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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Truffaut e Cleese

Duas boas sugestões de leitura para cinéfilos em tempo de férias: "Os Filmes da Minha Vida" de François Truffaut e "Ora, Como eu Dizia..." de John Cleese. O primeiro é a edição portuguesa (finalmente!) de um clássico da crítica cinematográfica de Truffaut nos tempos em que escrevia para a seminal revista Cahiers du Cinéma. Um compêndio de textos críticos das décadas de 50, 60 e 70 sobre os grandes clássicos de Hollywood, do cinema europeu e em especial da Nouvelle Vague.
O segundo livro é do icónico John Cleese, elemento central do colectivo de humor anárquico Monty Python, numa autobiografia certamente divertida e entusiasmante (com prefácio do fã Ricardo Araújo Pereira).


segunda-feira, 25 de maio de 2015

Memórias de "Que Grande es el Cine!"


É recorrente as televisões portuguesas programarem filmes de qualidade para horários improváveis (muitas das vezes, madrugada dentro). Há muitos anos atrás, a RTP fazia verdadeiro serviço público quando passava, às quartas-feiras à noite (21h30), uma sessão de cinema. Filmes de qualidade em horário nobre com apenas um intervalo pelo meio. Isto já para não falar da programação cinéfila de cinema clássico da RTP2, que teve o seu auge até meados da década de 90. Desde que os canais privados entraram no mercado, a programação de cinema de qualidade desmoronou-se.
Desde há uns anos a esta parte a programação das televisões em horário nobre tem sido monopolizada com telelixo: telenovelas aos molhos, futebol e programas medíocres de entretenimento (reality shows e afins). E, claro, intervalos infindáveis de publicidade maçuda (um intervalo comercial da TVI dura, em média, 20 intermináveis minutos). Por isso os filmes, séries e programas de informação de qualidade são relegados para secundaríssimo plano, quase sempre depois da meia-noite. Claro que há alternativas: televisão por cabo e clubes de vídeo online. Só que há dezenas de milhares de famílias portuguesas que não podem pagar televisão por cabo. E assim estupidificam-se, de forma passiva, assistindo à boçalidade televisiva diária. A nova televisão digital e os novos pacotes multimédia (Nos e Meo) podem atenuar a nefasta formatação da televisão actual e alargar as possibilidades de visionamento do espectador, mas estes produtos vão levar muitos anos a generalizar-se por toda a população.
Como vivo perto de Espanha habituei-me a ver televisão, desde muito cedo, do país vizinho. Durante anos vi clássicos de aventuras ao sábado à tarde e durante anos vi, pela primeira vez, verdadeiras obras-primas do cinema em horário nobre. Era o caso do excelente programa "Qué Grande es el Cine!" (exibido entre 1995 e 2005 na TVE2 - a equivalente à RTP2) do jornalista e realizador José Luis Garci (na imagem).


Durante esses anos, todas as segundas-feiras à noite depois de jantar, era exibido um filme clássico (legendado) e depois comentado e discutido durante 40 minutos por parte de críticos de cinema e realizadores (como se faz agora depois de um jogo de futebol). Um notável serviço público, pedagógico e cultural, num formato quase impensável nos dias de hoje. Foi neste programa que vi grandes filmes de John Ford, Orson Welles, Murnau, Charles Laughton, Hitchcock, Capra, Truffaut, Nicholas Ray, etc. Aposto que, nos 10 anos que durou o programa, este contribuiu para formar o gosto cinéfilo de muitas pessoas (uma geração?) para a verdadeira arte do cinema. Aqui podem ver-se muitos desses programas no Youtube.
Era com critérios destes que se deveria reger toda e qualquer televisão pública.

domingo, 18 de maio de 2014

A lista de Woody Allen

É sabido que Woody Allen sempre manifestou grande paixão pelo cinema europeu, não só como espectador, mas também enquanto realizador. Daí que não espante que nos seus 10 filmes preferidos de sempre apenas constem dois títulos do cinema norte-americano (Welles e Kubrick). 
Outros aspecto curioso é que Allen não escolheu nenhum filme de comédia (Chaplin, irmãos Marx ou Keaton, suas referências inevitáveis).






Sem nenhuma ordem em particular:

"The 400 Blows" (François Truffaut, 1959)
"8½" (Federico Fellini, 1963)
"Amarcord" (Federico Fellini, 1972)
"The Bicycle Thieves" (Vittorio de Sica, 1948)
"Citizen Kane" (Orson Welles, 1941)
"The Discreet Charm of the Bourgeoisie" (Luis Buñuel, 1972)
"La Grand Illusion" (Jean Renoir, 1937)
"Paths of Glory" (Stanley Kubrick, 1957)
"Rashomon" (Akira Kurosawa, 1950)
"The Seventh Seal" (Ingmar Bergman, 1957)

sexta-feira, 29 de março de 2013

A última aparição de Truffaut



Em 1984, o realizador francês François Truffaut, pouco tempo antes de morrer, fez a sua última aparição pública na televisão francesa. Foi no célebre programa cultural "Apostrophe" do não menos célebre jornalista Bernard Pivot. Neste programa, emitido em pleno horário nobre da televisão pública francesa (coisa rara hoje em dia),  discutiam-se temas culturais como literatura, teatro, cinema e música e com artistas de relevo em estúdio.
Em Abril de 1984, Truffaut foi convidado a falar sobre as entrevistas que fez a Alfred Hitchcock e que foram publicadas em livro. No mesmo programa estava também o realizador Roman Polanski. Entre todos (Pivot, Truffaut e Polanski), estabeleceu-se um diálogo muito interessante à volta do cinema de Hitchcock.
Depois desta entrevista ao programa de Pivot, o cineasta francês nunca mais apareceu na televisão nem realizou mais nenhum filme. Truffaut já sofria de um tumor cerebral maligno o qual, seis meses mais tarde, em Outubro de 1984, lhe tiraria a vida com apenas 51 anos de idade.
Eis um excerto da referida entrevista.

segunda-feira, 6 de fevereiro de 2012

Os "Doodles" de cinema


Por vezes a Google surpreende com os famosos "Doodles", versões divertidas do logótipo convencional da Google. No início, estas criações serviam sobretudo para comemorar feriados, aniversários, eventos desportivos e personalidades de dimensão mundial.
De há uns anos para cá, a Google também tem assinalado figuras artísticas de reconhecido mérito (Fernando Pessoa e Amália Rodrigues, em Portugal, por exemplo).
Ora, hoje, dia 6 de Fevereiro, a Google resolveu assinalar os 80 anos do nascimento do realizador francês François Truffaut (na imagem em cima). Na verdade, não são muitos os "Doodles" dedicados a cineastas e ao cinema (há muitos mais acerca da temática musical).
Por isso resolvi investigar e averiguar quais as figuras ou eventos de índole cinemetográfico que a Google já criou:

20 anos de Wallace & Gromit

Nino Rota - 100 anos do nascimento

Akira Kurosawa

Jim Henson - 75 aniversário

The Flinstones - 50 anos

1ª Exibição Cinematográfica

Federico Fellini - 92 anos do nascimento

Charles Chaplin - 122 anos do nascimento

"O Feiticeiro de Oz" - 71 anos

sexta-feira, 27 de janeiro de 2012

Resnais: Auschwitz e Marienbad

Lembrei-me do realizador francês Alain Resnais por dois motivos: primeiro, porque é o realizador que filmou, pela primeira vez, o campo de extermínio nazi de Auschwitz no brilhante documentário "Noite e Nevoeiro" (1955) - e hoje comemoram-se 67 anos da libertação desse campo; segundo, porque Alain Resnais é também o cineasta do filme que agora serve de imagem inicial a este (renovado) visual do blogue: "O Último Ano em Marienbad".
E que filme é este? Provavelmente, um filme mais comentado do que realmente visto. Um filme de uma estirpe formal e estética rara no cinema actual. E o que conta este filme? Muito, pouco ou nada, conforme a interpretação: num luxuoso e enorme hotel, um estranho quer convencer uma mulher casada para fugirem juntos. Porém, parece difícil ela lembrar-se que tiveram um caso (ou talvez não tiveram) no último ano em Marienbad. Este é o mote de um dos mais enigmáticos e fascinantes filmes de sempre: "L'Année Dernière à Marienbad" (título original). Uma obra que, mais do que qualquer outra, evoca uma inusitada energia os labirintos da consciência e da memória. O cineasta disse, a propósito deste filme: "Fiz uma tentativa crua e primitiva para captar a complexidade do pensamento e os seus mecanismos."
Tudo é enigmático e barroco nesta obra de Resnais, desde as personagens ao ambiente criado, à voz off que narra acontecimentos em forma de poesia onírica, a realização em longos planos-sequência, a montagem elíptica, os hipnóticos movimentos de câmara, a narrativa cerebral. Visualmente, "O Último Ano em Marienbad" é um filme belo como poucos, feito de uma expressividade plástica depuradíssima. Para o sucesso artístico do filme muito contribuiu o texto e argumento de Alain Robbe-Grillet (um dos expoentes do chamado "Novo Romance" francês"), perfeito para a visão barroca de Alain Resnais.

As personagens são todas anónimas, sem alma, e vítimas de um qualquer encantamento que povoa o palácio internacional (e o seu vasto jardim) onde toda a acção do filme se desenrola - uma espécie de cela dourada e labiríntica, afastada do mundo real, quase num universo paralelo de consciência. A personagem feminina principal, mulher enigmática e sem nome (tal como o homem que a seduz), é encarnada por uma fascinante e bela actriz: Delphine Seyrig (trabalhou também com Truffaut e Buñuel). Os diálogos e pensamentos que o espectador lê são verdadeiros textos poéticos, plenos de luz e de sombras, de evocações e emoções, de enigmas e memórias.

Depois, a câmara de Alain Resnais filma o majestoso palácio e as personagens como raramente se viu no cinema, através de movimentos de câmara que mais parecem movimentos de volúpia e de sedução - planos-sequência de tirar o fôlego de tanta beleza. Quase como se a câmara de filmar não existisse e fosse substituída pelo olhar do próprio espectador, atento aos mais ínfimos pormenores da arquitectura, das estátuas, dos olhares e movimentos, da subtileza das decorações barrocas daquele espaço.

Em suma, um filme mítico, hipnótico, ousado, que se revê sempre com renovado prazer e surpresa e cuja modernidade intrínseca sobreviveu, sem mácula, ao desgaste das décadas.

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Memórias de um pré-cinéfilo


Os meus pais eram emigrantes em França e vivi até aos sete anos de idade em pleno centro de Paris, na Rue Marbeuf, nº14, uma transversal da célebre Avenida dos Campos Elísios. Foi lá, em França, quando era um miúdo, que o meu gosto pelo cinema emergiu. A minha irmã, oito anos mais velha, lembra-se de vermos juntos na televisão o clássico “King Kong” (1933). Teria cerca de cinco anos e ela diz que eu parecia hipnotizado em frente do televisor, os meus olhos brilhavam de fascínio e tocava com o dedo no ecrã para tentar “mexer” no gorila gigante.

Lembro-me também de ver clássicos da Disney, como “Fantasia” e “Peter Pan” em sessões de fim-de-semana. Aquele imaginário visual ficou incrustado em mim. Mais: a escola primária onde estudava ficava mesmo ao lado dos escritórios da produtora “Les Films du Carrosse” do realizador François Truffaut. Uma tia minha trabalhava nesses escritórios e eu cheguei a frequentá-los quando saía da escola. Uma vez mais, a minha irmã, recorda-se de me ver a olhar, fascinado, para os grandes cartazes de cinema expostos nas paredes. Creio que nunca me cruzei com Truffaut, mas mesmo que o não tenha feito, a esta distância, sinto-me feliz por ter tido a oportunidade, em criança, de ter entrado no universo do cineasta de “Os 400 Golpes”.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

O filme mais negro de Hitchcock... nunca feito


Alfred Hitchcock realizou, ao longo da sua carreira, cerca de 50 filmes. Mas tinha intenção de realizar muitos outros, que não passaram da pré-produção ou, até, do argumento.
Dentro desta considerável lista de filmes nunca concretizados há um título muito especial: "Kaleidoscope".
Hitchcock quis um dia realizar o seu filme mais negro e violento de sempre, de tal forma que "Psycho" pareceria uma produção da Disney.
Corria o ano de 1971. O mestre do suspense já tinha deixado ao mundo todas as suas obras-primas, mas faltava-lhe fazer "Kaleidoscope", um filme que retratava a vida de um "serial killer" e violador. O próprio Hitchcock, amante do humor negro e dos recantos violentos da mente humana, achava que poderia ser um filme demasiado violento e perturbador para o grande público. "Kaleidoscope" seria um filme brutal com vários assassinatos filmados de forma inovadora (e com luz natural) - o actor Michael Caine interpretaria o papel do terrível assassino.
No entanto, "Kaleidoscope" nunca viu a luz do dia. O argumento estava escrito (mostrou-o a François Truffaut que gostou, mas aconselhou Hitch a ser comedido com o grau de violência e sexo), a pré-produção chegou a estar em marcha, mas os estúdios de cinema que iriam financiar o filme - MCA Studios - abortaram o projecto. Razão? O argumento demasiado repulsivo e violento. E assim se perdeu, porventura, uma portentosa obra de Alfred Hitchcock, uma viagem aos abismos mais negros de uma mente psicótica, num filme extremo como o próprio Hitchcock nunca tinha feito.
Agora pergunto-me qual seria o realizador contemporâneo cmais indicado para adaptar ao grande ecrã este argumento tão visceral. David Cronenberg? Quentin Tarantino?

segunda-feira, 12 de abril de 2010

A faca em "Psycho"

A propósito da sequência do assassinato na sequência do duche em "Psycho", durante muitos anos discutiu-se se a faca empunhada por Anthony Perkins, alguma vez tinha tocado no corpo de Janet Leigh (perdão, de Marli Renfro). O próprio realizador, na longa entrevista que deu a François Truffaut, justificou: "Naturally, the knife never touched the body; it was all done in the montage."
Como o filme tem uma montagem complexa e rápida, só com o advento do DVD foi possível visualizar, imagem a imagem, se tal era verdade. O blog "It's Only a Movie..." dedicado ao mestre do suspense, descortinou a verdade: a faca toca, efectivamente, no ventre da vítima. A sequência estudada na íntegra imagem a imagem, aqui.

quarta-feira, 27 de janeiro de 2010

O filme sobre Auschwitz


No dia em que se assinalam 65 anos da libertação de Auschwitz, relembro uma das obras de cinema que, quanto a mim, melhor conseguiu retratar os horrores nazis cometidos no infame campo: "Noite e Nevoeiro" ("Nuit et Brouillard", no título original, 1955) de Alain Resnais.
“Noite e Nevoeiro” foi o primeiro grande documentário sobre o sistema concentracionário e de extermínio criado pelos nazis, sobre o Genocídio e o Holocausto, sendo considerado um marco na História do Cinema. Realizado em 1955, dez anos apenas após a libertação do campo de extermínio de Auschwitz, o filme de Resnais confirma que nenhuma descrição ou imagem pode dar a verdadeira dimensão dos acontecimentos ocorridos. À altura em que “Noite e Nevoeiro” foi realizado, a erva já tomara conta de Auschwitz: o antigo cenário do horror era uma paisagem verdejante, campestre, serena; a ruína do campo ameaçava já a ruína da memória. Era preciso reavivá-la e, para isso, Resnais intercalou o que ele próprio filmou em Auschwitz com imagens de arquivo captadas pelos aliados no fim da guerra ou pelos alemães, e com fotografias comentadas com uma lentidão litúrgica, “uma doçura terrífica”, notou François Truffaut.
De resto, este célebre cineasta francês disse uma vez que “Noite e Nevoeiro” era o “melhor filme jamais feito”. O filme tem uma voz off impressiva. É a voz do escritor francês Jean Cayrol, combatente da Resistência Francesa que foi preso político no campo de concentração de Mauthausen (Áustria).
O título, “Noite e Nevoeiro”, foi retirado do título do livro de Jean Cayrol, “Poèmes de la Nuit et Brouillard”, que por sua vez retirou a expressão ao nome do decreto alemão “Nacht und Nebel”, que estipulava a deportação para locais secretos de pessoas acusadas de conspirar contra o regime nazi. “Noite e Nevoeiro” rejeita quaisquer formatos convencionais de narrativa histórica; expõe factos em vez de os explicar, revela o horror em vez de o compreender racionalmente. E mais do que tudo, refuta a exploração fácil do sentimentalismo, do apego à emoção dramática, pelo que a câmara de Resnais filma com uma suavidade inaudita, sem cedências ideológicas ou emocionais.

A frieza e a neutralidade com que cada plano-sequência é filmado, revela-se uma agulha espetada no espírito humano, como se Alain Resnais perguntasse a cada espectador: “como foi possível?” O filme foi rodado a cores (presente, 1955) e a preto e branco (imagens de arquivo). É assim que o realizador francês aborda a montagem das imagens com as quais apresenta a sua “visão expiatória” do extermínio dos Judeus. Montagem, manipulação e reconstrução de imagens muitas vezes insustentáveis, que "produzem uma forte impressão de irrealidade que dão uma sensação de vertigem àqueles que têm que fazer este trabalho”, nas próprias palavras de Alain Resnais.
O rigor ético e estético deste filme, a música subtil de Hanns Eisler (antigo colaborador de Brecht) e as palavras poéticas de Cayrol fazem de “Noite e Nevoeiro” uma experiência cinematográfica única, para não falar da inerente importância histórica deste documentário.
"Noite e Nevoeiro" tem apenas 30 minutos de duração e pode ser visto integralmente aqui.

quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Momentos e Imagens - 53


Frank Capra e Alfred Hitchcock

Alfred Hitchcock e Ingrid Bergman

Alfred Hitchcock na rodagem de "Janela Indiscreta"

Alfred Hitchcock e François Truffaut

quarta-feira, 21 de outubro de 2009

25 anos sem Truffaut

François Truffaut, o realizador que um dia perguntou se o cinema não era mais importante do que a vida, morreu há 25 anos. Não sei responder objectivamente à inquietação de Truffaut, mas tenho a certeza de uma coisa: sem os filmes do realizador francês, o cinema teria sido bem mais pobre.

quarta-feira, 17 de junho de 2009

Quando os livros eram queimados


Ao visitar o Iraque em 2003 para investigar a destruição de bens culturais daquele país após a invasão dos EUA, o escritor e investigador venezuelano Fernando Báez deparou-se com Emad, um jovem estudante de História na Universidade de Bagdad, que lhe perguntou porque é que o homem destruía tantos livros. Apesar de ser um especialista na matéria, Báez ficou calado nesse momento e a resposta veio em forma de livro um ano depois: "História Universal da Destruição dos Livros", um relato extenso e bastante completo concebido por uma autoridade no campo da história das bibliotecas e também por um apaixonado pelos livros desde a infância.
As formas de destruição de livros evoluíram conforme a época e os métodos utilizados: desde desastres naturais ou provocados, passando pelas simples ordens religiosas ou políticas de queima de livros inconvenientes até furtos em equipamentos culturais como bibliotecas, arquivos e museus de onde são furtados títulos com o objectivo de alimentar uma rede de compradores espalhados pelo mundo. A história da Humanidade está repleta de relatos de destruição de livros. Apesar do significativo trabalho dos religiosos copistas, é bastante conhecido o trabalho de censura e de destruição de livros pelo regime nazi ou pela Santa Inquisição. Hoje, a Igreja Católica já não queima livros, mas adopta outro método mais subtil: aconselha aos seus fiéis a não lerem "O Código da Vinci", de Dan Brown, como também já o fizeram as autoridades religiosas islâmicas em relação aos "Versos Satânicos", de Salman Rushdie, considerado um inimigo do Islão.
Este livro tem relação com o célebre filme de François Truffaut.

O fanatismo nazi a queimar livros na praça pública em 1933.

terça-feira, 28 de abril de 2009

29 anos sem Hitchcock e o livro que falta editar



No dia 29 de Abril de 1980 morria Alfred Hitchcock. Há 29 anos...
O realizador de "O Homem Que Sabia Demasiado" e de tantas outras obras geniais, foi um dos mais singulares e coerentes cineastas de sempre e a sua herança artística manifesta-se, ainda hoje, em inúmeros filmes e realizadores. Ainda ouviremos falar muito de Hitchcock este ano, quando se comemorar, no próximo dia 13 de Agosto, o centésimo aniversário do seu nascimento. E ainda aguardo, pacientemente, que seja editado no mercado português o livro das entrevistas que o realizador francês François Truffaut fez a Hitchcock nos anos 60.
Hitchcock era visto - sobretudo nos Estados Unidos - como um cineasta mediano e comercial. No entanto, para Truffaut e para os jovens realizadores e críticos franceses da revista "Cahiers du Cinéma", Hitchcock era considerado como um dos maiores cineastas de todos os tempos, ao lado de nomes como Jean Renoir, Federico Fellini, Ingmar Bergman e Luís Buñuel. Com o objectivo de modificar a opinião dos críticos americanos, Truffaut propôs ao cineasta inglês que respondesse a quinhentas perguntas sobre a sua obra e carreira. Nesta extensa conversa, Hitchcock comenta detalhadamente os seus métodos de criação, falando sobre a concepção de cada obra, a elaboração do argumento, as inovações e os problemas técnicos, a relação atribulada com os actores. Uma verdadeira lição de cinema, portanto.
Lançado originalmente em 1967, a edição do livro "Hitchcock/Truffaut: Entrevistas" contemplava a produção de Hitchcock até ao filme "Cortina Rasgada" (1966). Para a edição definitiva, de 1983, Truffaut acrescentou um capítulo com os últimos anos e filmes do cineasta - feito com base na correspondência trocada entre eles. Para quando a edição imperiosa desta obra em Portugal?
"A minha sorte na vida foi ter sido uma pessoa realmente assustada. Eu sou um sortudo por ser um medroso, ter um baixo limiar de medo, porque um herói não pode fazer um bom filme de suspense."
Alfred Hitchcock

quinta-feira, 23 de abril de 2009

Dia do livro (queimado)



"Fahrenheit 451" (1966) - François Truffaut.
Baseado numa obra de Ray Bradbury, este filme é sobre um sinistro comando de bombeiros que, numa futura sociedade totalitária, se dedica apenas a destruir (pelo fogo, pois claro) todos os livros existentes no mundo. Aterradora metáfora política e social sobre o aniquilamento do conhecimento, do espírito crítico e da liberdade humana.
O filme de Truffaut pode ser visto aqui.

sábado, 7 de março de 2009

Grandes filmes antes dos 30 anos

Neste post - bastante comentado - abordei os primeiros grandes filmes realizados por jovens cineastas. Aquelas primeiras obras fabulosas que marcaram a restante filmografia do cineasta e até da história do cinema. Mas nem todos esses realizadores eram jovens realizadores. Quantos realizadores se podem orgulhar de terem feito primeiras obras de inexcedível qualidade antes dos 30 anos de idade?
Eis doze filmes da minha preferência pessoal no rol de cineastas que assinaram filmes superlativos antes dos 30 anos de idade (ordenados por ordem crescente de preferência, título do filme, ano, realizador e respectiva idade):

12 - "American Graffiti" (1973) - George Lucas (29)
11 - "Os 400 Golpes" (1959) - François Truffaut (27)
10 - "Sherlock Jr." (1924) - Buster Keaton (29)
9 - "Magnolia" (1999) - Paul Thomas Anderson (29)
8 - "Reservoir Dogs" (1992) - Quentin Tarantino (29)
7 - "Pi" (1998) - Darren Aronofsky (30)
6 - ""Duel" (1971) - Steven Spielberg (25)
5 - "Sexo, Mentiras e Vídeo" (1989) - Steven Soderbergh (26)
4 - "Magnificent Ambersons" (1942) - Orson Welles (27)
3 - "Un Chien Andalou" (1929) - Luís Buñuel (29)
2 - "Citizen Kane" (1941) - Orson Welles (26)
1 - "O Couraçado Potemkine" (1925) - Sergei Eisenstein (27)
Mais contributos?

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008

Os primeiros grandes filmes



Muitos foram os realizadores que construíram uma carreira de grande reconhecimento artístico sem terem realizado um primeiro filme particularmente impressionante. Outros, pelo contrário, estrearam-se na sétima arte de forma tão fulgurante que depois nunca mais conseguiram igualar a qualidade desse primeiro filme. Mais raro e difícil ainda, são aqueles cineastas que, não só realizaram uma primeira obra deveras espantosa, como também conseguiram manter, ao longo da carreira, um percurso artístico de grande fulgor e personalidade.
Ou seja, cineastas que fizeram uma primeira longa-metragem de grande impacto (pela invocação estética, pelo argumento, pela temática, pela realização, ou tudo isto junto) que perdurou como uma marca de autor, de singularidade criativa. É sobre estes realizadores que me debruço, os que fizeram uma estreia no cinema quase apoteótica e conseguiram manter o nível. Num exercício de memória mais ou menos imediato, reuni os seguintes primeiros filmes que conjugam as características que mencionei: primeiríssima longa-metragem de inquestionável qualidade que significou uma assinatura artística e estilística para a posterior carreira do respectivo realizador. E não é difícil começar pela referência mais óbvia: "Citizen Kane". A lista não obedece a especiais critérios (nem de qualidade, nem cronológicos). Certo é que faltarão outros filmes e realizadores. Para isso fica este post aberto a contribuições e comentários dos leitores.
"Citizen Kane" (1941) - Orson Welles
"Reservoir Dogs" (1992) - Quentin Tarantino
"Sexo, Mentiras e Vídeo" (1989) - Steven Soderbergh
"A Infância de Ivan" (1962) - Andrei Tarkovski
"O Sangue" (1989) - Pedro Costa
"Pee-Wee's Big Adventure" (1985) - Tim Burton
"Mean Streets" (1973) - Martin Scorsese
"Há Festa na Aldeia" (1948) - Jacques Tati
"Blood Simple" (1984) - Joel and Ethan Coen
"Faca na Água" (1962) - Roman Polanski
"Un Chien Andalou" (1929) - Luís Buñuel
"A Bout de Soufle" (1959) - Jean-Luc Godard
"A Noite do Caçador" (1955) - Charles Laughton
"Pi" (1998)- Darren Aronofsky
"Os 400 Golpes" (1959) - François Truffaut
"Eraserhead" (1977) - David Lynch
"Amor Cão" (2001) - Alejandro Gonzalez Iñarritu
"Shadows" (1959) - John Cassavetes
"Europa" (1991) - Lars von Trier
"O Sétimo Continente" (1989) - Michael Haneke
"Les Dames du Bois de Boulogne" (1945) - Robert Bresson

Nota: na imagem, "Pi" de Darren Aronofsky