Leste do Paraíso" (1955) realizado pelo notável cineasta Elia Kazan, é talvez o filme em que "explode" como actor do método do "Actor's Studio" de Lee Strasberg. A sua magnífica interpretação como jovem incompreendido e angustiado, valeu-lhe quase a classificação de génio.

James Dean - Mais uma vez, julgo que é uma classificação desmesurada. É verdade que trabalhei muito para conseguir ter aquela interpretação natural, quase espontânea, com alguma improvisação à mistura. Porém, a direcção de actores de Kazan foi essencial para ter conseguido tirar o máximo de potencial das minhas capacidades.

O Homem Que Sabia Demasiado - No seu filme seguinte, "Giant" (1956), que estreou já depois de ter falecido no trágico acidente de carro, fechou uma espécie de triângulo magistral no universo da interpretação, numa ascensão que parecia imparável.

James Dean - "Giant" foi um filme do qual não gostei muito de participar, ao contrário dos dois anteriores. Durante as filmagens houve um clima constante de guerrilha de estrelas entre Elizabeth Taylor e Rock Hudson e o realizador, George Stevens, não conseguia dar um rumo ao filme, até porque houve sérios problemas financeiros e de produção.

O Homem Que Sabia Demasiado - É verdade que se dizia que Marlon Brando era o seu único rival no que dizia respeito a actores jovens e muito talentosos?

James Dean - Conheci Brando e gostava muito dele. Houve rumores que afirmavam que ambos tínhamos uma relação homossexual, mas era tudo fantasia da comunicação social. Mas respondendo à pergunta: havia outro grande actor que competia, se quiser, pelo lugar de "jovem actor talentoso": Montgomery Clift. Um actor de grande personalidade e potencial.

sexta-feira, 18 de março de 2011

"Me encanta el olor del napalm por la mañana"


Enquanto fazia zapping pelos canais de televisão, passei por um canal espanhol. Estava a passar o filme “Pearl Harbour”. O filme é dispensável (quanto a mim), mas nem foi isso que me chamou a atenção. A questão é que o filme era dobrado em castelhano, coisa a que já não estava acostumado há muitos anos.
Devido ao facto de viver junto à fronteira espanhola, habituei-me, quando era miúdo, a ver filmes nos canais televisivos espanhóis, sobretudo aos sábados à tarde (grandes westerns e filmes de aventuras eu vi pela primeira vez nessas sessões). Espanha possui, há muitos anos, uma verdadeira indústria de dobragem de filmes estrangeiros, com actores profissionais que se dedicam quase em exclusivo a este negócio (é uma arte, mas também um grande negócio). Os defensores das dobragens de filmes de língua estrangeira garantem que é uma forma de salvaguardar a língua e a cultura nacionais. É e não é. A legendagem também promove o exercício da leitura e, acima de tudo, respeita a integridade artística inerente ao trabalho dos actores, dado que a voz de um actor representa um elemento preponderante, e por vezes essencial, da sua interpretação.
Por outro lado, quando via filmes na televisão espanhola, era frequente conhecer as vozes dos actores espanhóis que dobravam estrelas de Hollywood. E não era raro deparar-me com um filme em que o mesmo actor que dobrava Marlon Brando ou Robert De Niro, dobrava também Charles Bronson. Felizmente que em Portugal a legendagem vingou em detrimento da dobragem (esta só se aplica, e bem, a filmes infantis), fenómeno que já vem do tempo do Estado Novo (é estranho como Salazar não optou pela imposição da dobragem, já que era tão defensor dos valores conservadores da cultura nacional - mas diz-se que não o fez por questões meramente económicas).
Em Espanha, no tempo da ditadura de Franco, optou-se pela dobragem para melhor controlar e manipular as mensagens menos convenientes de certos filmes. E a tradição dos filmes dobrados continua em força, mesmo nas estreias na sala de cinema, visto que são poucos os filmes em exibição na versão original.
A dobragem, por melhor que seja feita, acaba sempre por desvirtuar a arte da interpretação e torna-se irritante ver continuamente a dessincronia entre a expressão labial e a fala. Ao fim e ao cabo, será que tem o mesmo efeito ouvir Robert Duvall dizer no “Apocalypse Now” a célebre frase “You smell that? Napalm, son. Nothing else in the world smells like that. I love the smell of napalm in the morning” em inglês, em castelhano, em francês ou em mandarim?

segunda-feira, 7 de fevereiro de 2011

James Dean - O Mito


Um dos mais míticos actores de sempre, James Dean, faria 80 anos, hoje, se fosse vivo. Clássico intemporal, "A Leste do Paraíso" (1955) de Elia Kazan, é um daqueles filmes míticos que marcaram várias gerações.
Baseado no romance homónimo do escritor John Steinbeck, "A Leste do Paraíso" é o primeiro dos três grandes filmes (os outros são "Rebel Without a Pause" e "Giant") que formam o legado cinematográfico de James Dean, o malogrado actor precocemente desaparecido num trágico acidente de viação.
James Dean, com apenas 24 anos, tornou-se rapidamente no ídolo de uma geração com a sua magnética personagem Cal, um jovem rebelde de Salinas Valley que disputa o afecto de um pai pouco atencioso (Raymond Massey) com o seu irmão Aron (Richard Davalos), o filho preferido. Ver hoje o filme de Elia Kazan é testemunhar que os conflitos entre pais e filhos e a consequente desintegração familiar não mudaram assim tanto após mais de 50 anos. James Dean, ele próprio dono de uma personalidade errante e emocionalmente instável, transportou para o filme essa ânsia de viver e de afirmação, confundindo a ficção com a realidade.
A esse propósito, veja-se uma das mais espantosas cenas de "A Leste do Paraíso" (a cena é extraordinária porque prova a intensidade interpretativa de um jovem actor no seu primeiro filme): tentando conquistar o amor do pai, Cal trabalhou para juntar dinheiro e presenteá-lo com o montante que este perdera num negócio. O pai, de forma arrogante e altiva, rejeita a dádiva. Conforme a rejeição do pai progride, os olhos de Cal começam nitidamente a brilhar, o seu tom de voz altera-se, gagueja, sente-se a profunda tristeza e revolta daquele momento. No fim, a cena termina de forma inesperada: no argumento estava escrito que o personagem de James Dean deveria resignar-se e sair de casa.
James Dean improvisa e, imbuído totalmente nas emoções do seu personagem, encosta o pai à parede e abraça-o a chorar em total desespero. O actor Raymond Massey (pai) ficou surpreendido com a reacção de James Dean mas continuou a actuar, dizendo o que estava no guião ("Cal! Cal!").
O realizador Elia Kazan viria mais tarde dizer que, apesar de Dean se ter desviado do guião, acabou por incluir esta cena no filme por causa do intenso momento espontaneamente demonstrado pelo talento do jovem actor.
Um momento que prova a genialidade de James Dean, um actor que, caso não tivesse vivido sempre no fio da navalha e desaparecido antes do tempo, poderia ter sido maior que um Marlon Brando ou um James Stewart.

quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Viva Salinger!


Durante muitos anos ouvi falar deste livro como sendo uma referência de culto para várias gerações. Durante muitos anos li que o seu escritor, J. D. Salinger, se tinha isolado após ter escrito esta obra em 1951. Durante muitos anos ouvi dizer que se tratava de uma obra literária de grande inovação formal e estilística. Só a morte do escritor, em Janeiro deste ano, me despertou, definitivamente, para a leitura de "À Espera no Centeio" ("The Catcher in the Rye"). Atraso após atraso, lá o li este Verão. E em boa hora.
Salinger expôs neste livro uma escrita áspera e rude, mas extremamente fluída e consistente. Uma escrita repleta de humor cáustico sobre a vida de um impulsivo e depressivo adolescente - Holden Caufield - revoltado e em crise existencial. Holden Caulfield, narrador e protagonista desta história, revela-se um jovem angustiado perante as incertezas da sua vida e do seu relacionamento com os outros. Holden é expulso do colégio e foge de casa deambulando por uma Nova Iorque excitante de animação e aventura (o livro foi controverso por fazer uso de muito calão e de ter abordado, sem pudor, episódios sobre sexo promíscuo, drogas, álcool e violência).
"À Espera no Centeio" já não terá o impacto que teve nos anos 50 e 60 (em plena época dos "rebeldes sem causa" de James Dean) mas agora compreendi, após a leitura compulsiva, porque é que continua, ainda hoje a fascinar os leitores (nos EUA vende anualmente 200 mil exemplares). Uma obra de grande fulgor sobre a procura da identidade juvenil, sobre a alienação e a rebeldia.
Curioso o facto deste livro de Salinger ter, alegadamente, inspirado alguns crimes famosos: Mark David Chapman, o assassino de John Lennon, lia este livro minutos antes de disparar contra o músico dos Beatles. O atirador que tentou matar o presidente Ronald Reagan refere que foi inspirado pelo mesmo livro.
Outro aspecto interessante: dado o notável poder visual que este livro emana e a sua inerente importância literária, grandes realizadores e actores tentaram, ao longo de décadas, adaptá-lo ao cinema (ou na realização ou na interpretação do protagonista do livro): Elia Kazan, Billy Wilder, Jerry Lewis, Marlon Brando, Jack Nicholson, John Cusack, Leonardo DiCaprio, Terrence Malick, entre outros.
J.D. Salinger sempre recusou vender os direitos de autor. Agora que o escritor morreu, consta-se que a família descendente pondera cedê-los para levar ao grande ecrã esta fabulosa aventura literária. Seria uma excelente notícia!

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

15 de Agosto de 1979 - Apocalypse Now


No dia 15 de Agosto de 1979 estreava nos EUA "Apocalypse Now", a obra-prima (ou uma das obras-primas) de Francis Ford Coppola. Foi no Festival de Cinema de Cannes desse ano que Coppola proferiu, numa conferência de imprensa, uma das frases mais célebres alguma vez ditas acerca de um filme: "Este não é um filme sobre o Vietname, este filme é o próprio Vietname" (o cineasta referia-se às tremendas dificuldades de realização e de produção deste filme que lhe provocou a ruína financeira, cinco anos de desgaste infernal, tentativas de suicídio, tempestades tropicais que destruíram os cenários, doenças na equipa, ataques cardíacos de Martin Sheen e caprichos infindáveis de Marlon Brando).

Lembro-me como se fosse hoje, mas já foi há mais de 20 anos. Entrei na sala de cinema, num Cine-Teatro outrora majestoso e na altura decadente, e fiquei agarrado à cadeira logo nos primeiros 10 minutos de filme. Era um jovem saído da adolescência e não estava preparado para o impacto emocional que foi ver, em ecrã gigante e numa sala quase vazia, esse monumento chamado "Apocalypse Now".
Não vou discorrer banalidades sobre uma obra-prima já milhentas vezes comentada por críticos de cinema, historiadores e cinéfilos. Mas a história do cinema também é feita das estórias vivenciadas pelos espectadores. E ver o filme de Francis Ford Coppola foi uma dessas fortes experiências. É um filme denso e complexo sobre a guerra e suas motivações, mas é também um filme sobre a negritude da mente humano e da loucura que se apodera dela (ou não fosse o filme inspirado no livro "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad).
A viagem do Capitão Willard (espantoso Martin Sheen) pelo coração da selva do Vietname à procura do Coronel Kurtz (espantoso Marlon Brando), é uma viagem de expiação e de sacrifício. E se me perguntarem qual a voz off mais marcante de toda a história do cinema, só poderei citar a de Martin Sheen, que nos agarra logo quando começa o filme a dizer: "Saigon... shit; I'm still only in Saigon... Every time I think I'm gonna wake up back in the jungle."

Há dezenas de cenas e sequências que poderiam ser abordadas (e não se resumem ao célebre ataque de helicópteros ao som de Wagner), mas o início do filme é especialmente prodigioso, uma conjugação perfeita entre som e imagem. Aliás, é quanto a mim, um dos mais intensos inícios de filme jamais concebidos (7 minutos): o arranque do filme sem créditos, plano fixo das selva, silêncio primeiro, ruído das pás dos helicópteros depois, fumo que surge paulatinamente, voz de Jim Morrison a cantar "This is the End" ao mesmo tempo que vemos explosões de napalm. De seguida, surge o capitão Willard (Sheen) "à espera em Saigão". O desespero patente no rosto de Willard manifesta total desorientação mental e emocional - gestos descoordenados, olhar alienado, bebida e cigarros a rodos, a música dos Doors cada vez mais intensa e poderosa, a deambulação pelo quarto...
De repente, Willard dá um murro no espelho, corta-se, contempla a sua mão ensanguentada, rebola pela cama em choro desesperado, enquanto a música atinge o clímax de intensidade. O incrível é que toda esta intensa sequência foi a última a ser filmada por Coppola (apesar de abrir o filme) e Martin Sheen encontrava-se, na realidade, alcoolizado e à beira do total esgotamento emocional. O que vemos nesta sequência não estava no guião, foi toda improvisada e factual - Sheen não estava a representar, estava realmente a viver aqueles momentos de total desnorte emocional (como que a ressacar de toda a angústia por que passara ao encarnar a personagem Willard). Os assistentes do realizador quiseram interromper as filmagens temendo pela saúde de Martin Sheen, mas Coppola não autorizou. E o resultado é deveras pungente, mais a mais, sabendo que Sheen teve um ataque cardíaco no meio das tempestuosas filmagens.
"Este filme não é sobre o inferno do Vietname, este filme é o próprio inferno do Vietname", dizia Coppola.
Ao rever o filme com a mesma ansiedade da primeira vez, percebe-se porquê. E nem é preciso visionar o filme todo, basta ver a sublime sequência de abertura de peregrinação às trevas da alma:


terça-feira, 20 de julho de 2010

A Lanterna Mágica de Bergman


Gosto muito de auto-biografias. Sobretudo de escritores, músicos, realizadores e actores. No capítulo das auto-biografias de realizadores, há muitos anos li uma auto-biografia que me impressionou particularmente: "O Meu Último Suspiro", de Luís Buñuel, escrita apenas 3 anos antes da sua morte (já falei dela aqui no blogue). A auto-biografia de Charlie Chaplin, Marlon Brandon e Andrei Tarkovski (este último não é bem no registo de auto-biografia convencional) também constituem fascinantes e derradeiros testemunhos de vida e de percurso artístico.
A última auto-biografia interessante que li é a do cineasta sueco Ingmar Bergman, intitulada "Lanterna Mágica". E surpreendeu-me a vários níveis: muitíssimo bem escrito, "Lanterna Mágica" ultrapassa o habitual registo de apontamentos biográficos, provando que uma auto-biografia pode ser, também, uma inequívoca obra literária. Ingmar Bergman escreve de forma extremamente sóbria e pragmática, com ironia e finura estilística. Quase como se fosse um romance.
Para meu espanto, aborda pouco a sua carreira como cineasta, interessando-se mais por contar o seu irregular (mas nem por isso menos importante) percurso como encenador de teatro. E escreve, sem pejo nem constrangimentos, sobre os mais diversos acontecimentos da sua vida: desde os amores e desamores com as mulheres, a primeira vez que se masturbou (!), as inúmeras doenças que o atormentaram desde cedo (enxaquecas, cólicas renais...), a relação difícil com o pai autoritário, a sua admiração juvenil por Hitler, a sua visão da crítica de teatro, a sua forte ligação com os actores com quem trabalhava, os altos e baixos da sua carreira (despedimentos, humilhações, prémios, consagrações...), etc.
Um verdadeiro manual para conhecer, muito mais a fundo, a obra e a vida de um dos grandes realizadores de cinema do século XX.
PS - Este livro está à venda, a um preço de promoção, na Fnac.

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Dobragem vs legendagem


Devido ao facto de viver junto à fronteira espanhola, habituei-me, quando era miúdo, a ver filmes nos canais televisivos espanhóis, sobretudo aos sábados à tarde (grandes westerns eu vi pela primeira vez nessas sessões). Espanha possui, há muitos anos, uma verdadeira indústria de dobragem de filmes estrangeiros, com actores profissionais que se dedicam quase em exclusivo a este negócio (é uma arte, mas também um negócio). Os defensores das dobragens de filmes de língua estrangeira garantem que é uma forma de salvaguardar a língua e a cultura nacionais. É e não é.
A legendagem também promove o exercício da leitura e, acima de tudo, respeita a integridade artística inerente ao trabalho dos actores, dado que a voz de um actor representa um elemento preponderante, e por vezes essencial, da sua interpretação. Por outro lado, quando via filmes na televisão espanhola, era frequente conhecer as vozes dos actores espanhóis que dobravam estrelas de Hollywood. E não era raro deparar-me com um filme em que o mesmo actor que dobrava Marlon Brando, dobrava também Chuck Norris (é um exemplo caricato, mas deveras real).
Felizmente que em Portugal a legendagem vingou em detrimento da dobragem (esta só se aplica, e bem, a filmes infantis), fenómeno que já vem do tempo do Estado Novo (é estranho como Salazar não optou pela imposição da dobragem, já que era tão defensor dos valores conservadores da cultura nacional). Em Espanha a tradição dos filmes dobrados continua em força, mesmo nas estreias na sala de cinema – são poucos os filmes em exibição na versão original.
A dobragem, por melhor que seja feita, acaba sempre por desvirtuar a arte da interpretação e torna-se irritante ver continuamente a dessincronia entre a expressão labial e a fala. Ao fim e ao cabo, será que tem o mesmo efeito ouvir Robert Duvall dizer no “Apocalypse Now” a célebre afirmação “You smell that? Napalm, son. Nothing else in the world smells like that. I love the smell of napalm in the morning” em inglês, em castelhano, em francês ou em mandarim?

sábado, 29 de maio de 2010

Dennis Hopper - RIP

Sobre Dennis Hopper escrevi alguns posts.
Não era um actor genial, não conseguiu ter uma carreira contínua de grandes interpretações, nem alcançou a estatura artística de um Marlon Brando, de um Jack Nicholson ou de um Al Pacino. Mas Dennis Hopper foi, em momentos determinantes do seu percurso, um actor de grande fulgor criativo.
Um actor que conseguiu imprimir um cunho de autêntico culto em alguns filmes chave da história do cinema. Porém, por causa dos excessos que cometeu - drogas, escândalos e alcóol -, a sua carreira foi marcada por um profundo balançar entre o sucesso e o total esquecimento. Devido a esses mesmo excessos, o próprio Dennis Hopper chegou a dizer: "I should have been dead ten times over. I believe in miracles. It’s an absolute miracle that I’m still around.”
Mais do que a sua marca essencial em "Easy Rider" ou "Blue Velvet", recordarei para sempre este actor como o louco fotojornalista em "Apocalypse Now" de Coppola.

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Perguntas indiscretas - 20

Se pudessem convidar um actor e uma actriz - de qualquer época histórica do cinema - para jantar, quem escolheriam?
Começo eu:
Actor - Marlon Brando

Actriz - Ingrid Bergman

terça-feira, 26 de janeiro de 2010

A revolta de James Dean


Um clássico intemporal, "A Leste do Paraíso" (1955) de Elia Kazan, é um daqueles filmes míticos que marcaram várias gerações. Baseado no romance homónimo do escritor John Steinbeck, "A Leste do Paraíso" é o primeiro dos três grandes filmes que formam o legado cinematográfico de James Dean, o malogrado actor precocemente desaparecido num trágico acidente de viação.
James Dean, com apenas 24 anos, tornou-se rapidamente no ídolo de uma geração com a sua magnética personagem Cal, um jovem rebelde de Salinas Valley que disputa o afecto de um pai pouco atencioso (Raymond Massey) com o seu irmão Aron (Richard Davalos), o filho preferido. Ver hoje o filme de Elia Kazan é testemunhar que os conflitos entre pais e filhos e a consequente desintegração familiar não mudaram assim tanto após mais de 50 anos. James Dean, ele próprio dono de uma personalidade errante e emocionalmente instável, transportou para o filme essa ânsia de viver e de afirmação, confundindo a ficção com a realidade.
A esse propósito, veja-se uma das mais espantosas cenas de "A Leste do Paraíso" (a cena é extraordinária porque prova a intensidade interpretativa de um jovem actor no seu primeiro filme): tentando conquistar o amor do pai, Cal trabalhou para juntar dinheiro e presenteá-lo com o montante que este perdera num negócio. O pai, de forma arrogante e altiva, rejeita a dádiva. Conforme a rejeição do pai progride, os olhos de Cal começam nitidamente a brilhar, o seu tom de voz altera-se, gagueja, sente-se a profunda tristeza e revolta daquele momento. No fim, a cena termina de forma inesperada: no argumento estava escrito que o personagem de James Dean deveria resignar-se e sair de casa. James Dean improvisa e, imbuído totalmente nas emoções do seu personagem, encosta o pai à parede e abraça-o a chorar em total desespero. O actor Raymond Massey (pai) ficou surpreendido com a reacção de James Dean mas continuou a actuar, dizendo o que estava no guião ("Cal! Cal!").
O realizador Elia Kazan viria mais tarde dizer que, apesar de Dean se ter desviado do guião, acabou por incluir esta cena no filme por causa do intenso momento espontaneamente demonstrado pelo talento do jovem actor. Um momento que prova a genialidade de James Dean, um actor que, caso não tivesse vivido sempre no fio da navalha e desaparecido antes do tempo, poderia ter sido maior que um Marlon Brando ou um James Stewart.

quarta-feira, 16 de dezembro de 2009

Erro fatal: dobragem


Carlos Saura (na imagem), um dos mais veteranos e respeitados realizadores espanhóis, disse numa entrevista ao diário ABC, que o maior erro do cinema espanhol foi a opção pela dobragem de filmes estrangeiros. Refere que esta opção, que já tem décadas, leva a que pessoas menos atentas julguem que alguns filmes ingleses e franceses são espanhóis.
Carlos Saura defende que a dobragem impede a aprendizagem natural de uma língua estrangeira e que Espanha deveria seguir o exemplo de França, país que praticamente não dobra filmes (a não ser os filmes de animação para crianças, tal como no nsso país). De facto, Saura também poderia dar o exemplo de Portugal, que sempre legendou filmes e séries de televisão.
Eu vivo há muitos anos perto de Espanha e durante muito tempo, sobretudo na adolescência, habituei-me a ver filmes na televisão espanhola. Mas a partir de um dado momento, começou a fazer confusão na minha cabeça ouvir a mesma voz espanhola que dobrava Al Pacino ser a mesma que dobrava Jack Nicholson ou Marlon Brando. Para além de desvirtuar uma componente importante da interpretação de um actor ou actriz - a voz - a dobragem é, deveras, um sistema contraproducente, até porque deturpa a identidade artística de uma obra fílmica. Ao invés, o sistema de legendas exercita a leitura da língua-mãe ao mesmo tempo que se interioriza a voz da língua original (na interpretação original do actor).
A verdade é que em Espanha institucionalizou-se uma verdadeira e rentável indústria de dobragem de filmes e séries, com actores famosos e profissionais que se dedicam apenas a esta função. E agora já é tarde para voltar atrás... Felizmente que em Portugal fomos um bom exemplo nesta faceta.