quarta-feira, 22 de setembro de 2010

As 127 horas de agonia de Aron Ralston


Aron Ralston é um alpinista que ficou famoso, em 2003, por ter ficado preso 5 dias numa rocha no deserto do Utah, após uma aparatosa queda. Mas não foi apenas por isso que ficou famoso: impedido de escapar por causa de um braço preso numa rocha (na imagem), Aron Alston tomou a mais inimaginável e duras das decisões: auto-decepou o seu próprio braço para se libertar (processo que demorou uma longa e agonizante hora). Assim conseguiu sobreviver e contar a história para o mundo. Agora este incrível instinto pela sobrevivência em situação limite foi transposto para cinema através do realizador Danny Boyle. O filme chama-se "127 Hours" - o número de horas que o malogrado alpinista esteve preso.
O filme só estreia em Novembro nos EUA, mas já foi exibido no Festival de Cinema de Toronto. As reacções não podiam ser mais brutais devido à crueza das imagens da amputação. Segundo rezam as crónicas de quem viu, houve vários desmaios e ataques de nervosismo na sala, tendo havido a necessidade da intervenção de serviços médicos de urgência. O tremendo realismo revelado nas imagens da amputação e a intensa situação emocional daí resultante, levaram a muitas reacções imprevisíveis (a cena em que Aron corta o braço é mostrada ao pormenor e demoradamente).
O actor que interpreta Aron Ralston é James Franco e, devido à sua entrega neste projecto, muitos dizem ser já um candidato aos próximos Óscares.
Eis o trailer do novo filme de Danny Boyle (não, não mostra nenhuma cena da amputação):


Os mineiros da Serra Pelada


Do trabalho árduo dos mineiros da Serra Pelada (minas de ouro do Brasil) extrai-se beleza visual ao ritmo da música tribal e de um coro de crianças sul-americanas.
A vida em transformação, em consonância com o chamamento original da terra, o sacrifício humano em prol do desenvolvimento civilizacional. O suor destes homens é vertido em ganância alheia. O trabalhador morto que é carregado aos ombros pelos colegas (no final do vídeo) transforma-se numa espécie de "Pietá" dos tempos modernos.
As imagens são captadas por um dos maiores documentaristas de sempre, Godfrey Reggio, musicadas por um dos maiores compositores contemporâneos, Philip Glass.
"Powaqqatsi" é o segundo capítulo de uma trilogia única na história das imagens e dos sons - "Trilogia Qatsi".
E estes cinco primeiros minutos de filme são arrebatadores. Digo eu.

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

Grandes Filmes Frustrados - 5: Kubrick e "Napoleão"


A HISTÓRIA: Stanley Kubrick era totalmente fascinado pela figura histórica de Napoleão Bonaparte. Em 1968 decidiu que o seu próximo projecto seria uma grande biografia do imperador. Para tal, reuniu, na sua colecção privada, durante muitos anos, 20 mil imagens, quinhentos livros e até dados sobre o tempo que fazia no dia da batalha de Waterloo (cortesia da NASA).
O realizador falou com Jack Nicholson para interpretar Napoleão e o projecto esteve quase para arrancar - depois de anos de atrasos - através do estúdio Metro Goldwyn Mayer. Dado o extremo perfeccionismo maníaco de Kubrick nas filmagens dos seus filmes, os produtores assustaram-se perante tamanha magnitude do projecto: Kubrick dizia que queria 50 a 70 mil figurantes para os exércitos e 50 personagens históricas, principais e secundárias, em cena.
CONCLUSÃO: o orçamento para filmar este ambicioso filme de Kubrick nunca foi concretizado. Porém, ficou para a posteridade um esboço de argumento com 70 páginas que poderá resultar numa mini-série, realizada para a televisão, por Steven Spielberg.
Nota: o tema do filme "Napoleão" que Kubrick nunca realizou resultou num livro editado pela Taschen - "The Greatest Movie Never Made".

Momentos e Imagens - 68


Yoko Ono, Andy Warhol e John Lennon num momento de... amena intimidade.

Sobre a leitura de "Ulisses"

Há tempos li num jornal que o livro "Ulisses" (1921), de James Joyce, foi considerado o "melhor romance jamais escrito" (figurava em 1º lugar numa lista com cem títulos).
Joyce foi, inegavelmente, um rigoroso estilista da língua, um modernista visionário, um inovador formal sem paralelo (só Marcel Proust se lhe poderá comparar). A sua prosa de extraordinária invenção narrativa quebrou normas instituídas e abriu novas portas na experiência literária. Não admira que o escritor irlandês tenha demorado 7 anos a escrever tão monumental obra, cuja história se desenrola num único dia na vida de Leopold Bloom.
James Joyce construiu uma complexa e densa estrutura narrativa, refutando academismos convencionais. Mas "Ulisses" é, igualmente, um romance de grande exigência para o leitor (como é "A Montanha Mágica" de Thomas Mann ou "O Homem Sem Qualidades" de Robert Musil).
A escrita de escritor irlandês parece emaranhar-se em múltiplas linhas narrativas em simultâneo, numa prosa nem sempre inteligível, desorientando o leitor menos prevenido.
Não admira, por isso, que na edição da "Livros do Brasil" que possuo (na imagem), o tradutor disserte sobre a extrema dificuldade técnica que acarretou a tradução do romance para português. Tal dificuldades deveu-se à complexidade de trocadilhos linguísticos, neologismos, recursos expressivos e trocadilhos imaginados e trabalhados por Joyce. O problema é que este rigor técnico e esta exigência formal podem, a meu ver, anular (ou reduzir) o prazer estético da própria leitura.
Daí que eu nunca tenha conseguido chegar ao fim da leitura de "Ulisses" (li apenas dois ou três dos seus 18 capítulos). O mesmo aconteceu com diversos amigos meus. No entanto, esta obra é quase sempre referenciada como essencial na literatura do século XX, facto que suscita uma interrogação paradoxal no meu espírito: será "Ulisses" de Joyce a obra literária mais citada (seja pelo comum dos leitores, seja por críticos literários encartados) e, porventura, a menos lida?

domingo, 19 de setembro de 2010

Óculos de massa pretos - 3

Terceira parte, depois destas, sobre o look que Buddy Holly inaugurou:

Roy Orbinson (músico)

Paul Giamatti (actor)

Morrissey (músico)

Sam Rockwell (actor)

Henry Hollan (estilista)

Ryan Adams (músico)
Spike Lee (realizador)
Rivers Cuomo (músico - Weezer)

Geoffrey G. Finch (estilista)

Rose McGowan (actriz)

Bret Easton Ellis (escritor)

Michael Stipe (músico - R.E.M.)

Lily Allen (cantora)

Jim Carrey (actor)

James Franco (actor)

Eminem (cantor rap)

Madonna (cantora)

Chris Brown (actor e músico)

Cate Blanchett (actriz)

sábado, 18 de setembro de 2010

"White Lightnin"

Às vezes sabe bem ser surpreendido com um filme que, à partida, pouco ou nada se esperaria dele. Falo de "White Lightnin" (2009), do realizador estreante Dominic Murphy. Que eu saiba, esta película nunca estreou em sala em Portugal e nem deve encontrar-se em DVD. Mas fez carreira em diversos festivais internacionais de cinema com boa receptividade crítica (como aconteceu em Sundance).
"White Lightnin" é, de facto, uma fulgurante estreia na realização de Dominic Murphy e conta com uma espantosa interpretação de um actor cuja carreira vou, a partir de agora, seguir com muita atenção: Edward Hogg (nas imagens).
O filme retrata, em constantes flashbacks e com recurso a narração em off, a vida de violência e degradação do jovem Jesco White que, saído de reformatórios e hospícios, tenta fazer carreira na América rural (anos 50) como dançarino em bares (sapateado ao som do tradicional banjo). Pelo meio, encontra um amor que o irá devastar, bares decadentes, o apogeu e a tremenda queda para o abismo de álcool, drogas, fanatismo religioso e violência. Dito assim, até parece que o filme não traz nada de novo. Nada mais errado. A impressionante interpretação de Edward Hogg parece saída do inferno (loucura e morte), a realização, a montagem e a fotografia são absolutamente frenéticas, conseguindo que o filme se revele uma grande surpresa face à mediocridade e previsibilidade dos filmes do género.
A música utilizada é a do bluesman "louco" Hasil Adkins (influenciou os The Cramps!) e o final do filme é uma verdadeira espiral de loucura, vingança e expiação como não via, sei lá, desde o final de "Cape Fear" de Martin Scorsese (a seguir, com toda a atenção, a carreira do realizador Dominic Murphy).
Muito aconselhável, portanto.
Ah, quem quiser ver "White Lightnin", poderá sacar o filme directamente aqui.
Trailer:

A actuação da vida de Joaquin Phoenix


E pronto, tal como era previsível, está oficialmente desmontado o "fenómeno" do actor Joaquin Phoenix. Convenhamos que a farsa foi bem montada e que Phoenix interpretou o personagem mais exigente da sua carreira - durante dois anos, inclusive no círculo pessoal, sem ceder um milímetro (a entrevista a David Letterman - na imagem - ficará para sempre registada, para o futuro, como um momento de pura antologia televisiva).
Agora resta ver o documentário "I'm Still Here" de Casey Affleck para comprovar isso mesmo.
Sobre este assunto da alegada loucura do actor, escrevi aqui dois posts.

A música (e a doença) de Mick Karn


Li no Ípsilon (Público) que o músico Mick Karn sofre de um cancro avançado e não tem condições financeiras para fazer face aos tratamentos. Com apenas 52 anos, o fantástico baixista das míticas bandas Japan (com David Sylvian), Dali's Car e Rain Tree Crow, tem tido a ajuda de vários músicos que deram concertos cujos proveitos económicos reverteram para o combate à sua doença.
Mick Karn sempre me impressionou pela sua técnica instrumental única, capaz de extrair do baixo as linhas melódicas mais originais e improváveis.
Apesar da importância dos grupos a que pertenceu, Karn fez um disco a solo que me marcou profundamente - "Dreams of Reason Produce Monsters" (1987). Um disco em que ainda se notavam os resquícios da pop New Wave sofisticada dos Japan, mas com salpicos neo-clássicos e canções de fino recorte estético. Um disco repleto de fabulosas canções. É o caso desta espantosa composição "Answer", tema viciante que fecha o disco referido. É preciso ouvi-lo até ao fim para assimilar toda a criatividade de Mick Karn.
Agora, só desejo rápidas melhoras para que este talentoso músico possa fazer mais música como esta.


quinta-feira, 16 de setembro de 2010

Viva Salinger!


Durante muitos anos ouvi falar deste livro como sendo uma referência de culto para várias gerações. Durante muitos anos li que o seu escritor, J. D. Salinger, se tinha isolado após ter escrito esta obra em 1951. Durante muitos anos ouvi dizer que se tratava de uma obra literária de grande inovação formal e estilística. Só a morte do escritor, em Janeiro deste ano, me despertou, definitivamente, para a leitura de "À Espera no Centeio" ("The Catcher in the Rye"). Atraso após atraso, lá o li este Verão. E em boa hora.
Salinger expôs neste livro uma escrita áspera e rude, mas extremamente fluída e consistente. Uma escrita repleta de humor cáustico sobre a vida de um impulsivo e depressivo adolescente - Holden Caufield - revoltado e em crise existencial. Holden Caulfield, narrador e protagonista desta história, revela-se um jovem angustiado perante as incertezas da sua vida e do seu relacionamento com os outros. Holden é expulso do colégio e foge de casa deambulando por uma Nova Iorque excitante de animação e aventura (o livro foi controverso por fazer uso de muito calão e de ter abordado, sem pudor, episódios sobre sexo promíscuo, drogas, álcool e violência).
"À Espera no Centeio" já não terá o impacto que teve nos anos 50 e 60 (em plena época dos "rebeldes sem causa" de James Dean) mas agora compreendi, após a leitura compulsiva, porque é que continua, ainda hoje a fascinar os leitores (nos EUA vende anualmente 200 mil exemplares). Uma obra de grande fulgor sobre a procura da identidade juvenil, sobre a alienação e a rebeldia.
Curioso o facto deste livro de Salinger ter, alegadamente, inspirado alguns crimes famosos: Mark David Chapman, o assassino de John Lennon, lia este livro minutos antes de disparar contra o músico dos Beatles. O atirador que tentou matar o presidente Ronald Reagan refere que foi inspirado pelo mesmo livro.
Outro aspecto interessante: dado o notável poder visual que este livro emana e a sua inerente importância literária, grandes realizadores e actores tentaram, ao longo de décadas, adaptá-lo ao cinema (ou na realização ou na interpretação do protagonista do livro): Elia Kazan, Billy Wilder, Jerry Lewis, Marlon Brando, Jack Nicholson, John Cusack, Leonardo DiCaprio, Terrence Malick, entre outros.
J.D. Salinger sempre recusou vender os direitos de autor. Agora que o escritor morreu, consta-se que a família descendente pondera cedê-los para levar ao grande ecrã esta fabulosa aventura literária. Seria uma excelente notícia!

Grandes Filmes Frustrados - 4: Hitchcock e "Kaleidoscope"


A HISTÓRIA: Em finais dos anos 60 Alfred Hitchcock debatia-se com um certa falta de inspiração. O seu apogeu artístico tinha sido já alcançado com as obras-primas "Psycho" (1960) e "The Birds" (1963).
Como forma de se reinventar, o realizador inglês lançou-se no projecto mais negro e violento de sempre, de tal forma que "Psycho" parecesse uma produção da Disney. Corria o ano de 1971. O mestre do suspense já tinha deixado ao mundo todas as suas obras-primas, mas faltava-lhe fazer "Kaleidoscope", um filme que retratava a vida de um serial killer e violador implacável. O próprio Hitchcock, amante do humor negro e dos recantos violentos da mente humana, achava que poderia ser um filme demasiado violento para o público. "Kaleidoscope" seria um filme brutal com vários assassinatos filmados de forma inovadora (com luz natural) - o actor Michael Caine foi sondado para interpretar o papel do terrível assassino.
CONCLUSÃO: "Kaleidoscope" nunca viu a luz do dia. O argumento estava escrito, a pré-produção em marcha, mas os estúdios de cinema que iriam financiar o filme - MCA Studios - abortaram o projecto. Razão? O argumento demasiado repulsivo e violento. E assim se perdeu, porventura, uma portentosa obra de Alfred Hitchcock, uma viagem aos abismos mais negros de uma mente psicótica, num filme extremo como o próprio Hitchcock nunca tinha feito.

Discos que mudam uma vida - 118


Jane's Addiction - "Ritual de Lo Habitual" (1990)

Uma livraria para cada família


Hay-on-Wye podia ser o nome de uma bebida estranha ou um trocadilho fonético inventado por algum comediante de "stand-up". Mas Hay-on-Wye é, surpreendentemente, o nome de uma pequena vila do País de Gales que faz fronteira com Inglaterra e que tem menos de 3 mil habitantes. A razão desta cidade ser mundialmente conhecida não se restringe, unicamente, ao seu nome original e às suas bucólicas paisagens naturais, mas sobretudo porque esta terra tem o maior número de livrarias por cada habitante. A proporção é, precisamente, de uma livraria para cada 35 habitantes, ou seja, uma livraria para cada família!
No total, Hay-on-Wye tem 38 livrarias, muitas vendem livros em segunda-mão, outras livros novos, e há muitas livrarias especializadas sobre os mais diversos temas: música, ornitologia, religião, fotografia, história, apicultura, criminologia, etc. Uma livraria que me interessaria sobremaneira é a Hay Cinema Bookshop, que tem nas suas prateleiras 400 mil livros sobre... cinema.
Em poucas décadas, a vila transformou-se numa Meca dos bibliófilos de todo o mundo, um verdadeiro paraíso para os amantes de livros e literatura. Este fenómeno crescente de proliferação de livrarias transformou por completo a economia local e o fluxo turístico. Uma livraria em quase cada esquina da cidade. Mais: há estantes de livros ao ar livre espalhadas pelas ruas, que se chamam Honesty Bookshop (o nome diz tudo) - ninguém controla as vendas, existindo um pequeno pote no qual cada comprador deposita o dinheiro pela aquisição de um determinado livro. Seria possível este conceito em Portugal?

Este fenómeno de crescimento exponencial de livrarias numa tão pequena cidade, ficou a dever-se a um homem, Richard Booth, que começou a vender livros em segunda mão ao quilo no antigo quartel dos bombeiros em 1961. A enorme quantidade de livros de Booth atraiu um grande número de negociantes de livros e coleccionadores para a cidade, que rapidamente ficou conhecida como a Vila dos Livros. Negócio puxa negócio e Hay-on-Wye não pára de chamar novos investidores e turistas. A dimensão de livrarias por metro quadrado proporcionou a criação de um festival anual de literatura (apoiado pelo jornal The Guardian), chamado Hay Festival, considerado o maior festival de literatura da Grã-Bretanha (atrai 80 mil pessoas ao longo de 10 dias desde 1988), e por onde já passaram figuras mundiais como Harold Pinter, Martin Amis, Bill Bryson, Salman Rushdie, ou John Irving. O próprio Bill Clinton, ex-presidente dos EUA, descreveu este festival com a sintomática frase: "Um Woodstock do cérebro".
No fundo, o fenómeno cultural que Hay-on-Wye representa é um belo exemplo de como ideias simples podem promover o desenvolvimento de uma localidade. Seria muito interessante que houvesse um conceito semelhante em cada país (já não digo em cada cidade).

terça-feira, 14 de setembro de 2010

Almodóvar prendado


O tempo em que Pedro Almodóvar fazia crochet com a sua mãe num banco de jardim (na gloriosa década de 80).

O último filme de Tati


É comum dizer-se, sem controvérsias de maior, que o realizador Jacques Tati, apesar de apenas ter realizado seis longas-metragens ao longo de várias décadas de carreira, é um dos mais importantes cineastas franceses de sempre (e um dos meus preferidos de sempre).
Tati captou os contrastes do nosso tempo com um olhar meticuloso: a evolução do mundo, desde a vida rural (o carteiro de "Há Festa na Aldeia", 1948) até à cidade moderna e futurista de "Playtime" (1967). Neste universo de convulsão e tecnologias, quase sempre à beira do caos, aparecia sempre a figura do homem alto, magro de cachimbo na boca, o Sr. Hulot, que encarnava o desconcerto, o humor, o desajuste. Um humor poético e cirúrgico, que só Tati sabia pensar e executar (que herdou dos mestres do burlesco mudo).
Depois do desastre financeiro (mas não artístico) que foi "Playtime", Tati ficou vários anos sem filmar. Até que em 1971 realizou "Traffic", talvez um Tati menor, mas ainda assim um Tati imprescindível (é a velha máxima: um Tati menor é sempre melhor filme do que muitos filmes grandes de outros realizadores).
Em 1974, Jacques Tati é convidado pela televisão sueca para fazer um filme que se passa integralmente no circo - um espaço que o cineasta francês conhecia bem. O resultado foi o filme "Parade", uma obra menos conhecida do mestre francês da comédia.
Um filme no qual o riso volta ao estado puro da arte de Tati, numa metamorfose sensível da realidade, na qual o cineasta prescinde do Sr. Hulot: de volta ao circo e à genuína pantomima (quase sem palavras), acompanhado por palhaços, mágicos, músicos, engolidores de espadas, equilibristas e malabaristas, Tati, pela primeira vez, inclui os espectadores na diegese do filme. O tema de "Parade" é o público, a capacidade que este tem de, por intermédio da arte, tornar-se igualmente artista.
Tanto quanto sei, "Parade" era o único filme de Tati que não tinha ainda uma edição em DVD digna (eu apenas tenho uma velha cassete em formato VHS). Até há algum tempo atrás. O British Film Institute editou uma soberba edição em DVD (imagem restaurada) do último filme de Tati. Como extra, o DVD inclui uma rara entrevista de 20 minutos a Tati (que não gostava de entrevistas). Júbilo para os fãs do génio que fez "Mon Oncle".

Regressar a Tarr em 90 segundos

No meio de tão mau cinema que se vê nas salas e nas televisões, é sempre refrescante regressar a Béla Tarr, o realizador húngaro dono de uma linguagem estética única. O seu filme "Satantango" (1994) é um épico de 7 horas de duração. Mas basta ver um minuto e meio desse épico para se perceber quão original é a forma de filmar (e de sentir, diria) de Béla Tarr.
Como alguém já disse, isto não é apenas cinema: é poesia visual em estado de graça, expressão maior de uma arte restrita a eleitos criadores.
Tarr mostra a sua mestria na composição plástica das imagens, na fotografia a preto e branco, no suave movimento de câmara, na rigorosa mise-en-scène, no trabalho de sonoplastia.
O vento, as folhas a esvoaçar, os passos firmes dos homens, a desolação, a incerteza do caminho futuro...

segunda-feira, 13 de setembro de 2010

"Auschwitz"

Uwe Boll é um realizador alemão especialista em adaptar (mal) ao grande ecrã alguns videojogos de teor violento - "Alone in The Dark", "Postal", "Bloodrayne".
Um realizador sofrível e quase ignorado, portanto. No entanto, está a dar (ou vai dar) muito que falar com os seu próximo projecto: "Auschwitz". Isso mesmo: um filme sobre o campo de extermínio mais mortífero da Segunda Guerra Mundial. Mais especificamente, um filme sobre um soldado nazi (interpretado pelo próprio realizador) que guarda a porta de uma câmara de gás. Uwe Boll promete um filme seco e duro, não se fazendo rogado em mostrar toda a violência e atrocidades cometidas no infame campo do horror.
Há dias foi lançado o "teaser trailer" de "Auschwitz" e, pela amostra escassa, até que provoca calafrios e sensações fortes. Agora resta esperar pelo filme para comprovar se Uwe Boll conseguirá superar as suas fraquezas e surpreender pela positiva.

domingo, 12 de setembro de 2010

Bugs Bunny ultra-violento


Já tinha abordado neste post a intervenção de guerrilha urbana do Decapitador, um artista londrino anónimo que se tem dedicado a degolar (com a ajuda preciosa do Photoshop) imagens da publicidade, moda e cinema.
Na senda do Decapitador, eis que surge o artista James Cauty que propõe uma intervenção estética similar, mas adaptada unicamente aos personagens de banda desenhada da Warner Bros (Looney Tunes).
James Cauty, (na imagem à esquerda com o filho numa exposição) foi outrora músico de dois importantes projectos musicais de pop electrónica – The KLF e The Orb, dedicando-se actualmente em exclusivo às artes plásticas.
Ora, o que James Cauty fez com os célebres personagens da Looney Tunes - Tom & Jerry, Bugs Bunny e Gato Silvestre, segue na esteira do trabalho subversivo do Decapitador. Isto é, intensifica, desproporcionalmente, a violência gráfica das imagens com degolações, sangue a jorros e desmembramentos. Manipula e altera digitalmente a realidade - como se pode ver no seu site. Há claramente a procura por um efeito de choque visual, subvertendo a lógica da natureza divertida dos “cartoons”. A exposição destes trabalhos de James Cauty esteve, há um ano, patente ao público na Aquarium Gallery em Londres (com o apropriado título “Splatter”) provocando alguma estupefacção e desconcerto.
Tom & Jerry assumem-se, nas mãos do artista, como personagens macabras e potenciadoras da violência mais "gore". É como se Peter Jackson fosse o realizador destes "cartoons" quando este fazia filmes de grande violência gráfica (mas ao mesmo tempo divertidos) como “Bad Taste” e “Braindead”. No fundo, não se trata de nenhuma intervenção artística inovadora, visto que o artista intervém directamente num objecto já pré-existente e, apropriando-se dele, modifica-o conforme o seu desejo de intencionalidade estética (Duchamp foi o primeiro a recorrer a este expediente com o famoso “ready made”).

sábado, 11 de setembro de 2010

Díptico - 83


O actor Paul Giamatti e o realizador Alex de La Iglesia, no Festival de Cinema de Veneza.

11 de Setembro: "O Homem em Queda"


Passam 9 anos depois dos ataques do 11 de Setembro em Nova Iorque.
Das milhares de imagens que esta tragédia revelou ao mundo, há uma que nunca esqueci e que se tornou uma espécie de símbolo desse dia - fez manchete em muitos jornais nos dias seguintes aos atentados: a fotografia, tirada pelo fotojornalista Tom Junod, de um homem em queda livre da Torre Norte do World Trade Center. Naquele fatídico dia 11/9, cerca de 200 pessoas se lançaram (ou caíram) para o mortal vazio, desesperadas perante o sufoco do fumo e do fogo.
As autoridades que prestavam auxílio (antes do desabamento das torres), disseram mais tarde que o som dos corpos a cair nos passeios era aterrador. Nada nem ninguém podia ajudar a avalanche de corpos em queda livre.
O fotógrafo captou estas imagens de um corpo que aparenta serenidade e determinação, em perfeita simetria com as linhas do edifício. Parece um corpo decidido a projectar-se para o vazio, controlando a sua trajectória no ar, quase como um falcão a atacar uma presa em terra. Mas não. O homem caía totalmente fora de controlo, desamparado, a uma velocidade estonteante. No segundo a seguir, o seu corpo rodopiou, o vento arrancou-lhe a camisa e, provavelmente, terá morrido de choque ainda antes de chegar ao solo.
Nunca se determinou, a 100%, a identidade deste homem.
Com o objectivo de identificar o homem desta fotografia icónica, para atribuir alguma heroicidade ao seu acto desesperado, para descobrir porque é que a imagem foi banida nalguns jornais e revistas de todo o mundo, o realizador Henry Singer investigou e fez um documentário intitulado "9/11 - The Falling Man" (2006).
O documentário nunca envereda por um sensacionalismo fácil, é sereno, respeituoso e objectivo na sua pesquisa. "The Falling Man" é um homem, um corpo, mas é também o símbolo de toda uma nação alvejada por uma torrente de violência que mudaria o mundo.
O documentário está disponível para visualização aqui.


Nota: "O Homem em Queda" é também o título de um livro do escritor norte-americano Don DeLillo, mas que, segundo o próprio, nada tem a ver com este homem que caiu da torre.