quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O bebé que sobreviveu ao gás


(Desenho de David Olère, 1945)

Excertos do livro "Sonderkommando":

Béatrice Prasquier - O que acontecia, nos fornos crematórios de Auschwitz, às cinzas depois de os corpos serem queimados?

Shlomo Venezia - As cinzas deviam ser eliminadas para não deixar nenhum vestígio. Na verdade, quer nos fornos quer nas valas comuns alguns ossos, como os da bacia, queimavam mal. Era por isso que os ossos mais largos deviam ser retirados e esmigalhados separadamente, antes de serem misturados com as cinzas. Estas, uma vez trituradas, eram transportadas numa pequena carroça. Um camião vinha recolhê-las regularmente para que fossem deitadas ao rio. Cheguei a substituir um dos homens responsáveis por triturarem as cinzas. Isso permitia-me apanhar um pouco de ar e sair da atmosfera sufocante e fétida do Crematório.

Béatrice Prasquier - O que via quando os deportados chegavam às câmaras de gás?

Shlomo Venezia - A morte das pessoas que iam para a câmara de gás era tudo menos uma morte pacífica. É de tal modo violento e triste que tenho dificuldade em falar destas visões da câmara de gás. Podíamos encontrar pessoas com olhos saídos das órbitas devido ao esforço feito pelo organismo. Outras com sangue por todo o lado ou sujas pelos seus próprios excrementos. Todas pessoas agonizavam e sofriam terrivelmente na câmara. Não se pense que o gás era lançado e morriam automaticamente. Era um processo que podia demorar mais de dez minutos, nos quais as pessoas procuravam desesperadamente um pouco de ar - homens, mulheres e crianças. Um processo de carnificina de tipo industrial que matou milhões de pessoas. Na minha opinião, não posso garantir, mas penso que muitas pessoas morriam mesmo antes de o gás ser lançado. Estavam de tal modo apertadas umas contra as outras e em pânico, que os mais pequenos, os mais débeis, sufocavam. A imagem que víamos ao abrir a porta depois da chacina era atroz, não dá para imaginar o que aquilo era. Pensávamos que era impossível alguém sobreviver ao gás mortífero, mas um dia, ao abrir a porta da câmara, encontrámos um bebé vivo! Sobreviveu porque estava a agarrado ao peito da mãe no momento do lançamento do gás, e o efeito de sucção permitiu-lhe não inalar o veneno. Não é preciso dizer que um oficial SS, assim que viu o bebé a chorar, sacou da pistola e matou-o, a sangue frio, com um tiro na nuca.

Nos primeiros dias, apesar da fome que me atormentava, tinha dificuldade em tocar no bocado de pão que recebíamos. O odor persistia nas mãos, sentia-me sujo com a morte. Com o tempo, tive de me habituar a tudo, como instinto de sobrevivência. Tornei-me num autómato sem capacidade de raciocinar.

6 comentários:

Rolando Almeida disse...

Xiça, parece mentira.. que horror.

Miriam disse...

Não dá para acreditar. Que horror!!!!

Ana Cristina Leonardo disse...

viste o «the grey zone»?
online, podes descarregar em brasileiro as memórias de Miklos Nyiszli, o médico judeu que foi assistente de Mengele, e de quem se fala nesse livro (e no filme), sem se lhe dar nome.
http://groups.google.com.br/group/generais/msg/35f6e33bd052a77f
Já agora gostaria de dizer que o livro que citas, sendo um testemunho, merecia um enquadramento que não é feito. muitas das coisas que aí se dizem estão referenciadas noutros locais e teria sido importante que a jornalista tivesse colocado notas, até por existe quem negue a existência dos fornos. Já agora, gostaria de dizer que o livro Destruction of the European Jews do Hilberg é fundamental para se perceber o que se passou. Há em livro de poche uma versão em francês (menos cara) - o livro em francês com capa dura custava há uns anos para aí uns 15 contos. E, por falar nisso, se quiser ver o Shoah do Claude Lanzmann poderei emprestar-lhe a caixa de dvd. Há coisas que não são para estar a apanhar pó nas estantes (o Hilberg tb. posso, mas é um livro de mil e tal páginas... e tenho a tradução francesa, não sei se domina - digo isto porque hoje em dia as pessoas já só quase conhecem inglês)

Unknown disse...

Ana Cristina Leonardo: obrigado pelo contributo. Já estou a descarregar o "The Grey Zone".

Quanto ao livro "Sonderkommando", não sei se teria necessidade de ter um enquadramento histórico minucioso. Sei que há pessoas conotadas com a extrema direita e neo-nazis que negam a existência das câmaras de gás em particular e o próprio Holocausto em geral. Mas desses energúmenos hipócritas a História não se lembrará jamais. Eu acho que já há suficiente literatura sobre Auschwitz e testemunhos de sobreviventes (até tenho livros que apenas explicam o funcionamento técnico e industrial dos campos de extermínio!). O interessante do testemunho de Shlomo Venezia é que é feito em total primeira pessoa - este senhor tem 80 e tal anos, respira o ar que respiramos e viveu na pele todos os horrores que descreve! Essa é que é a capital diferença com os relatos feitos por historiadores ou até de sobreviventes. Quem melhor do que ele pode explicar a máquina de barbárie que era Auschwitz-Birkenau? Quem quiser documentar-se sobre o Holocausto e a razão da existência de campos de morte, poderá ler milhentos de outros livros. E já agora, informo que o livro "Sonferkommando" tem no seu final capítulos com notas históricas e explicações sobre a Shoah e o Holocausto em geral (redigidos por historiadores).

Quanto à disponibilidade de me emprestar a colecção em DVD da série "Shoah", só poderei aceitar e agradecer tão simpático gesto!

VA

Unknown disse...

Já agora, conheces o livro "Modernidade e Holocausto"?
- http://www.wook.pt/product/product/id/190231/filter/

Ana Cristina Leonardo disse...

sim, conheço. é muito, muito bom. li-o numa edição espanhola, já nem sei porquê

Essa é que é a capital diferença com os relatos feitos por historiadores ou até de sobreviventes.

de historiadores sim, claro, de sobreviventes tenho dúvidas. de qualquer forma, eu acho que a jornalista, e não o entrevistado, naturalmente, devia ter deixado os links.
quanto ao Lanzmann, é só pedir. o meu e-mail está no meu perfil