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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

A história da música industrial



Um dos géneros musicais mais radicais e revolucionários da segunda metade do século XX foi o industrial (que  muito me marcou na adolescência). A música industrial correspondia ao espírito mais insurrecto e alternativo dos músicos pouco satisfeitos com o rumo político e social da sociedade, muito ligada à arte, literatura e filosofia mais subversivas: desde Marquês de Sade a Nietzsche e Lautréamont, de William S. Burroughs a Philip K. Dick, do Surrealismo ao Futurismo. Nascida nos finais dos anos 1970, a música industrial conciliou uma grande fusão de tendências e estilos. Desde a música electrónica mais experimental e vanguardista (música concreta e electro-acústica), ao noise-rock, à energia da No-Wave e do Krautrock (rock vanguardista alemão).

Um dado novo veio revolucionar a cena musical: a música industrial socorre-se da parafernália mecânica e tecnológica das fábricas decadentes, própria das sociedades modernas. Ou seja, usa as ferramentas dessas fábricas como instrumentos musicais para fazer música: bidões metálicos, martelos pneumáticos, serras eléctricas, utensílios fabris diversos com efeitos sonoros originais, etc. A música industrial era ideologicamente pessimista, crítica da sociedade actual, avessa à fama e ao dinheiro. A sonoridade era compatível com estas características, com uns grupos mais radicais e extremos do que outros, mas todos com vontade de subverter as normas convencionais da música com muito ruído à mistura. Os músicos e bandas deste estilo preocupavam-se com a criação de sonoridades abrasivas, com efeito de choque sonoro imediato, de grande e extrema amplitude estética.


Grupos como Throbbing Gristle (na imagem), Cabaret Voltaire, SPK, Test Dept, Click Click, NON / Boyd Rice, Clock DVA, Z'EV, In The Nursery ou Klinik definiram um género de culto que só teria decréscimo criativo a partir da segunda metade dos anos 90. Um grupo alemão irrompeu em força no panorama industrial nos anos 80: Einstürzende Neubauten, colectivo de músicos radicais liderados pelo carismático Blixa Bargeld. Tive a oportunidade de os ver ao vivo em Lisboa há 22 anos e foi uma experiência arrepiante (voltam agora para o próximo festival NOS Primavera Sound).

Tudo para dizer que agora surgiu, finalmente, um documentário que tenta explicar o nascimento e evolução deste peculiaríssimo e alternativo género de culto: "Industrial Soundtrack For The Urban Decay", no qual muitos dos nomes citados são entrevistados. 

Eis o trailer.
E eis uma brevíssima e concisa explicação do que é a música industrial.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Ian Curtis: livro essencial


O livro "So This is Permanence" (Faber & Faber) de Ian Curtis é já uma das melhores edições do ano. A edição é da viúva do líder dos Joy Division, Deborah Curtis e do reputado jornalista musical Jon Savage. São quase 300 páginas em capa dura, formato A4, contendo todas as letras de Ian Curtis manuscritas, apontamentos, letras originais, cartas de fãs, textos de jornais e fanzines da época, capas dos livros de preferência de Ian, etc.

A Deborah Curtis e o Jon Savage (sobretudo este) também escrevem textos muito interessantes sobre as dimensões da lírica de Curtis no seio da banda. Essencial para os fãs dos Joy Division, portanto. 

Uma das coisas mais interessantes em Ian Curtis (falecido com apenas 23 anos de idade), é que muito do seu talento e criatividade foram conseguidos à custa de muita leitura. Ian lia compulsivamente desde a adolescência, isto porque na sua apática e pequena cidade de Macclesfield (a 40km de Manchester) pouco mais havia a fazer do que ouvir música e ler. Ian lia alguma da melhor e mais alternativa literatura do século XIX e XX, cultivando a sua mente para as fascinantes e obscuras poesias das canções dos Joy Division.

Segundo este livro "So This is Permanence", Ian Curtis leu apaixonadamente os seguintes autores:

- Friedich Nietzsche
- Franz Kafka
- Rimbaud
- Oscar Wilde
- Antonin Artaud
- H.P. Lovecraft
- Nikolai Gogol
- Baudelaire
- Edga Allan Poe
- T.S. Eliot
- J.G. Ballard
- William S. Burroughs
- Jean-Paul Sartre
- Hermann Hesse
- Dostoievsky
- Aldous Huxley
- Anthony Burgess

E pensando bem, muitos destes escritores e poetas, reflectem-se nas letras de Ian Curtis.

O livro encontra-se à venda na Fnac online por apenas 16,43€ (já com portes incluídos).



segunda-feira, 11 de março de 2013

William S. Burroughs e os amigos

William S. Burroughs, um autor tão original quanto controverso.
A sua carreira e o seu percurso de vida são verdadeiramente notáveis, recheados de episódios e situações incríveis. Era o autor mais radical do movimento literário Beat, aquele que mais foi ao fundo das experiências alucinogénicas, criando um universo literário completamente novo ("O Festim Nu" prova isso).
Outro facto espantoso da sua vida: ao longo de várias décadas William S. Burroughs manteve inúmeras colaborações artísticas e amizades pessoais com grandes figuras das artes (música, poesia, cinema, pintura, literatura...).
Por todas estas incríveis ligações da sua vida, estou convicto de que a sua carreira artística e o seu percurso existencial dariam vasta matéria para uma filme biográfico extremamente interessante. Vejam-se estes exemplos:

Timothy Leary e William S. Burroughs

David Cronenberg e William S. Burroughs

Ministry e William S. Burroughs

William S. Burroughs e Hüsker Dü

William S. Burroughs e Gregg Beaubian

Debbie Harry e William S. Burroughs
Jean Genet, William S. Burroughs e Allen Ginsberg
Brion Gysin e William S. Burroughs
William S. Burroughs e Alene Lee
William S. Burroughs e Andy Warhol

William Burroughs e Tom Waits

William S. Burroughs e Mick Jagger

William S. Burroughs e Susan Sontag

Jimmy Page e William S. Burroughs

James Grauerholz e William S. Burroughs

William S. Burroughs e Joe Strummer (The Clash)

Patti Smith e William S. Burroughs

David Bowie e William S. Burroughs

William S. Burroughs e Kurt Cobain

William S. Burroughs e Jack Kerouac

Francis Bacon e William S. Burroughs

William S. Burroughs e Allen Ginsberg

William S. Burroughs e Frank Zappa

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

Um filme diferente para o Halloween


Agora que se aproxima o Halloween, eis um dos mais míticos e sublimes filmes do período mudo: "Häxan", realizado em 1922 pelo cineasta dinamarquês Benjamim Christensen.
"Häxan", um dos primeiros grandes filmes fantásticos de sempre (é do mesmo ano de "Nosferatu" de Murnau), documenta as perseguições movidas contra as feiticeiras e os actos de bruxaria numa Europa medieval conspurcada pela intolerância religiosa e pela Inquisição.
A prodigiosa fotografia do filme, as encenações de rituais e de possessões demoníacas, e o ambiente visual expressionista recriado viria a influenciar outras obras-primas do cinema, como o clássico de Carl Dreyer, "A Paixão de Joana D'Arc" (1928).
Muito do imaginário de terror psicológico e visual dos filmes das décadas posteriores (aliás, até aos nossos dias), foi gerado a partir deste filme escandinavo. Há muito de "Häxan" no filme "O Exorcista" (1973); e os produtores do filme-fenómeno "The Blair Witch Project" (1999), deram o nome de "Häxan Films" à sua produtora. E até inspirou a criação de um grupo homónimo de música... Black Metal. O escritor beat William S. Burroughs era grande admirador do filme.
Também é verdade que o filme de Christensen foi, durante décadas, censurado e banido, quer pelas autoridades religiosas, quer pelas autoridades políticas, tornando-se num filme marginal e num verdadeiro fenómeno de culto internacional. Mas nessa suposta marginalidade existia imensa criatividade e inovação estética.
Para além disso, esta obra é interessante para compreender a bruxaria através dos tempos. Um tema muito apropriado para a próxima temporada do Halloween, portanto.
Trailer.

terça-feira, 26 de junho de 2012

"Blade Runner" - 30 anos

No dia 25 de Junho comemoraram-se 30 anos da estreia de um dos mais influentes filmes de ficção científica de sempre: "Blade Runner" de Ridley Scott. Estreado nos EUA no dia 25 de Junho de 1982 (a Portugal chegaria apenas em Fevereiro do ano seguinte com o título "Perigo Iminente"), "Blade Runner" marcaria um ponto de viragem neste tipo de cinema e transformaria esta obra de Scott num verdadeiro fenómeno de culto.
Visão distópica e negra de um futuro não muito distante (2019), um "set design" vanguardista, um enredo sofisticado (com base numa história de Philip K. Dick), interpretações memoráveis (Rutger Hauer e Harrisson Ford), notável banda sonora de Vangelis e realização suguríssima de Ridley Scott, "Blade Runner" constituiu uma experiência memorável para várias gerações de cinéfilos e cineastas. Com várias versões ao longo das três décadas de existência, este filme revela, a cada visionamento, novas capacidades de leitura e interpretação. Plasticamente é imaculado, sombrio e antecipou o mundo altamente tecnológico no qual vivemos.  

domingo, 22 de janeiro de 2012

A saga dos "biopics"



Parece que, depois das sequelas e prequelas, Hollywood vai investir em força nos filmes biográficos de personalidades famosas das artes do espectáculo.

Na última década, houve dezenas de "biopics" sobre outras tantas figuras históricas mundiais: Bob Dylan, Edith Piaf, Ian Curtis, Bettie Page, Truman Capote, John Lennon, Harvey Pekar, Margareth Thatcher, Winston Churchill, Kurt Cobain, Nelson Mandela, Harvey Milk, Coco Chanel, Stravinski, Che Guevara, Ian Dury, Johnny Cash, Ray Charles, Howard Hughes, Frida Kahlo, Marilyn Monroe, etc. (até em Portugal já pegou a moda: depois de Amália Rodrigues e Aristides de Sousa Mendes, está em marca o filme biográfico do António Variações).

A mais recente notícia de um projecto para um filme de cariz biográfico é "Grace of Monaco", sobre a actriz e princesa Grace Kelly. O filme será realizado por Olivier Dahan, conhecido pelo filme biográfico de Edith Piaf, "La Vie en Rose". Entretanto, parece que se confirma que Megan Fox vai encarnar a diva Elizabeth Taylor num filme sobre esta actriz que reinou na era dourada de Hollywood.

Se algum produtor de Hollywood ler este blog, eis as minhas sugestões de nomes (cinema, música, pintura e literatura) para futuros "biopics":


- Erik Satie

- Marcel Duchamp

- Antonin Artaud

- Francis Bacon

- Katharine Hepburn

- Lou Reed

- René Magritte

- Humphrey Bogart

- John Cage

- Frank Zappa

- Alfred Hitchcock

- Ozzy Osbourne

- Ingrid Bergman

- Greta Garbo

- Charles Bukowski

- Louise Brooks

- Montgomery Clift

- Dennis Hopper

- Janis Joplin

- Samuel Beckett

- John Wayne

- William S. Burroughs

- Glenn Gould

- Boris Vian

- Malcom McLaren

- Eric von Stroheim

- Jacques Tati

- Jimi Hendrix

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Acredito que, com actores e actrizes adequados a cada personalidade e o realizador ideal, poderiam sair daqui grandes filmes.


ADENDA: Acabo de ler no jornal Expresso que, afinal, quem vai interpretar Elizabeth Taylor é a actriz Lindsay Lohan, num filme com o título "Elizabeth & Richard".


Lindsay Lohan?...

terça-feira, 23 de agosto de 2011

Reler Kerouac e esperar pelo filme


A editora Relógio D'Água acaba de publicar uma segunda versão do romance autobiográfico "Pela Estrada Fora" (1957) de Jack Kerouac - companheiro de William S. Burroughs e Allen Ginsberg no movimento da "Beat Generation".

Trata-se de uma segunda versão porque, segundo a própria editora, "esta versão nunca tinha sido antes publicada com o texto que surgiu na forma original de rolo dactilografado. Representa a primeira e mais genuína forma de expressão das ideias originais de Jack Kerouac, o momento em que a sua visão e voz narrativa se juntaram sob a forma de um impulso contínuo de energia criativa." Esta memorável obra da "Beat Generation" conta com nova tradução da escritora e ensaísta Margarida Vale de Gato e é já, quanto a mim, um dos acontecimentos literários do ano.

Entretanto, encontra-se em fase de pós-produção a adaptação cinematográfica do romance "Pela Estrada Fora": o filme tem realização do brasileiro Walter Salles e conta com Sam Riley (o Ian Curtis de "Control") no papel de Sal Paradise, Garrett Hedlund como Dean Moriarty e Kristen Stewart como Marylou - os protagonistas da incrível aventura que Kerouac escreveu ao som de muito jazz, drogas, viagens de carro, álcool e estadas em motéis decadentes. Convém dizer que a produção é de Francis Ford Coppola, que adquiriu os direitos da adaptação cinematográfica há mais de 30 anos.
Estreia em Dezembro deste ano.

Nota: "O Uivo" de Allen Ginsberg também em versão cinematográfica.

sábado, 26 de março de 2011

Allen Ginsberg cantor

Allen Ginsberg, guru do movimento literário "Beat Generation" (com Kack Kerouac e William S. Burroughs) foi retratado no filme "Howl", com um soberbo James Franco na pele do jovem Ginsberg por altura da edição do livro homónimo. Sobre o filme escreverei numa próxima oportunidade, agora apetece-me apenas publicar a forma como termina: com a bela canção "Father Death Blues" de Allen Ginsberg interpretada pelo próprio (uma canção que escreveu em 1976 aquando da morte do pai).
Para além disso, Allen Ginsberg referiu que, enquanto escritor, gostaria de ser recordado pelo poema de "Father Death Blues".

Hey Father Death, I'm flying home
Hey poor man, you're all alone
Hey old daddy, I know where I'm going

Father Death, Don't cry any more
Mama's there, underneath the floor
Brother Death, please mind the store

Old Aunty Death Don't hide your bones
Old Uncle Death I hear your groans
O Sister Death how sweet your moans

O Children Deaths go breathe your breaths
Sobbing breasts'll ease your Deaths
Pain is gone, tears take the rest

Genius Death your art is done
Lover Death your body's gone
Father Death I'm coming home

Guru Death your words are true
Teacher Death I do thank you
For inspiring me to sing this Blues

Buddha Death, I wake with you
Dharma Death, your mind is new
Sangha Death, we'll work it through

Suffering is what was born
Ignorance made me forlorn
Tearful truths I cannot scorn

Father Breath once more farewell
Birth you gave was no thing ill
My heart is still, as time will tell.

July 8, 1976

terça-feira, 22 de fevereiro de 2011

"Blade Runner" - Antecipar a realidade


Ontem revi no canal Hollywood o clássico de ficção científica "Blade Runner - Perigo Iminente" (1982) de Ridley Scott.
De todas as qualidades do filme, realço o espantoso e claustrofóbico ambiente criado numa cidade futurista: o caótico movimento de pessoas nas ruas, o tráfego automóvel, o contraste entre o negro da noite e a cores dos néons, a permanente agitação de uma metrópole hiper-tecnológica. E "Blade Runner" é um filme tremendamente visionário (em 1982): para além de uma série de outras situações, em dado momento do filme, o agente Rick Deckard (Harrison Ford) efectua uma videochamada para a replicante Rachael (na imagem). Uma modalidade de comunicação que, em pleno ano de 2011, está longe de ser banal.
Ou seja, neste caso específico, a imaginação de Philip K. Dick materializada no filme de Ridley Scott numa antecipação da própria realidade.

terça-feira, 15 de fevereiro de 2011

Mais do que um mero filme sobre bruxaria


O site dvdgo.com (que já esteve melhor do que agora) anunciou há tempos uma edição em DVD como um grande destaque editorial no panorama da cinefilia caseira. E, na verdade, não era para menos.
Tratava-se da versão especial remasterizada (som e imagem) de um dos mais míticos e sublimes filmes do período mudo: "Häxan", realizado em 1922 pelo cineasta dinamarquês Benjamim Christensen. "Häxan", um dos primeiros grandes filmes fantásticos de sempre (é do mesmo ano de "Nosferatu" de Murnau), documenta as perseguições movidas contra as feiticeiras e os actos de bruxaria numa Europa medieval conspurcada pela intolerância religiosa e pela Inquisição.
A prodigiosa fotografia do filme, as encenações de rituais e de possessões demoníacas, e o ambiente visual expressionista recriado viria a influenciar outras obras-primas do cinema, como o clássico de Carl Dreyer, "A Paixão de Joana D'Arc" (1928). Muito do imaginário de terror psicológico e visual dos filmes das décadas posteriores (aliás, até aos nossos dias), foi gerado a partir deste filme escandinavo. Há muito de "Häxan" no filme "O Exorcista" (1973); e os produtores do filme-fenómeno "The Blair Witch Project" (1999), deram o nome de "Häxan Films" à sua produtora. E até inspirou a criação de um grupo homónimo de música... Black Metal.

Também é verdade que o filme de Christensen foi, durante décadas, censurado e banido, quer pelas autoridades religiosas, quer pelas autoridades políticas, tornando-se num filme marginal e num verdadeiro fenómeno de culto internacional. Mas nessa suposta marginalidade existia imensa criatividade e inovação estética.
Esta edição especial em DVD traz além da versão original restaurada, a rara edição americana lançada em 1968 com narração do poeta beat William S. Burroughs (grande admirador do filme) e com o subtítulo "A Bruxaria Através dos Tempos" (no segundo disco do DVD). Imperdível, portanto.

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Huxley e Ridley Scott?


Durante uns meses foi um mero rumor. Agora parece que é oficial: Ridley Scott, o realizador de um dos mais significativos filmes de ficção científica de sempre - "Blade Runner" (1982) com base no livro homónimo de Philip K. Dick, vai adaptar para cinema outro clássico da literatura futurista - "O Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley.
O cineasta revelou que foi Leonardo DiCaprio quem desafiou Scott a avançar com esta arriscada adaptação cinematográfica. O realizador de "Alien" e "O Gladiador" disse que é um projecto ainda embrionário e de difícil adaptação, dada a complexidade da obra de Huxley.
Não admira esta apreensão do realizador, uma vez que "O Admirável Mundo Novo", livro originalmente editado em 1932, antecipou uma série de desenvolvimentos tecnológicos e sociais que são realidade presente, como a inseminação artificial, a neurolinguística, o predomínio da tecnologia sobre o conhecimento, a eutanásia, a prevalência do colectivo em detrimento do individual, o crescimento desumanizado do progresso científico e material, ou o poder do estado de pendor totalitário disfarçado de democracia.
Huxley ficou famoso por essa criação de uma espécie de sociedade distópica, caracterizada por um regime opressivo, controlador e autoritário que elimina a identidade individual em prol de um suposto "bem colectivo". Um mundo altamente perigoso e distorcido, no qual valores como família, arte, ciência, liberdade ou cultura, são suprimidos em nome de um ideal comum propagandeado pelo estado controlador.
Lembro-me que li primeiro "1984" de Goerge Orwell e só depois li a obra de Huxley (que tem o segundo capítulo - "O Regresso ao Admirável Mundo Novo", menos interessante) e senti, em ambos autores, fortes conexões na crítica social e no modo de interpretar o mundo através da sátira política e de um fortíssimo sentido de antecipação histórica. Agora que, pelos vistos, Ridley Scott vai adaptar um dos livros de ficção científica fundamentais da primeira metade do século XX, fica a pergunta: conseguirá o realizador perturbar-nos com esta adaptação cinematográfica com a mesma eloquência formal e estética com que o fez com o clássico incontornável "Blade Runner"?

sexta-feira, 23 de julho de 2010

O "Uivo" de Ginsberg no cinema


Allen Ginsberg, Jack Kerouac e William S. Burroughs, incendiaram a cultura dos anos 50 e 60 com a "Beat Generation", ao som de jazz e literatura "libertária".
O poema de Ginsberg, "Howl - Uivo", (considerado por muitos obsceno e pornográfico - pode ser lido aqui) foi o livro de poesia mais vendido da história dos EUA, tendo vendido mais de 1 milhão de exemplares em pouco tempo. "Howl" foi também um enorme grito de revolta de uma geração assumidamente insurrecta e ávida de novas experiências (artísticas e existenciais), imbuída de festas hedonistas repletas de sexo, música jazz e aventuras deambulatórias pela geografia norte-americana. Juntamente com "Naked Lunch" de William S. Burroughs e "On The Road" de Jack Kerouac, "Howl" completaria a trilogia da contracultura da Geração Beat.
Bob Dylan, Jim Morrison, Lou Reed, Leonard Cohen entre muitos outros músicos, foram sempre fãs incondicionais da poesia de Allen Ginsberg. E até os portugueses Mão Morta partiram do poema "Uivo" para conceberem o seu álbum "Nus" (2004). Depois de contaminar a literatura, a música, a poesia e as artes plásticas, era uma questão de tempo até que a vida e obra do poeta beat fossem transpostas para o universo da Sétima Arte.
Rob Epsteins e Jeffrey Friedman, mais conhecidos por documentários, levaram Ginsberg ao grande ecrã, com o actor James Franco no papel do poeta. O filme, intitulado "Howl", começa no momento em que Ginsberg é julgado no tribunal de São Francisco por causa da sua controversa obra. Pelo meio, consta que o filme - a estrear em Setembro - relata as desventuras de Ginsberg com os seus amigos escritores homossexuais e todo o ambiente de contracultura que se vivia naqueles efeverscentes anos.
Na imagem da esquerda, Allen Ginsberg, na direita, James Franco como Ginsberg.
Trailer do filme "Howl":

terça-feira, 29 de junho de 2010

Prisioneiros "artísticos"


Para além da literatura, o que têm em comum Dostoiévski, William Burroughs, Jean Genet, Oscar Wilde, Cervantes, Paul Verlaine, Ken Kesey, Alexander Soljenítsin, Thomas More e Marquês de Sade? Todos estiveram presos em determinada circunstância das suas vidas por distintos motivos (desde atentados ao pudor a questões políticas e pequenos delitos).
A par de escritores, podia-se juntar uma lista de actores, músicos e desportistas, mais ou menos consagrados e famosos, que já experimentaram ver o sol atrás das grades. A genialidade criativa também tem o seu lado obscuro e demente, prova de que todo o homem se resume a um comum mortal com fraquezas e debilidades. Como dizia o filósofo Kierkegaard, "a vida é um território sem fim de possibilidades e a cada momento somos forçados a escolher qual o caminho a percorrer". Definitivamente, o mundo é igual para todos e os ímpetos mais negativos e destrutivos da natureza humana não escolhem profissões, estatuto social ou condição artística.

quinta-feira, 20 de maio de 2010

Momentos e Imagens - 65

Fotografia histórica que marcou uma fase decisiva de dois jovens artistas no ano de 1976: Philip Glass (compositor e músico) e Robert Wilson (encenador, coreógrafo, performer - trabalhou com William S. Burroughs, Allen Ginsberg, Tom Waits e David Byrne).
Glass e Wilson trabalhavam na altura na ambiciosa ópera-que-revolucionou-a-ópera "Einstein on the Beach", na qual o compositor norte-americano revelou, em todo o esplendor estético, a sua inovadora música minimal-repetitiva.
Não menos importante: a fotografia foi tirada por um dos mais importantes fotógrafos americanos dos anos 70 e 80: Robert Mapplethorpe

terça-feira, 1 de dezembro de 2009

Clássicos (em BD) para pessoas com pressa


"90 Livros Clássicos para Pessoas Com Pressa" (Editoral Presença, recentemente editado) é um livro divertido e despretensioso que parte da literatura clássica para um universo de banda desenhada. O objectivo do autor, o sueco Henrik Lange, é o de compilar 90 obras literárias e resumi-las em escassas quatros vinhetas de banda desenhada. Ou seja, em apenas quatro vinhetas, Lange resume a história (se tal é possível) de obras como "Romeu e Julieta" de Shakespeare, "Crime e Castigo" de Dostoievski, "A Odisseia" de Homero, "Festim Nu" de William Burroughs, "Pela Estrada Fora" de Jack Kerouac, "Dom Quixote" de Cervantes, entre muitas adaptações livres de muitos outros livros famosos.
Claro que nem sempre a ideia central do livro é fielmente retratada, sobretudo no que se refere às questões morais suscitadas por determinados romances históricos. Mas essa é uma particularidade do livro: subverter o rigor literário das obras clássicas universalmente aceites como intocáveis, através de um humor (visual e textual) por vezes demolidor que só a BD consegue transmitir. Um livro para ler com pressa mas para saborear devagar.
Ver alguns exemplos da banda desenhada de Henrik Lange.
PS - Agora só alta traduzir para português o livro "90 Classic Movies For People in a Hurry".

quinta-feira, 2 de abril de 2009

Uma outra Beat Generation


A Beat Generation foi um importante movimento de contracultura norte-americano, sobretudo ligado à música jazz e à literatura, com nomes como Jack Kerouac, William S. Burroughs ou Allen Ginsberg. Descobri por acaso que existe um blogue no sapo com o nome Beat Generation que se dedica a noticiar coisas da vida mundana, como desfiles de moda, entrevistas ao jet-set e festas sociais. Nada contra, mas gostava de saber, caso fossem vivos, o que achariam os verdadeiros mentores do original movimento Beat Generation desta apropriação do nome para caracterizar um conceito de vida oposto ao que defendiam.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Hemingway no cinema (entre outros possíveis)


A indústria de Hollywood continua obcecada com remakes e "filmes trigémeos". O que está mesmo a dar é adaptar ao grande ecrã a vida de personalidades famosas, sobretudo oriundas do mundo das artes e do espectáculo. A notícia mais recente tem a ver com a concepção de um filme biográfico sobre a vida do escritor Ernest Hemingway (1899 - 1961). É mais uma figura das artes controversa que teve uma vida pessoal e profissional atribulada, elementos que enriquecem sempre um filme (já para não falar do facto de Hemingway se ter suicidado). Mas este filme sobre o Prémio Nobel da Literatura arrisca-se a entrar no rol dos gémeos ou trigémeos, já que existem outras produções em andamento sobre a vida do autor de "O Velhor e o Mar". Em 1996, o realizador Richard Attenborough já tinha feito uma adaptação ao cinema da vida de Hemingway, mas o filme concentrava-se apenas num período da juventude do escritor.
Se pudesse sugerir vidas de artistas para serem adaptadas ao cinema, eis alguns nomes que escolheria (que poderiam, ou não, resultar em filmes interessantes):
Estrangeiros:
- James Joyce
- Mishima
- Malevitch
- Nietzsche
- George Orwell
- Magritte
- John Cage
- Bokowski
- Marquês de Sade
- Frank Zappa
- Antonin Artaud
- Luís Buñuel
- Man Ray
- Jacques Brel
- William Burroughs
- Boris Vian
- Jack Kerouac

Portugueses:
- Almada Negreiros
- Mário de Sá-Carneiro
- Luiz Pacheco
- Amadeo de Sousa Cardoso
- Fernando Pessoa
- Mário Cesariny
- António Variações
- Adolfo Luxúria Canibal

Agora é só imaginar um realizador adequado para cada levar ao grande ecrã a vida de cada um destes nomes...

quarta-feira, 22 de outubro de 2008

Huxley sob o olhar de Scott


Durante uns meses foi um mero rumor. Agora parece que é oficial: Ridley Scott, o realizador de um dos mais significativos filmes de ficção científica de sempre - "Blade Runner" (1982) com base no livro homónimo de Philip K. Dick, vai adaptar para cinema outro clássico da literatura futurista - "O Admirável Mundo Novo" de Aldous Huxley. O cineasta revelou que foi Leonardo DiCaprio quem desafiou Scott a avançar com esta arriscada adaptação cinematográfica. O realizador de "Alien" e "O Gladiador" revelou que é um projecto ainda embrionário e de difícil adaptação, dada a complexidade da obra de Huxley.
Não admira esta apreensão do realizador, uma vez que "O Admirável Mundo Novo", livro originalmente editado em 1932, antecipou uma série de desenvolvimentos tecnológicos e sociais que são realidade presente, como a inseminação artificial, a neurolinguística, o predomínio da tecnologia sobre o conhecimento, a eutanásia, a prevalência do colectivo em detrimento do individual, o crescimento desumanizado do progresso científico e material, ou o poder do estado de pendor totalitário disfarçado de democracia. Huxley ficou famoso por essa criação de uma espécie de sociedade distópica, caracterizada por um regime opressivo, controlador e autoritário que elimina a identidade individual em prol de um suposto "bem colectivo". Um mundo altamente perigoso e distorcido, no qual valores como família, arte, ciência, liberdade ou cultura, são suprimidos em nome de um ideal comum propagandeado pelo estado controlador.
Lembro-me que li primeiro "1984" de Goerge Orwell e só depois li a obra de Huxley (que tem o segundo capítulo - "O Regresso ao Admirável Mundo Novo", menos interessante) e senti, em ambos autores, fortes conexões na crítica social e no modo de interpretar o mundo através da sátira política e de um fortíssimo sentido de antecipação histórica.
Agora que Ridley Scott vai adaptar um dos livros de ficção científica fundamentais da primeira metade do século XX, fica a pergunta: conseguirá o realizador perturbar-nos com esta adaptação cinematográfica com a mesma eloquência formal e estética com que o fez com "Blade Runner"?


quinta-feira, 14 de agosto de 2008

Génios atrás das grades



Para além da literatura, o que têm em comum Dostoiévski, William Burroughs, Jean Genet, Oscar Wilde, Cervantes, Paul Verlaine, Ken Kesey, Alexander Soljenítsin, Thomas More ou Marquês de Sade? Todos estiveram presos em determinada circunstância das suas vidas por distintos motivos (desde atentados ao pudor a questões políticas e pequenos delitos). A par de escritores, podia-se juntar uma lista de actores, músicos e desportistas, consagrados e famosos, que já experimentaram ver o sol atrás das grades. A genialidade criativa também tem o seu lado obscuro e demente, prova de que todo o homem se resume a um comum mortal com fraquezas e debilidades.
Como dizia o filósofo Kierkegaard, "a vida é um território sem fim de possibilidades e a cada momento somos forçados a escolher qual o caminho a percorrer". Definitivamente, o mundo é igual para todos e os ímpetos mais negativos e destrutivos da natureza humana não escolhem profissões, estatuto social ou condição artística.