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domingo, 3 de maio de 2015

Moondog: o músico viking


À primeira impressão este homem parece um figurante de um filme antigo de Vikings ou de guerreiros medievais. Nada mais errado. Trata-se de Louis Hardin, mais conhecido pelo nome artístico Moondog. Morreu em 1999 com 82 anos e ficou conhecido por viver quase três décadas nas ruas de Nova Iorque (Sixth Avenue - "O Viking da Sexta Avenida"). Ficou cego ao 16 anos e renunciou à educação cristã vestindo-se com roupas e adereços nórdicos (lanças e tudo) que o próprio criava.

Na realidade, Moondog foi das personagens de rua mais fotografadas dos anos 40, 50 e 60 nos EUA.
Pode parecer um louco excêntrico, mas trata-se de um genial e lúcido compositor que desafia convenções ainda hoje. Inventou instrumentos e gravou dezenas de discos com peças musicais que fundiam o jazz com música clássica e ritmos tribais. Apesar de cego, Moondog foi um criador visionário, admirado por artistas ilustres como Stravinsky, Philip Glass, Bob Dylan, Frank Zappa, Leonard Bernstein, Steve Reich, Charlie Parker, entre muitos outros. Um dos seus temas mais conhecidos é o seu tributo a Charlie Parker com esta esplêndida música "Bird's Lament".

Moondog viveu os últimos 25 anos na Alemanha, país que lhe possibilitou a concretização de uma verdadeira carreira artística através do contributo de uma fã. Actualmente está a ser feito um documentário da realizadora Holly Elson sobre a vida incrível de Moondog. Chama-se "The Viking of Sixth Avenue: Moondog and His Music".

Músico imenso, de uma criatividade que ultrapassa barreiras estilísticas, a obra de Moondog merece ser ouvida e apreciada (só no Youtube há mais de cem músicas disponíveis). Eis duas facetas musicais distintas de Moondog: o primeiro vídeo é de uma música de cariz clássico com um toque jazzístico. Pura criatividade em dois minutos de música:


O segundo vídeo representa outra vertente da visão criativa de Moondog: baseado nos sons e no ritmo do quotidiano de Nova Iorque, "Invocation" é um tema longo, fascinante, hipnótico e tribal que antecipa a estética da música minimalista (que surgiria apenas uma década depois):

sábado, 4 de janeiro de 2014

Desejos para 2014

Em 2014 gostaria que:

- Sergei Eisenstein fizesse um filme sobre a "Primavera Turca".
- Orson Welles filmasse a adaptação de "O Livro do Desassossego" de Fernando Pessoa.
- James Dean entrasse num filme de Wes Anderson.
- Montgomery Clift fosse o galã culto e tímido num filme de Woody Allen.
- Elvis Presley gravasse um disco com canções de Leonard Cohen.
- Frank Sinatra fizesse um dueto com Tom Waits.
- Jim Morrison entrasse num álbum dos Radiohead ou dos Queens of The Stone Age.
- Franz Kafka escrevesse um argumento para um filme de Roman Polanski.
- Marlon Brando fosse o par romântico de Charlize Theron num filme de Scorsese.
- Andrei Tarkovski convidasse Amon Tobin para fazer a música para um novo filme.
- Charlie Chaplin participasse numa comedia com Jerry Lewis.
- Jacques Tati fizesse um filme sobre o impacto das tecnologias digitais na sociedade.
- Primo Levi escrevesse um guião para um documentário sobre Hitler filmado por Errol Morris.
- Frank Zappa colaborasse num disco de Mike Patton.
- George Orwell escrevesse um ensaio sobre o estado da política actual.
- Andy Warhol fizesse uma serigrafia gigante sobre Miley Cyrus.
- Nagisa Oshima fizesse um remake de "O Império dos Sentidos" com Scarlett Johansson e Sean Penn.
- Baudelaire e Rimbaud escrevessem poemas para canções de Matt Elliott e Bob Dylan.
- Leni Rifenstahl realizasse um documentário épico sobre o Mundial de Futebol 2014 no Brasil.
- Jackson Pollock pintasse a fachada do Parlamento Português.
(...)

domingo, 22 de abril de 2012

A beleza estética de "Amelia"

La La La Human Steps é uma influente companhia canadiana de dança contemporânea fundada em 1980 pelo consagrado coreógrafo Édouard Lock. Rapidamente impôs um estilo de dança invulgar, muito físico e enérgico, com uma abordagem quase acrobática da dança (sem perder a sensibilidade mais fina). Esta companhia trabalhou com famosos músicos e grupos de rock como Frank Zappa, David Bowie, Einsturzende Neubauten, ou Skinny Puppy (na concepção de coreografias ou videoclips). O líder da companhia, Édouard Lock realizou diversos filmes (curtas-metragens) com base em coreografias do próprio. A mais famosa e reconhecida (com vários prémios em festivais internacionais de cinema) é "Amelia" (2002), um extraordinário trabalho que alia a dança muito expressiva com momentos de maior serenidade. "Amelia" tem apenas a duração de 25 minutos, mas são 25 minutos de grande intensidade visual, física e musical (do notável compositor contemporâneo David Lang, que até reinterpreta o clássico "Waiting for the Man" dos Velvet Underground).
Em "Amelia", os bailarinos estão numa estranha mas visualmente expressiva caixa de madeira, aparentemente sem entradas ou saídas. Édouard Lock filma os movimentos dos corpos com fascinantes ângulos e movimentos de câmara, de forma a captar as mudanças bruscas coreográficas. A música de David Lang, composta à base de cordas e voz, é de uma grande subtileza dramática, proporcionando momentos contagiantes de movimentos corporais (por vezes os bailarinos ficam suspenso no ar, dão piruetas inesperadas...).
"Amelia" é, em suma, um fabuloso trabalho de dança contemporânea filmado com a exigência de um filme, resultando num todo artístico verdadeiramente único. Poesia para os sentidos. Tudo é brilhante nesta curta-metragem: iluminação, realização, montagem e coreografia. É impossível ficar indiferente a esta obra, mesmo para quem diz que não gosta de dança contemporânea. Pesquisei na internet e não encontrei o filme na sua totalidade, no entanto pode-se degustar oito minutos através deste expressivo excerto:

domingo, 22 de janeiro de 2012

A saga dos "biopics"



Parece que, depois das sequelas e prequelas, Hollywood vai investir em força nos filmes biográficos de personalidades famosas das artes do espectáculo.

Na última década, houve dezenas de "biopics" sobre outras tantas figuras históricas mundiais: Bob Dylan, Edith Piaf, Ian Curtis, Bettie Page, Truman Capote, John Lennon, Harvey Pekar, Margareth Thatcher, Winston Churchill, Kurt Cobain, Nelson Mandela, Harvey Milk, Coco Chanel, Stravinski, Che Guevara, Ian Dury, Johnny Cash, Ray Charles, Howard Hughes, Frida Kahlo, Marilyn Monroe, etc. (até em Portugal já pegou a moda: depois de Amália Rodrigues e Aristides de Sousa Mendes, está em marca o filme biográfico do António Variações).

A mais recente notícia de um projecto para um filme de cariz biográfico é "Grace of Monaco", sobre a actriz e princesa Grace Kelly. O filme será realizado por Olivier Dahan, conhecido pelo filme biográfico de Edith Piaf, "La Vie en Rose". Entretanto, parece que se confirma que Megan Fox vai encarnar a diva Elizabeth Taylor num filme sobre esta actriz que reinou na era dourada de Hollywood.

Se algum produtor de Hollywood ler este blog, eis as minhas sugestões de nomes (cinema, música, pintura e literatura) para futuros "biopics":


- Erik Satie

- Marcel Duchamp

- Antonin Artaud

- Francis Bacon

- Katharine Hepburn

- Lou Reed

- René Magritte

- Humphrey Bogart

- John Cage

- Frank Zappa

- Alfred Hitchcock

- Ozzy Osbourne

- Ingrid Bergman

- Greta Garbo

- Charles Bukowski

- Louise Brooks

- Montgomery Clift

- Dennis Hopper

- Janis Joplin

- Samuel Beckett

- John Wayne

- William S. Burroughs

- Glenn Gould

- Boris Vian

- Malcom McLaren

- Eric von Stroheim

- Jacques Tati

- Jimi Hendrix

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Acredito que, com actores e actrizes adequados a cada personalidade e o realizador ideal, poderiam sair daqui grandes filmes.


ADENDA: Acabo de ler no jornal Expresso que, afinal, quem vai interpretar Elizabeth Taylor é a actriz Lindsay Lohan, num filme com o título "Elizabeth & Richard".


Lindsay Lohan?...

segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Estradasphere

Para quem não conheça os Estradasphere, talvez seja uma boa ajuda falar nos Mr. Bungle ou nos Secret Chiefs 3. Isto porque estes três projectos se inserem naquela lógica caleidoscópica de juntar, num mesmo caldeirão musical, múltiplas abordagens estilísticas que podem ir da música árabe ao rock mais extremo. O resultado, já se sabe, pode ter tanto de estimulante quanto de redundante. Tudo depende da forma como os músicos trabalham e misturam essas diferentes fontes sonoras, de molde a criar um todo artístico coerente.
Ora, os Estradasphere conseguem elevar essa estética simbiótica a um patamar realmente excitante para os nossos sentidos. Pegam em estilos como a música tradicional da Grécia, dos Balcãs, o surf rock, o funk, o death metal, a electrónica, o rock de garagem, o easy listening e, no final, misturam tudo com base num delirante imaginário que bebe tanto das extravagâncias de Frank Zappa como das alucinações criativas de Mike Patton. É por isso que o álbum “Quadropus” (2003) continua a ser um trabalho de absoluta referência, esteticamente demolidor e altamente surpreendente.
Para ouvidos especialmente inquietos:

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

GaGa. Sangue. Esperma. E Vacuidade.


Ao longo de décadas de cultura popular houve muitos artistas excêntricos. Artistas que cultivaram a excentricidade nas suas mais diversas manifestações (visuais, musicais, verbais...). Frank Zappa foi um deles. Um músico (genialmente) excêntrico e visionário.
A excentricidade em Zappa funcionava como uma espécie de complemento aos seus desvarios musicais. Não era, por assim, dizer, a marca que mais o caracterizava, uma vez que a originalidade estética estava acima de todas as prioridades.
A alegada excentricidade das figuras pop dos últimos 20 anos (começando em Madonna), rege-se por outros princpíos, mais fugazes e pueris: é a excentricidade pela excentricidade, entendida como fogo fátuo sensacionalista e veículo publicitário para alimentar páginas de jornais, para cultivar uma pseudo-imagem de culto, para chocar a opinião pública sem rumo ou sentido algum. É a excentricidade do vazio, sem substância, da imagem e do marketing, da cultura bacoca envolta numa ideia de consumo imediato para encher revistas do social. A música, essa, convém que seja banal e inconsequente, porque nem todos conseguem aliar a inovação estética com a excentricidade visual.
Lady GaGa insere-se, perfeitamente, neste conceito. Não é por acaso que a Universidade da Carolina do Sul criou uma nova cadeira de sociologia para estudar o "fenómeno" Lady GaGa. A jovem artista, sedenta de protagonismo e holofotes sobre si própria, continua a dar que falar depois de ter dito que "que manter a virgindade porque assim assegura a sua criatividade" ou pela célebre aparição com "roupa de carne" na cerimónia dos MTV Video Music Awards.
Lady GaGa não perdeu pela demora em criar mais um "facto excêntrico", ao anunciar que vai lançar um perfume com uma fragrância à medida da "originalidade" da artista pop: com cheiro a sangue e a esperma. A minha teoria é a de que GaGa viu o filme "Anticristo" e ficou obcecada pela cena em que Williem Dafoe ejacula, não esperma, mas sangue (Freud teria, por certo, uma explicação pela opção por estes fluidos corporais em particular).
Já se especula qual será a próxima proposta "excêntrica" de Lady GaGa: exumar o cadáver de Béla Lugosi para dormir com ele? Criar um vaporizador para a casa com cheiro a larvas mortas, urina de porco chinês e umas quantas gotas de champanhe Moët & Chandon? Aparecer em palco enquanto é depilada na zona genital por um anão? Anunciar ao mundo que vai casar com um eunuco e defender a zoofilia? Fazer uma música pop com os sons dos orgasmos da actriz porno Sasha Grey? Tudo é possível. E tudo é garantido: seja o que for que GaGa venha novamente a fazer, dizer ou até cantar, é seguro que a vacuidade de ideias e de propostas se vai manter. O culto da imagem fútil vai manter-se (ou seja, o superficial invólucro que a sustenta), e a excentricidade vai continuar a ser inversamente proporcional à visão artística e à música da cantora.
Ao contrário de Franz Zappa, portanto.

segunda-feira, 24 de janeiro de 2011

LUME - Big Band do século XXI


Há fenómenos que não compreendo: um dos mais originais discos de música portuguesa editados (no final) de 2010 praticamente passou despercebido na imprensa: LUME - Lisbon Underground Music Ensemble, liderado pelo compositor, director de orquestra, pianista e manipulador de electrónica Marco Barroso.
Há pelo menos dois anos que esta singular orquestra de jazz (com 15 músicos oriundos de várias experiências) andava a dar nas vistas com concertos em sítios muito específicos. Agora, com o primeiro disco de estreia, o LUME impõe-se como uma big band de jazz do século XXI. Uma big band que mistura, num caldeirão explosivo, o jazz de Duke Ellington, Albert Ayler, John Zorn, o rock tresmalhado de Frank Zappa, Residents, Mr. Bungle, Tortoise, a electroacústica experimental de Charles Ives e Ligeti, a música para cinema de Ennio Morricone ou Henry Mancini e a música erudita contemporânea de Stravinsky ou Messiaen. A tudo isto há ainda a juntar a electrónica com utilização de samples de filmes e excertos de músicas rock.
O resultado musical é um fervilhar impressionante de ideias por segundo, num ritmo swing trepidante (a fazer lembrar, por vezes, Naked City de Zorn) conduzido por uma excepcional secção de sopros. Lá fora há algumas orquestras de jazz que pisam território estético semelhante ao LUME (como a Viena Art Orchestra ou os Flat Earth Society) mas eu arrisco afirmar, sem pudor, que a música de Marco Barroso é muito mais criativa e desafiadora. Esta orquestra, prova, igualmente, a grande qualidade técnica dos instrumentistas portugueses que em nada ficam a dever às grandes referências internacionais.
O crítico de música e ensaísta Rui Eduardo Paes refere que estamos perante um "disco pós-moderno". Isto porque rompe fronteiras estilísticas, subverte linguagens e mistura, com elevado bom gosto, estéticas aparentemente antagónicas, resultando num todo orgânico. Um projecto de uma riqueza musical rara no nosso país. Desejo ardentemente que o trabalho do LUME seja reconhecido em Portugal e, também, no estrangeiro.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

Os músicos, os pais e os avós

É uma sequência notável de fotografias de estrelas da música dos anos 70.
Uma espécie de álbum de família. O fotógrafo John Olson fotografou músicos rock (e não só) em ambiente familiar - em casa com os pais ou avós, entre 1970 e 1971.
A esta série de fotografias Olson deu o título singelo de "Rock Stars and Their Parents" e é disso mesmo que se trata. Não sei se houve encenação ou se as fotografias foram captadas de forma espontânea, mas vale a pena olhar com atenção estas verdadeiras pérolas familiares:

Frank Zappa e os pais, 1970, California

Joe Cocker e a mãe, 1970, Shefield

David Crosby e o pai, 1970, California

Elton John, mãe e padrasto, 1971, Londres

The Jackson Five e os pais, 1970, California

Eric Clapton e a avó, 1971, Surrey

Ritchie Havens e os pais, 1971

terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

Retrato do artista quando jovem - 8


Frank Zappa

Ezra Pound

Patti Smith
John Lydon

Jimmy Page

Gore Vidal

Dennis Hopper

Catherine Deneuve

Elvis Costello

John Cale

Albert Ayler

Fred Astaire

terça-feira, 6 de outubro de 2009

"Biopics" para todos os gostos

Parece que os produtores de cinema se voltaram, definitivamente, para o mercados dos "biopics" de figuras musicais marcantes da história. Depois das biografias cinematográficas de Johnny Cash, Ian Curtis, Bob Dylan, Edith Piaf, Sid Vicious, Rolling Stones, Elvis Presley (TV), entre outros, agora a banda Ramones vai também ser levada ao cinema (entretanto Martin Scorsese já anunciou o seu biopic sobre Frank Sinatra e Spike Lee sobre James Brown).
Nunca fui um fã de Ramones, mas admito que tenha potencial para um filme interessante.
Eu sugeria mais alguns nomes de músicos e bandas que dariam excelente filmes (tendo como critério a vida pessoal e artística do músico):
- Frank Zappa
- Jimi Hendrix
- Blixa Bargeld (Einsturzende Neubauten)
- Gustav Mahler
- Lou Reed
- Erik Satie
- Tom Waits
- Syd Barrett
- Lydia Lunch
- Iggy Pop
- John Coltrane
- Sun Ra
- Sonic Youth
- Freddy Mercury
- Kraftwerk
- Leonard Cohen
- Public Enemy
- Janis Joplin
- Talking Heads
- Spike Jones
- Billie Holiday
- Captain Beefheart
- John Cage
- John Zorn
- Ennio Morricone
- (...)

terça-feira, 14 de abril de 2009

Quando a dança se junta ao cinema


La La La Human Steps é uma influente companhia canadiana de dança contemporânea fundada em 1980 pelo coreógrafo Édouard Lock. Rapidamente impôs um estilo de dança invulgar, muito físico e enérgico, com uma abordagem quase acrobática da dança (sem perder a sensibilidade mais fina). Esta companhia trabalhou com famosos músicos e grupos de rock como Frank Zappa, David Bowie, Einsturzende Neubauten, ou Skinny Puppy (na concepção de coreografias ou videoclips). O líder da companhia, Édouard Lock realizou diversos filmes (curtas-metragens) com base em coreografias do próprio. A mais famosa e reconhecida (com vários prémios em festivais internacionais de cinema) é "Amelia" (2002), um extraordinário trabalho que alia a dança muito expressiva com momentos de maior serenidade. "Amelia" tem apenas a duração de 25 minutos, mas são 25 minutos de grande intensidade visual, física e musical (do notável compositor contemporâneo David Lang, que até reinterpreta o clássico "Waiting for the Man" dos Velvet Underground).
Em "Amelia", os bailarinos estão numa estranha mas visualmente expressiva caixa de madeira, aparentemente sem entradas ou saídas. Édouard Lock filma os movimentos dos corpos com fascinantes ângulos e movimentos de câmara, de forma a captar as mudanças bruscas coreográficas. A música de David Lang, composta à base de cordas e voz, é de uma grande subtileza dramática, proporcionando momentos contagiantes de movimentos corporais (por vezes os bailarinos ficam suspenso no ar, dão piruetas inesperadas...).

"Amelia" é, em suma, um fabuloso trabalho de dança contemporânea filmado com a exigência de um filme, resultando num todo artístico verdadeiramente único. Poesia para os sentidos. Tudo é brilhante nesta curta-metragem: iluminação, realização, montagem e coreografia. É impossível ficar indiferente a esta obra, mesmo para quem diz que não gosta de dança contemporânea. Pesquisei na internet e não encontrei o filme na sua totalidade, no entanto pode-se degustar cinco minutos através deste expressivo excerto (chamo a especial atenção para os magníficos últimos dois minutos desta sequência coreográfica):

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2009

Hemingway no cinema (entre outros possíveis)


A indústria de Hollywood continua obcecada com remakes e "filmes trigémeos". O que está mesmo a dar é adaptar ao grande ecrã a vida de personalidades famosas, sobretudo oriundas do mundo das artes e do espectáculo. A notícia mais recente tem a ver com a concepção de um filme biográfico sobre a vida do escritor Ernest Hemingway (1899 - 1961). É mais uma figura das artes controversa que teve uma vida pessoal e profissional atribulada, elementos que enriquecem sempre um filme (já para não falar do facto de Hemingway se ter suicidado). Mas este filme sobre o Prémio Nobel da Literatura arrisca-se a entrar no rol dos gémeos ou trigémeos, já que existem outras produções em andamento sobre a vida do autor de "O Velhor e o Mar". Em 1996, o realizador Richard Attenborough já tinha feito uma adaptação ao cinema da vida de Hemingway, mas o filme concentrava-se apenas num período da juventude do escritor.
Se pudesse sugerir vidas de artistas para serem adaptadas ao cinema, eis alguns nomes que escolheria (que poderiam, ou não, resultar em filmes interessantes):
Estrangeiros:
- James Joyce
- Mishima
- Malevitch
- Nietzsche
- George Orwell
- Magritte
- John Cage
- Bokowski
- Marquês de Sade
- Frank Zappa
- Antonin Artaud
- Luís Buñuel
- Man Ray
- Jacques Brel
- William Burroughs
- Boris Vian
- Jack Kerouac

Portugueses:
- Almada Negreiros
- Mário de Sá-Carneiro
- Luiz Pacheco
- Amadeo de Sousa Cardoso
- Fernando Pessoa
- Mário Cesariny
- António Variações
- Adolfo Luxúria Canibal

Agora é só imaginar um realizador adequado para cada levar ao grande ecrã a vida de cada um destes nomes...

sábado, 17 de janeiro de 2009

Estrelas rock: álbum de família

É uma sequência notável de fotografias de estrelas da música. Uma espécie de álbum de família. O fotógrafo John Olson fotografou músicos rock (e não só) em ambiente familiar - em casa com os pais ou avós, entre 1970 e 1971. A esta série de fotografias Olson deu o título singelo de "Rock Stars and Their Parents" e é disso mesmo que se trata. Não sei se houve encenação ou se as fotografias foram captadas de forma espontânea, mas vale a pena olhar com atenção estas verdadeiras pérolas familiares:

Frank Zappa e os pais, 1970, California

Joe Cocker e a mãe, 1970, Shefield

David Crosby e o pai, 1970, California

Elton John, mãe e padrasto, 1971, Londres

The Jackson Five e os pais, 1970, California

Eric Clapton e a avó, 1971, Surrey

Ritchie Havens e os pais, 1971, Brooklyn

quarta-feira, 19 de novembro de 2008

O som da LUME Big Band


O compositor e músico Marco Barroso venceu recentemente o "Prémio Jovem Autor" atribuído pela SPA e Milleniumbcp. É o reconhecimento artístico de um jovem músico com visão e que gosta de arriscar num panorama musical português geralmente amorfo. Marco Barroso juntou 15 músicos com formação jazzística e formou uma Big Band, a que chamou LUME - Lisbon Underground Music Ensemble. Esta é a primeira big band genuinamente portuguesa a tocar temas originais de um compositor português com referências estéticas que vão muito para lá do jazz. E só isso já seria de louvar. Mas Marco Barroso não se limita a gerir as expectativas, visto que a sua música não se confina aos estereótipos habituais em big bands. Basta constar as múltiplas e diversificadas influências musicais do compositor para perceber que prefere a heterodoxia estética do que a formatação habitual do jazz (como referiu nesta entrevista): Carla Bley, John Zorn, Fred Frith, Mike Patton, Dave Douglas, Evan parker, Stravinski, Ligeti, Residents, Mr. Bungle, Frank Zappa, rock experimental, música erudita contemporânea, etc.
Ou seja, o projecto LUME Big Band assume-se como um colectivo de músicos liderado por um pianista e compositor que absoveu as coordenadas mais diversas para criar a sua própria música. Lisbon Underground Music Ensemble situa-se, a espaços, no mesmo terreno de experimentação da Flat Earth Society, a big band norte-americana (cujos discos são editados pela editora de Mike Patton) capaz de saltar, com a mesma naturalidade, do swing para o noise rock. Marco Barroso ainda não chegou tão longe nessa via de experimentação, mas gosta de apelidar a sua música como "free-style", ancorada num cruzamento híbrido entre o jazz, o rock, e a música erudita contemporânea. Uma proposta original e contemporânea que pode agitar as águas da música portuguesa.

domingo, 5 de outubro de 2008

O que é hoje a vanguarda?


A revista Única do semanário Expresso desta semana dedica grande parte das suas páginas ao conceito de "vanguarda". Vanguarda na ciência, na investigação, nas artes, no pensamento. Há igualmente uma secção sobre 10 personalidades portuguesas que se encontram "à frente" em várias matérias: design, arquitectura, ciência, video-arte, cinema, moda, teatro, literatura, artes plásticas, etc. Como complemento explicativo ao tema explorado, o Expresso decide enumerar as várias manifestações artísticas às quais habitualmente conotamos com o conceito de vanguarda, ao qual deu o título "abecedário das vanguardas": futurismo, dadaísmo, expressionismo abstracto, cubismo, etc. Na música são referidos os inevitáveis John Zorn, John Cage, Pierre Boulez, Anton Webern, Schoenberg, Xenakis e Frank Zappa. De facto, todos estes nomes representaram diferentes formas de encarnar a vanguarda estética na música, mas é mais do que óbvio que se trata de uma lista muito reducionista. Haveria muitos outros nomes a referir, mas isso nem é o mais importante. A questão é que o jornalista Luís M. Faria, que assina o texto, refere-se da seguinte forma quando aborda Zappa: "Zappa - Porque o rock também tem vanguardas. Este artista nunca parou de experimentar, tendo mesmo tido uma colaboração muito badalada com Pierre Boulez. Também poderíamos referir Hector Zazou". A minha opinião é esta: a haver vanguardas no rock, estas não se resumem, nem de perto nem de longe, a Frank Zappa. Sempre houve experimentação na história do rock, como houve na electrónica, no jazz ou até na pop. Só não percebi a referência final ao Zazou: também é um artista vanguardista ou é citado porque, alegadamente, teve uma colaboração com Pierre Boulez?
A discussão à volta da vanguarda nas artes é muito complexa e abrangente. O que o Expresso fez foi enumerar e caracterizar, sinteticamente, as correntes mais consensuais das vanguardas artísticas. O que não fez (porque é mais arriscado e difícil) foi problematizar o tema. Dito de outro modo, seria interessante que o Expresso tivesse publicado um artigo sobre o que é hoje a vanguarda, ou que tivesse solicitado a especialistas opiniões sobre este assunto. É que importa saber se na criação artística contemporânea ainda sobrevive o conceito de vanguarda como foi concebido pelos "ismos" da primeira metade do século XX, ou se é já outra coisa mutável e sem definição precisa. Um dia o ensaísta e jornalista musical Rui Eduardo Paes disse que já não fazia sentido falar em vanguarda (no sentido estético da transgressão e inovação) na criação musical actual, mas sim em "manifestações de experimentação". Será que o conceito de vanguarda morreu, como conceito, com Marcel Duchamp, John Cage ou Fluxus? O próprio Expresso apenas dá como exemplos de conceitos de vanguarda, artistas e movimentos já longínquos no tempo, que fazem parte do passado. Se não estou em erro, os únicos artistas vivos que são citados são John Cale e John Zorn. As dezenas de outros artistas, compositores, teóricos, escritores, artistas plásticos referenciados como vanguardistas, estão há muito mortos e enterrados. Não é, porventura, sintomático? E já agora, porque é que não foi citado nem um único realizador ou estética cinematográfica no âmbito das vanguardas? Não houve vanguarda no cinema?
Partilho da ideia do Rui Eduardo Paes. A vanguarda, como conceito teórico para definir a criação artística inovadora e avançada, morreu com com a 2ª Guerra Mundial. A partir dos anos 50 e 60, a História da Arte regista múltiplas manifestações artísticas importantes mas que mais não são do que reinterpretações, apropriações e reciclagens estéticas das vanguardas históricas.
Na imagem: "L.H.O.O.Q." (1919) de Marcel Duchamp

terça-feira, 27 de maio de 2008

Os mais inlfuentes da História da Música

Ao pesquisar na Internet sobre uma assunto relacionado com música clássica, dei de caras com uma lista que compila os 15 compositores mais influentes da história da música. Tarefa deveras complicada e arriscada. Não conheço qual a validade científica desta eleição e quais os critérios, mas não deixo de ficar surpreendido com os primeiros lugares (sobretudo os três primeiros). Outra surpresa prende-se com o apelido Bach: no 10º lugar está Carl Philip Emanuel Bach, filho do bem mais importante Johann Sebastian Bach, que nem sequer se encontra na lista dos 15 seleccionados!
Outra espantosa surpresa mas absolutamente justificável: o segundo lugar atribuído a uma das mais importantes pedagogas e professoras musicais do século XX: Nadia Boulanger. Apesar do seu trabalho de composição não ter sido influente na evolução estética da música erudita, a sua pedagogia foi-o de forma determinante. Basta constatar a impressionante lista de alunos que lhe passaram pelas mãos e que formou em termos académicos: Philip Glass, Aaron Copland, Astor Piazzolla, Igor Stravinsky, Leonard Bernstein, Quincy Jones, Egberto Gismonti, John Eliot Gardiner, Burt Bacharach, entre outros.
Edgar Varèse
, referido na segunda posição, é um compositor essencial do século XX e, de facto, a sua obra influenciou gerações de compositores e músicos de várias latitudes musicais, desde Stockhausen a Frank Zappa. Varèse foi um criador visionário, ávido em experimentar novas fórmulas estéticas e soluções sonoras (foi com este compositor que a percussão e a electrónica começaram a introduzir-se na linguagem musical erudita). Por sua vez, John Cage, em primeiro lugar, acaba também por ser um lugar merecido, dada a importância teórica e as revoluções estéticas que o compositor americano levou a cabo ao longo da sua profícua carreira. Mas listas são listas, sempre subjectivas, mutáveis e ao sabor dos tempos e pontos de vista. Esta é mais uma e, ainda que não seja uma referência absoluta, tem o mérito de suscitar a discussão e a reflexão.

Por ordem decrescente:

15 - Saint Hildegard Von Bingen (1098 - 1179)
14 - Guillaume Dufay (1397 - 1474)
13 - Giovanni Pierluigi da Palestrina (1525? - 1594)
12 -
Antonio Vivaldi (1678 - 1741)
11 - George Frideric Handel (1685 - 1759)
10 - Carl Philipp Emanuel Bach (1714 - 1788)
9 - Franz Joseph Haydn (1732 - 1809)
8 - Wolfgang Amadeus Mozart (1756 - 1791)
7 - Giuseppe Verdi (1813 - 1901)
6 - Richard Wagner (1813 - 1883)
5 - Gustav Mahler (1860 - 1911)
4 - Igor Stravinsky (1882 - 1971)
3 - Edgard Varèse (1883 - 1965)
2 - Nadia Boulanger (1887 - 1979
1 - John Cage (1912 - 1992)

sábado, 17 de maio de 2008

O papel do crítico musical


Este é um país que liga muito pouco à crítica de arte. Os críticos que escrevem para a imprensa generalista ou especializada, sejam de música, cinema, artes plásticas, literatura, ou de teatro, têm a nobre função de divulgar e promover os objectos culturais que analisam. Mas para quem escrevem os críticos? A verdade é que, na esmagadora maioria dos casos, os críticos escrevem para o próprio umbigo, para uns quantos iniciados e para... os outros críticos. É um círculo vicioso que em nada beneficia o leitor médio de jornais ou revistas. O exercício da crítica deve conter tanto de informativo como de emissão de juízo de valor e, tendencialmente, elaborada numa linguagem o menos técnica e hermética possível.
Vem esta introdução a propósito do facto de, no dia 15 de Maio, terem passado 3 anos da morte daquele que considero ter sido um dos melhores críticos de música que este país já teve: Fernando Magalhães (na foto). Com formação em filosofia, a paixão pela música e pelo jornalismo falou mais alto. Durante anos escreveu para diversas publicações, mas foi no (então) semanário Blitz e no diário Público que a escrita de Fernando Magalhães se fez notar. Para além do grande domínio da língua portuguesa, o jornalista tinha uma vasta e diversificada cultura musical, que lhe permitia dissertar com a mesma desenvoltura sobre fado, krautrock, electrónica experimental, world-music ou jazz (foi a ler muitas das suas críticas que desenvolvi o gosto pelas mestiçagens estéticas). Depois, detinha um sentido de humor férreo e cáustico, sobretudo quando fazia reportagens de concertos ao vivo. Tanto revelava valores musicais emergentes como escrevia longas recensões sobre artistas consagrados como Frank Zappa, Residents, Dead Can Dance, Kepa Junkera ou (o seu muito amado) Peter Hammil. Muitas vezes se queixou que o Público não lhe dava rédeas soltas para escrever sobre aquilo que queria realmente escrever (dado que privilegiava as correntes musicais marginais e alternativas), facto que lhe proporcionava uma angústia crescente enquanto profissional. A crítica musical de Fernando Magalhães era cirúrgica, extremamente bem construída, inteligente, pragmática e pedagógica (premissa importante mas desprezada por muitos críticos). Do panorama da crítica musical nacional, só o João Lisboa se lhe compara em dimensão jornalística e cultura musical. Das novas gerações, o estilo jornalístico de Magalhães deixou marcas em críticos como João Bonifácio (Público).
3 anos depois do seu desaparecimento, vale a pena ainda ler ou reler muitos dos seus textos, artigos, críticas e entrevistas. Basta abrir este espaço dedicado à memória da escrita de Fernando Magalhães.


segunda-feira, 10 de março de 2008

A Big Band tresloucada


Esta é bem capaz de ser uma das mais delirantes big bands que alguma vez pisou a face da terra. Chamam-se Flat Earth Society, são 22 músicos de formações distintas liderados pelo clarinetista Peter Vermeerche. Misturam músicas num caldeirão onde cabe: Frank Zappa, John Zorn, Mike Patton, Duke Ellington, Sun Ra, Henry Mancini, Carl Stalling (compositor de cartoons), Ennio Morricone, jazz, blues, rock, experimental, e o mais que se queira imaginar. O resultado musical é uma orquestra em completa ebulição criativa, em estado de delírio frenético e constante. Diversão e profundidade são duas das muitas nuances da big band, que de big band convencional nada tem. Acabei de ouvir o último registo do grupo - "Psychscout" e ainda tenho os pelos em pé. Diz-se que ver os Flat Earth Society ao vivo é uma experiência irrepetível e surpreendente. Acredito. E eu acreditarei na Virgem Maria quando ler a notícia que esta tresloucada orquestra vem tocar um dia em solo português.