quarta-feira, 23 de novembro de 2011

"O Guia de Cinema do Depravado"


Slavoj Žižek, filósofo e psicanalista esloveno, é considerado um dos pensadores mais heterodoxos e estimulantes da actualidade. Filósofo e psicanalista, professor convidado em diversas universidades da Europa e dos Estados Unidos, Žižek é até considerado (por vezes num sentido pejorativo) uma espécie de “estrela mediática” do pensamento contemporâneo. É autor de uma vasta bibliografia (traduzida em 20 línguas) sobre os mais diversos temas, com um especial enfoque no cinema. É por esta faceta que me interessei por este teórico.

De Slavoj Žižek tenho apenas o livro “Lacrimae Rerum - Ensaios Sobre Kieslowski, Hitchcock, Tarkovski e Lynch”, obra que não consegui ler até ao fim (defeito meu, talvez) por ser tão hermética na sua abordagem ensaística. Gosto dos quatro realizadores referenciados nesta obra e gostei de ler a visão psicanalítica que Žižek tem do cinema de David Lynch. Aprecio também o seu peculiar sentido de humor e a sua inequívoca inteligência. Porém, no livro referido, já não consegui compreender o que o filósofo vê na obra dos outros 3 cineastas. Apesar de defender que pretende, com as suas análises, “tornar as coisas claras”, a verdade é que eu acho que, em muitos textos seus, as torna ainda mais complicadas. A linguagem técnica utilizada – formatada pela filosofia analítica e pela psicanálise – não é de fácil apreensão pelo comum dos mortais não iniciados na matéria.

Isso não significa que não queira ver – quero muito, mas ainda não tive oportunidade – o documentário que editou em 2006: “O Guia de Cinema do Depravado”, um filme estruturado em 3 partes com 150 minutos de duração, no qual Žižek tenta desmontar a linguagem escondida por detrás de filmes como “Matrix” ou os clássicos de Hitchcock.
Temo é que depois de ver o documentário acabe por ficar algo frustrado (como aconteceu com o livro), coisa que não aconteceu (muito pelo contrário) com os documentários narrados por Martin Scorsese sobre o cinema italiano e americano.

terça-feira, 22 de novembro de 2011

O Homem Que Sabia Demasiado - 4 anos



Faz hoje 4 anos que abrir o blogue O Homem Que Sabia Demasiado. O balanço geral é bastante positivo. Foram 4 anos de intensa actividade, sobretudo em 2008 e 2009, com uma média louca de 90 posts por mês (o máximo foram 110 publicações em Março de 2010!). Em 2011, e sobretudo nos últimos meses, sinto que essa intensa actividade tem diminuído consideravelmente. A verdade é que, apesar de algum reconhecimento no meio da blogosfera (fui novamente nomeado para Melhor Blogue Individual para os TCN Blog Awards 20111), o entusiasmo de escrever sobre o mundo da cultura que me interessa, foi decaindo ao longo do tempo. Sinto que há um fim para tudo.


Nos últimos meses tenho tido uma média escassa de 30 posts por mês, e pela primeira vez, houve até dias em que não publiquei nada. Não que a quantidade de informação signifique qualidade, mas...A vida pessoal e profissional, aliada a uma certa falta de inspiração que me permita manter o nível elevado de quantidade e qualidade de publicações, origina uma certa letargia que não sei onde pode vir a parar (o número de comentários também tem diminuído, pelo que não consigo avaliar, em rigor, o nível de interactividade que este blogue suscita).


Não quero que este blogue entre num processo paulatino de decadência, e preferia acabar já com ele, agora que ainda mantém alguma dignidade, do que arrastar-me por lamacentas e desinteressantes publicações só para dizer que estou activo na blogosfera. Não faria sentido. Temo repetir-me, temo baixar o nível de qualidade. Mas por outro lado, tenho respeito pelos quase 500 seguidores e outros leitores fidedignos ou ocasionais deste blogue, e por isso não tenho esmorecido. No entanto, compreendo a decisão do Álvaro Martins, autor de um dos mais interessantes blogues de cinema, Preto e Branco, que resolveu fechar o seu espaço na blogosfera por, em parte, ter sentido um certo esgotamento e cansaço.


Muito honestamente, não sei se este espaço na internet se manterá vivo (e com a mesma vivacidade, diga-se) para chegar ao seu quinto aniversário. O tempo dirá o que vai acontecer, mas por enquanto vou-me esforçando para me manter por cá.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Cartazes minimalistas

Adoro este conceito de cartazes minimalistas de cinema. Em termos da criatividade ao nível do design e da qualidade plástica e visual (e até de comunicação) são muito melhores e mais belos do que os cartazes conhecidos.

Só que não são, digamos, "comerciais".





Um grande filme de 1928



Henri Langlois, famoso director da Cinemateca Francesa, afirmou em 1953 que este filme tinha uma "riqueza técnica extraordinária". E cineastas da grandeza de um Jean Vigo e de um Carl Dreyer manifestaram a sua profunda admiração pela atmosfera poética desta obra do realizador francês Jean Epstein (1897 - 1953).
A obra em causa é uma célebre adaptação de um conto de terror gótico do escritor Edgar Allan Poe: "A Queda da Casa de Usher". Uma história de uma sinistra casa isolada no meio de lagos na qual vivem um lorde (Roderick Usher) obcecado pela sua mulher. O filme foi realizado no período de ouro do cinema mudo (1928) e, apesar da inequívoca originalidade e qualidade da obra, foi mal compreendido na época.


Filme de grande beleza plástica, de efeitos e metáforas visuais de grande impacto (câmara lenta, fotografia de sombras, cenas oníricas...) , "A Queda da Casa de Usher" (que Roger Corman recriaria em 1960 com Vincent Price como protagonista) é ainda considerado um marco do cinema de vanguarda dos anos 20. Jean Epstein, amante de filosofia, de poesia, oriundo de famílias aristocráticas e de grande cultura, foi também claramente influenciado pelo surrealismo e pelas teorias estéticas do russo Dziga Vertov. Esta obra permanece como uma das melhores adaptações cinematográficas do universo de Edgar Allan Poe, seja pela criatividade expressa no estilo abstracto da narração, seja pela prodigiosa utilização da imagem, da iluminação, dos enquadramentos ou dos jogos de montagem, que conferem ao filme uma atmosfera poética admirável, carregada de surrealismo e onirismo psicológico. De referir que o realizador espanhol Luis Buñuel foi assistente de realização neste filme, experiência que o terá levado a fazer a curta-metragem "Un Chien Andalou" (1928).

Um dos mais formidáveis filmes mudos da história do cinema, "A Queda da Casa de Usher" é um belo manifesto da arte poética e visualmente expressiva que é o cinema, numa obra plena de segundos sentidos, de um formalismo fascinante e de uma atmosfera perturbadora. Para comprovar esta teoria, basta apreciar estes escassos minutos de um excerto do filme (com música original de Stephan Micus):

domingo, 20 de novembro de 2011

Toda a música dos Beatles... numa faixa


Com a tecnologia digital e de produção musical existente hoje em dia tudo é possível. Até reunir as 226 canções que os Beatles compuseram em toda a sua carreira e reuni-las numa só faixa. Para quê? Basicamente, para ouvir como soam todas essas canções misturadas ao mesmo tempo. Apesar da ideia de juntar muitas músicas numa só já não ser original, a verdade é que a iniciativa de misturar, rigorosamente, todas as músicas da banda de Liverpool deveu-se a um tal DJ Ramjac.
Ao longo dos 8 minutos que a faixa dura, conseguimos identificar diversas músicas dos Beatles, mas a partir do meio deste trabalho impressionante, a massa sonora adquire contornos totalmente indistintos e até violentos. Basicamente, aquele ruído todo é o resultado da junção das tais 226 canções dos Beatles. Certamente uma ideia que agradaria a grandes aventureiros da música contemporânea de vanguarda como John Cage ou Karlheinz Stockhausen.
E claro que o título desta experiência só podia ser um: "All Together Now" (título de uma música dos Beatles e que atribui sentido conceptual a este trabalho de DJ Ramjac).
Eis o link.

Kubrick e a fotografia


Adoro fotografias de bastidores de filmes. Vendo estas fotos podemos pressentir o ambiente existente durante a rodagem de um filme, descortinar pequenos pormenores, compreender a dinâmica de uma rodagem.
Por outro lado, estas fotografias de produção revelam momentos de genuína espontaneidade. É o caso desta fotografia específica.
Trata-se de uma magnífica imagem que capta o momento de uma pausa durante a filmagem do filme "The Shining" (1980) de Stanley Kubrick. Nesta fotografia, tirada pelo próprio realizador, vemos Kubrick abraçado à sua filha e a disparar para o espelho da casa de banho do filme, com Jack Nicholson em primeiro plano desfocado e, do outro lado, um operador de câmara a preparar a cena seguinte (não esqueçamos que Kubrick começou a sua carreira profissional como fotógrafo).
Notável imagem, de facto.

sábado, 19 de novembro de 2011

Hitch: as cenas recriadas

Em 2008, a famosa revista de moda Vanity Fair levou a cabo uma notável produção fotográfica que recriou cenas célebres de filmes de Alfred Hitchcock. Na altura, este trabalho fotográfico foi muito elogiado, não só pelo primor e qualidade da produção em si, como pelo respeito e fidelidade ao imaginário visual dos filmes do mestre do suspense. Para além disso, todas as fotos recriadas tinham actores e actrizes da constelação maior de Hollywood.
Das onze fotografias, as duas que gostei mais, aquelas que, quanto a mim, melhor reproduziam as cenas dos filmes clássicos de Hitchcock, são as que se referem ao filme "Psycho" (com a actriz Marion Cotillard a fazer de Janet Leigh):
E "The Birds" (com Jodie Foster a fazer de Tippi Hedren):
Para ver (ou rever) as restantes fotografias com outras cenas dos filmes de Hitch, é favor carregar neste link.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

"O Cavalo de Turim" - O fim de tudo


O realizador húngaro Béla Tarr afirmou que "O Cavalo de Turim", Urso de Prata no Festival de Berlim, representa o último filme da sua carreira, justificando que já nada mais tem a fazer e a dizer com o seu cinema. Depois de ver o filme, concordo com ele (mesmo considerando que, em 2007, realizou uma obra-prima chamada "O Homem de Londres"). Depois deste filme, Béla Tarr não tem de provar mais nada, não tem necessidade de revelar, uma vez mais ao mundo, a sua mestria, a sua visão inigualável do cinema.

Durante 146 minutos, o espectador fica submerso perante a belíssima - e ofuscante - fotografia, hipnotizado pela música repetitiva, preso à vida rotineira do pai, da filha e do cavalo no campo, isolados de tudo e de todos. Pai e filha vivem do que transportam numa velha carroça e esperam durante 6 dias que o cavalo doente recupere para retomarem as actividades que os sustentam. O quotidiano é marcado por raras frases e acções monótonas sob uma ténue luz e dolorosos actos repetitivos. Mas é nesses momentos monótonos onde, aparentemente, nada acontece de diferente, que Béla comunica com o espectador. Tarr dá ao espectador tempo para observar e para pensar, porque este filme está repleto de ideias filosóficas, apesar da suposta banalidade narrativa.
É um filme perturbador pela aparente simplicidade formal, de uma grande exigência para o espectador comum: uma obra feita de pequenos detalhes visuais, de longos e hipnóticos movimentos fluidos de câmara, da crescente desagregação da relação entre pai e filha, da metáfora pessimista sobre o estado da humanidade (a partir de um episódio verídico protagonizado por Nietzsche), dos ruídos e silêncios, da escuridão súbita, do som do tenebroso vento constante... Tudo isto e muito mais é "O Cavalo de Turim", um filme de uma intransigência estética sem paralelo no cinema actual, de um radicalismo irredutível, de uma beleza plástica sufocante, de um estilo narrativo minimalista que desconstrói a forma convencional de olhar para imagens em movimento.

Béla Tarr arquitectou um filme sobre o fim dos tempos, o vazio absoluto, um mergulho angustiante no coração das trevas mais profundas. Não há violência, não há terror, não há sangue; mas em casa imagem, em cada plano e movimento de câmara, pressente-se um terror insano, um desassossego da alma, uma sensação absoluta de solidão que nos leva ao âmago da essência da existência: ou seja, ao Nada. Todo o filme é assolado por uma espécie de caos calmo, pela proximidade fétida da morte, num mundo sem esperança e sem Deus, que vai varrendo os restos de humanidade daquelas personagens. Um vizinho do velho diz-lhe: "A decadência do mundo foi provocada por seres maus, que tudo dominam, sem interferência de Deus. Os seres bons foram derrotados, ninguém mais os protege. Tudo está decadente, podre, em total desmoronamento. O fim está próximo”. Ver "O Cavalo de Turim" é sentir essa experiência-limite, quase física, quase abstracta, quase claustrofóbica, que provoca e incomoda, mas que não deixa ninguém indiferente.

Aquando da exibição do filme no Brasil, a produtora de Béla Tarr, Juliette Lepoutre, avisou a plateia: “O que vocês vão ver não é um filme, mas uma experiência de vida”. Se este é mesmo o último filme de Béla Tarr, então deixou ao mundo um "experiência de vida", em forma de testamento monumental, um objecto estético cujo conceito ultrapassa o do "cinema." Esta é já uma outra linguagem, outra força expressiva, bruta e complexa, que desafia e desconcerta, um olhar profundo sobre a essência das coisas que nem Tarkovsky ou Dreyer alguma vez conseguiram almejar.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

5 ideias do cinema hitchcockiano


Segundo defende o crítico Robin Wood no seu livro "Hitchcock's Films Revisited", o cinema de Alfred Hitchcock centra-se em cinco principais ideias ou elementos:

1- O Falso Acusado
2 - A Mulher Culpada
3 - O Psicopata
4 - Espionagem e Intriga Internacional
5 - O Casamento
____
Confesso que concordo, sem pestanejar, com os primeiros quatro tópicos, mas fiquei a pensar na justificação em relação ao quinto...

Saul Bass e "Psycho"

Saul Bass, lembrado num post mais em baixo a propósito de um livro sobre o autor, desenhou com grande rigor o storyboard da cena mais famosa do mítico filme "Psycho" (1960) de Alfred Hitchcock. Depois da morte do realizador, Saul Bass veio dizer que foi ele próprio a filmar esta sequência seguindo, milimetricamente, o storyboard que concebera. Mas ao que parece, não foi bem assim, já que há 'frames' do filme que não constam no esboço de Bass.

Seja como for, a verdade é que se trata de um momento histórico e marcante do cinema de Hitchcock, muito por culpa da criatividade visual de Saul Bass.
(Clicar na imagem para aumentar)

terça-feira, 15 de novembro de 2011

Gus Van Sant sobre Béla Tarr

Já se sabia que o realizador Gus Van Sant nutria uma especial admiração pelo cinema do húngaro Béla Tarr. Prova desta profunda admiração são os filmes "Gerry", "Elephant" e "Last Days", realizados sob a clara influência estética de Tarr.
Ora, o que eu nunca tinha lido era um artigo do próprio Gus Van Sant a explicar porque é que considera Béla Tarr um dos raros cineastas visionários da modernidade. Esse artigo foi escrito em 2001 a propósito de uma retrospectiva do cinema do realizador húngaro no MoMA (EUA).
Eis o artigo de Gus Van Sant a explicar a sua veneração.

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Sophie e Henry: o peso dos apelidos

Eis dois casos bem sucedidos que comprovam o adágio popular que diz "filho de peixe sabe nadar": dois jovens filhos de grandes talentos artísticos (cujos apelidos dizem tudo). Por um lado, Henry Hopper, filho do grande actor de culto Dennis Hopper. Tem apenas 21 anos e é actualmente a estrela do novo filme de Gus Van Sant ("Restless").
Sophie Auster, 23 anos, por seu lado, carrega a responsabildiade do apelido do pai, Paul Auster, um dos grandes escritores norte-americanos vivos. Entrou pela primeira vez num filme aos 8 anos mas é a música que a tem submetido debaixo dos holofotes internacionais. Editou um álbum há uns anos, está a caminho de lançar um segundo e esteve há dias no Estoril & Lisbon Film Festival a mostrar o ar da sua graça.
Duas jovens promessas, repletas de potencial, criatividade e beleza que, certamente, com o futuro exigente das suas carreiras, irão honrar os pesados apelidos que ostentam.
Henry Hopper
Sophie Auster

Jelonek

Já não é original juntar heavy metal e instrumentos eruditos como cordas de orquestra (violino e violoncelo). Mas a forma como o violinista polaco Jelonek pratica esta mesma fusão é algo que me agrada sobremaneira. Mais a mais, porque recorre a imagens do clássico "Nosferatu" (1922) do realizador Murnau para complementar a música:

sábado, 12 de novembro de 2011

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #33

Clicar na imagem para aumentar.

Saul Bass e o livro definitivo



O Ípsilon dá conta da edição de um livro definitivo e completo sobre a obra de um dos mais influentes designers e criadores visuais do século XX: Saul Bass (1920 - 1996).
Projectado por Jennifer Saul Bass, sua filha e escrito pelo historiador Pat Kirkham, que conhecia Saul Bass, o livro "Saul Bass: A Life in Filme & Design" contém mais de 1.400 ilustrações, muitas do arquivo do próprio Bass e que nunca antes foram publicadas. Este é estudo definitivo é ansiosamente aguardado pelos entusiastas do design e do cinema.

Saul Bass foi tão famoso pelo seu trabalho em filmes como nas artes gráficas no mundo da publicidade. Com um estilo visual muito próprio, Bass criou alguns dos trailers e posters mais famosos e engenhosos de sempre para filmes de Alfred Hitchcock, Otto Preminger, Carol Reed ou Martin Scorsese (o último cineasta com quem trabalhou).

Por enquanto, esta obra encontra-se à venda na Amazon por cerca de 44 dólares.

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Coppola e a "lavagem cerebral"


Francis F. Coppola sempre se assumiu, ao longo da sua já longa carreira, como um orgulhoso outsider face ao sistema de Hollywood. Mesmo quando esse sistema lhe financiou alguns dos seus filmes mais ambiciosos. Um autor dentro da indústria, portanto. Por isso criou a sua própria produtora independente, a Zoetrope, ainda que tenha ido à falência após o fracasso comercial (mas não artístico) do filme “Do Fundo do Coração” (1982).

Recentemente, o cineasta de “Apocalypse Now” deu mais uma beliscadela ao sistema da indústria ao referir que "Hollywood não tem feito mais do que uma 'lavagem cerebral' aos espectadores com filmes que são todos idênticos, que não ousam nem arriscam".

Tirando algum exagero nesta crítica, Coppola não deixa de, genuinamente, gerar controvérsia e provocaar alguma reflexão. É que, "lavagem cerebral no cinema", seria um promissor e profícuo tema para um dissertação académica.

quinta-feira, 10 de novembro de 2011

Flamenco + Índia: Anoushka Shankar

A filha do grande músico Ravi Shankar, Anoushka Shankar, acaba de editar um novo álbum. Intitula-se "Traveller" e junta a tradição musical da Índia (a incomparável sonoridade do Sitar, instrumento do qual Anoushka é magistral intérprete) com o Flamenco espanhol. Pode parecer estranha esta fusão do timbre especial do Sitar com a guitarra flamenca, o sapateado e o canto tradicionais do Flamenco, mas a verdade é que - tal como Anoushka conta neste vídeo - há mais semelhanças entre ambas culturais musicais do que se possa, à primeira vista, imaginar.

O álbum conta com a participação de várias figuras cimeiras do actual panorama do Flamenco e ainda com a prestação vocal de Concha Buika, uma das cantoras da nova geração mais respeitadas internacionalmente. Do que já ouvi gostei bastante.

Ah, e o disco "Traveller" é editado pela consagrada editora Deutsche Grammophon!

quarta-feira, 9 de novembro de 2011

Dead Can Dance e o poder das imagens

O realizador (e músico) Laurent Boutonnat realizou este videoclip para uma das mais populares cantoras pop francesas dos últimos anos, Milène Farmer. Corria o ano de 1989 (Fevereiro) e a música chamava-se “Sans Logique”. A música é perfeitamente banal e dispensável, mas o videoclip não é. Não só porque demorou 3 dias a filmar e custou 200 mil euros. Também porque se trata de um belíssimo videoclip, com uma boa fotografia, montagem e realização, mas não faz jus à canção pop de Milène Farmer (a ruiva que surge no vídeo).

O interessante é que descobri uma versão deste videoclip com música dos Dead Can Dance. E a verdade é que, depois de ver o videoclip com o belíssimo tema “Persophene” ficamos com a firme convicção de que as imagens foram pensadas, quase segundo a segundo, para a música dos Dead Can Dance. Nada mais errado. Mas o facto é que alguém teve a intuição e a sensibilidade de encaixar a notável música dos DCD neste videoclip e o resultado final (música + imagens) é assombroso. É a prova de que uma simples alteração na dicotomia entre imagem e música atribui logo uma conotação totalmente diferente face ao produto original.

terça-feira, 8 de novembro de 2011

O final com lágrimas

Em conversa com um amigo sobre que finais de filmes nos fizeram chorar, houve vários títulos apresentados: "As Pontes de Madison County", "A Vida É Bela", "Ladrões de Bicicletas", "Dead Poet Society", "A Lista de Schindler", etc. Não é que eu tenha um coração duro, mas geralmente controlo muito as reacções emotivas nos finais dramáticos de certos filmes. Mas confesso que há um filme cujo final me provocou uma lágrima ao canto do olho: "About Schmidt" (2002) de Alexander Payne.
A história (que se lixem os spoilers!) é a de um velho reformado (soberbo Jack Nicholson) que parte em viagem de reconciliação pela América após enviuvar. Nunca encontrou um sentido digno para a vida, nunca se sentiu realizado no emprego banal e as suas relações familiares foram sempre falhadas.
Até que resolve ajudar uma criança africana órfã chamada Ndugu de 6 anos, enviando-lhe dinheiro. Na última sequência do filme, o velho reformado abre a carta do rapaz que ajudara e lê o que a freira da instituição escreveu. Visto que Ndugu não sabia escrever, fez-lhe um desenho. Quando o reformado abre o desenho, desata a chorar. A cena é deveras comovente e tocante, pela espontaneidade, pela forma como expressa profundo humanismo e sentimento. Aquele desenho ingénuo representava, finalmente, um sentido para a vida de Schmidt. Quem não se comoveu com esta cena, é porque no lugar do coração tem uma pedra (claro que convém ver o filme integralmente para melhor compreender a cena final).
Belíssimo e espantoso final de uma sensível e honesta comédia dramática de Alexander Payne com um notável Jack Nicholson.

Playtime #64

A solução: "About Schmidt" (2002) - Alexander Payne
Quem descobriu: André Sousa

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Manoel, 103 anos


Manoel de Oliveira festeja uns impressionantes 103 anos no próximo dia 11 de Dezembro. Eis 15 factos/curiosidades interessantes sobre a vida e obra do Mestre:

1 - A família de Manoel de Oliveira descende de Afonso Henriques.

2 – Foi campeão nacional de salto à vara, pelo Sport Club do Porto.

3 – A montagem do filme “Douro, Faina Fluvial”, foi feita em casa dos pais, em cima de uma mesa de bilhar.

4 – Nos anos 30, escreveu “Prostituição”, a história real que lhe contou uma prostituta. O filme nunca foi feito.

5 – O regime fechou-lhe as portas e passou 14 anos sem filmar, Em 1946, dedicou-se à viticultura, na quinta da família, no Douro.

6 – Em 1958 fez um documentário sobre uma operação de coração aberto – “Coração” – mas nunca o terminou.

7 – A mulher salvou-o de cair ao rio durante as filmagens de “Acto da Primavera” (1963). O brilho do sol na água ofuscou-o.

8 – A PIDE considerou “Acto da Primavera” um filme subversivo e prendeu Oliveira na cadeia do Aljube. Saiu da prisão graças a uma cunha do amigo Manuel Meneres.

9 – Realizou “Memórias e Confissões” (1981), história da sua família, que só será divulgado depois da sua morte.

10 – Com 7 minutos de duração, “A Propósito da Bandeira Nacional” (1987) é o seu filme mais curto. O mais longo é “Le Soulier de Satin” (1985), com 6 horas e 50 minutos.

11 – Dedicou o filme “O Dia do Desespero” ao neto David, falecido em 1990.

12 – Nas filmagens do filme “O Convento” (1995) teve uma discussão acesa com a actriz francesa Catherine Deneuve.

13 – Guarda os recortes de jornais com as críticas aos seus filmes.

14 – Foi mau aluno e começou a ler tarde. Para alem de realizador, foi atleta, trapezista, piloto de automóveis, actor, vinicultor e negociante.

15 – vai passar o centésimo terceiro aniversário na rodagem e produção dos seus dois (!) novos filmes (a estrear em 2012) - "A Igreja do Diabo" e "O Gebo e a Sombra".

(Fonte: revista Sábado)

domingo, 6 de novembro de 2011

Rob Ager - O analista fílmico

Rob Ager é um caso especial na internet. É um jovem inglês que criou um site multidisciplinar chamado - Collative Learning - vocacionado para a análise do cinema, da filosofia e das artes em geral. Rob Ager faz uma análise extremamente exaustiva (e controversa) sobre as grandes obras de mestres como Stanley Kubrick, Alfred Hitchcock, Quentin Tarantino, entre muitos outros. Muitas das suas análises estão disponíveis no Youtube e espantam pela minúcia e argúcia com que analisa cada plano de um determinado filme.
Parece que Rob Ager é alguém com uma capacidade invulgar para interpretar imagens, histórias e relações entre assuntos. Quase que faz uma análise psicanalítica e pouco ortodoxa de filmes como "Eyes Wide Shut" ou "The Shining", revelando pormenores quase imperceptíveis que espantam pela originalidade (Rob viu em "A Laranja Mecânica" teorias da conspiração - e explica porquê). Cada detalhe de um dado filme é um verdadeiro manancial complexo de informação para Rob Ager. Ele não é um mero crítico de cinema, procura ir muito para além da emissão opinativa de um filme. Procura ligações, sentidos, conteúdos ocultos (ou menos óbvios) que dão outra essência e uma obra cinematográfica.
Há quem acuse Rob Ager de sensacionalismo e imaginação excessiva, mas a verdade é que as suas "reviews" deixam muito que pensar pela profundidade crítica e forma de explorar as histórias e imagens dos filmes de culto.
Nesta entrevista, Rob Ager, explica a sua visão do cinema e os métodos que utiliza para escalpelizar cada filme.
E vale a pena descobrir o seu site.

sábado, 5 de novembro de 2011

Cronenberg e o cinema


O realizador canadiano David Cronenberg deu uma entrevista ao jornal espanhol El País. Melhor dizendo: respondeu ao leitores do El País que enviaram perguntas para ele responder online. O resultado é moderadamente interessante (apenas isso), porque as respostas são fugidias e nem todas as questões são particularmente inspiradas.
No entanto, gostei particularmente da resposta à pergunta "O que é preciso fazer para alguém se dedicar ao cinema?", à qual David Cronenberg respondeu da seguinte forma pragmática:
"Nunca fui a uma escola de cinema. Sou um autodidacta. É preciso ver filmes. É incrível a quantidade de pessoas que querem ser realizadores e não vêem filmes. É necessário ter uma cultura profunda e não apenas de cinema, mas também a nível geral."
Comentário meu: bingo!

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A ganância (fatal)


O caso de Duarte Lima que, alegadamente, terá assassinado Rosalina Ribeiro no Brasil por questões de dinheiro, trouxe-me à memória diversos filmes que abordam a ganância. A sede insaciável de ganância, de poder, com corrupção, crimes, ilegalidades e burlas pelo meio. Na história do cinema há diversos filmes que se encaixam neste perfil, desde logo, a começar pelo fabuloso filme mudo de Eric Von Stroheim, “Greed” (1924). Depois, há “Scarface” (1983), “Wall Street” (1987), “Fargo”, (1996), ou “Casino” (1995). Mas centro-me sobretudo no filme de Sam Raimi, “A Simple Plan” (1998), esplêndido exemplo de como a ânsia de dinheiro fácil transforma o comum dos mortais em máquinas criminosas e assassinas: um grupo de amigos encontra uma mala com 4 milhões de dólares que estavam num avião que se despenhou.

Primeira dúvida moral: o que fazer com o dinheiro? Entregá-lo às autoridades ou ficar com ele sem nada declarar às mesmas? Resultado: os homens ficam com o dinheiro mas não conseguem manter o segredo e o que parecia um “plano simples” para dividir e ficar com o dinheiro fácil, transforma-se numa odisseia de crime, sangue e violência em crescendo. Tudo porque a ganância, esse pecado mortal que tanto afecta a sociedade moderna, dá volta à cabeça e aos valores morais do mais pacato e aparentemente ajuizado cidadão.

“A Simple Plan” é mesmo isto: com um argumento extremamente sólido e inteligente, boas interpretações (Billy Bob Thornton e Bill Paxton), a película é uma perturbante viagem vertiginosa pelos instintos mais básicos e animalescos do ser humano decorrente da ganância frenética pelo dinheiro. A ganância cega o discernimento e viola os valores mais preciosos da vida humana e o filme exala essa tensão crescente que toma conta dos homens sequiosos de dinheiro fácil. Não sei se Duarte Lima terá visto o filme de Sam Raimi, mas deduzo que haja contornos semelhantes entre a ficção e a realidade.

quarta-feira, 2 de novembro de 2011

Kubrick em versão GIF


Aconselho vivamente, a todos os admiradores de Stanley Kubrick, a consultar esta maravilhosa página com GIFs dos melhores momentos dos filmes do autor de "Laranja Mecânica". Há qualquer coisa de visualmente hipnótico nestas imagens em movimentos repetitivos. Mais a mais, tratando-se do cinema kubrickiano.

Discos que mudam uma vida - 153


The Fall - "Perverted by Language" (1983)