Finalmente vi "Samsara".
As expectativas eram elevadas, depois da alta fasquia artística conseguida com "Baraka" (1992). Ron Fricke, o realizador, aprendeu tudo quando trabalhou - como director de fotografia - com Godfrey Reggio na fantástica trilogia Qatsi (já por diversas vezes comentada neste blogue).
As expectativas eram altas porque "Samsara" demorou 5 anos a ser concluído e foi filmado em 25 países diferentes. Mas, quanto a mim, as expectativas não foram alcançadas. Depois de ver o filme uma frustrada sensação invadiu o meu espírito. Visualmente e esteticamente, "Samsara" é de uma notável beleza plástica, mas pouco mais há de novo. Ron Fricke limitou-se a filmar sequências da natureza e das mais variadas culturas do planeta (do Oriente ao Ocidente) sem coerência. "Koyaanisqatsi" ou "Baraka" tinham um fio condutor, uma montagem rigorosa e exigente. "Samsara" parece andar à deriva, salta abruptamente de imagem para imagem sem aparente nexo. Daí que o ritmo se ressinta, visto que a própria música não ajuda.
Apesar de gostar muito do trabalho de Lisa Gerrard (Dead Can Dance) e de Michael Stearns, a verdade e que a música de "Samsara" quase nunca consegue estabelecer uma relação efectiva com as imagens (ou vice-versa). Ao contrário do irrepreensível trabalho de Philip Glass na trilogia Qatsi, aqui a música não impõe uma coerência ao discurso visual, parecendo mera decoração de fundo. A título de exemplo, a toada ambiental predomina em 80% do documentário e só ao fim dos primeiros 40 minutos de filme houve uma sequência musical com ritmo (para contrastar com os 39 minutos anteriores).
Não há dinâmica, não há um climax e um anti-climax, não há surpresa nem originalidade em tudo o que "Samsara" apresenta (toda a estética é devedora da herança Qatsi). Minto: houve uma sequência verdadeiramente nova e inquietante que me deixou surpreendido - o momento de uma performance impressionante do francês Olivier de Sagazan chamada "Transfiguration" (que pode ser vista aqui). Tirando essa sequência de grande impacto, nada mais me entusiasmou.




