quinta-feira, 19 de maio de 2011

Playtime #56


A solução: "A Vila" (2004) - M. Night Shyamalan
Quem descobriu: Dom Carlos Coronário

Wire e Battles

Uma das mais inspiradas capas dos últimos tempos na revista Wire para uma das mais criativas bandas do momento: Battles.

(sugiro clicar na imagem para aumentar a visualização)

Lars Von Trier e os "soundbytes"



Sinceramente, vindo de Lars Von Trier, já nada espanta ou choca. Há dois anos, a propósito do filme "Anticristo", disse que se considerava o "melhor realizador do mundo". Pelo meio proferiu várias opiniões controversas sobre política e cinema.

Agora, na conferência de imprensa, também em Cannes, acerca do seu novo filme, "Melancholia", o cineasta resolveu mandar umas piadas (espontâneas ou planeadas?) sobre Hitler e os judeus. Para além do despropósito e do mau gosto inerente a estas afirmações (é ver no vídeo o ar embaraçado da actriz Kirsten Dunst!), ressalta a conclusão de que Lars é um especialista em lançar "soundbytes" que têm, unicamente como fim, gerar publicidade gratuita à sua volta.

Parece um menino mimado que chega a uma festa de anos na qual é ignorado e, para se afirmar e chamar a atenção, resolve fazer ou dizer disparates. Lars Von Trier é um realizador que divide paixões no meio cinéfilo: há quem admire a sua dimensão estética, há quem o abomine pela ausência de ética. Uma coisa é certa: Lars arranja sempre motivos para falarem dele.

Deve seguir a máxima do pintor surrealista Salvador Dalí: "O que eu quero é que falem de mim. Nem que seja para dizer bem".

quarta-feira, 18 de maio de 2011

Ian Curtis inédito

"I can feel an emptiness and see heads held in shame, trapped inside a legacy of everyone to blame.
In the distance see myself just washed up on the shore, a picture in my mind of what will come before the storm."

Poema inédito de Ian Curtis. Para ler o restante, aqui.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #22

Kubik - novo disco

O meu projecto musical pessoal, Kubik, apresentou, em concerto no passado Sábado (14 de Maio, no Teatro Municipal da Guarda), o novo álbum - "Psicotic Jazz Hall". A edição tem selo do TMG e pode ser encomendado através deste link. Brevemente estará também disponível nas lojas habituais.

"O percurso musical de Victor Afonso, nos seus quase vinte anos de longevidade, é uma das histórias de maior criatividade e diversidade da que a música portuguesa moderna teve o prazer de conhecer. Das compilações aos discos de originais, da memorável banda sonora original Guarda: A Memória das Coisas às apresentações ao vivo e aos filmes mudos com música original, Victor Afonso foi construindo um corpo de trabalho sem cedências artísticas de qualquer espécie, vanguardista e fusionista no melhor significado possível da palavra. Um trabalho que parte da música electrónica para se abeirar do noise, do jazz, da world music, da pop mais permeável e de tudo o mais que se atravesse no caminho; fluentemente experimental, amigo do sampling, aberto ao mundo.

O seu novo disco (e neste caso “novo” adquire todo um novo contexto), Psicotic Jazz Hall, que fecha a trilogia de álbuns começada por Oblique Musique (2001) e continuada por Metamorphosia (2005), é, quando julgávamos já impossível ir mais além, um constante abrir da palete sonora para deleite dos melómanos mais exigentes. Não é à toa que Mike Patton, mestre do baralha e volta a dar, viu em Victor Afonso um talento que transborda fronteiras. Está nos genes de Victor Afonso reinventar-se a cada vez que mostra novo trabalho. E Psicotic Jazz Hall não é excepção. Os treze temas que compõem este novo disco revelam uma complexidade que não é novidade, um cuidado com os pormenores que é apanágio de Kubik. E sempre que o imenso turbilhão de ideias e recursos encontra um aparente beco sem saída, Victor Afonso descobre uma forma de escapar em classe e em estilo.

O jazz é a matriz principal deste trabalho mas a fragmentação habitual leva esta viagem para outras esferas: que o groove de “Shina-Kak” desapareça já se isto é mentira. Como se Victor Afonso pegasse em toda a boa música do mundo, a desfizesse em estilhaços e depois, subversivamente, a voltasse a reconstruir: é assim que soa Psicotic Jazz Hall, um disco cujo título remete para o título de um álbum do francês Pascal Comelade que, como Victor Afonso, se serve de uma certa bizarria a seu bel-prazer. Da Guarda para o mundo, Victor Afonso volta a assinar um disco com atributos visíveis a partir de outros planetas mas para ser consumido com toda a humanidade."

André Gomes (Editor do Bodyspace, in BIS/TMG - Abril - Junho 2011)


Mais informação, músicas e vídeos em Kubik Music

Cannes e o Facebook


Na velocidade e na massificação da informação cibernética actual, causa-me muita estranheza o facto da página oficial do Festival de Cannes no Facebook ter, apenas, 7.500 seguidores. É um número perfeitamente irrisório no contexto da internet à escala global.

Isto quando sabemos que abundam, no Facebook, páginas e páginas de "personalidades" que têm largas dezenas (ou centenas) de milhar de seguidores. Será de acreditar que haja, no universo dos 500 milhões de utilizadores do Facebook, somente sete mil e quinhentos que "gostem" do mais concorrido (e, porventura, melhor) Festival de Cinema do mundo? Por andam os cinéfilos do mundo virtual do Facebook?

domingo, 15 de maio de 2011

O jornal pela manhã

"Eu fico deprimido quando leio o jornal pela manhã. Há uns anos, ao falar com Ingmar Bergman, disse-me que nunca lia o jornal logo de manhã porque isso arruinava-lhe o resto do dia inteiro. E realmente, quando te levantas de manhã e lês todas aquelas histórias terríveis, uma atrás da outra... Tu tens que estar nalgum sítio em meia hora, os teus filhos berram e tens que os levar à escola, quando depois de ler o que leste o teu corpo te pede para apanhar o primeiro avião para o Darfur no intuito de mudar alguma coisa. Por isso fico deprimido e aborrecido o dia todo."

Woody Allen (que, por certo, não deve ler os jornais portugueses logo pela manhã, caso contrário, a sua depressão lavá-lo-ia ao suicídio).

sexta-feira, 13 de maio de 2011

Woody Allen em Paris

Segundo rezam as crónicas vindas de Cannes, o novo filme de Woody Allen, "Midnight in Paris" é um regresso à boa forma a que nos habituou o realizador nova-iorquino nos seus anos de maior criatividade e inspiração. Ora, esta é uma óptima notícia para todos os admiradores de Woody, uma vez que os seus últimos 4 ou 5 filmes não passaram de medianas e até desequilibradas (nalguns títulos) comédias existencialistas sem grandes laivos de originalidade.

Segundo li, o argumento desta nova incursão de Woody Allen pela Europa (a eterna romântica Paris), revela-se um prodígio de soluções que fogem aos lugares-comuns habituais nas comédias passadas na capital francesa. O elenco está em bom nível, a realização idem, e a música (como se pode ouvir no trailer) é, como sempre, de superior bom gosto.

Como vivi os meus primeiros sete anos de vida em Paris e enquanto fã de Woody Allen, só posso ansiar por ver "Midnight in Paris".

Discos que mudam uma vida - 141


New Order - "Power, Corruption & Lies" (1983)

quinta-feira, 12 de maio de 2011

A viagem sonhada a Cannes



Hoje tem início a 64ª edição do Festival de Cinema de Cannes. O mais competitivo, mediático e afamado festival de cinema do mundo.

Existem os prestigiados festivais de Veneza, Berlim, Sundance, mas nenhum se compara, em importância e glamour, ao de Cannes. E não há realizador no mundo, novato ou veterano, que não gostasse de ter os seus filmes a concurso neste festival ou, claro, ganhar a Palma de Ouro. Claro que Cannes é, também um mundo inesgotável de negócio (que o diga Paulo Branco) e de comércio, mas isso faz parte da essência de qualquer festival. Há também frivolidades andantes, figuras públicas e estrelas de pacotilha que se pavoneiam pela carpete vermelha para verem e serem vistas. No entanto, o cerne de Cannes sempre foi e será o cinema, os filmes, os artistas. Isso é que fica para a posteridade.

Poucos serão os cinéfilos que não gostariam de poder assistir ao festival. Sentir o frémito e as emoções resultante do visionamento dos grandes filmes a concurso, partilhar os aplausos ou os apupos aos filmes, assistir às concorridas conferências de imprensa com realizadores e actores, sentir o ritmo frenético da exibição dos filmes em catadupa, as várias secções competitivas, a entrega dos prémios, etc.

Foi o que tentei fazer um dia: ir a Cannes - através de um concurso nacional. Corria o ano de 1990 e o concurso, designado, "Sê um Crítico de Cinema e Vai a Cannes!" (cito de memória) era dinamizado pelo Instituto Português da Juventude. A coisa funcionava de forma muito simples: qualquer jovem com menos de 25 anos podia participar; bastava ver um filme que na altura estivesse em cartaz e escrever uma crítica ao mesmo segundo algumas regras pré-estabelecidas. Os autores das 20 melhores críticas nacionais eram seleccionados para irem a Lisboa verem outro filme, outra crítica e, a melhor considerada pelo júri, tinha como prémio uma viagem ao festival de Cannes durante dois dias (ou três, já não me recordo) com todas as despesas pagas (tempos áureos, hoje já não existem estes prémios chorudos!).

Fui seleccionado, a nivel nacional, para a lista dos 20 participantes de Lisboa com a crítica ao filme "Presumível Inocente" (1990) de Alan J. Pakula (com Harrison Ford), um interessante thriller que marcou aquele ano de cinema. Lá fui a Lisboa para a competição final, sempre com Cannes em vista. Cheguei numa sexta-feira. Logo nessa noite, eu os restantes concorrentes decidimos assistir a uma sessão num sítio óbvio, a Cinemateca. Recordo-me que vimos um clássico mediano do Raoul Walsh. O grupo de concorrentes era constituído por jovens estudantes de todo o país, e a única coisa em comum entre todos era a paixão pelo cinema. No sábado seguinte, logo de manhã, eu os outros 19 participantes, fomos visionar o filme para a crítica final que iria decidir quem iria a Cannes. Era um filme tão medíocre e comercial que já nem me lembro que objecto era aquele. As críticas foram entregues ao júri que deliberou no dia seguinte. Quem ficou em primeiro lugar foi um jovem de Lisboa que ganhara o privilégio de conhecer Cannes. Eu fiquei em 5º ou 6º lugar e tive direito a um prémio de consolação: um bilhete para assistir ao Estoril Open! Como não gosto de ténis, despachei logo o dito cujo para outra pessoa interessada. Ir ao Estoril Open em vez de ir a Cannes era consolação para quem quer que fosse?

Foi a única vez que estive perto de ir a Cannes, por intermédio de um concurso juvenil, imagine-se. Talvez um dia programe umas férias em Maio na Côte d'Azur para servir de pretexto para conhecer o festival. Talvez.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

Entrevista Póstuma (6) - João César Monteiro


O Homem Que Sabia Demasiado - O João César Monteiro divide fortemente opiniões: há quem o adore mas há também que o despreze. Como lida com estas visões extremadas?

João César Monteiro - Quem não gosta de mim é um filho da puta!

O Homem Que Sabia Demasiado - Hum... Sempre foi um cineasta com uma sensibilidade muito satírica e propícia a polémicas que...

João César Monteiro - Não me vai falar do caso "Branca de Neve", pois não?

O Homem Que Sabia Demasiado - Por acaso até ia porque gostava de saber...

João César Monteiro - Então vocês também é um filho da puta! Não me chateie com essas imbecilidades! A entrevista acaba aqui. Adeus.

O Homem Que Sabia Demasiado - Mas...

terça-feira, 10 de maio de 2011

Dissidenten em Sines

Uma das bandas mais esperadas no cartaz do próximo Festival Músicas do Mundo de Sines são os Dissidenten (tocam no dia 29 de Julho).

Alguém me gravou um disco desta banda numa cassete áudio pelos meados dos anos 80. Das várias centenas de cassetes que acumulei durante essa década, confesso que a cassete com o viciante disco "Sahara Electrik" dos Dissidenten foi das que mais rodou na aparelhagem (ao ponto da fita se ter estragado). À altura, era para mim um disco com uma sonoridade totalmente nova e estimulante, em que sons do Médio Oriente e da Ásia se misturavam com ritmos electrónicos, com o funk e o rock, na esteira do seminal álbum "My Life in the Bush of Ghosts" (editado dois anos antes) de David Byrne e Brian Eno.

Os Dissidenten são um colectivo alemão que criou alguns álbuns essenciais para a evolução da estética "fusionista" entre a world-music e a sensibilidade puramente pop (que viria a desenvolver-se posteriormente com outros grupos). De resto, o tema "Fata Morgana" dos Dissidenten foi um dos temas mais populares nas pistas de dança alternativas da primeira metade dos 80 em países como Espanha, Itália, Alemanha e Canadá.

"Sahara Electrik" é um disco de pura energia e encantamento melódico e rítmico, concebido por um grupo de alemães fascinados pela tradição musical de Marrocos, Argélia e Índia (também colaboraram com alguns músicos destes países).

Para quem quiser conhecer ou recuperar este disco dos Dissidenten, basta carregar neste link e o disco estará pronto a ser degustado em todo o seu esplendor!

Ouça-se "Fata Morgana"!

segunda-feira, 9 de maio de 2011

Filmar as pinceladas de Picasso


"Le Mystère Picasso" (1956) é um dos mais inspirados e belos documentários sobre arte que conheço. Filmado pelo conceituado cineasta francês Henri-Georges Clouzot, este filme mantém, ainda hoje, uma frescura e uma originalidade invulgares. Clouzot filma, de forma insuperável, o genial Pablo Picasso em continuadas sessões de pintura. O espectador apercebe-se facilmente quão excepcional é a veia criativa do pintor espanhol, quão espontânea e perfeita. O método pictórico de Picasso é captado pela câmara de Clouzot como um olhar distanciado, mas ao mesmo tempo minucioso, na captura da leveza do traço, das cores e dos movimentos.

"O Mistério Picasso" é, basicamente, um filme sobre a imponência perene da criação artística. Mais a mais, sendo o objecto do filme a figura ímpar de Picasso. E é, igualmente, uma notável obra de cinema (Clouzot criou técnicas inovadoras para captar as pinceladas do pintor).

Pode ser visto na íntegra aqui.

Genealogia de Fotogramas #7








domingo, 8 de maio de 2011

Recriar "Eduardo Mãos de Tesoura"


Há pouco mais de 20 anos, Tim Burton criava "Eduardo Mãos de Tesoura".

Uma inesquecível e emocionante história sobre um amor impossível pintado com pormenores inauditos: uma criatura bizarra com tesouras em vez de mãos e uma adolescente inadaptada num cenário urbano idilicamente americano. Um confronto entre dois mundos: o do inventor no castelo sombrio e o dos subúrbios com as casas multicoloridas.

Tim Burton construiu um dos seus universos visuais mais espantosos; Johnny Depp foi perfeito num dos personagens mais fascinantes do imaginário cinematográfico de sempre; Danny Elfman teve, porventura, o seu momento de maior inspiração na composição musical; Winona Ryder nunca mais foi tão pura e cativante como neste filme.

20 depois do mundo conhecer "Eduardo Mãos de Tesoura", a galeria californiana Nucleus lançou um desafio aos artistas gráficos e ilustradores de todo o mundo: recriar a iconografia estética herdada do filme de Burton. Para tal, criou um blogue próprio no qual se podem apreciar essas recriações.


Lido aqui.

sábado, 7 de maio de 2011

Clássicos do Cinema em BD para Pessoas com Pressa #21

Clicar para aumentar a imagem.

Televisão culturista

No programa televisivo "Quem Quer Ser Milionário", o concorrente é confrontado com a seguinte pergunta:

- "Qual dos seguintes músicos representa a música minimalista?"

Possibilidades de resposta:

a) W.A. Mozart

b) Stevie Wonder

c) Mick Jagger

d) Steve Reich

Resposta do concorrente com toda a convicção: "Mozart".

sexta-feira, 6 de maio de 2011

O misterioso Joe Gould


Reli passagens deste livro de culto e reforcei a opinião de que o bom jornalismo consegue, por vezes, almejar ao estatuto de boa literatura.

Sobre este livro, "O Segredo de Joe Gould" (Dom Quixote, 2001), de Joseph Mitchell, disse António Lobo Antunes: "em poucas ocasiões me ri tanto e admirei tanto: li-o três vezes seguidas num pasmo crescente, num júbilo sempre renovado, e a cada leitura descobri um livro diverso, surpreendente, magistral. R.L.Stevenson garantia que se uma obra não tinha encanto não tinha nada. Esta tem-no para dar e vender."

E atente-se no que refere a escritora Doris Lessing, vencedora do Prémio Nobel da Literatura: "É um livro único. Não conheço nada que se lhe compare." Sobre os elogios a esta obra ainda poderíamos citar Salman Rushdie, Ian McEwan ou Martin Amis.

Mas quem é, afinal, Joseph Mitchell (na imagem) para receber tamanhos e incondicionais louvores críticos? Foi um dos mais importantes jornalistas americanos de sempre. Escreveu para a icónica revista "The New Yorker" nos anos 50. Mitchell percorria as ruas de Nova Iorque à procura de histórias bizarras, sendo um meticuloso observador da realidade (antecipando um outro notável jornalista literário - Truman Capote).

A sua escrita é refinada, atenta ao pormenor e repleta de ironia e humor (a que se refere Lobo Antunes). É uma obra de um só fôlego, imbuída de momentos de supremo gozo literário.


O livro "O Segredo de Joe Gould" contém dois perfis que o jornalista escreveu sobre Joe Gould, um vagabundo que largou tudo (inclusive a família e estudos académicos em Harvard) para escrever "Uma história Oral do Nosso Tempo”. Um suposto e monumental livro, onze vezes maior que a bíblia, onde estaria reunido todo tipo de histórias e conversas que Gould ouvira na vida (recolhendo milhares de diálogos, discussões de rua, bares decadentes de Manhattan, etc). Joe Gould acreditava que, no futuro, essa sua obra seria de grande importância para o estudo histórico de sua época. Tinha como amigos vários escritores, editores, jornalistas e poetas como Ezra Pound ou E.E. Cummings.

Gould morreu em 1957 e o livro que foi escrito nunca foi encontrado - não se sabia mesmo se chegara de facto a existir. Mas a lenda dizia que existia, aumentando a reputação e o fascínio à volta do vagabundo Gould. Em 1964, sete anos após a morte de Gould e mais de vinte anos após o perfil da "The New Yorker", Joseph Mitchell escreveu para a mesma revista outro texto sobre o boémio nova-iorquino - "O Segredo de Joe Gould" -, revelando o mistério guardado por tanto tempo (texto que viria a dar neste livro). Depois dessa reportagem histórica, o jornalista nunca mais publicou sequer um texto. Morreu de cancro em 1996.

"O Segredo de Joe Gould" foi adaptado em 2000para o cinema por Stanley Tucci, num filme com Ian Holm, Steve Martin e Susan Sarandon. Como nunca tive oportunidade de o ver, não sei se o filme está à altura da grandeza e originalidade da obra literária.


Nota: apesar da primeira edição contar já 10 anos, ainda é possível encontrar novas edições do livro nas livrarias. Por um preço que ronda os 11€.

As marcas de autor de Malick


No final deste mês estreia o muito esperado novo filme de Terrence Malick, "A Árvore da Vida". A revista Total Film compilou, de forma telegráfica mas acertada, as "marcas de autor" do cineasta.

A saber:

- Existe sempre uma voz-off que narra a história e fornece dados sobre a inquietude própria da atormentada alma dos protagonistas.

- A natureza é sempre um dos palcos ou protagonistas das suas obras.

- Todos os seus filmes se passam em tempos distantes e não presentes.

- A sua paixão pelo exterior é notória em quase toda a sua obra, raras vezes filmada entre paredes.

- Alia na perfeição o elemento musical com o trabalho visual que capta em qualquer momento.

- Lida sempre com os temas da corrupção moral do homem face ao seu semelhante ou ao seu habitat natural.

quinta-feira, 5 de maio de 2011

quarta-feira, 4 de maio de 2011

45 anos de jazz radiofónico


Em 2011, o programa “Cinco Minutos de Jazz” de José Duarte comemora 45 anos de emissões! É o programa diário - de segunda a sexta - mais antigo da rádio portuguesa. A primeira emissão foi em 21 de Fevereiro 1966. A sua abertura e fecho pertencem já à história da rádio portuguesa. De Segunda a Sexta, na Antena 1 às 03:55 e 21:55.,”Cinco Minutos de Jazz” tem como objectivo divulgar música jazz de todos os estilos e de todos os anos - jazz de New Orleans, swing dos anos 30, bebop dos anos 40, big bands, hard bop dos anos 50, estilos que coabitam até com o free jazz ou com as novas tendências modernas.

José Duarte confessou um dia que, em conversa com um músico estrangeiro, referiu que mantinha há várias décadas um programa de apenas 5 minutos de jazz na rádio. O músico não acreditou. Não admira. O programa “5 Minutos de Jazz” deve ser caso único em todo o mundo, não só pela especificidade do próprio programa, como também pela longevidade. Por vezes acusado de conservador no gosto musical, a verdade é que José Duarte se tem revelado um incansável divulgador de jazz em Portugal. Parabéns, portanto.

terça-feira, 3 de maio de 2011

Nick Cave e o anjo


Se há filmes que podem ser considerados marcantes e pertencentes a toda uma geração, este é um deles. Wim Wenders realizou esse filme de uma geração. E há poucos realizadores, há poucos filmes que podem reclamar esse epíteto. O filme chama-se "As Asas do Desejo" (1987) e marcou toda a geração dos anos 80. Não conheço ninguém da minha geração que, depois de ter visto o filme na altura da estreia, não tivesse ficado marcado para sempre. É um filme sobre anjos. Sobre o amor de um anjo pelas coisas terrenas, por uma bailarina (angelical, diria). É um filme sobre Berlim, uma Berlim lúgubre e decadente, poiso de artistas da vanguarda, cenário imagético. De criatividade febril. Mas é um filme sobre qualquer otura cidade que se queira imaginar.

"As Asas do Desejo" revela também uma Berlim a duas cores, como Wenders conseguiu tão bem retratar: o preto e branco do olhar dos anjos, e a cor da vida terrena (ou seria o contrário?). O filme de Wenders é uma alegoria fantasista sobre os desejos do homem, sobre a natureza da eterna insatisfação humana.

Nesta sequência, antológica, os anjos assistem a um concerto de Nick Cave & The Bad Seeds. Um concerto em que Cave canta uma das suas melhores canções de sempre: "From Her to Eternity" (variação do título de um grande filme: "From Here to Eternity", de Fred Zinnemann, de 1953).
O anjo observa, impávido mas prazenteiro, ao decorrer da acção: a bailarina, de vermelho, frui o espectáculo que Cave dá no palco (animalidade ainda remanescente da época dos Birthday Party). É uma das melhores sequências de concerto ao vivo jamais filmadas para cinema (e estou a considerar o "Control" sobre os Joy Division). É poesia pura, visual e sonora. Em estado visceral e intenso. Inesquecível.

domingo, 1 de maio de 2011

Ozu e X-Men na mesma capa

Num post mais abaixo referia que as revistas de cinema em Portugal são basicamente orientadas por critérios comerciais. No entanto, lá vão publicando reportagens de cineasta de culto e clássicos, para incentivar a compra por parte dos cinéfilos mais "autorais".
É o caso da Total Film: em Abril, dedicou um especial sobre Samuel Fuller; na edição de Maio, o leitor pode encontrar 5 páginas sobre o realizador japonês Yasujiro Ozu. E não menos importante: não se trata de um mero artigo importado com tradução portuguesa.
A análise à obra de Ozu é da autoria do crítico de cinema João Antunes, bem conhecido pela sua actividade de crítico de cinema há muitos anos a esta parte. E não deixa de ser curiosa e interessante a referência simultânea, na mesma capa, do blockbuster X-Men e de Ozu. Gosto desta abordagem jornalística despretensiosa.

Genealogia de Fotogramas #6














"Room in Rome" (2010) - Julio Medem