segunda-feira, 9 de agosto de 2010

A canção matinal de Bowie

O que têm em comum nomes da música tão diferentes como The Young Gods, David Bowie, Teresa Stratas, Dalida, Ute Lemper, The Doors, Allison Moorer, Marilyn Manson e The Wandering Bards? O ponto em comum é o facto destes grupos/músicos terem feito versões da célebre canção "Alabama Song (Whiskey Bar)" de Kurt Weill (colaborador de Bertolt Brecht em várias óperas e musicais). Neste excerto de um concerto ao vivo de David Bowie, o autor de "Low" começa por dizer que, quando estava a viver em Berlim, cantava todos os dias ao pequeno almoço esta canção. Convenhamos que se trata de uma inspirada versão do clássico de Kurt Weill.

Cubehead

"Os cérebros trabalham melhor quando estão hidratados."
É este o mote para este desconcertante spot publicitário: a cabeça como um cubo Rubik.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

15 de Agosto de 1979 - Apocalypse Now


No dia 15 de Agosto de 1979 estreava nos EUA "Apocalypse Now", a obra-prima (ou uma das obras-primas) de Francis Ford Coppola. Foi no Festival de Cinema de Cannes desse ano que Coppola proferiu, numa conferência de imprensa, uma das frases mais célebres alguma vez ditas acerca de um filme: "Este não é um filme sobre o Vietname, este filme é o próprio Vietname" (o cineasta referia-se às tremendas dificuldades de realização e de produção deste filme que lhe provocou a ruína financeira, cinco anos de desgaste infernal, tentativas de suicídio, tempestades tropicais que destruíram os cenários, doenças na equipa, ataques cardíacos de Martin Sheen e caprichos infindáveis de Marlon Brando).

Lembro-me como se fosse hoje, mas já foi há mais de 20 anos. Entrei na sala de cinema, num Cine-Teatro outrora majestoso e na altura decadente, e fiquei agarrado à cadeira logo nos primeiros 10 minutos de filme. Era um jovem saído da adolescência e não estava preparado para o impacto emocional que foi ver, em ecrã gigante e numa sala quase vazia, esse monumento chamado "Apocalypse Now".
Não vou discorrer banalidades sobre uma obra-prima já milhentas vezes comentada por críticos de cinema, historiadores e cinéfilos. Mas a história do cinema também é feita das estórias vivenciadas pelos espectadores. E ver o filme de Francis Ford Coppola foi uma dessas fortes experiências. É um filme denso e complexo sobre a guerra e suas motivações, mas é também um filme sobre a negritude da mente humano e da loucura que se apodera dela (ou não fosse o filme inspirado no livro "O Coração das Trevas" de Joseph Conrad).
A viagem do Capitão Willard (espantoso Martin Sheen) pelo coração da selva do Vietname à procura do Coronel Kurtz (espantoso Marlon Brando), é uma viagem de expiação e de sacrifício. E se me perguntarem qual a voz off mais marcante de toda a história do cinema, só poderei citar a de Martin Sheen, que nos agarra logo quando começa o filme a dizer: "Saigon... shit; I'm still only in Saigon... Every time I think I'm gonna wake up back in the jungle."

Há dezenas de cenas e sequências que poderiam ser abordadas (e não se resumem ao célebre ataque de helicópteros ao som de Wagner), mas o início do filme é especialmente prodigioso, uma conjugação perfeita entre som e imagem. Aliás, é quanto a mim, um dos mais intensos inícios de filme jamais concebidos (7 minutos): o arranque do filme sem créditos, plano fixo das selva, silêncio primeiro, ruído das pás dos helicópteros depois, fumo que surge paulatinamente, voz de Jim Morrison a cantar "This is the End" ao mesmo tempo que vemos explosões de napalm. De seguida, surge o capitão Willard (Sheen) "à espera em Saigão". O desespero patente no rosto de Willard manifesta total desorientação mental e emocional - gestos descoordenados, olhar alienado, bebida e cigarros a rodos, a música dos Doors cada vez mais intensa e poderosa, a deambulação pelo quarto...
De repente, Willard dá um murro no espelho, corta-se, contempla a sua mão ensanguentada, rebola pela cama em choro desesperado, enquanto a música atinge o clímax de intensidade. O incrível é que toda esta intensa sequência foi a última a ser filmada por Coppola (apesar de abrir o filme) e Martin Sheen encontrava-se, na realidade, alcoolizado e à beira do total esgotamento emocional. O que vemos nesta sequência não estava no guião, foi toda improvisada e factual - Sheen não estava a representar, estava realmente a viver aqueles momentos de total desnorte emocional (como que a ressacar de toda a angústia por que passara ao encarnar a personagem Willard). Os assistentes do realizador quiseram interromper as filmagens temendo pela saúde de Martin Sheen, mas Coppola não autorizou. E o resultado é deveras pungente, mais a mais, sabendo que Sheen teve um ataque cardíaco no meio das tempestuosas filmagens.
"Este filme não é sobre o inferno do Vietname, este filme é o próprio inferno do Vietname", dizia Coppola.
Ao rever o filme com a mesma ansiedade da primeira vez, percebe-se porquê. E nem é preciso visionar o filme todo, basta ver a sublime sequência de abertura de peregrinação às trevas da alma:


Posters minimalistas

E se certos filmes famosos fossem alvo de uma reciclagem sob a perspectiva da arte minimalista? Como seriam, por exemplo, os respectivos posters publicitários e de marketing? Seriam como estes exemplos apresentam (para quem conhece os filmes não é necessário "explicar" o grafismo):
"Reservoir Dogs"

"The Shining"

"The Deer Hunter"
Mais exemplos (também de séries televisivas), aqui.

quinta-feira, 5 de agosto de 2010

Discos que mudam uma vida - 114


Philip Glass - "Songs From Liquid Days" (1986)

A lição de vida de "Toy Story 3"


"Toy Story 3" confirma as altíssimas expectativas criadas. A Pixar elevou o padrão de qualidade que já tinha revelado nos dois anteriores filmes desta sublime trilogia. A nova - e derradeira - aventura de Woody, Buzz Lightyear e restante grupo de amigos, mostra porque é que a Pixar demora tantos anos a realizar um novo filme de animação. Animação que é divertimento e entretenimento (para crianças e adultos), mas também expressão inequívoca de cinema entendido como arte.
Isto porque "Toy Story 3" contém sólidos argumentos para competir com os melhores filmes de acção real da actualidade. Há mais cinema nalgumas sequências desta película de animação do que em muitos filmes de Hollywood.
É fabulosa a forma como "Toy Story 3" explora vários géneros cinematográficos: o western (com o vertiginoso início, que relembra os westerns de John Ford filmados em Monument Valley); o drama (quando os Woody e Buzz se interrogam sobre o futuro incerto); a comédia (os numerosos gags no infantário, a relação Barbie-Ken); o thriller (a luta do bem contra o mal); e a acção (a sequência da fuga do infantário e da central de processamento de lixo num ritmo imparável com muita emoção à mistura - como no momento em que os brinquedos caminham, sem salvação à vista, para o fogo da incineradora do lixo).
Apesar de não ser propriamente inovador, o argumento está bem construído. A animação é simplesmente perfeita, e o 3D, subtil mas eficaz, aumenta a qualidade visual e plástica do filme. A banda sonora, do habitual Randy Newman é magnífica, revelando um sábio e experiente equilíbrio entre o drama, a comédia e o suspense.
No meio de tanta diversão e deslumbramento visual, o filme da Pixar revela a inevitável mensagem. Esta surge no comovente e inesquecível final, à altura dos grandes finais dramáticos da história do cinema – uma genuína e verdadeira lição de vida, generosidade, amizade, união, companheirismo, honestidade e inocência. Valores que são quase tratados como mesquinhos e fúteis no cinema contemporâneo de acção real. "Toy Story" pode ser um filme sobre brinquedos, mas a metáfora sobre o mundo dos humanos é sempre presente.
A trilogia "Toy Story" é mesmo isto: três belos filmes concebidos num período de 15 anos numa maravilhosa viagem pela imaginação, aventura, divertimento, infância e o mundo adulto.
"Para o infinito e mais além!"

terça-feira, 3 de agosto de 2010

As perguntas dos filmes

Há certos filmes nos quais, em certas cenas ou mesmo em todo o filme, uma pergunta motiva toda a acção. Uma pergunta dita por algum personagem que imprime dramatismo, humor, medo, inquietação...
Exemplos: "Why So Serious?" - a pergunta que serviu de mote ao thriller de acção "The Dark Knight". "Are you Sarah Conner?" em "Terminator". Ou "What do you mean I'm funny? Funny How?" de "Goodfellas" (que eu abordei aqui).
Esta lista compila dez perguntas essenciais em outros tantos filmes. Só me parece que faltaria incluir uma pergunta determinante: aquela que Travis Bickle fez em "Taxi Driver": "Are you talkin' to me?"

Woody Allen: universo gráfico

Há uns tempos li que o realizador Woody Allen era uma das figuras artísticas contemporâneas mais representadas graficamente. Sobretudo por caricaturistas e cartoonistas.
Eis alguns exemplos:






segunda-feira, 2 de agosto de 2010

Dois livros para compreender melhor o cinema


Num mundo superpovoado de imagens, quais os critérios para avaliar as imagens verdadeiras das inúteis? Que valor e impacto tem uma imagem da televisão face a uma outra do cinema ou da internet? Que mecanismos devemos ter para compreender e interpretar as múltiplas configurações que a imagem contemporânea adquire na sociedade rápida da velocidade tecnológica e digital? Que dinâmicas visuais existem na cultura audiovisual e de que forma enriquecem ou empobrecem a nossa experiência social, comunicacional e estética?
Estas e muitas outras perguntas são respondidas neste esplêndido livro "Compreender o Cinema e as Imagens" das Edições Texto & Grafia. Um livro que reúne um conjunto vasto de ensaios e textos críticos de diversos especialistas mundiais na área do cinema e da comunicação audiovisual (com organização de René Gardies).
O livro é de grande interesse não só pela forma como analisa os aspectos essenciais relativos à linguagem do cinema (com muito exemplos de análise e de imagens), como também pela opção de integrar, no contexto da cultura audiovisual contemporânea, a imagem produzida pelos meios tecnológicos que revolucionaram a comunicação actual: vídeo, Internet, televisão, publicidade, telemóveis...).
"Estética da Montagem" pretende traçar um panorama das diferentes concepções da montagem ao longo da história do cinema, e propor uma análise desta técnica em numerosos domínios de representação. O autor ilustra a sua exposição com exemplos de montagens de filmes, especialmente de autores como Orson Welles, Alain Resnais ou Maurice Pialat, mostrando em que medida a evolução das técnicas e das práticas de montagem influencia a estética dos filmes.
Estes dois livros inserem-se na colecção "Mi-Mé-Sis", vocacionada para a divulgação das artes do espectáculo e suas distintas formas de expressão e de contaminação (a colecção integra outros títulos sobre a relação entre o cinema ou sobre o argumento no cinema). Escrito numa linguagem fluente, nada técnica ou académica, e com grande rigor formal, este dois livros são, sem dúvida, um precioso auxiliar para especialistas ou meros interessados na compreensão do fenómeno pluridimensional das imagens.
Livros à venda na Fnac.

sábado, 31 de julho de 2010

The Beatles - Uma história alternativa

Esta semana celebram-se os 50 anos dos Beatles, banda mítica e fundamental da história do pop-rock do século XX. Este livro pretende ser, não sem polémica, um contributo para uma releitura (alternativa) da história da música popular (com enfoque particular no rock) desde o início do século XX à década de 70. Os Beatles são particularmente focados nesta obra, na qual o seu autor, Elijah Wald, acusa o quarteto de Liverpool de ter construído e destruído toda uma mitologia do rock, as polémicas à volta das drogas, mulheres e outros excessos, explicando o sucesso da banda em comparação com o insucesso de outros músicos igualmente talentosos (para além de outros tópicos analisados).
O livro tem recolhido os mais rasgados elogios da imprensa internacional especializada, e até Tom Waits, tão pouco dado a comentários a discos ou a livros, disse isto a propósito de "How The Beatles Destroyed Rock'n'Roll: "I couldn't put it down. It nailed me to the wall, not bad for a grand sweeping in-depth exploration of American music with not one mention of myself. Wald's book is suave, soulful, ebullient and will blow out your speakers."
Mais informação aqui.

M.I.A. e os clones

O Ípsilon de sexta-feira passada tem na capa a controversa M.I.A., responsável por um dos mais controversos videoclips dos últimos anos (comentado neste post). A artista vai actuar ao vivo no Festival Sudoeste no próximo dia 5 de Agosto.
M.I.A. apresentou ao vivo o incendiário tema "Born Free" (que parte de um sample dos Suicide) no programa "Late Show" de David Letterman, no passado dia 13 de Julho. A forma como o fez é que foi deveras original e única: primeiro, porque um dos elementos dos Suicide, Martin Rev, (que eu já tive a oportunidade de entrevistar, ler aqui), estava ao leme dos teclados; segundo, porque em palco não havia uma M.I.A., mas sim dez! Dez clones da cantora que executavam a mesma performance, gerando uma espécie de bizarra ilusão de óptica . A páginas tantas, nem se percebe quem é a artista original e quem são os clones. Uma ideia inédita que prova a visão original de espectáculo de M.I.A.
Agora resta esperar se no Festival Sudoeste também se vai fazer rodear destas dez réplicas.

sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ouvir os filmes

E se em vez de "vermos" os filmes, "ouvíssemos" os filmes? A partir deste pressuposto, este livro "Hearing the Movies: Music and Sound in Film History", pretende esclarecer de que forma as imagens do cinema se interligam com a banda sonora, a sonoplastia e os diálogos, de forma a alcançar uma linguagem artisticamente coerente. Para tal, os autores recorrem a uma grande variedade de exemplos, ilustrações e comentários sobre a complexidade da música e do som na estética cinematográfica.


O artista e o seu contexto

Esta é uma experiência quase ready-made à Duchamp: retirar do contexto formal de uma sala de concerto um violinista famoso e consagrado e colocá-lo a tocar, anonimamente, numa estação de metro. Para quê? Para perceber que a valorização artística que qualquer pessoa faz de um determinado fenómeno ou acto depende, e muito, do contexto em que este ocorre. O vídeo em baixo descreve-se em poucas palavras: alguém entra na estação do metro de Washington, vestindo jeans, camisa e boné, encosta-se próximo à entrada, tira o violino da caixa e começa a tocar com entusiasmo para a multidão que passa por ali, na hora de ponta matinal. Como quase sempre acontece, os transeuntes ignoraram a interpretação violinística do músico durante 45 minutos de actuação
O interessante vem agora: o músico que tocava não era nenhum músico de 3ª categoria a tentar sacar umas moedas para comprar um Big Mac. Era, simplesmente, aquele que é considerado como um dos melhores violinistas mundiais: Joshua Bell, executando peças musicais consagradas, num instrumento raríssimo e valiosíssimo, um esplendoroso Stradivarius de 1713, estimado em mais de 3 milhões de dólares.
Alguns dias antes, Bell tinha tocado no Symphony Hall de Boston, onde os melhores lugares custam a bagatela de 1000 dólares. Esta iniciativa foi realizada pelo jornal The Washington Post e a intenção era a de lançar um debate sobre três tópicos intimamente ligados: valor, contexto e arte. O Washington Post concluiu que o virtuoso violinista Joshua Bell era uma obra de arte sem moldura. Um artefacto de luxo sem etiqueta de marca. Talvez. As convenções sociais ligadas à apreciação estética são orientadas para dar mais valor ao contexto do que ao conteúdo e à forma. Repare-se:

O que gostaria era de ver uma experiência ao "contrário": um músico amador e sem currículo a tocar com uma grande orquestra numa grande instituição consagrada à fruição erudita das elites bem pensantes. O contexto estava definido, a arte bem enquadrada. E o valor? Dependeria dos dois primeiros pressupostos? Pois...

Ideias novas e ideias velhas


"Não percebo porque é que as pessoas têm medo das novas ideias. Eu tenho medo é das velhas."
John Cage

quinta-feira, 29 de julho de 2010

O assassino e "Citizen Kane"

O alegado autor do triplo homicídio, Francisco Leitão, vivia numa espécie de mundo da fantasia, no qual cabiam poderes imaginários e um castelo feito à medida e imagem de... Charels Foster Kane. Segundo a edição de hoje do Correio da Manhã, o homicida inspirou-se na mansão do protagonista do filme "Citizen Kane" de Orson Welles para construir o seu castelo (na imagem).
O "Rei dos Gnomos", Francisco Leitão, terá visto o célebre filme de Welles há 5 anos e ficou impressionado com a grandiosidade da mansão e da respectiva decoração, pelo que tentou imitá-la. Até no nome: "Xanadu". Não acredito que Francisco Leitão seja um cinéfilo inveterado ao ponto de querer imitar a casa de um filme de que gostasse. Fê-lo apenas porque terá uma personalidade desequilibrada.
Agora imaginem se, em vez da mansão de Citizen Kane, o assassino se tivesse inspirado na casa de Pee Wee Herman (do filme homónimo de Tim Burton). Seria ainda mais "creepy":

quarta-feira, 28 de julho de 2010

O discurso

Charlie Chaplin ("O Grande Ditador", 1940 ) e Adolf Hitler (Nuremberga, 1934)
Discurso final de Hynkel (Chaplin):
"O caminho da vida pode ser o da liberdade e da beleza, porém, seguimos por outro caminho. A cobiça envenenou a alma dos homens, levantou no mundo as muralhas do ódio e tem-nos feito marchar a passo de ganso para a miséria e os morticínios. Criámos a época da produção veloz, mas sentimo-nos enclausurados dentro dela. A máquina, que produz em grande escala, tem provocado a escassez. Os nossos conhecimentos tornaram-nos cépticos; a nossa inteligência, empedernidos e cruéis. Pensamos em demasia e sentimos muito pouco. Mais do que máquinas, precisamos de humanidade; mais do que de inteligência, precisamos de afeição e doçura!"

Young - Jarmusch

Raramente uma guitarra soou tão bem num filme como neste "Dead Man" (1995) de Jim Jarmusch. E a guitarra é dessa grande referência chamada Neil Young. Esta colaboração Young - Jarmusch é das mais frutíferas do cinema contemporâneo.

Momentos e Imagens - 67


Woody Allen e Carla Bruni, esta terça-feira no centro de Paris, a rodar o novo filme do realizador, intitulado "Midnight in Paris".

terça-feira, 27 de julho de 2010

Béla Tarr - um realizador único


Se me perguntarem qual o melhor realizador vivo em actividade, muito provavelmente responderia: Béla Tarr. No panorama do cinema de autor contemporâneo, Béla Tarr é o realizador mais talentoso e original. Mais do que Sokurov, do que Kaurismaki, do que Nuri Ceylan, o cineasta húngaro é o esteta por excelência, o visionário que desenvolveu uma linguagem visual própria (só filma a preto e branco), que abordou a deriva existencial do homem moderno em filmes fascinantes. Os seus filmes são como poemas visuais em permanente estado de graça. Personagens cruas e paisagens desoladoras, histórias minimalistas e místicas (na senda da inevitável referência Tarkovski), fotografia absorvente e intrigante. Depuração plástica a toda a prova. Tarr é um estilista da imagem que joga com a luz e as trevas. E trabalha os movimentos de câmara com uma perícia e minúcia como mais ninguém faz hoje.
Béla Tarr filma como se não existisse câmara, como se o olhar do espectador fosse a própria câmara. A forma como compõe a extraordinária "mise-en-scène" dos seus filmes e o modo como opera os longos movimentos de câmara (tem planos-sequência de 10 minutos) são estímulos para os sentidos. Gus Van Sant é um admirador do cineasta realizou o magnífico filme "Gerry" a pensar em Béla Tarr (não só este filme, como também "Elephant"). Conheci o seu trabalho com uma edição em DVD de dois dos seus mais célebres filmes: "Damnation" (1988) e "Werckmeister Harmonies" (2000), à venda na Amazon.com.
Béla Tarr é um dos realizadores mais radicais na opção pelo recurso do plano-sequência. Impressiona pela maneira como os seus filmes progridem como se se tratasse de um transe colectivo, que contamina os actores, a encenação e, por consequência, o espectador, desde que este se deixe envolver pelas histórias que se transformam em adágios visuais a preto e branco.
A obra de Tarr mais ambiciosa, bela, negra e épica é o filme "Sátántangó" ("Satan's Tango"), com sete horas de duração. Um espantoso fresco moderno sobre a vida conturbada de uma família rural húngara. Não é um cinema fácil e de aceitação imediata, sobretudo para os espectadores habituados à linguagem "videoclip" do cinema de Hollywood (ou de grande parte do cinema de Hollywood). O cinema de Béla Tarr é um cinema de estilo e austero, de muitas subtilezas visuais, de um ritmo pausado e de grande exigência formal, que solicita do espectador uma atenção e assimilação especiais.
O seu último filme, estreado no festival de Cannes 2008, baseado num conto do escritor policial George Simenon, é o magnífico "The Man From London" (é o único filme em DVD de Tarr à venda em Portugal) sobe o qual escrevi neste post.
Béla Tarr é um assumido "outsider", não tem site oficial, recusa entrevistas de jornalistas, não faz campanhas de promoção dos seus filmes. É um genial artista solitário e misantropo, como tantas das suas personagens dos seus filmes. Dedica-se de corpo e alma à sua arte.
De seguida, uma sequência do filme "The Man From London", das poucas sequências disponíveis no YouTube deste filme. É um único plano-sequência de 2'30''. Repare-se na mestria como a câmara se move e filma os personagens. Quem mais filma desta maneira em todo o mundo? Mais: em comparação do que escrevi a propósito da música no filme "Inception", constate-se a forma como a música é empregue nesta sequência: brilhantismo e total originalidade.

segunda-feira, 26 de julho de 2010

Inception = Deception


Como começar? Talvez dizendo que, quanto a mim, o único filme verdadeiramente extraordinário de Chris Nolan é "Memento". Não achei deslumbrante "The Dark Knight", apenas um bom filme de entretenimento que contou com a memorável interpretação de Heath Ledger. "Insomnia" e "The Prestige" foram filmes que gostei, mas não foram suficientes para ver em Nolan um novo Hitchcock como alguma imprensa quer fazer querer. Nolan é um realizador talentoso, sem dúvida, sabe mexer-se entre vários géneros cinematográficos, cultiva um gosto pelos tons sombrios da mente humana (tema que me agrada), sabe imprimir ritmo à montagem, mas ainda assim não é Scorsese quem quer (muito menos Hitchcock).
"Inception" desiludiu-me. Ponto.
Tanto alarido à volta dos (alegados) revolucionários efeitos visuais e nada que tivesse espantado por aí além. O filme conta com duas ou três cenas de efeitos especiais mais impactantes - Paris a dobrar-se, as explosões no meio dos protagonistas impávidos, as sequências com gravidade zero... Parece que Nolan iria, à semelhança do primeiro "Matrix", marcar a história do cinema com inovadoras sequências de acção. Nada mais errado. E por falar em acção: a segunda parte do filme, está demasiado recheada de cenas de acção puramente banais e repletas de clichés (excessiva cedência comercial?): tiroteios, perseguição automóvel, explosões, mais tiroteios, luta corpo a corpo... Para alguns estes momentos podem funcionar como catarse, excitação, empolgamento. Para mim foram... aborrecidos e previsíveis. Nolan ainda não atingiu a perfeição de um Michael Mann no que se refere a como filmar insuperáveis cenas de acção.
Quanto ao argumento, tido por muitos como complexo (a exigir um segundo visionamento) é, quanto a mim, um debitar de lugares-comuns sobre o consciente e subconsciente da mente, filosofar sobre o real e o virtual, uma abordagem freudiana-via-Ficção-Científica sobre os enigmas eternos do desejo, da culpa, do medo, do controlo da vontade humana, da manipulação. O filme aborda esse mundo enigmático e fascinante do sonho, mas mesmo sem a sofisticação dos efeitos especiais do filme de Nolan, há mais surrealismo, fantasia, mundos paralelos, exploração do subconsciente razão vs. onírico num qualquer filme de Luis Buñuel do que neste "Inception".
Parece óbvio que o conceito "Matrix" serviu de paradigma a Nolan para o argumento do filme: a "Alegoria da Caverna" de Platão - a dicotomia realidade - mundo das sombras (ou dos sonhos) - é esmiuçada sem grandes surpresas. Veja-se até a similitude entre a forma como, em "Matrix", Morpheus explica a Neo, nas ruas da cidade, a diferença entre a realidade e o mundo alternativo e a forma como DiCaprio explica a Ellen Page quase o mesmo nas ruas de Paris. Os pressupostos são quase idênticos. O argumento tem pontas soltas, elementos sem explicação, mesmo no contexto da fantasia dos sonhos (não quero aprofundar esta matéria para não causa "spoilers"). Leonardo DiCaprio parece repetir, em piloto automático, o papel que tivera, um ano antes, em "Shutter Island" (sem a vertente paranóica do personagem do filme de Scorsese).
Ellen Page não tem maturidade e experiência para um papel tão exigente - nunca convenceu como a grande arquitecta dos sonhos. Até Mariion Cotillard parece subaproveitada num papel previsível que se adivinhava ser o cerne do problema de toda a história (engraçado o facto da música "La Vie en Rose" servir de mote para a acção, quando foi esta actriz francesa que encarnou Edith Piaf há uns anos).
Outro aspecto que me desagrada nos filmes de Cristopher Nolan e que está bem patente em "The Dark Knight" e neste "Inception": o excesso de música. Gosto muito de música para cinema e até considero que a partitura de Hans Zimmer é expressiva e com força dramática. Só que 90% (se não for mesmo 95%) da duração do filme têm música. E o excesso de música num filme como este acaba por ser contraproducente. Sobretudo na última meia hora de película, a música quase que se sobrepõe à acção e aos diálogos, sem dar descanso ao espectador, sem dar importância aos sons do meio ambiente do filme (sonoplastia), ao silêncio, tão importante quanto a banda sonora. À força de o realizador querer incutir emoção e dramatismo com a omnipresença da música, acaba, quanto a mim, a produzir um efeito contrário: indiferença, previsibilidade e cansaço. Senti-me mesmo esgotado no final do filme (e não era só porque o filme acabou às 3 da manhã), sensação idêntica à que senti no final do "The Dark Knight".
Jorge Mourinha, do Público, refere que Nolan será dos poucos cineastas a trabalhar no "mainstream" de Hollywood com marca de autor. Percebo o teor desta afirmação, mas custa-me a acreditar nela. Nolan é um realizador competente, um artífice com créditos firmados, tem ideias interessantes para os seus filmes, mas "Inception" não me arrebatou nem me fez convencer que estamos na presença de um "novo" Hitchcock (pelos motivos apontados). A grandiosidade operática em jeito de thriller revelou-se, afinal, uma opereta superficial-arty sem resultados artísticos irrefutáveis. "Inception" valoriza o lado frio, matemático e cerebral da narrativa, em detrimento da emoção, da fruição, do prazer estético.
E mais surpreendente, para mim, é constatar que "Inception" esteja já no terceiro lugar da lista dos 250 melhores filmes de sempre do Imdb.com. Um exagero apenas com justificação no reino dos sonhos mais profundos...